Duas asas

“A Fé e a Razão são como as duas asas que nos levam a contemplar a verdade” (João Paulo II)

Posted by Daniel on julho 14, 2009

A vida de Kierkegaard

Soren Aabye Kierkegaard, considerado por muitos como o pai do existencialismo nasceu na capital dinamarquesa, Copenhague, a 5 de maio de 1813. Filho de Michael Pedersen Kierkegaard, então com 56 anos de idade, e de Anne Srensdatter, de 44 anos. Seu pai era agricultor da Jutlâdia ocidental, e se mudou para Copenhague, onde enriqueceu como comerciante de lã, apesar da forte crise que atacava a Dinamarca nesta época.

A primeira infância, Kierkegaard passou na companhia do pai que fazia questão do ensino rigoroso para o filho, fazendo com que estudasse do latim ao grego e despertando uma devoção pietista mas também atormentada pela ansiedade e angustia. Foi desperto desde muito cedo para um tipo de vida imaginativa, pois seu pai exigia que representasse estórias e cenas teatrais. Ainda cedo dois fatores marcaram profundamente a vida do filósofo: a morte de seus irmãos Mikael em 1819, e de sua irmã Maren Cristine em 1822. A fatalidade aumentou a angustia de seu pai que já era um homem marcado por um grande sentimento de culpa e deixou profundas cicatrizes em Kierkegaard.

Um profundo sentimento religioso vai acompanhar Kierkegaard durante toda a sua vida, sentimento este que recebera de seu pai – ainda que de forma angustiante e de certa forma depressiva – que o levou a ingressar no curso de teologia da faculdade de Copenhague. Nesta escola vai ter os primeiros contatos com a filosofia hegeliana na qual de inicio vai se apaixonar mas que ao longo da construção de seu pensamento vai rejeitar e até combater por entender que o sistema de Hegel não levava em conta a existência completa do indivíduo, daí a aceitação de que Kierkegaard é o verdadeiro “pai” do existencialismo.

Kierkegaard é conhecido por ser o “filósofo da angustia” ou o “solitário” não só pelas suas indagações sobre a angustia, o temor e a “escuridão” da existência, mas sobretudo porque viveu isso em sua vida. Em 1838 vive a triste perda de seu pai ao qual era muito apegado, e, atormentado pela angustia da sensualidade que o invadia e o sentimento de culpa diante do pecado, Kierkegaard se entrega a uma vida desregrada de prazeres, gastando altas somas em roupas, comidas e bebidas. Chamamos esta fase de “a crise” de Kierkegaard.

Logo depois desta crise Kierkegaard resolve retomar os estudos universitários e torna-se pastor. Em 1841, terminou a tese Sobre o conceito de Ironia e pregou o primeiro sermão.

Um outro fator que marca a vida do filósofo é que em 1840 torna-se noivo de Regine Olsen, uma jovem de 17 anos, contudo, a medida em que desenvolve a singularidade de sua vocação, Kierkegaard começou a perceber que não seria capaz de partilhar sua vida com outra pessoa; e ao mesmo tempo achava também que não lhe cabia o papel de pastor protestante. Rompeu o noivado como decisão de seguir sua vocação filosófica e religiosa.

A jovem Regine

A jovem Regine

O rompimento do noivado de kierkegaard com Regina vai ser mais uma etapa de sua vida, no entanto uma etapa que o leva ao seu verdadeiro objetivo. Kierkegaard passou a viver solitariamente declarando que sua vida deveria ser “reflexão do princípio ao fim”. Sentia o afastamento de seus amigos mas olhava isto com uma certa vantagem, dizia que “o silêncio deles – os amigos – é nitidamente proveito para mim, porque me obriga a fixar a minha vista no meu eu; porque me estimula a aprender este eu que é meu”

Após esta experiência traumática do noivado rompido, vem um grande período de profundidade literária. Não se pode deixar de mencionar que Kierkegaard escreve a partir de sua experiência pessoal. No transcurso de sua filosofia vão se agregando aspectos de sua existência. O filósofo vive momentos de profunda depressão, uma amargura sem limites. Porém, esta energia negativa, se transforma em inspiração para a produção literária que aborda tema diverso da existência humana.

A princípio, Kierkegaard vai se apresentar como um filósofo angustiante e depressivo, mas seria um tanto equivocado se o definíssemos apenas sob as esferas destes sentimentos. Somente quando mergulhamos na profundidade de suas obras vamos entender o profundo em que Kierkegaard entende o ser humano e a sua existência.

Kierkegaard nunca deixou de se interrogar e de se analisar a si próprio. Para ele, a filosofia resumia-se em tomar consciência das exigências absolutas feitas a qualquer pessoa que queira viver uma experiência verdadeiramente autêntica.