Duas asas

“A Fé e a Razão são como as duas asas que nos levam a contemplar a verdade” (João Paulo II)

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Posted by Daniel on julho 14, 2009

Vimos na vida de Kierkegaard o quanto a religião o influenciou durante toda a sua vida. Kierkegaard chegou a ser pastor Luterano e alguns dos seus pensamentos são cobertos de personagens bíblicos como Abraão e Isaac.

Ao aprofundar sua reflexão sobre o homem e sua existência, Kierkegaard se depara com a finitude do homem, com o vazio que o habita e que este só pode dar sentido a sua existência em Cristo, pois Cristo com sua encarnação e paixão é o fato primordial para a compreensão que o homem tem de si mesmo.

O cristão é aquele que se sente continuamente em presença de Deus pela mediação do Cristo. Por isso a religião só tem sentido se for vivida como comunhão com o sofrimento da cruz. Por isso é que Kierkegaard critica o cristianismo de sua época, principalmente o protestantismo dinamarquês, penetrado, segundo ele, de conceituação filosófica que esconde a brutalidade do fato religioso, minimiza a distância entre Deus e o homem e sufoca o sentimento de angústia que acompanha a fé.

Essa angústia, no entender de Kierkegaard, estaria ilustrada no episódio do sacrifício de Abraão. Esse relato bíblico indica a solidão e o abandono do indivíduo voltado unicamente para a vivência da fé. O que Deus pede a Abraão – que ele sacrifique o único filho para demonstrar sua fé – é absurdo e desumano segundo a ética dos homens.

Não se trata, nesse caso, de optar entre dois códigos de ética, ou entre dois sistemas de valores. Abraão é colocado diante do incompreensível e diante do infinito. Ele não possui razões para medir ou avaliar qual deve ser sua conduta. Tudo está suspenso, exceto a relação com Deus.

Abraão não está na situação do herói trágico que deve escolher entre valores subjetivos (individuais e familiares) e valores objetivos (a cidade, a comunidade), como no caso da tragédia grega. Nada está em jogo, a não ser ele mesmo e a sua fé. Deus não está testando a sabedoria de Abraão, da mesma forma como os deuses testavam a sabedoria de Édipo ou de Agamenon. A força de sua fé fez com que Abraão optasse pelo infinito.

Mas, caso o sacrifício se tivesse consumado, Abraão ainda assim não teria como justificá-lo à luz de uma ética humana. Continuaria sendo o assassino de seu filho. Poderia permanecer durante toda a vida indagando acerca das razões do sacrifício e não obteria resposta. Do ponto de vista humano, a dúvida permaneceria para sempre. No entanto Abraão não hesitou: a fé fez com que ele saltasse imediatamente da razão e da ética para o plano do absoluto, âmbito em que o entendimento é cego. Abraão ilustra na sua radicalidade a situação de homem religioso. A fé representa um salto, a ausência de mediação humana, precisamente porque não pode haver transição racional entre o finito e o infinito. A crença é inseparável da angústia, o temor de Deus é inseparável do tremor.

Por tudo o que a existência envolve de afirmação de fé, ela não pode ser elucidada pelo conceito. Este jamais daria conta das tensões e contradições que marcam a vida individual. Existir é existir diante de Deus, e a incompreensibilidade da infinitude divina faz com que a consciência vacile como diante de um abismo. Não se pode apreender racionalmente a contemporaneidade do Cristo, que faz com que a existência cristã se consuma num instante e ao mesmo tempo se estenda pela eternidade. A fé reúne a reflexão e o êxtase, a procura infindável e a visão instantânea da Verdade; o paradoxo de ser o pecado ao mesmo tempo a condição de salvação, já que foi por causa do pecado original que Cristo veio ao mundo. Qualquer filosofia que não leve em conta essas tensões, que afinal são derivadas de estar o finito e o infinito em presença um do outro, não constituirá fundamento adequado da vida e da ação. A filosofia deve ser imanente à vida. A especulação desgarrada da realidade concreta não orientará a ação, muito simplesmente porque as decisões humanas não se ordenam por conceitos, mas por alternativas e saltos.

Fontes de pesquisa: coleção os pensadores; www.mundodosfilosofos.com.br

Posted by Daniel on julho 14, 2009

A vida de Kierkegaard

Soren Aabye Kierkegaard, considerado por muitos como o pai do existencialismo nasceu na capital dinamarquesa, Copenhague, a 5 de maio de 1813. Filho de Michael Pedersen Kierkegaard, então com 56 anos de idade, e de Anne Srensdatter, de 44 anos. Seu pai era agricultor da Jutlâdia ocidental, e se mudou para Copenhague, onde enriqueceu como comerciante de lã, apesar da forte crise que atacava a Dinamarca nesta época.

A primeira infância, Kierkegaard passou na companhia do pai que fazia questão do ensino rigoroso para o filho, fazendo com que estudasse do latim ao grego e despertando uma devoção pietista mas também atormentada pela ansiedade e angustia. Foi desperto desde muito cedo para um tipo de vida imaginativa, pois seu pai exigia que representasse estórias e cenas teatrais. Ainda cedo dois fatores marcaram profundamente a vida do filósofo: a morte de seus irmãos Mikael em 1819, e de sua irmã Maren Cristine em 1822. A fatalidade aumentou a angustia de seu pai que já era um homem marcado por um grande sentimento de culpa e deixou profundas cicatrizes em Kierkegaard.

Um profundo sentimento religioso vai acompanhar Kierkegaard durante toda a sua vida, sentimento este que recebera de seu pai – ainda que de forma angustiante e de certa forma depressiva – que o levou a ingressar no curso de teologia da faculdade de Copenhague. Nesta escola vai ter os primeiros contatos com a filosofia hegeliana na qual de inicio vai se apaixonar mas que ao longo da construção de seu pensamento vai rejeitar e até combater por entender que o sistema de Hegel não levava em conta a existência completa do indivíduo, daí a aceitação de que Kierkegaard é o verdadeiro “pai” do existencialismo.

Kierkegaard é conhecido por ser o “filósofo da angustia” ou o “solitário” não só pelas suas indagações sobre a angustia, o temor e a “escuridão” da existência, mas sobretudo porque viveu isso em sua vida. Em 1838 vive a triste perda de seu pai ao qual era muito apegado, e, atormentado pela angustia da sensualidade que o invadia e o sentimento de culpa diante do pecado, Kierkegaard se entrega a uma vida desregrada de prazeres, gastando altas somas em roupas, comidas e bebidas. Chamamos esta fase de “a crise” de Kierkegaard.

Logo depois desta crise Kierkegaard resolve retomar os estudos universitários e torna-se pastor. Em 1841, terminou a tese Sobre o conceito de Ironia e pregou o primeiro sermão.

Um outro fator que marca a vida do filósofo é que em 1840 torna-se noivo de Regine Olsen, uma jovem de 17 anos, contudo, a medida em que desenvolve a singularidade de sua vocação, Kierkegaard começou a perceber que não seria capaz de partilhar sua vida com outra pessoa; e ao mesmo tempo achava também que não lhe cabia o papel de pastor protestante. Rompeu o noivado como decisão de seguir sua vocação filosófica e religiosa.

A jovem Regine

A jovem Regine

O rompimento do noivado de kierkegaard com Regina vai ser mais uma etapa de sua vida, no entanto uma etapa que o leva ao seu verdadeiro objetivo. Kierkegaard passou a viver solitariamente declarando que sua vida deveria ser “reflexão do princípio ao fim”. Sentia o afastamento de seus amigos mas olhava isto com uma certa vantagem, dizia que “o silêncio deles – os amigos – é nitidamente proveito para mim, porque me obriga a fixar a minha vista no meu eu; porque me estimula a aprender este eu que é meu”

Após esta experiência traumática do noivado rompido, vem um grande período de profundidade literária. Não se pode deixar de mencionar que Kierkegaard escreve a partir de sua experiência pessoal. No transcurso de sua filosofia vão se agregando aspectos de sua existência. O filósofo vive momentos de profunda depressão, uma amargura sem limites. Porém, esta energia negativa, se transforma em inspiração para a produção literária que aborda tema diverso da existência humana.

A princípio, Kierkegaard vai se apresentar como um filósofo angustiante e depressivo, mas seria um tanto equivocado se o definíssemos apenas sob as esferas destes sentimentos. Somente quando mergulhamos na profundidade de suas obras vamos entender o profundo em que Kierkegaard entende o ser humano e a sua existência.

Kierkegaard nunca deixou de se interrogar e de se analisar a si próprio. Para ele, a filosofia resumia-se em tomar consciência das exigências absolutas feitas a qualquer pessoa que queira viver uma experiência verdadeiramente autêntica.