Discurso do Papa aos Bispos do Regional Sul 1

Arquivado em: Comentário — discipulosemissionarios at 10:55 am on quarta-feira, novembro 25, 2009

DISCURSO DO PAPA

Senhor Cardeal,
Amados Arcebispos e Bispos do Brasil,

No meio da visita que estais cumprindo ad limina Apostolorum, vos reunistes hoje para subir à Casa do Sucessor de Pedro, que de braços abertos vos acolhe a todos vós, amados Pastores do Regional Sul 1, no Estado de São Paulo. Lá se encontra o importante centro de acolhimento e evangelização que é o Santuário de Nossa Senhora Aparecida, onde tive a alegria de estar em maio de 2007 para a inauguração da Quinta Conferência do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. Faço votos por que a semente então lançada possa dar válidos frutos para o bem espiritual e também social das populações daquele promissor Continente, da querida Nação brasileira e do vosso Estado Federal. Elas «têm direito a uma vida plena, própria dos filhos de Deus, com condições mais humanas: livres da ameaças da fome e de toda forma de violência» [Discurso inaugural (13/V/2007), n. 4]. Uma vez mais, desejo agradecer tudo o que foi realizado com tão grande generosidade e renovar a minha cordial saudação a vós e às vossas dioceses, recordando de modo especial os sacerdotes, os consagrados e consagradas e os fiéis leigos que vos ajudam na obra de evangelização e animação cristã da sociedade.
O vosso povo abriga no coração um grande sentimento religioso e nobres tradições, enraizadas no cristianismo, que se exprimem em sentidas e genuínas manifestações religiosas e civis. Trata-se de um patrimônio rico de valores, que vós - como mostram os relatórios, e Dom Nelson referia na amável saudação que em vosso nome acaba de dirigir-me - procurais manter, defender, estender, aprofundar, vivificar. Ao regozijar-me vivamente com tudo isto, exorto-vos a prosseguir nesta obra de constante e metódica evangelização, cientes de que a formação autenticamente cristã da consciência é decisiva para uma profunda vida de fé e também para o amadurecimento social e o verdadeiro e equilibrado bem-estar da comunidade humana.
Com efeito, para merecer o título de comunidade, um grupo humano deve corresponder, na sua organização e nos seus objetivos, às aspirações fundamentais do ser humano. Por isso não é exagerado afirmar que uma vida social autêntica tem início na consciência de cada um. Dado que a consciência bem formada leva a realizar o verdadeiro bem do homem, a Igreja, especificando qual é este bem, ilumina o homem e, através de toda a vida cristã, procura educar a sua consciência. O ensinamento da Igreja, devido à sua origem - Deus -, ao seu conteúdo - a verdade - e ao seu ponto de apoio - a consciência -, encontra um eco profundo e persuasivo no coração de cada pessoa, crente e mesmo não crente. Concretamente, «a questão da vida e da sua defesa e promoção não é prerrogativa unicamente dos cristãos. Mesmo se recebe uma luz e força extraordinária da fé, aquela pertence a cada consciência humana que aspira pela verdade e vive atenta e apreensiva pela sorte da humanidade. (…) O “povo da vida” alegra-se de poder partilhar o seu empenho com muitos outros, de modo que seja cada vez mais numeroso o “povo pela vida”, e a nova cultura do amor e da solidariedade possa crescer para o verdadeiro bem da cidade dos homens» [Enc. Evangelium vitæ (25/III/1995), 101].
Venerados Irmãos, falai ao coração do vosso povo, acordai as consciências, reuni as vontades num mutirão contra a crescente onda de violência e menosprezo do ser humano. Este, de dádiva de Deus acolhida na intimidade amorosa do matrimônio entre o homem e a mulher, passou a ser visto como mero produto humano. «Hoje, um campo primário e crucial da luta cultural entre o absolutismo da técnica e a responsabilidade moral do homem é o da bioética, onde se joga radicalmente a própria possibilidade de um desenvolvimento humano integral. Trata-se de um âmbito delicadíssimo e decisivo, onde irrompe, com dramática intensidade, a questão fundamental de saber se o homem se produziu por si mesmo ou depende de Deus. As descobertas científicas neste campo e as possibilidades de intervenção técnica parecem tão avançadas que impõem a escolha entre estas duas concepções: a da razão aberta à transcendência ou a da razão fechada na imanência» [Enc. Caritas in veritate (29/VI/2009), 74]. Jó, de modo provocatório, chama os seres irracionais a darem o próprio testemunho: «Pergunta, pois, aos animais e eles te ensinarão; às aves do céu e elas te instruirão, aos répteis da terra e eles te responderão, e aos peixes do mar e eles te darão lições. Quem não vê em tudo isto a mão de Deus que fez todas estas coisas? Deus tem nas suas mãos a alma de todo o ser vivente, e o sopro de vida de todos os homens» (Jó 12, 7-10). A convicção da reta razão e a certeza da fé de que a vida do ser humano, desde a concepção até à morte natural, pertence a Deus e não ao homem, confere-lhe aquele caráter sagrado e aquela dignidade pessoal que suscita a única atitude legal e moral correta, isto é, a de profundo respeito. Porque o Senhor da vida falou: «Da vida do homem pedirei contas a seu irmão. (…) porque Deus fez o ser humano à sua imagem» (Gen 9, 5.6).
Meus amados e venerados Irmãos, nunca podemos desanimar no nosso apelo à consciência. Não seríamos seguidores fiéis do nosso Divino Mestre, se não soubéssemos em todas as situações, mesmo nas mais árduas, levar a nossa «esperança para além do que se pode esperar» (Rom 4, 18). Continuai a trabalhar pelo triunfo da causa de Deus, não com o ânimo triste de quem adverte só carências e perigos, mas com a firme confiança de quem sabe poder contar com a vitória de Cristo. Unida ao Senhor de modo inefável está Maria, plenamente conforme ao seu Filho, vencedor do pecado e da morte. Pela intercessão de Nossa Senhora Aparecida, imploro de Deus luz, conforto, força, intensidade de propósitos e realizações para vós e vossos mais diretos colaboradores, ao mesmo tempo que de coração vos concedo, extensiva a todos os fiéis de cada comunidade diocesana, uma particular Bênção Apostólica.

Saudação de Dom Nelson Westrupp, bispo de Santo André e do Regional Sul 1
Beatíssimo Padre,
1. Sentimo-nos felizes e honrados em poder saudar Vossa Santidade, por ocasião de nossa “visita ad limina Apostolorum”. Estamos conscientes do que representa para cada um de nós o encontro entre os sucessores dos Apóstolos e o Sucessor de Pedro - um encontro do Pastor Universal da Igreja com os Pastores de Igrejas Particulares. Trata-se de uma ocasião especial para revigorarmos nossa responsabilidade pastoral e tornarmos ainda mais visível nossa comunhão hierárquica com Vossa Santidade, pois, como indica o Código de Direito Canônico (Cân. 400), a finalidade essencial da “visita ad limina” é venerar os sepulcros dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo e encontrar-se com o Sucessor de Pedro, Bispo de Roma.
Em janeiro de 2003, fomos solicitamente acolhidos por Vossa Santidade na Congregação para a Doutrina da Fé. Hoje, quase sete anos depois, somos novamente recebidos por Vossa Santidade, como nosso querido Papa Bento XVI.
2. O Conselho Episcopal Regional Sul 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil congrega os Bispos das dioceses do Estado de São Paulo. Nosso Regional, constituído por oito Províncias Eclesiásticas, é formado por 44 Circunscrições Eclesiásticas, sendo 41 Dioceses, 1 Eparquia Maronita, 1 Eparquia Greco-Melquita e 1 Exarcado Armênio Católico.
Temos testemunhado, nos últimos anos, um ardor evangélico que nutre o coração dos fiéis e se manifesta, visivelmente, em sua participação ativa como Igreja. A visita de Vossa Santidade ao Brasil, em São Paulo, em maio de 2007, trouxe alento e graça para nossa Igreja; queremos agradecer mais uma vez a afabilidade paternal de Vossa Santidade, que nós e nosso povo tivemos a ocasião de experimentar durante aquela visita; agradecer também a canonização de Santo Antônio de Sant’Anna Galvão, o primeiro Santo nascido no Brasil, e as iluminadoras palavras dirigidas aos Bispos do Brasil na Catedral de São Paulo e aquelas proferidas na abertura da V Conferência do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, em Aparecida.
3. Nossas Igrejas particulares alegraram-se e amadureceram com a comemoração do Ano Paulino, proclamado por Vossa Santidade; o Ano Sacerdotal está sendo ocasião para valorizar os sacerdotes e as vocações sacerdotais; e o Ano Catequético, proclamado pela nossa Conferência Episcopal, para comemorar os 50 anos do movimento catequético em nosso País, está trazendo frutos importantes para a evangelização. Em todos esses momentos, destacamos as várias dimensões da vivência do discipulado missionário de todos os batizados. A todos recordamos especialmente as riquezas do sacerdócio comum dos fiéis e do sacerdócio ministerial, que frutificam na colaboração dos fiéis leigos e dos ministros ordenados no seio da Igreja.
4. O Estado de São Paulo possui grande extensão territorial (2.47811,2 km2) e uma população numerosa (mais de 41 milhões de habitantes); é complexa a sua situação social, política, econômica, cultural, ecológica e religiosa. Estamos diante dos desafios da mobilidade religiosa, que inquieta nosso coração de pastores. O mapa religioso continua a mudar e aumenta o número dos “evangélicos” e dos que se declaram sem religião. Constatamos que, talvez, nossa ação evangelizadora e pastoral não consiga atingir a todos, principalmente nos centros urbanos, mas também na zona rural.
Não podemos ficar indiferentes diante da urgência da evangelização, que requer audácia, como nos recordou a Conferência de Aparecida. As palavras de Vossa Santidade, na Carta de Proclamação do Ano Sacerdotal, ainda ecoam em nossos corações: “no mundo atual, não menos do que nos tempos difíceis do Cura d’Ars, é preciso que os presbíteros, na sua vida e ação, se distingam por um vigoroso testemunho evangélico”.
5. Como resposta aos novos desafios, estamos fomentando sempre mais uma “cultura missionária” em nossas Dioceses e comunidades eclesiais. Já durante 15 anos, mantemos um Projeto Missionário com as dioceses da Amazônia brasileira. As dioceses do nosso Regional enviam sacerdotes, religiosas, religiosos, leigos e leigas, bem como os recursos financeiros necessários para a sua manutenção. Em 2004, elaboramos um “Projeto de Ação Missionária Permanente”, cujo texto inspirou muito nossa ação evangelizadora. Queremos ser uma igreja em estado permanente de missão. Por isso, nesses anos recentes, os temas de nossas Assembléias Episcopais estiveram sempre relacionados com algum aspecto da ação missionária da Igreja local.
Sabendo que a ação da Igreja envolve diretamente leigos comprometidos com o anúncio do Evangelho, é nossa preocupação qualificar melhor os agentes de pastoral. Na maioria das Dioceses, temos escolas de formação teológica e pastoral para os leigos, que têm ajudado, de modo generoso, a responder às dificuldades que se apresentam à fé cristã.
6. Queremos agradecer a Vossa Santidade pelas inúmeras e iluminadas iniciativas nos campos da evangelização e da instrução da fé, como a Assembléia do Sínodo dos Bispos sobre a Palavra de Deus na vida e missão da Igreja e as três Cartas Encíclicas. A mais recente, “Caritas in veritate” encheu-nos de entusiasmo e esperança; por ela, a Doutrina Social da Igreja ilumina o atual contexto sócio-político e econômico mudado pela globalização. Também é nosso propósito iluminar a vida da sociedade com o ensinamento Social da Igreja, proclamado especialmente através das várias Encíclicas. O centro de todo desenvolvimento humano deve ser integral e não apenas econômico e tecnológico, como o mundo é levado a acreditar. As falhas do desenvolvimento humano têm sua explicação na compreensão insuficiente da dignidade humana e do seu desenvolvimento integral, centrado na caridade: o amor incondicional e sem medida é a base do Evangelho e da evangelização. É esse amor que eleva a dignidade da pessoa, de modo a desenvolver a fraternidade, como expressão da economia e da civilidade.
7. Ainda lembramos e procuramos seguir a recomendação de Vossa Santidade no Santuário de Aparecida, em maio de 2007: “Permanecei na escola de Maria. Inspirai-vos nos seus ensinamentos, procurai acolher e guardar dentro do coração as luzes que ela, por mandato divino, vos envia lá do alto” (Discurso no final da oração do Santo Rosário, 12/5/2007, n. 1).
8. Beatíssimo Padre, os Pastores e o Povo de Deus, que peregrinam nas Igrejas Particulares do Estado de São Paulo, têm grande estima e amor ao Vigário de Cristo na terra. O Pontificado de Vossa Santidade ilumina-nos, estimula e dá-nos segurança nos caminhos da missão. Nós amamos a Igreja de Cristo e seu querido Pai e Pastor e pedimos que o Espírito de Cristo assista e conforte sempre Vossa Santidade no exercício do ministério petrino e de sua altíssima missão à frente da Igreja e da grande família humana.
9. Suplicamos também a Nossa Senhora Aparecida, celeste Rainha e Padroeira do povo brasileiro, que interceda por Vossa Santidade e o cubra com carinhosa e maternal proteção.
Pedimos que Vossa Santidade conceda a nós, ao nosso clero, aos consagrados e às consagradas, aos seminaristas, às famílias e a todos os fiéis leigos de nossas Igrejas Particulares sua paterna Bênção Apostólica.

Roma, 14 de novembro de 2009.

Dom Nelson Westrupp, SCJ
Bispo de Santo André
Presidente do Regional Sul 1 da CNBB

Programa em Roma

Arquivado em: Programas — discipulosemissionarios at 10:49 am on quarta-feira, novembro 25, 2009

ENTREVISTA - VISITA AD LIMINA

Arquivado em: Comentário — discipulosemissionarios at 11:27 am on terça-feira, novembro 24, 2009

ENTREVISTA  - VISITA AD LIMINA

Com Rafael Alberto de O SÃO PAULO

1)    A visita ad limina pode ser vista como manifestação da unidade da Igreja Católica em torno do papa? Como isso funciona?

R. É certamente uma manifestação da comunhão do episcopado com o papa e, ao mesmo tempo, um meio para edificar e cultivar sempre mais a comunhão na nossa Igreja; os bispos, sucessores dos apóstolos, são responsáveis pelas próprias dioceses e, com o papa, são co-responsáveis pela vida da Igreja no mundo todo. A visita ad limina é ocasião de estreitar os laços da colegialidade episcopal e da comunhão com o Sucessor de Pedro, que recebeu de Jesus o encargo de confirmar os irmãos na fé e de manter unida a Igreja.

2)    Das muitas visitas feitas na Cúria Romana, quais foram as principais questões tratadas?

R. Fizemos, de fato, muitas visitas aos Pontifícios Conselhos, Comissões e Congregações da Cúria, que constitui o corpo de colaboradores do papa e acompanha os vários aspectos da vida da Igreja em todo o mundo. Nesses encontros, sempre foi feita a exposição da realidade eclesial no Regional, sob o aspecto que interessava mais cada um desses organismos e, depois, era feito um diálogo com o cardeal ou outro encarregado. Foram momentos ricos e interessantes. Tratamos sempre das questões mais importantes em cada área e também éramos perguntados sobre nossa atuação em cada área, como a catequese, os seminários, a formação do clero, a formação e atuação dos leigos, a pastoral da família, a juventude, o ecumenismo, a evangelização da cultura, a pastoral dos meios de comunicação… As repercussões da Conferência de Aparecida e da missão permanente sempre faziam parte desses diálogos. Mas também tratamos de questões mais gerais relativas à vida do povo brasileiro, como a educação, a saúde, a violência, a situação do povo pobre, as questões sociais, as implicações da Doutrina Social da Igreja na evangelização e o Acordo entre o Brasil e a Santa Sé. Durante essas visitas, pudemos ter uma visão de conjunto do trabalho missionário e evangelizador da Igreja.

3)    Na audiência coletiva, o papa pediu a formação da consciência para a defesa da vida e o cuidado para que o ser humano não seja encarado como mero produto de si mesmo. Qual a importância dessa recomendação e porque isso (esse cuidado com a formação da consciência) precisa ser assumido como tarefa da Igreja?

R. O papa referia-se à violência e ao desrespeito à vida e à dignidade da pessoa humana; como solução para esses males, recomendou aos bispos a formação da consciência moral e religiosa do povo, pois somente com a percepção do valor da pessoa e de sua dignidade será possível superar a violência. Esta educação da consciência moral é tarefa fundamental da missão da Igreja e, em particular, dos bispos. Se a evangelização não ajudar a formar a consciência das pessoas, não atinge ainda o seu objetivo principal e será apenas um verniz exterior, que não muda nada na conduta das pessoas

4)    Como foi a audiência do senhor com o papa? Que palavras lhe disse? Que aspectos da vida da Arquidiocese de São Paulo tratou com o papa?

R. No dia 19 de novembro fui recebido, com os 4 bispos auxiliares que me acompanharam, em audiência privada pelo papa, que nos acolheu com muita simpatia, lembrando logo sua visita a São Paulo e a boa acolhida que teve da parte do povo. Oferecemos-lhe como presente da arquidiocese uma réplica em bronze, de 25 cm. De altura, da estátua de São Paulo, colocada na Praça da Sé na conclusão do Ano Paulino; mostrou-se muito interessado, querendo saber quem foi o artista que a esculpiu (Murilo Sá Toledo). Depois tivemos meia hora de diálogo sobre a vida da arquidiocese de São Paulo e o Papa perguntou sobre uma série de questões: a catequese, as vocações, o seminário, a juventude, a família, os meios de comunicação social, a universidade católica, o laicato, as relações da Igreja com a sociedade… Por fim, o papa abençoou a todo o povo da arquidiocese e pediu-me para transmitir esta bênção a todos.

5)    Os senhores fizeram uma homenagem ao Beato José de Anchieta e o senhor lembrou, na ocasião, que a cidade de São Paulo nasceu em torno da missão jesuíta. Como os católicos podem responder àqueles que criticam aos jesuítas, entre eles o padre Anchieta, por conta de possíveis desrespeitos à cultura e aos povos indígenas?

R. Tivemos uma bela sessão cultural sobre o Padre José de Anchieta, promovida pelas embaixadas do Brasil junto à Santa Sé e junto à Itália. Penso que o apóstolo do Brasil e fundador de São Paulo seja bem pouco conhecido, de maneira geral, e seria necessário fazer algo para valorizá-lo mais, até para que sua bela figura não passe para as novas gerações manchada por pichações preconceituosas… Penso que as críticas a Anchieta sejam devidas sobretudo ao desconhecimento, a informações superficiais e mesmo a preconceitos nunca devidamente examinados e criticados. Ele foi um amigo dos povos indígenas, apreciador respeitoso de sua cultura; foi o primeiro a escrever uma gramática e uma espécie de dicionário da língua Tupi; produziu obras teatrais nessa língua e deve-se a ele muito do que se conhece sobre os indígenas do início da história do Brasil. Foi  também promotor do diálogo e da paz entre as tribos em guerra e mediador da paz e de bons entendimentos entre os povos indígenas e os portugueses, arriscando para isso sua própria vida. Vale lembrar sua atuação na Confederação dos Tamoios. Foi também o primeiro poeta e historiador do Brasil. Tudo isso, sem falar de sua figura de homem de Deus e de grande missionário! Antes de lhe atribuir acusações motivadas, geralmente, por preconceitos genéricos, seria bom conhecer melhor essa importante figura da história do Brasil e da Igreja em nosso País.

6. Que mensagem o senhor traz aos fiéis da Arquidiocese de São Paulo de junto do túmulo de São Pedro?

R. A visita aos túmulo dos apóstolos nos coloca em contato com nossas origens cristãs: somos a Igreja que vem dos apóstolos, os quais nos transmitiram, em primeira mão, o testemunho de Jesus. Nossa Igreja é “apostólica” e guardiã da herança apostólica. Isso nos alegra muito e nos deixa muito seguros e serenos na fé, sabendo que cremos com aqueles que “viram Jesus” e, depois de ouvi-lo, exclamaram: “Senhor, a quem iríamos nós? Tu tens palavras de vida eterna!”. Estar na Igreja dos apóstolos também significa estar na companhia dos sucessores deles, encarregados como legítimos pastores de conduzirem o rebanho de Cristo; mas também na companhia dos mártires, santos missionários, mestres e doutores da fé, santos da caridade, místicos e tantos outros que, antes de nós, viveram esta mesma fé e a testemunharam com a própria vida. Por isso, minha mensagem ao povo da arquidiocese de São Paulo é que fiquem firmes na fé e “perseverem na doutrina dos apóstolos”; temos São Paulo como nosso Patrono e intercessor, apóstolo, companheiro e incentivador de nossa Igreja paulistana; alegrem-se muito pelo fato de serem cristãos e membros da Igreja de Cristo; procurem levar vida digna de tão grande vocação e graça e sejam missionários do Evangelho para as outras pessoas e para a sociedade.

7. E aos presbíteros, neste Ano Sacerdotal?

R. Encorajo-os na sua vocação e no desempenho da missão que a Igreja lhes confiou, mediante a qual participam da mesma missão dos apóstolos ainda hoje. Sua dedicação pastoral e missionária é essencial à vida da Igreja. Deus os abençoe e recompense pelo bem que realizam e os faça felizes no seu sacerdócio!

Card. D. Odilo P. Scherer

Roma, final da Visita ad Limina, 20.11.09

O PAPA FALOU AOS BISPOS DE SÃO PAULO

Arquivado em: Comentário — discipulosemissionarios at 11:24 am on terça-feira, novembro 24, 2009

Na visita dos bispos, ad limina Apostolorum, o momento principal é a audiência pessoal com o papa, durante a qual cada bispo tem a oportunidade de tratar das questões que deseja com o sucessor de Pedro. No dia 19 de novembro, tive meu encontro pessoal com o papa, juntamente com os 4 bispos auxiliares que acompanharam a visita ad limina: Dom Pedro Luiz, Dom Joaquim, Dom Mamede e Dom Tarcísio. Foi um encontro de meia hora, muito intenso, durante o qual também oferecemos ao papa uma réplica em bronze, de 25 cm., da estátua de S.Paulo colocada na Praça da Sé na conclusão do Ano Paulino. Bento XVI manifestou seu agrado pelo presente e quis saber quem era o escultor (Murilo Sá Toledo).

Após recordar sua visita a São Paulo, em maio de 2007, quis nos ouvir sobre os diversos aspectos da vida da Igreja em São Paulo: o clero, as vocações, os religiosos, a catequese, a família, as crianças, a juventude, a Universidade, os Meios de Comunicação, as relações da Igreja com a sociedade…  Ficou contente em saber do Congresso Arquidiocesano de Leigos, programado para 2010. No final da audiência, deu-nos sua Bênção Apostólica e pediu que a transmitíssemos a todo o povo da arquidiocese.

Outro momento, também importante, é a audiência que o grupo inteiro de bispos em visita tem com o papa, durante a qual o Santo Padre faz um discurso de significado especial para a missão episcopal. Nosso encontro com Bento XVI aconteceu no dia 14 de novembro e o discurso aos bispos paulistas já foi divulgado; mesmo assim, desejo tecer algumas considerações sobre o tema de fundo abordado pelo papa: a formação cristã da consciência das pessoas, como parte essencial da missão dos bispos e da Igreja.

Após recordar a Conferência de Aparecida e encorajar a Igreja no Brasil a apontar qual é o verdadeiro bem para o povo, o papa nos exortou a prosseguirmos “nesta obra de constante e metódica evangelização, cientes de que a formação autenticamente cristã da consciência é decisiva para uma profunda vida de fé e também para o amadurecimento social, o verdadeiro e equilibrado bem-estar da comunidade humana”. O ensinamento da Igreja tem sua origem em Deus, seu conteúdo na verdade e seu ponto de apoio na consciência; por isso ele forma e educa as consciências para o reto viver e agir.

O papa apontou para algumas questões concretas, que devem receber uma atenção especial na formação da consciência, como o valor da vida humana, sua dignidade e sua defesa. A busca da verdade sobre nós mesmos é uma aspiração de todo ser humano e, por isso, a formação da consciência de cristãos e não cristãos deve ter em conta os valores da dignidade humana, os direitos inalienáveis de cada pessoa, a solidariedade no convívio social, a busca e a prática do bem. “Falai ao coração do vosso povo, acordai as consciências, reuni as vontades num mutirão contra a crescente onda de violência e o menosprezo do ser humano”.

A formação da consciência é um tema retomado com freqüência nos ensinamentos de Bento XVI; é uma das preocupações do seu pontificado e vai, sem dúvida, à raiz de um dos problemas mais sérios do nosso tempo: A superficialidade dos critérios éticos da cultura contemporânea, o construtivismo e o subjetivismo ético e moral, a manipulação das consciências por interesses e ideologias, o poder de influência  da mídia sobre a consciência pessoal… Muitas vezes, vemo-nos envolvidos numa luta crucial entre o absolutismo da técnica e a responsabilidade pessoal do homem, sobretudo no campo da bioética, onde o ser humano acaba reduzido a um produto da técnica, ou seja, de si mesmo, esquecendo ou a negando sua essencial dependência de Deus. A técnica, porém, é produto humano e, como tal, está sujeita à norma moral e à lei interior da consciência, que indica os valores verdadeiros e últimos, ajudando a discernir sobre o seu uso. A escolha importantíssima que o homem, a sociedade e a cultura devem fazer está entre a razão humana aberta a Deus, ou o fechamento sobre si mesmos, na imanência. As conseqüências dessa escolha não são indiferentes para as pessoas e seu modo de ser e de interagir com o mundo.

É parte da missão da Igreja e, em particular, dos pastores da Igreja, apresentar às pessoas e ao mundo a verdade sobre o ser humano, o mundo e o convívio social. O papa exortou a não ceder ao desânimo na tarefa de formar a reta consciência, atraída para o bem e orientada pela luz da verdade. O anúncio do Evangelho, sem reducionismos nem omissões, sempre encontrará terrenos férteis para frutificar e, consciências ansiosas e atentas, para acolher este anúncio. A Igreja sabe que já pode contar com a vitória da ressurreição de Cristo; e a Palavra de Deus oferece sua luz a todo aquele que procura, honestamente, seguir a consciência e praticar o bem.

Card. Odilo P. Scherer

Arcebispo de São Paulo

Artigo publicado em O SÃO PAULO, ed. de 24.11.09

Fotos com o Papa

Arquivado em: FOTOS, Notícias — discipulosemissionarios at 10:40 am on segunda-feira, novembro 23, 2009

Cardeal Dom Odilo e os Bispos Auxiliares encontram-se com o Papa.

Missa na Catedral do Papa

Arquivado em: Notícias — discipulosemissionarios at 1:29 pm on quinta-feira, novembro 19, 2009

Visita Ad Limina

Arquivado em: Programas — discipulosemissionarios at 7:39 pm on terça-feira, novembro 17, 2009

Economia e fraternidade

Arquivado em: Comentário — discipulosemissionarios at 2:51 pm on terça-feira, novembro 17, 2009

Em 2010, o tema da Campanha da Fraternidade (CF-2010) será “economia e vida” e o lema, “vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24). Promovida todos os anos pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, desta vez, será por iniciativa ecumênica do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs.

A “fraternidade” é expressão de uma antropologia segundo a qual os seres humanos, no fundo, são todos irmãos, membros de uma única família humana, com dignidade e direitos fundamentais comuns. Decorre daí, como consequência ética, que esta dignidade deve ser reconhecida em cada ser humano e seus direitos fundamentais, respeitados e promovidos por todos. O que vale para um, vale para todos. Esta também é a base da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Na visão cristã, dizemos ainda que todos os seres humanos são filhos queridos do mesmo Deus; por isso, enquanto membros da família de Deus, eles devem relacionar-se como verdadeiros irmãos, não importando as diferenças de raça, povo, nação, cultura ou condição social. E, por isso mesmo, toda ofensa ou desrespeito ao próximo, assim como sua exclusão do acesso aos bens necessários à vida digna, também são ofensa a Deus.

Na CF-2010, a atividade econômica é o âmbito fundamental para a promoção e o exercício da fraternidade. O tema tem inegável pertinência e atualidade. Quem duvida que é, justamente, nesse campo de ações e relações humanas que acontecem as violações práticas, e mesmo, as negações mais flagrantes da fraternidade? Mas também é no âmbito das relações econômicas que se apresentam as oportunidades mais concretas para viver de modo efetivo a fraternidade. E mais: As ameaças cada vez mais evidentes contra a vida humana e, de modo geral, contra a vida na Terra, também estão relacionadas diretamente com causas econômicas; como não podia deixar de ser, a prevenção desses riscos depende da reorientação das atividades econômicas - decisão difícil de ser tomada, quer para os comportamentos pessoais, quer para a política econômica nacional e global.

A recente crise financeira e econômica demonstrou mais uma vez que a economia sem critérios éticos, ou com critérios equivocados, não tem bases sólidas e suas conseqüências são a pobreza e o sofrimento de muitas pessoas, grupos e de inteiros povos. A atividade econômica, que tem como objetivo supremo, em vez do suprimento das necessidades básicas do ser humano, o lucro a qualquer preço e o acúmulo sempre maior de bens, gera  multidões de famintos, deixados à margem do grande giro econômico, excluídos do bem comum.

Além disso, a lógica econômica que privilegia a produção e o consumo de supérfluos também se torna uma grave ameaça à sustentabilidade da vida no planeta Terra. O aquecimento global, a poluição do ar, das águas e do solo, a corrida para a posse e a exploração econômica dos recursos naturais, até à sua exaustão, deixam evidentes os riscos para o futuro da nossa casa comum. Do ponto de vista social, as massas de empobrecidos, que migram para regiões mais prósperas do mundo, são conseqüência da atividade econômica desenvolvida por décadas, sem a preocupação básica com a solidariedade e a justiça econômica global. Mais que em outros tempos, hoje caímos na conta de que somos todos interdependentes; nossos benefícios também devem estender-se a todos, para que os males de outros não venham a ser nossos males também.

O papa Bento XVI, na sua mais recente encíclica - Caritas in veritate (A Caridade na Verdade), recordou de maneira magistral um princípio antigo da Doutrina Social da Igreja, que continua atualíssimo na era da globalização econômica: o progresso dos povos só será autêntico se tiver em conta o bem  de todas as pessoas e da pessoa toda. Para alcançar isso, será necessária uma atenção sempre maior aos critérios da justiça social, da equidade e da solidariedade, para que os benefícios econômicos sejam efetivamente estendidos a todos. E teremos todos que aprender a viver de maneira mais sóbria, superando certo modo predatório de interagir com o próximo e com a natureza, assimilando sempre mais a ética do cuidado: Se formos todos bons cuidadores da natureza, ela ainda continuará a nos sustentar por muito tempo. Os rumos da economia não podem ficar entregues apenas à lógica do mercado, orientada pelo apetite do lucro a qualquer custo.

O lema da CF-2010 é um dito do Evangelho, no qual Jesus adverte contra o apego ao dinheiro, que pode tornar-se um empecilho para acolher de coração livre e desimpedido o reino de Deus: este é o bem supremo para o ser humano. “Não podeis servir a dois senhores porque, ou odiareis a um e amareis ao outro; ou vos apegareis a um e desprezareis ao outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Lc 16,13). O amor servil ao dinheiro chama-se avareza e pode transformar-se em verdadeira idolatria, levando o homem a sacrificar tudo, mesmo os valores éticos, a saúde e a própria dignidade, para acumular bens. “Que proveito traz isso ao homem? Acaso pode o dinheiro comprar a vida eterna?” - pergunta Jesus. A idolatria do dinheiro cega e torna insensível o coração humano diante das necessidades e sofrimentos do próximo. E também dá certa sensação de onipotência, que faz passar por cima da Lei de Deus.

A CF-2010 abordará a questão econômica de maneira não acadêmica e, de certa forma, provocadora, a partir do olhar dos menos beneficiados pelas teorias econômicas convencionais e de critérios que, apesar de esquecidos, são determinantes para alcançar os objetivos prioritários da economia: Pão na mesa, casa, educação, saúde e oportunidades de vida digna para todos os membros da família humana.

Card. Odilo P. Scherer

Arcebispo de São Paulo

Artigo publicado em O ESTADO DE SÃO PAULO, ed. de 14 11 09

Renovação pastoral: Por onde passa?

Arquivado em: Comentário — discipulosemissionarios at 9:39 am on quarta-feira, novembro 4, 2009

O final de um ano pastoral é um tempo propício para a revisão e avaliação do caminho feito e para planejar a próxima etapa. A Arquidiocese teve sua assembléia de pastoral no dia 24 de novembro passado, com a participação de numerosos coordenadores e agentes  das muitas organizações eclesiais e pastorais que enriquecem com seu testemunho a ação da Igreja em nossa cidade. A avaliação sobre a aplicação do 10° Plano de Pastoral mostrou que, aos poucos, vão aparecendo sinais de acolhida da proposta do Plano: ser uma Igreja discípula e missionária na grande cidade de São Paulo. Mas ainda há muito por fazer, até que nos tornemos uma Igreja “em estado permanente de missão”.

Para o próximo ano, portanto, será preciso retomar e aprofundar a proposta do 10° Plano, à luz do Documento de Aparecida e das Diretrizes Gerais da ação evangelizadora da Igreja no Brasil, para avançarmos um pouco mais. A “conversão pastoral” e a mudança de atitudes pastorais são processos lentos e, por vezes, difíceis, mas úteis e necessários. O certo é que não podemos permanecer passivos, ocupando-nos apenas com a “manutenção” daquilo que somos e temos. A Igreja não existe apenas para se manter e cuidar de si mesma: ela existe para a missão, com todas as suas pessoas, instituições e organizações.

A Assembléia de Pastoral examinou uma proposta do Secretariado de Pastoral para a revisão  e reformulação da estrutura organizativa, de coordenação e animação pastoral da Arquidiocese. Por vários anos, a coordenação pastoral esteve organizada em torno e em função das 4 dimensões integrantes da ação pastoral: serviço, diálogo, anúncio e testemunho de comunhão. A avaliação feita mostrou que esta forma de organização, acompanhamento e animação pastoral foi pouco eficaz e não chegou a ter muito efeito prático. A verdade é que essas 4 dimensões são inseparáveis e devem caracterizar todas as ações pastorais.

A nova proposta, considerada boa pela Assembléia, prevê que a coordenação e a animação pastoral sejam organizadas em torno de “Comissões” ou “Coordenadorias”, à semelhança das Comissões pastorais da CNBB. Assim, por exemplo, por uma Coordenadoria pastoral da Juventude poderiam ser incentivadas, acompanhadas e orientadas todas as iniciativas de evangelização e formação da juventude; em torno da Coordenadoria pastoral da Liturgia seriam agrupadas e acompanhadas todas as iniciativas de pastoral litúrgica. De modo semelhante, poderiam ser criadas Coordenadorias pastorais para a catequese, a família, a comunicação, a educação e o ensino religioso, os ministérios ordenados, a vida consagrada, o laicato… Frutos desejados e esperados de semelhante reorganização pastoral poderiam ser a maior organicidade, um dinamismo novo e a maior agilidade na ação evangelizadora.

A proposta foi igualmente examinada, avaliada e considerada boa e promissora pelo Conselho Arquidiocesano de Pastoral (CAP), no dia 30 de novembro passado. Também o Conselho de Presbíteros deverá avaliar a proposta, antes que lhe seja dada forma definitiva e que seja adotada pela Arquidiocese. Certamente, neste caso, haverá a necessidade de uma reestruturação do próprio Secretariado de Pastoral, com seus serviços e funções; novos esforços para a formação de lideranças também não poderão ser dispensados; mas valerão a pena, certamente, e despertarão nova vitalidade e vigor pastoral à nossa Arquidiocese.

Este esforço responde ao pedido da “conversão pastoral” que nos vem da Conferência de Aparecida (cf DAp n. 365ss) e que pede a revisão das estruturas pastorais que hoje se revelam inadequadas para uma evangelização mais eficaz. No entanto, não temos a ilusão de que a mudança de estruturas pastorais, por si só, já possa produzir novo dinamismo e vitalidade pastoral.

O que se faz necessário, ainda mais, é o novo “espírito” que deve impregnar toda a ação da Igreja: uma “firme decisão missionária, a conversão pessoal a Deus e a Cristo, para  um verdadeiro discipulado missionário, a mística da comunhão e da participação e a alegria na comunicação das riquezas da própria fé. “A conversão pastoral requer que as comunidades eclesiais sejam, ao redor de Jesus, comunidades de discípulos missionários” (n. 368). Convido nossa Arquidiocese a fazer progressos, ao longo do próximo ano pastoral, na direção dessa meta.

Card. D. Odilo P. Scherer

Arcebispo de São Paulo

Artigo publicado em O SÃO PAULO, ed. de 03.11.09