O mistério de adoração da cruz!
“O que é o Cristianismo senão a imitação de Jesus Cristo? Tanto assim que Paulo resumirá todos os deveres cristãos no de imitar o Nosso Senhor. Jesus é modelo perfeito; até mesmo por confissão daqueles que não crêem na sua divindade, Jesus é o protótipo mais acabado de virtude que jamais apareceu na terra. Praticou as virtudes em grau heróico, e com as disposições interiores mais perfeitas: religião para com Deus, amor do próximo, aniquilamento a respeito de si mesmo, horror do pecado e do que a ele pode conduzir. E contudo é modelo imitável e universal, cheio de encanto, cujos exemplos são cheios de eficácia.
É modelo que todos podem imitar, pois se dignou desposar nossas misérias e fraquezas, passar até pela tentação, ser-nos semelhante em tudo, exceto no pecado. Durante trinta anos, viveu a vida mais oculta, mais obscura, mais comum, obedecendo a Maria e a José, trabalhando como um aprendiz e operário; e por tem senão deveres obscuros que desempenhar, e se hão-de de santificar no meio das ocupações mais comuns.
Mas teve também a sua vida pública: praticou o apostolado, formando os seus apóstolos, e entre o povo, evangelizando as multidões. Então sofreu cansaço e fome; gozou da amizade de alguns e houve de suportar a ingratidão dos outros; teve os seus triunfos e os seus reveses; numa palavra, passou pelas vicissitudes de todo o homem que tem relações com amigos e com o público. A sua Paixão deu-nos o exemplo da paciência mais heróica no meio das torturas físicas e morais, que tolerou não somente sem queixar, mas pedindo até por seus verdugos. E não se diga que, sendo Deus, sofreu menos.
Era homem também: dotado de finíssima sensibilidade, sentiu mais vivamente que nós poderíamos sentir a ingratidão dos homens, o desamparo de seus amigos, a traição de Judas, experimentou tais sentimentos de tédio, de tristeza, de pavor que não pode deixar de orar para que o cálice de amargura se afastasse dele, se era possível; e na Cruz soltou este grito lancinante, que bem mostra a profundeza das suas agonias: “Deus, meu Deus porque me abandonaste?” Foi, pois, um modelo universal. O mistério da Crucifixão mereceu-nos a graça de crucificar a carne e as suas concupiscências; o mistério da morte mereceu-nos o morrer ao pecado e as suas causas”. (Fonte - compêndio de Ascética e Mística)