
“Com o passar dos anos, nós da Canção Nova avançamos na maneira de trabalhar com a Bíblia e de fazer o Diário Espiritual. Desenvolvemos a chamada Ruminação da Palavra. Trata-se de um bom método para quem já fez uma boa caminhada na seara da Palavra de Deus, especialmente para os que já seguiram o método básico de uso do Diário. Esse passo à frente é bom, é saudável, leva-nos a crescer e a nos aprofundar na Palavra. É mais uma opção de trabalho. Você pode recorrer a outras formas como e quando quiser. A palavra Ruminação se adapta bem a esse método. Tal como os bovinos, comemos a Palavra de Deus e, em seguida, paramos e começamos a ruminar o conteúdo engolindo. Esse é um momento vital; é a condição necessária à boa digestão e assimilação.
Deixo aqui para você como podemos fazer o método. Setembro é o mês da Palavra de Deus. Vamos meditá-la com carinho. O método tem cinco etapas ou movimentos: ler, saborear, orar, contemplar e escrever.
1- LER: Escutamos a palavra de Deus. É a hora de engolir. É uma leitura bem ativa: lemos com lápis ou caneta na mão, sublinhando e destacando elementos essenciais: verbos, sujeitos ativos, ações, atitudes, pensamentos, a situação, os motivos das ações. Mais do que ler, na verdade relemos várias vezes, fazendo com a caneta todas essas anotações. Podemos recorrer a outras traduções que ajudem a esclarecer; lançar mão de introduções, explicações e notas de rodapé, hoje abundantes em nossas Bíblias; podemos também comparar com as passagens paralelas, em geral indicadas nas margens das páginas da Bíblia, logo de pois dos títulos etc. Esse é o primeiro estágio do mastigar e engolir. Vamos prestando atenção aos vários pontos indicados e nos deixando levar de uns para os outros a partir do seu próprio movimento interior; isso leva de modo natural a um surpreendente entendimento. É a luz que se faz interior. Esse imperativo interior nos conduz de maneira deveras natural à Segunda etapa, que é quando se inicia de fato a ruminação.

2- SABOREAR: Poderíamos chamar essa etapa de meditar, pois na verdade é uma meditação da Palavra mastigada. Não o fazemos, contudo, para não dar a impressão errônea de que se trata de um trabalho puramente intelectual, preferindo denominá-la saborear. Tive um professor de ciências que dizia que na hora de a vaca e o boi ruminarem o capim, este fica, por causa da saliva, doce. Brincávamos com ele, perguntando-lhe como ele sabia disso… Na verdade, é chegado o momento de “sentir” a Palavra. O intelecto também participa dele, mas não está sozinho. Entram também os sentimentos, a nossa liberdade movida pelo Espírito, os vários movimentos da vontade. Eis o principal momento em que devemos nos deixar impregnar pelos sentimentos que o Espírito Santo faz surgir em nós por meio da Palavra: alegria, medo, confiança, generosidade, arrependimento, esperança, entusiasmo etc. Os vários sentimentos, os vários impulsos que se misturam uns aos outros…
3- ORAR: Como é de esperar, esses sentimentos nos levam a dar uma resposta. Não é tanto responder à Palavra quanto ao Senhor que, pela Palavra, infundiu em nós esses impulsos. Brotam naturalmente o louvor, o arrependimento, a súplica, a gratidão, o pedido de perdão, a oferta, a adoração e assim por diante. Mais do que uma oração por palavras, essa vai ser uma oração de sentimentos e de atitudes interiores. Umas poucas palavras nos prestarão simplesmente ajuda para nos exprimirmos e nos referir ora ao Pai, ora a Jesus, ora ao próprio Espírito Santo. É uma oração já bem simples e sobremodo interiorizada.

4- CONTEMPLAR: Pouco a pouco, todos aqueles sentimentos que se misturavam e se multiplicavam em nós, os vários movimentos de oração por eles provocados vão se simplificando e se unificando em nosso íntimo. É a hora da tranqüilidade, da harmonia, do repouso em Deus. Eis o que significa contemplação: entrarmos, mediante a Palavra, no Templo de Deus que existe em todos nós e aí nos deixamos ficar repousando no Senhor. Vem aqui a simplicidade de todos os nossos movimentos interiores. Trata-se de um movimento privilegiado, um instante de graça. Todos podem chegar a vivenciá-lo; Deus deseja vê-lo em todas as pessoas, sem distinção. Os mais simples podem chegar com mais facilidade a esse ponto; os que mais penam são os intelectuais. É lamentável que se tenha criado tanto mistério, tanta complicação, acerca de algo tão simples como a contemplação, a ponto de parecer que só tem acesso a ela uma minoria, quando Deus sempre quis vê-la ao alcance de todos. Graças ao Pai isso nos é devolvido hoje, e gratuitamente.
Não receie, a contemplação nada tem de controle mental nem filosofias orientais, não é nada de Nova Era. De forma nenhuma. Estamos alcançando outra vez o que há de mais autêntico e genuíno na espiritualidade cristã. A contemplação é o modo de rezar de Jesus. Ela nos é ensinada pelos místicos,
pelos monges e pelos contemplativos… Pelos homens e mulheres de Deus do passado e do presente. Não tema entrar nesse caminho e se deixar levar pela contemplação. Esse caminho é natural como a digestão. Essa graça se destina a você. Assim como disse que “A Bíblia foi escrita para você”, digo: “A contemplação foi escrita para você”. Acredite, acolha, experimente os frutos da contemplação. Tendo entrado no repouso contemplativo, deixe-se ficar aí. Não estrague tudo nessa hora, como fazem alguns. Não queira voltar e insistir em orações, em palavras, em sentimentos… e muito menos em raciocínios e esquemas de ação.Não fique elaborando esquemas de ação, de trabalho com o Senhor. Isso virá como conseqüência. O ciclo completo da digestão não falha; ele redunda naturalmente na vida e na saúde. Por que duvidar do ciclo completo de oração a partir da Palavra do Deus Vivo? A nossa pressa, a nossa mania de sempre agir e trabalhar, a nossa precipitação põem tudo a perder, fazendo-nos interromper o ciclo antes de ele chegar ao fim. Se nos comportamos assim, verdadeira eficácia não tem mesmo como se manifestar. Isso não é intimismo; é antes interiorização. É uma oração que atinge o seu alvo, que fecunda a ação, que gera a eficácia em Deus.
5- ESCREVER: O ponto de chegada é a contemplação. Contudo, depois que a rede está repleta de peixes, não se pode deixar que escapem e se vão. Apesar do gozo espiritual que a contemplação lhe traz, ponha-se a escrever: é seu Diário Espiritual, feito agora de maneira distinta e certamente muito proveitosa. Não é questão de escrever muito, nem é o momento de narrar ou descrever o que se passou. Agora, temos somente de registrar: O que Deus me falou? O que Ele realizou em mim? O que deixou depositado em meu interior? Isso tudo é muito precioso; é algo que não se
pode perder. Você também pode registrar: O que, a partir dessa Palavra, Deus diz hoje de mim? O que Ele diz para mim? Você recolhe o conteúdo depositado em seu ser dos dois lados: “O que diz de mim” e “o que diz para mim”. Não estou fazendo um simples jogo de palavras, são duas maneiras de focalizar a questão. E não é difícil diferenciar. Veja 1º O que Deus diz de mim? Do que sou, de quem Ele me fez, das qualidades que Ele mesmo me deu e quer que eu assuma e cultive. Da minha vocação e missão, do trabalho específico a mim confiado e para o qual me capacitou com os dons naturais que me deu, com os carismas do Espírito Santo de que me dotou por graça. 2º O que Ele diz para mim? O que Ele quer de mim, que eu seja que eu realize. Que atitudes quer que eu tome o que quer que eu cultive. Por que caminhos Ele quer que eu vá, que rumos me indica, que mudanças quer que eu assuma, o que quer transformar em mim. Convenhamos: não é nada complicado. Apresentei tudo isso apenas para você perceber a diferença e medir a amplitude daquilo que Deus possa estar dizendo a você”.
Do livro a Bíblia foi escrita para você
Comunidade Canção Nova