“Desejo comunicar uma pequena experiência que fiz, experiência pessoal mas que marcou a minha alma e que espero possa ser útil também a outras pessoas. Nesses dias peguei um livro que recebi de presente. O título é: O segredo de Madre Teresa, de Calcutá, naturalmente. Eu o abri no meio, na parte em que fala da “mística da caridade”. Li esse capítulo e outros. Mergulhei com muito interesse naquelas páginas. Tudo o que se refere a essa futura santa me diz respeito pessoalmente, pois, durante anos, ela foi uma preciosíssima amiga minha.
Emerge, de modo muito claro, o radicalismo extremo da sua vida, da sua vocação sem meias medidas, que impressiona e quase assusta. Mas, sobretudo, que me impulsiona a imitá-la naquele típico empenho, radical e sem meias medidas, que Deus exige de mim. De fato, cada carisma é uma maravilhosa flor, singular, irrepetível, diferente das demais, tal como pensava também Madre Teresa. Quando nós nos encontrávamos, ela me repetia: “O que eu faço, você não pode fazer. O que você faz, eu não posso fazer”.
Animada por essa convicção, retomei o nosso Estatuto, convencida de que encontraria nele a medida e o modelo do radicalismo de vida que Deus pede a mim. Eu o abri e, logo na primeira página, levei um pequeno choque espiritual, como se tivesse feito uma descoberta naquele momento. E faz quase 60 anos que eu a conheço! Trata-se da “norma das normas, da “premissa de qualquer outra regra” da minha e da nossa vida: gerar - como se exprimia o Papa Paulo VI - e manter antes e acima de tudo, inclusive nas grandes ações, nos compromissos extraordinários, nos sucessos pelo Reino, Jesus entre nós por meio do amor recíproco.
Porque - compreendi logo - é esta a minha e a nossa função mais importante, especialmente hoje: ser, na Igreja, uma pequena Maria, “uma sua presença na Terra e como que uma sua continuação” individualmente e com toda a Obra; ser outra Maria, que oferece Jesus ao mundo.
Mas, é preciso aquele amor refinado que não mede, que sabe espiritualmente fazer-se nada diante do próximo. Na nossa vida, nem sempre tudo é perfeito: alguma palavra a mais, minha ou das outras, algum silêncio prolongado demais; um julgamento apressado, algum pequeno apego, um sofrimento mal suportado. Tudo isso, certamente incomoda Jesus entre nós, quando não impede a Sua presença.
Compreendo que devo ser a primeira a dar espaço a Ele, aplainando tudo, preenchendo tudo, dando sabor a tudo com a máxima caridade, suportando tudo - nas outras e em mim. Suportando: uma palavra que geralmente não usamos, mas que é muito aconselhada por são Paulo. Suportar não é certamente um ato de caridade qualquer, é uma caridade especial: a quintessência da caridade.
Eu começo. E a experiência até que não vai mal. Pelo contrário, progride! Sinto o dever de fazer primeiro toda a minha parte; e surte efeito. Além do mais, preenche o meu coração de felicidade, talvez porque, assim, Ele volta a tornar-se presente e permanece entre nós.
E a minha alegria chega ao ápice quando me vêm à mente as palavras de Jesus: “Misericórdia eu quero e não sacrifício” (Mt 9,13). Misericórdia! Eis a caridade refinada que nos é pedida e que vale mais do que o sacrifício, porque o melhor sacrifício é este amor, que sabe inclusive suportar, que sabe, quando necessário, perdoar e esquecer.
Para sermos “pequenas Maria”, para garantir a presença de Jesus no mundo, é preciso viver a “premissa de qualquer outra regra”, naquela mútua e contínua caridade que floresce em misericórdia. Este é o radicalismo, esta é a “medida sem meias medidas” que se exige à nossa vida”.
De Chiara Lubic