Contemplar o rosto de Cristo na Palavra

Filed under: Lectio Divina, Espiritualidade — Vera Lúcia at 3:31 pm on Monday, August 18, 2008

 

 

“A contemplação do rosto de Cristo não pode inspirar-se senão àquilo que se diz d’Ele na Sagrada Escritura, que está, do princípio ao fim, permeada pelo seu mistério; este aparece obscuramente esboçado no Antigo Testamento e revelado plenamente no Novo, de tal maneira que S. Jerônimo afirma sem hesitar: « A ignorância das Escrituras é ignorância do próprio Cristo ».Permanecendo ancorados na Sagrada Escritura, abrimo-nos à ação do Espírito (cf. Jo 15,26), que está na origem dos seus livros, e simultaneamente ao testemunho dos Apóstolos (cf. Jo 15,27), que fizeram a experiência viva de Cristo, o Verbo da vida: viram-No com os seus olhos, escutaram-No com os seus ouvidos, tocaram-No com as suas mãos (cf. 1 Jo 1,1). Por seu intermédio, chega-nos uma visão de fé, sustentada por um testemunho histórico concreto: um testemunho verdadeiro que os Evangelhos, apesar da sua redação complexa e finalidade primariamente catequética, nos oferecem de forma plenamente atendível.9

De fato, os Evangelhos não pretendem ser uma biografia completa de Jesus, neles aparece com fundamento histórico seguro, o rosto do Nazareno, visto que foi preocupação dos Evangelistas delineá-lo, recolhendo testemunhos fidedignos (cf. Lc 1,3) e trabalhando sobre documentos sujeitos a cuidadoso discernimento eclesial. Foi com base nestes testemunhos da primeira hora que eles, sob a acção iluminadora do Espírito Santo, souberam do fato — humanamente desconcertante — de Jesus ter nascido virginalmente de Maria, esposa de José. Daqueles que O tinham conhecido durante os trinta anos aproximadamente que vivera em Nazaré (cf. Lc 3,23), recolheram os dados sobre a sua vida de « filho do carpinteiro » (Mt 13,55) e d’Ele mesmo « carpinteiro », com o quadro da sua parentela bem especificado (cf. Mc 6,3). E registraram a sua grande religiosidade que O levava a ir em peregrinação anual, juntamente com os seus, ao templo de Jerusalém (cf. Lc 2,41) e sobretudo fazia d’Ele um freqüentador habitual da sinagoga da sua cidade (cf. Lc 4,16).

As notícias tornam-se mais abundantes, embora não cheguem a ser um relato orgânico e detalhado, no período do ministério público, a começar do momento em que o jovem Galileu Se fez batizar por João Baptista no Jordão; animado pelo testemunho do Alto e com a consciência de ser o « Filho predileto » (Lc 3,22), dá início à sua pregação anunciando a chegada do Reino de Deus, ilustrando as suas exigências e a sua força através de palavras e sinais de graça e misericórdia. Os Evangelhos apresentam - no-lo caminhando por cidades e aldeias, acompanhado por doze Apóstolos que Ele escolhera (cf. Mc 3,13-19), por um grupo de mulheres que O servem com os seus bens (cf. Lc 8,2-3), por multidões que O procuram e seguem por doentes que esperam no seu poder de cura, por interlocutores que ouvem, com variado proveito, as suas palavras.

A narração dos Evangelhos concorda também no fato de mostrar a tensão que foi crescendo entre Jesus e os grupos dominantes da sociedade religiosa de então até à crise final, que teve o seu epílogo dramático no Gólgota. É a hora das trevas, à qual se segue uma aurora nova, radiante e definitiva. De fato, os relatos evangélicos terminam mostrando o Nazareno vitorioso sobre a morte: assinalam o seu túmulo vazio e acompanham-No no ciclo das aparições, durante as quais os discípulos, primeiro perplexos e atônitos e depois cheios de inefável alegria, O experimentam vivo e glorioso, tendo recebido d’Ele o dom do Espírito (cf. Jo 20,22) e o mandato de anunciar o Evangelho a « todas as nações » (Mt 28,19)” (João Paulo II Novo Milênio Ineunte).

Em oração com Monsenhor Jonas

Filed under: Espiritualidade — Vera Lúcia at 7:28 pm on Monday, August 11, 2008

“Senhor coloca-me sob a luz  da tua verdade. Que eu possa perceber os verdadeiros motivos das minhas ações. Que eu possa arrepender-me quando os desmascarares diante de mim e me mostrares que minhas decisões e ações não nasceram de ti, não nasceram de tua vontade, mas dos meus caprichos, não nasceram de motivos puros, mas de interesses escusos: egoístas, gananciosos, orgulhosos…” (Monsenhor Jonas Abib).

Paulo de Tarso - o homem do Espírito!

Filed under: Espiritualidade — Vera Lúcia at 2:56 pm on Tuesday, July 15, 2008

“Ainda no ano passado, no dia 28 de junho de 2007, o Papa Bento XVI convocou um ano jubilar dedicado ao Apóstolo Paulo. O início foi no dia 28 de junho/2008 e se encerrará no dia 28 de junho de 2009. O Santo Padre o convocou porque é neste tempo que celebramos os 2.000 anos do nascimento do grande apóstolo.

Todos nós sabemos o quanto Saulo de Tarso – em coerência com sua fé na doutrina de Moisés e com sua formação na escola do grande mestre Gamaliel – perseguia tenazmente os cristãos. Mas Jesus o esperava no caminho de Damasco, porque queria fazer do perseguidor o Apóstolo das Nações.

Jesus, que apareceu para ele no caminho, poderia fazer tudo que tencionava. Mas não. Ele lhe dá uma ordem para que entre em Damasco, porque é lá que lhe deve ser dito o que deve fazer. Ao mesmo tempo, Cristo aparece a Ananias, um homem simples daquela cidade, cristão recentemente convertido, e o envia com ordens precisas para que vá a casa onde está Saulo, porque “este homem” – disse-lhe Jesus – “vai ser para mim um instrumento escolhido que levará o meu nome diante das nações, dos reis e dos filhos de Israel”. E acrescenta: “Eu lhe mostrarei tudo o que terá de padecer pelo meu nome”.

Ananias obedece. Vai até Saulo, impõe-lhe as mãos e este é curado da cegueira e fica cheio do Espírito Santo. Só depois disso é que ele [Saulo] é batizado, e no impulso e no poder do Espírito, que o possui, começa imediatamente a proclamar nas sinagogas que Jesus é o Filho de Deus. O que o antigo perseguidor recebe do Senhor, através da imposição das mãos e da oração de Ananias, é o que ele vai fazer agora em favor de todos aqueles a quem o Senhor o enviar.

A partir de Antioquia, para onde ele é convocado a ir por Barnabé, Paulo vai ser o grande apóstolo da efusão do Espírito e do uso dos carismas. Ele impõe as mãos sobre os pagãos e eles ficam cheios do Espírito Santo, convertem-se, são batizados e começam uma vida nova em Cristo.

Paulo se deixa usar pelos carismas do Espírito e, então, prodígios, sinais, curas, milagres se realizam diante dos novos convertidos. O apóstolo lhes demonstra que essa graça é também para eles. Assim, ele os exorta a impor as mãos e a pedir que muitos outros recebam o batismo no Espírito. Ele os impulsiona a se deixarem usar pelos carismas do Espírito Santo e igualmente maravilhas acontecem por meio deles.

Foi em Antioquia que o próprio Espírito Santo separa Paulo e Barnabé e os envia em missão. Foram três grandes viagens apostólicas que aconteceram e assim as principais cidades do mundo então conhecido são atingidas por essa explosão do poder do Espírito. Sempre guiado pelo Espírito, Paulo vai chegar a Roma, onde, apesar de estar em prisão domiciliar, exerce corajosamente um amplo trabalho missionário. É aí que no ano 67 ele culmina com o martírio a sua maravilhosa missão. Paulo foi realmente o Apóstolo das Nações.

Muitas celebrações acontecerão neste ano jubilar, especialmente o Sínodo, que vai ser realizado em Roma no mês de outubro, com o tema que é tão importante para nós: “A Palavra de Deus na vida e na Missão da Igreja”. Nossa família Canção Nova quer participar o máximo possível desses lindos acontecimentos. A melhor maneira, porém, de viver este ano dedicado a São Paulo será realizar com ardor o que ele viveu e realizou: sermos apóstolos da efusão do Espírito e do uso dos carismas, levando esta graça ao maior número de pessoas. O Senhor nos confia esta missão.
Cremos que este é o meio maravilhoso que o Senhor dá à sua Igreja, nos tempos de hoje, para levar Jesus Cristo e a sua salvação ao nosso mundo paganizado.A nossa família quer dar à Igreja a sua parte de contribuição para que isso aconteça.Juntos somos mais. Conto com você nessa urgente tarefa”.

Seu irmão,

Monsenhor Jonas Abib

Fome de amor!!

Filed under: Espiritualidade — Vera Lúcia at 3:46 pm on Friday, June 27, 2008

“Hoje em dia, a doença mais terrível do Ocidente não é a tuberculose nem a lepra, é a sensação de ser indesejado, de não ser amado, se ser abandonado. Tratamos as doenças do corpo por meio da medicina; mas o único remédio para a solidão, para a confusão e para o desespero é o amor. São muitas as pessoas que morrem neste mundo por falta de um pedaço de pão, mas são muitas mais as que morrem por falta de um pouco de amor. A pobreza no Ocidente é outra espécie de pobreza; não se trata apenas de uma pobreza de solidão, é também uma pobreza de espiritualidade. Há uma fome que é fome de amor, como também há uma fome de Deus”.

(Dos escritos de Madre Teresa de Calcutá)

Humildade - guarda da castidade

Filed under: Espiritualidade — Vera Lúcia at 4:24 pm on Monday, June 9, 2008

 

“Esta virtude produz três disposições que nos põem ao abrigo de muitos perigos: a desconfiança de nós mesmos e a confiança em Deus; a fuga das ocasiões perigosas, a sinceridade na confissão. 

Muitas almas caem, efetivamente, na impureza por orgulho e presunção. “Deus não pode sofrer a soberba numa alma, humilha-a até o extremo”, Quem está, pelo contrário, persuadido de que não é capaz de ser casto por si mesmo, repete a Deus esta humilde oração de São Filipe Néri: “Meu Deus, desconfiai de Filipe; aliás ele vos atraiçoaria”. 

Esta desconfiança de nós mesmos deve ser universal. Às almas mais santas o demônio suspira mais ardentemente por fazê-las cair a elas  do que almas vulgares, e arma-lhes laços mais pérfidos. É observação de são Jerônimo, que dali conclui que ninguém se deve dar por seguro pelos longos anos passados na castidade, pela santidade ou sabedoria. Esta vigilância, contudo, deve ser acompanhada de absoluta confiança
em Deus. Porque Deus não permitirá que sejamos tentados acima das nossas forças, nem nos pede o impossível: umas vezes nos dá imediatamente a graça de resistir às tentações, outras a de orar, para obter graça mais eficaz. Quanto mais uma pessoa é humilde de coração e submissa a Deus, mais possui sabedoria e paz. 

A humildade leva-nos a evitar o desejo de agradar. Este desejo vem juntamente da vaidade e da necessidade de afeição, manifesta-se pelo culto exagerado da própria pessoa, pelo apuro minucioso no trajar, hábito de elogiar as pessoas pelas qualidades externas. A humildade dá-nos, enfim, a clareza de consciência tão necessária para evitar os laços do inimigo. “Se souberes conservar uma atitude sempre humilde e modesta de justa medida para dirigir teu espírito, não sucumbirás facilmente ao perigo e ao pecado”.

(Compêndio de Ascética e Mística)

Servor por amor!

Filed under: Espiritualidade — Vera Lúcia at 5:18 pm on Wednesday, May 21, 2008

 

“Na cultura grega, o servo, o escravo, é chamado de “aprosopos” que significa “sem face, sem rosto”. O escravo é um homem que não tem identidade, que não tem rosto. Esta é a cultura do passado. Jesus se abaixa, se faz servo. Observem que esse é um fato que chocou a vida dos discípulos. Deus serve ao homem, mas serve também aquele que se opõe, porque Jesus lava também os pés de Judas. E Jesus sabia que Judas o trairia. Pensem nesse amor de Jesus até mesmo em relação ao inimigo. Se isso é verdade, devemos tirar essa conclusão: servir é uma ação divina. Não é mandar, não é o impor-se, não é querer ser o primeiro. Mas o que vale na vida da Igreja é fazer-se pequeno, simples, humilde, pobre. Essa é a chave da vida da Igreja, a chave do mistério de Cristo, a chave do nosso mistério. Benditos aqueles que compreenderem isso.

Se quisermos hoje operar no mundo, nós precisamos nos fazer servos do homem. Mesmo se nós utilizamos meios poderosos, nós somos servos da Igreja, servos do homem. Então, vejam aqui um Jesus que se faz próximo na realidade mais humilde, mais simples. Ele é próximo como o Bom Samaritano que ajuda aquele pobrezinho. Repito, ver esse Deus de joelhos aos pés do homem, diante de cada um de nós, esse é o Ágape, esse é o Amor, esse é Cristo. Se nós somos cristãos, devemos chegar a isso. Do contrário não podemos ser fermento no meio dos nossos irmãos. Se quisermos verdadeiramente dar a vida a Jesus Cristo para servir nossos irmãos, nós temos que ter essa realidade profunda. Servir, servir por Amor, servir amando. É no Amor que nós evangelizamos. Nós podemos ter todos os instrumentos, os meios, para levar o evangelho, mas se nós não temos o coração no evangelho, com a vida transmitirmos o evangelho, nós faliremos. Essa é a chave da vida da Igreja, da vida de cada um de nós”.

(Dos escritos de Dom Zevine)

O Espírito Santo está gerando Jesus em nós!

Filed under: Espiritualidade — Vera Lúcia at 6:18 pm on Friday, May 9, 2008

 

“Hoje o povo precisa de Jesus Cristo. E se eu não tiver a face, o olhar, o semblante, a compreensão, o sorriso e o amor de Cristo, estarei frustrando essas pessoas. Eu preciso estar totalmente impregnado de Cristo. O remédio que o povo precisa é Jesus Cristo, e eu preciso levar Jesus Cristo que está em mim para o povo. Você precisa deixar-se formar e ser cheio do Espírito Santo, para atender as necessidades do povo.  Essa é a vontade de Deus.  Ele está disposto, investindo tudo, derramando seu Espírito Santo para  gerar Cristo em nós. 

Essa escola Canção Nova forma Jesus Cristo em nós; eu não estou falando de um banco de escola aonde você vai e faz um curso.  Quem realiza a formação na Canção Nova é Deus.  O Espírito Santo é o principal agente da nossa formação e Nossa Senhora é a pedagoga que vai fazendo com que a ação do Espírito Santo aconteça em nós.  Deus tem urgência na nossa formação para que Cristo seja gerado em nós.  Para isso Ele não usa só o responsável pela missão ou os formadores, usam também todos os que convivem com você, seu irmão de quarto, do setor de trabalho e as pessoas que não fazem parte da comunidade. Deus molda Cristo em nós, vai nos talhando e aos poucos Ele vai nos esculpindo ao ritmo da vida.  É um processo doloroso. Muitas coisas precisam ser retiradas da nossa vida.  É por isso que no Reino de Deus não podemos estar agarrados a nada.   

Muitas vezes quem tira as lascas em você não sou eu, nem o seu formador ou coordenador.  Quem na maioria das vezes tira suas lascas é um colega seu.  Deus usa as pessoas para nos formar. Quando isso acontece nos enfurecemos contra o irmão, contra o funcionário ou até mesmo contra a pessoa que apareceu na missão.  Deus todos os dias faz isso conosco, não pense que é de vez em quando não! 

Você não pode frustrar os desígnios de Deus a seu respeito, todos nós vivemos nos quebrando.  Se você espera outra coisa da Canção Nova está enganado, porque aqui você será moldado.  Não somos nós que queremos tirar lascas nas pessoas, mas isto acontece para nos afiar no carisma. Você precisa agüentar firme meu filho, porque não dá mais para voltar.  A não ser que nisso tudo você perceba que não tem vocação”

(Dos escritos do Monsenhor Jonas Abib).

Nos caminhos de Jesus

Filed under: Espiritualidade — Vera Lúcia at 7:09 pm on Tuesday, April 8, 2008

 

“O caminho percorrido por Jesus Cristo deve ser o caminho do cristão no seu peregrinar. O caminho do Espírito Santo, o modo do Espírito agir em nós, leva-nos à identificação com Jesus e, por isso, ao esforço ascético como único meio de alcançar a santidade.

Quer estejamos perante uma perspectiva de ascese negativa, no sentido de vencer vícios, de destruir o mal, de vencer o pecado, quer estejamos em uma perspectiva positiva da ascese, de desenvolver o bem, o positivo (oração, serviço, dar aos outros, etc), a ascese é sempre caminho obrigatório para a santidade. E a santidade de que falamos aqui não é outra coisa do que a perfeição do amor. Nesta dimensão, com esta visão, a ascese torna-se algo entusiasmaste, diria mesmo, apaixonante.

Pe Dario Pedroso 

Heróica lição de amor

Filed under: Espiritualidade — Vera Lúcia at 2:04 pm on Thursday, March 20, 2008

 Meditação sobre a sexta-feira santa

“Ele havia dado tudo: uma vida ao lado de Maria, em meio aos incômodos e na obediência. Três anos de pregação revelando a Verdade, dando testemunho do Pai, prometendo o Espírito Santo e fazendo todo tipo de milagres de amor. 

Três horas na cruz, desde a qual perdoa os verdugos, abre o Paraíso ao ladrão, dá-nos a sua Mãe e, finalmente, seu Corpo e seu Sangue depois de ter-nos dado misticamente, na Eucaristia. Restava-lhe a divindade. Sua união com o Pai, a dulcíssima e inefável união com Ele, que o havia tornado tão potente na terra, como Filho de Deus, e ainda na cruz mostrava sua realeza, este sentimento da presença de Deus, devia ir desaparecendo no fundo de sua alma, até não senti-lo mais; separá-lo de algum modo d’Aquele do qual disse que era uma só coisa com Ele: «O Pai e eu somos um» (Jo 10, 30). Nele, o amor estava anulado, a luz apagada; a sabedoria calava. 

Ele se tornava nada, então, para tornar-nos partícipes do Todo; verme da terra (Salmo 22, 7), para tornar-nos filhos de Deus. Estávamos separados do Pai. Era necessário que o Filho, no qual todos nos encontrávamos, provasse a separação do Pai. Tinha de experimentar o abandono de Deus para que nós nunca mais nos sentíssemos abandonados. Ele havia ensinado que ninguém tem maior caridade que aquele que dá a vida pelos amigos. Ele, a Vida, dava tudo de si. Era o ponto culminante, a expressão mais bela do amor. 

Seu rosto está detrás de todos os aspectos dolorosos da vida; cada um deles é Ele. Sim, porque Jesus que grita o abandono é a figura do mundo: já não sabe falar. É a figura do cego: não vê; do surdo: não ouve. É o cansado que se queixa. Aparece a desesperança. É o faminto de união com Deus.É a figura do desiludido, do traído, parece ter fracassado. E medroso, tímido, desorientado. 

Jesus abandonado é a treva, a melancolia, o contraste, a figura de tudo o que é raro, indefinível, que parece monstruoso, porque é um Deus que pede ajuda. É o solitário, o desamparado. Parece inútil, um descartado, transtornado. Podemos vê-lo em cada irmão que sofre. Aproximando-nos dos que se parece com Ele, podemos falar-lhes de Jesus abandonado. 

Aos que se descobrem semelhantes a Ele e aceitam compartilhar seu destino, Ele se converte, para o mundo, na palavra; para quem não sabe, a resposta; para o cego, a luz; para o surdo, a voz; para o cansado, o descanso; para o desesperado, a esperança; para o separado, a unidade; para o inquieto, a paz. Com Ele, as pessoas se transformam e o absurdo da dor adquire sentido.Ele havia gritado o porquê, ao qual ninguém havia dado resposta, para que tivéssemos a resposta a cada por que. 

O problema da vida humana é a dor. Qualquer tipo de dor, por mais terrível que seja, sabemos que Jesus o fez seu e transforma, por uma alquimia divina, a dor em amor. Por experiência, posso dizer que apenas nos alegramos por uma dor para ser como Ele e depois continuamos amando fazendo a vontade de Deus; a dor, se é espiritual, desaparece, e se é física, converte-se em jugo suave. 

Nosso amor puro em contato com a dor a transforma em amor; de certa forma a diviniza, quase continuando em nós – por assim dizer – a divinização que Jesus fez da dor.E depois de cada encontro com Jesus abandonado, amado, encontro Deus de um modo novo, mais face a face, mais evidente, em uma unidade mais plena. A luz e a alegria voltam e, com a alegria, a paz, que é fruto do Espírito. A luz, a alegria, a paz que nascem da dor amada causam impacto e conquistam as pessoas mais difíceis. Pregados na cruz se é mãe e pai de almas. A máxima fecundidade é o efeito. Como escreve Oliver Clément, «o abismo, que por um instante abriu aquele grito se vê cumulado pelo grande sopro da ressurreição». 

Anula-se qualquer tipo de desunião, a separação, e as rupturas são curadas, resplandece a fraternidade universal, há lugar a milagres de ressurreição, nasce uma nova primavera na Igreja e na humanidade”.  

  (Dos escritos de Chiara Lubic)

O mistério de adoração da cruz!

Filed under: Espiritualidade — Vera Lúcia at 5:51 pm on Tuesday, March 11, 2008

 

“O que é o Cristianismo senão a imitação de Jesus Cristo? Tanto assim que Paulo resumirá todos os deveres cristãos no de imitar o Nosso Senhor. Jesus é modelo perfeito; até mesmo por confissão daqueles que não crêem na sua divindade, Jesus é o protótipo mais acabado de virtude que jamais apareceu na terra. Praticou as virtudes em grau heróico, e com as disposições interiores mais perfeitas: religião para com Deus, amor do próximo, aniquilamento a respeito de si mesmo, horror do pecado e do que a ele pode conduzir. E contudo é modelo imitável e universal, cheio de encanto, cujos exemplos são cheios de eficácia. 

É modelo que todos podem imitar, pois se dignou desposar nossas misérias e fraquezas, passar até pela tentação, ser-nos semelhante em tudo, exceto no pecado. Durante trinta anos, viveu a vida mais oculta, mais obscura, mais comum, obedecendo a Maria e a José, trabalhando como um aprendiz e operário; e por tem senão deveres obscuros que desempenhar, e se hão-de de santificar no meio das ocupações mais comuns.

Mas teve também a sua vida pública: praticou o apostolado, formando os seus apóstolos, e entre o povo, evangelizando as multidões. Então sofreu cansaço e fome; gozou da amizade de alguns e houve de suportar a ingratidão dos outros; teve os seus triunfos e os seus reveses; numa palavra,  passou pelas vicissitudes de todo o homem que tem relações com amigos e com o público. A sua Paixão deu-nos o exemplo da paciência mais heróica no meio das torturas físicas e morais, que tolerou não somente sem queixar, mas pedindo até por seus verdugos. E não se diga que, sendo Deus, sofreu menos.

Era homem também: dotado de finíssima sensibilidade, sentiu mais vivamente que nós poderíamos sentir a ingratidão dos homens, o desamparo de seus amigos, a traição de Judas, experimentou tais sentimentos de tédio, de tristeza, de pavor que não pode deixar de orar para que o cálice de amargura se afastasse dele, se era possível; e na Cruz  soltou este grito lancinante, que bem mostra a profundeza das suas agonias: “Deus, meu Deus porque me abandonaste?” Foi, pois, um modelo universal. O mistério da Crucifixão mereceu-nos a graça de crucificar a carne e as suas concupiscências; o mistério da morte mereceu-nos o morrer ao pecado e as suas causas”. (Fonte - compêndio de Ascética e Mística) 

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