Mensagem, pregação e homilias

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE BENTO XVI PARA A CELEBRAÇÃO DO DIA MUNDIAL DA PAZ

1 DE JANEIRO DE 2010

SE QUISERES CULTIVAR A PAZ, PRESERVA A CRIAÇÃO

1. Por ocasião do início do Ano Novo, desejo expressar os mais ardentes votos de paz a todas as comunidades cristãs, aos responsáveis das nações, aos homens e mulheres de boa vontade do mundo inteiro. Para este XLIII Dia Mundial da Paz, escolhi o tema: Se quiseres cultivar a paz, preserva a criação. O respeito pela criação reveste-se de grande importância, designadamente porque «a criação é o princípio e o fundamento de todas as obras de Deus»[1] e a sua salvaguarda torna-se hoje essencial para a convivência pacífica da humanidade. Com efeito, se são numerosos os perigos que ameaçam a paz e o autêntico desenvolvimento humano integral, devido à desumanidade do homem para com o seu semelhante – guerras, conflitos internacionais e regionais, actos terroristas e violações dos direitos humanos –, não são menos preocupantes os perigos que derivam do desleixo, se não mesmo do abuso, em relação à terra e aos bens naturais que Deus nos concedeu. Por isso, é indispensável que a humanidade renove e reforce «aquela aliança entre ser humano e ambiente que deve ser espelho do amor criador de Deus, de Quem provimos e para Quem estamos a caminho».[2]

2. Na encíclica Caritas in veritate, pus em realce que o desenvolvimento humano integral está intimamente ligado com os deveres que nascem da relação do homem com o ambiente natural, considerado como uma dádiva de Deus para todos, cuja utilização comporta uma responsabilidade comum para com a humanidade inteira, especialmente os pobres e as gerações futuras. Assinalei também que corre o risco de atenuar-se, nas consciências, a noção da responsabilidade, quando a natureza e sobretudo o ser humano são considerados simplesmente como fruto do acaso ou do determinismo evolutivo.[3] Pelo contrário, conceber a criação como dádiva de Deus à humanidade ajuda-nos a compreender a vocação e o valor do homem; na realidade, cheios de admiração, podemos proclamar com o salmista: «Quando contemplo os céus, obra das vossas mãos, a lua e as estrelas que lá colocastes, que é o homem para que Vos lembreis dele, o filho do homem para dele Vos ocupardes?» (Sl 8, 4-5). Contemplar a beleza da criação é um estímulo para reconhecer o amor do Criador; aquele Amor que «move o sol e as outras estrelas».[4]

3. Há vinte anos, ao dedicar a Mensagem do Dia Mundial da Paz ao tema Paz com Deus criador, paz com toda a criação, o Papa João Paulo II chamava a atenção para a relação que nós, enquanto criaturas de Deus, temos com o universo que nos circunda. «Observa-se nos nossos dias – escrevia ele – uma consciência crescente de que a paz mundial está ameaçada (…) também pela falta do respeito devido à natureza». E acrescentava que esta consciência ecológica «não deve ser reprimida mas antes favorecida, de maneira que se desenvolva e vá amadurecendo até encontrar expressão adequada em programas e iniciativas concretas».[5] Já outros meus predecessores se referiram à relação existente entre o homem e o ambiente; por exemplo, em 1971, por ocasião do octogésimo aniversário da encíclica Rerum novarum de Leão XIII, Paulo VI houve por bem sublinhar que, «por motivo de uma exploração inconsiderada da natureza, [o homem] começa a correr o risco de a destruir e de vir a ser, também ele, vítima dessa degradação». E acrescentou que, deste modo, «não só o ambiente material se torna uma ameaça permanente – poluições e lixo, novas doenças, poder destruidor absoluto – mas é o próprio contexto humano que o homem não consegue dominar, criando assim para o dia de amanhã um ambiente global que se lhe poderá tornar insuportável. Problema social de grande envergadura, este, que diz respeito à inteira família humana».[6]

4. Embora evitando de intervir sobre soluções técnicas específicas, a Igreja, «perita em humanidade», tem a peito chamar vigorosamente a atenção para a relação entre o Criador, o ser humano e a criação. Em 1990, João Paulo II falava de «crise ecológica» e, realçando o carácter prevalecentemente ético de que a mesma se revestia, indicava «a urgente necessidade moral de uma nova solidariedade».[7] Hoje, com o proliferar de manifestações duma crise que seria irresponsável não tomar em séria consideração, tal apelo aparece ainda mais premente. Pode-se porventura ficar indiferente perante as problemáticas que derivam de fenómenos como as alterações climáticas, a desertificação, o deterioramento e a perda de produtividade de vastas áreas agrícolas, a poluição dos rios e dos lençóis de água, a perda da biodiversidade, o aumento de calamidades naturais, o desflorestamento das áreas equatoriais e tropicais? Como descurar o fenómeno crescente dos chamados «prófugos ambientais», ou seja, pessoas que, por causa da degradação do ambiente onde vivem, se vêem obrigadas a abandoná-lo – deixando lá muitas vezes também os seus bens – tendo de enfrentar os perigos e as incógnitas de uma deslocação forçada? Com não reagir perante os conflitos, já em acto ou potenciais, relacionados com o acesso aos recursos naturais? Trata-se de um conjunto de questões que têm um impacto profundo no exercício dos direitos humanos, como, por exemplo, o direito à vida, à alimentação, à saúde, ao desenvolvimento.

5. Entretanto tenha-se na devida conta que não se pode avaliar a crise ecológica prescindindo das questões relacionadas com ela, nomeadamente o próprio conceito de desenvolvimento e a visão do homem e das suas relações com os seus semelhantes e com a criação. Por isso, é decisão sensata realizar uma revisão profunda e clarividente do modelo de desenvolvimento e também reflectir sobre o sentido da economia e dos seus objectivos, para corrigir as suas disfunções e deturpações. Exige-o o estado de saúde ecológica da terra; reclama-o também e sobretudo a crise cultural e moral do homem, cujos sintomas há muito tempo que se manifestam por toda a parte.[8] A humanidade tem necessidade de uma profunda renovação cultural; precisa de redescobrir aqueles valores que constituem o alicerce firme sobre o qual se pode construir um futuro melhor para todos. As situações de crise que está atravessando, de carácter económico, alimentar, ambiental ou social, no fundo são também crises morais e estão todas interligadas. Elas obrigam a projectar de novo a estrada comum dos homens. Impõem, de maneira particular, um modo de viver marcado pela sobriedade e solidariedade, com novas regras e formas de compromisso, apostando com confiança e coragem nas experiências positivas realizadas e rejeitando decididamente as negativas. É o único modo de fazer com que a crise actual se torne uma ocasião para discernimento e nova projectação.

6. Porventura não é verdade que, na origem daquela que em sentido cósmico chamamos «natureza», há «um desígnio de amor e de verdade»? O mundo «não é fruto duma qualquer necessidade, dum destino cego ou do acaso, (…) procede da vontade livre de Deus, que quis fazer as criaturas participantes do seu Ser, da sua sabedoria e da sua bondade».[9] Nas suas páginas iniciais, o livro do Génesis introduz-nos no projecto sapiente do cosmos, fruto do pensamento de Deus, que, no vértice, colocou o homem e a mulher, criados à imagem e semelhança do Criador, para «encher e dominar a terra» como «administradores» em nome do próprio Deus (cf. Gn 1, 28). A harmonia descrita na Sagrada Escritura entre o Criador, a humanidade e a criação foi quebrada pelo pecado de Adão e Eva, do homem e da mulher, que pretenderam ocupar o lugar de Deus, recusando reconhecer-se como suas criaturas. Em consequência, ficou deturpada também a tarefa de «dominar» a terra, de a «cultivar e guardar» e gerou-se um conflito entre eles e o resto da criação (cf. Gn 3, 17-19). O ser humano deixou-se dominar pelo egoísmo, perdendo o sentido do mandato de Deus, e, no relacionamento com a criação, comportou-se como explorador pretendendo exercer um domínio absoluto sobre ela. Mas o verdadeiro significado do mandamento primordial de Deus, bem evidenciado no livro do Génesis, não consistia numa simples concessão de autoridade, mas antes num apelo à responsabilidade. Aliás, a sabedoria dos antigos reconhecia que a natureza está à nossa disposição, mas não como «um monte de lixo espalhado ao acaso»,[10] enquanto a Revelação bíblica nos fez compreender que a natureza é dom do Criador, o Qual lhe traçou os ordenamentos intrínsecos a fim de que o homem pudesse deduzir deles as devidas orientações para a «cultivar e guardar» (cf. Gn 2, 15).[11] Tudo o que existe pertence a Deus, que o confiou aos homens, mas não à sua arbitrária disposição. E quando o homem, em vez de desempenhar a sua função de colaborador de Deus, se coloca no lugar de Deus, acaba por provocar a rebelião da natureza, «mais tiranizada que governada por ele».[12] O homem tem, portanto, o dever de exercer um governo responsável da criação, preservando-a e cultivando-a.[13]

7. Infelizmente temos de constatar que um grande número de pessoas, em vários países e regiões da terra, experimenta dificuldades cada vez maiores, porque muitos se descuidam ou se recusam a exercer sobre o ambiente um governo responsável. O Concílio Ecuménico Vaticano II lembrou que «Deus destinou a terra com tudo o que ela contém para uso de todos os homens e povos».[14] Por isso, a herança da criação pertence à humanidade inteira. Entretanto o ritmo actual de exploração põe seriamente em perigo a disponibilidade de alguns recursos naturais não só para a geração actual, mas sobretudo para as gerações futuras.[15] Ora não é difícil constatar como a degradação ambiental é muitas vezes o resultado da falta de projectos políticos clarividentes ou da persecução de míopes interesses económicos, que se transformam, infelizmente, numa séria ameaça para a criação. Para contrastar tal fenómeno, na certeza de que «cada decisão económica tem consequências de carácter moral»,[16] é necessário também que a actividade económica seja mais respeitadora do ambiente. Quando se lança mão dos recursos naturais, é preciso preocupar-se com a sua preservação prevendo também os seus custos em termos ambientais e sociais, que se devem contabilizar como uma parcela essencial da actividade económica. Compete à comunidade internacional e aos governos nacionais dar os justos sinais para contrastar de modo eficaz, no uso do ambiente, as modalidades que resultem danosas para o mesmo. Para proteger o ambiente e tutelar os recursos e o clima é preciso, por um lado, agir no respeito de normas bem definidas mesmo do ponto de vista jurídico e económico e, por outro, ter em conta a solidariedade devida a quantos habitam nas regiões mais pobres da terra e às gerações futuras.

8. Na realidade, é urgente a obtenção de uma leal solidariedade entre as gerações. Os custos resultantes do uso dos recursos ambientais comuns não podem ficar a cargo das gerações futuras. «Herdeiros das gerações passadas e beneficiários do trabalho dos nossos contemporâneos, temos obrigações para com todos, e não podemos desinteressar-nos dos que virão depois de nós aumentar o círculo da família humana. A solidariedade universal é para nós não só um facto e um benefício, mas também um dever. Trata-se de uma responsabilidade que as gerações presentes têm em relação às futuras, uma responsabilidade que pertence também a cada um dos Estados e à comunidade internacional».[17] O uso dos recursos naturais deverá verificar-se em condições tais que as vantagens imediatas não comportem consequências negativas para os seres vivos, humanos e não humanos, presentes e vindouros; que a tutela da propriedade privada não dificulte o destino universal dos bens;[18] que a intervenção do homem não comprometa a fecundidade da terra para benefício do dia de hoje e do amanhã. Para além de uma leal solidariedade entre as gerações, há que reafirmar a urgente necessidade moral de uma renovada solidariedade entre os indivíduos da mesma geração, especialmente nas relações entre os países em vias de desenvolvimento e os países altamente industrializados: «A comunidade internacional tem o imperioso dever de encontrar as vias institucionais para regular a exploração dos recursos não renováveis, com a participação também dos países pobres, de modo a planificar em conjunto o futuro».[19] A crise ecológica manifesta a urgência de uma solidariedade que se projecte no espaço e no tempo. Com efeito, é importante reconhecer, entre as causas da crise ecológica actual, a responsabilidade histórica dos países industrializados. Contudo os países menos desenvolvidos e, de modo particular, os países emergentes não estão exonerados da sua própria responsabilidade para com a criação, porque o dever de adoptar gradualmente medidas e políticas ambientais eficazes pertence a todos. Isto poder-se-ia realizar mais facilmente se houvesse cálculos menos interesseiros na assistência, na transferência dos conhecimentos e tecnologias menos poluidoras.

9. Um dos nós principais a enfrentar pela comunidade internacional é, sem dúvida, o dos recursos energéticos, delineando estratégias compartilhadas e sustentáveis para satisfazer as necessidades de energia da geração actual e das gerações futuras. Para isso, é preciso que as sociedades tecnologicamente avançadas estejam dispostas a favorecer comportamentos caracterizados pela sobriedade, diminuindo as próprias necessidades de energia e melhorando as condições da sua utilização. Ao mesmo tempo é preciso promover a pesquisa e a aplicação de energias de menor impacto ambiental e a «redistribuição mundial dos recursos energéticos, de modo que os próprios países desprovidos possam ter acesso aos mesmos».[20] Deste modo, a crise ecológica oferece uma oportunidade histórica para elaborar uma resposta colectiva tendente a converter o modelo de desenvolvimento global segundo uma direcção mais respeitadora da criação e de um desenvolvimento humano integral, inspirado nos valores próprios da caridade na verdade. Faço votos, portanto, de que se adopte um modelo de desenvolvimento fundado na centralidade do ser humano, na promoção e partilha do bem comum, na responsabilidade, na consciência da necessidade de mudar os estilos de vida e na prudência, virtude que indica as acções que se devem realizar hoje na previsão do que poderá suceder amanhã.[21]

10. A fim de guiar a humanidade para uma gestão globalmente sustentável do ambiente e dos recursos da terra, o homem é chamado a concentrar a sua inteligência no campo da pesquisa científica e tecnológica e na aplicação das descobertas que daí derivam. A «nova solidariedade», que João Paulo II propôs na Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1990,[22] e a «solidariedade global», a que eu mesmo fiz apelo na Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2009,[23] apresentam-se como atitudes essenciais para orientar o compromisso de tutela da criação através de um sistema de gestão dos recursos da terra melhor coordenado a nível internacional, sobretudo no momento em que se vê aparecer, de forma cada vez mais evidente, a forte relação que existe entre a luta contra a degradação ambiental e a promoção do desenvolvimento humano integral. Trata-se de uma dinâmica imprescindível, já que «o desenvolvimento integral do homem não pode realizar-se sem o desenvolvimento solidário da humanidade».[24] Muitas são hoje as oportunidades científicas e os potenciais percursos inovadores, mediante os quais é possível fornecer soluções satisfatórias e respeitadoras da relação entre o homem e o ambiente. Por exemplo, é preciso encorajar as pesquisas que visam identificar as modalidades mais eficazes para explorar a grande potencialidade da energia solar. A mesma atenção se deve prestar à questão, hoje mundial, da água e ao sistema hidrogeológico global, cujo ciclo se reveste de primária importância para a vida na terra, mas está fortemente ameaçado na sua estabilidade pelas alterações climáticas. De igual modo deve-se procurar apropriadas estratégias de desenvolvimento rural centradas nos pequenos cultivadores e nas suas famílias, sendo necessário também elaborar políticas idóneas para a gestão das florestas, o tratamento do lixo, a valorização das sinergias existentes no contraste às alterações climáticas e na luta contra a pobreza. São precisas políticas nacionais ambiciosas, completadas pelo necessário empenho internacional que há-de trazer importantes benefícios sobretudo a médio e a longo prazo. Enfim, é necessário sair da lógica de mero consumo para promover formas de produção agrícola e industrial que respeitem a ordem da criação e satisfaçam as necessidades primárias de todos. A questão ecológica não deve ser enfrentada apenas por causa das pavorosas perspectivas que a degradação ambiental esboça no horizonte; o motivo principal há-de ser a busca duma autêntica solidariedade de dimensão mundial, inspirada pelos valores da caridade, da justiça e do bem comum. Por outro lado, como já tive ocasião de recordar, a técnica «nunca é simplesmente técnica; mas manifesta o homem e as suas aspirações ao desenvolvimento, exprime a tensão do ânimo humano para uma gradual superação de certos condicionamentos materiais. Assim, a técnica insere-se no mandato de “cultivar e guardar a terra” (cf. Gn 2, 15) que Deus confiou ao homem, e há-de ser orientada para reforçar aquela aliança entre ser humano e ambiente em que se deve reflectir o amor criador de Deus».[25]

11. É cada vez mais claro que o tema da degradação ambiental põe em questão os comportamentos de cada um de nós, os estilos de vida e os modelos de consumo e de produção hoje dominantes, muitas vezes insustentáveis do ponto de vista social, ambiental e até económico. Torna-se indispensável uma real mudança de mentalidade que induza a todos a adoptarem novos estilos de vida, «nos quais a busca do verdadeiro, do belo e do bom e a comunhão com os outros homens, em ordem ao crescimento comum, sejam os elementos que determinam as opções do consumo, da poupança e do investimento».[26] Deve-se educar cada vez mais para se construir a paz a partir de opções clarividentes a nível pessoal, familiar, comunitário e político. Todos somos responsáveis pela protecção e cuidado da criação. Tal responsabilidade não conhece fronteiras. Segundo o princípio de subsidiariedade, é importante que cada um, no nível que lhe corresponde, se comprometa a trabalhar para que deixem de prevalecer os interesses particulares. Um papel de sensibilização e formação compete de modo particular aos vários sujeitos da sociedade civil e às organizações não-governamentais, empenhados com determinação e generosidade na difusão de uma responsabilidade ecológica, que deveria aparecer cada vez mais ancorada ao respeito pela «ecologia humana». Além disso, é preciso lembrar a responsabilidade dos meios de comunicação social neste âmbito, propondo modelos positivos que sirvam de inspiração. É que ocu-par-se do ambiente requer uma visão larga e global do mundo; um esforço comum e responsável a fim de passar de uma lógica centrada sobre o interesse egoísta da nação para uma visão que sempre abrace as necessidades de todos os povos. Não podemos permanecer indiferentes àquilo que sucede ao nosso redor, porque a deterioração de uma parte qualquer do mundo recairia sobre todos. As relações entre pessoas, grupos sociais e Estados, bem como as relações entre homem e ambiente são chamadas a assumir o estilo do respeito e da «caridade na verdade». Neste contexto alargado, é altamente desejável que encontrem eficaz correspondência os esforços da comunidade internacional que visam obter um progressivo desarmamento e um mundo sem armas nucleares, cuja mera presença ameaça a vida da terra e o processo de desenvolvimento integral da humanidade actual e futura.

12. A Igreja tem a sua parte de responsabilidade pela criação e sente que a deve exercer também em âmbito público, para defender a terra, a água e o ar, dádivas feitas por Deus Criador a todos, e antes de tudo para proteger o homem contra o perigo da destruição de si mesmo. Com efeito, a degradação da natureza está intimamente ligada à cultura que molda a convivência humana, pelo que, «quando a “ecologia humana”é respeitada dentro da sociedade, beneficia também a ecologia ambiental».[27] Não se pode pedir aos jovens que respeitem o ambiente, se não são ajudados, em família e na sociedade, a respeitar-se a si mesmos: o livro da natureza é único, tanto sobre a vertente do ambiente como sobre a da ética pessoal, familiar e social.[28] Os deveres para com o ambiente derivam dos deveres para com a pessoa considerada em si mesma e no seu relacionamento com os outros. Por isso, de bom grado encorajo a educação para uma responsabilidade ecológica, que, como indiquei na encíclica Caritas in veritate, salvaguarde uma autêntica «ecologia humana» e consequentemente afirme, com renovada convicção, a inviolabilidade da vida humana em todas as suas fases e condições, a dignidade da pessoa e a missão insubstituível da família, onde se educa para o amor ao próximo e o respeito da natureza.[29] É preciso preservar o património humano da sociedade. Este património de valores tem a sua origem e está inscrito na lei moral natural, que é fundamento do respeito da pessoa humana e da criação.

13. Por fim não se deve esquecer o facto, altamente significativo, de que muitos encontram tranquilidade e paz, sentem-se renovados e revigorados quando entram em contacto directo com a beleza e a harmonia da natureza. Existe aqui uma espécie de reciprocidade: quando cuidamos da criação, constatamos que Deus, através da criação, cuida de nós. Por outro lado, uma visão correcta da relação do homem com o ambiente impede de absolutizar a natureza ou de a considerar mais importante do que a pessoa. Se o magistério da Igreja exprime perplexidades acerca de uma concepção do ambiente inspirada no ecocentrismo e no biocentrismo, fá-lo porque tal concepção elimina a diferença ontológica e axiológica entre a pessoa humana e os outros seres vivos. Deste modo, chega-se realmente a eliminar a identidade e a função superior do homem, favorecendo uma visão igualitarista da «dignidade» de todos os seres vivos. Assim se dá entrada a um novo panteísmo com acentos neopagãos que fazem derivar apenas da natureza, entendida em sentido puramente naturalista, a salvação para o homem. Ao contrário, a Igreja convida a colocar a questão de modo equilibrado, no respeito da «gramática» que o Criador inscreveu na sua obra, confiando ao homem o papel de guardião e administrador responsável da criação, papel de que certamente não deve abusar mas também não pode abdicar. Com efeito, a posição contrária, que considera a técnica e o poder humano como absolutos, acaba por ser um grave atentado não só à natureza, mas também à própria dignidade humana.[30]

14. Se quiseres cultivar a paz, preserva a criação. A busca da paz por parte de todos os homens de boa vontade será, sem dúvida alguma, facilitada pelo reconhecimento comum da relação indivisível que existe entre Deus, os seres humanos e a criação inteira. Os cristãos, iluminados pela Revelação divina e seguindo a Tradição da Igreja, prestam a sua própria contribuição. Consideram o cosmos e as suas maravilhas à luz da obra criadora do Pai e redentora de Cristo, que, pela sua morte e ressurreição, reconciliou com Deus «todas as criaturas, na terra e nos céus» (Cl 1, 20). Cristo crucificado e ressuscitado concedeu à humanidade o dom do seu Espírito santificador, que guia o caminho da história à espera daquele dia em que, com o regresso glorioso do Senhor, serão inaugurados «novos céus e uma nova terra» (2 Pd 3, 13), onde habitarão a justiça e a paz para sempre. Assim, proteger o ambiente natural para construir um mundo de paz é dever de toda a pessoa. Trata-se de um desafio urgente que se há-de enfrentar com renovado e concorde empenho; é uma oportunidade providencial para entregar às novas gerações a perspectiva de um futuro melhor para todos. Disto mesmo estejam cientes os responsáveis das nações e quantos, nos diversos níveis, têm a peito a sorte da humanidade: a salvaguarda da criação e a realização da paz são realidades intimamente ligadas entre si. Por isso, convido todos os crentes a elevarem a Deus, Criador omnipotente e Pai misericordioso, a sua oração fervorosa, para que no coração de cada homem e de cada mulher ressoe, seja acolhido e vivido o premente apelo: Se quiseres cultivar a paz, preserva a criação.

Vaticano, 8 de Dezembro de 2009.

Homilias

“Como Maria viveu o Sacerdócio do seu Filho, Jesus Cristo”

Homilia na Peregrinação Internacional de Outubro - 13 de Outubro de 2009

1. Neste Ano Sacerdotal, quando o País inteiro se prepara para receber o Sucessor de Pedro, cabeça do Colégio dos Apóstolos, somos convidados a interiorizar essa manifestação inaudita do amor de Deus pela humanidade, que é a dimensão sacerdotal, cuja plenitude se exprimiu em Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Maria, que pela Sua vida e pela a Sua morte reconduziu definitivamente todos os homens à intimidade com Deus, Trindade Santíssima, comunhão de amor. Esta função sacerdotal, plenamente realizada por Jesus Cristo, é vivida pela Igreja, Povo Sacerdotal, a que preside, de forma perene e definitiva, o próprio Jesus Cristo, através daqueles a quem consagrou pelo Espírito Santo para exercer, em seu nome, as funções sacerdotais da Igreja, Povo de Deus. Pelo lugar especialíssimo que ocupa na vida e missão de Jesus Cristo, assim como na Igreja, que a aclama como sua Mãe, porque é o seu “ícone” inspirador, queremos contemplar a participação de Maria no sacerdócio do seu Filho Jesus Cristo. Toda a Igreja, povo sacerdotal e todos os sacerdotes que tornam presente na Igreja o sacerdócio de Jesus Cristo, podem contemplá-la como Mãe e modelo, encontrando nela as expressões próprias da atitude sacerdotal.

2. O sacerdócio é um mistério de amor, do amor infinito de Deus pelo homem que criou à sua imagem, que destinou a partilhar, na intimidade com Ele, a comunhão de amor, onde encontrará a plenitude da vida. Desse desígnio eterno o homem afastou-se e continua a afastar-se pelo pecado. O sacerdócio resume toda a pedagogia salvífica de Deus: suscita na humanidade o fermento dessa vocação sublime de amor; apesar do pecado, renuncia aos critérios do mundo e deixa-se guiar pela Palavra do Senhor, oferecendo-lhe a sua vida e aprendendo a vivê-la como expressão de louvor. Para isso escolheu e formou um Povo a que o Profeta Isaías chama “linhagem que o Senhor abençoou” (Is. 61,9). Expressão de Deus em favor da humanidade, o Povo de Deus é, na sua identidade mais profunda, um povo sacerdotal, capaz de reconhecer o amor salvífico de Deus e de se assumir como um Povo que louva o Senhor.

O sacerdócio é um mistério de amor, do infinito amor de Deus pelo Seu Povo, que volta a poder desejar a plenitude do amor, em Deus, e volta a ser capaz de viver a vida neste mundo, como antecipação dessa plenitude final. O Santo Cura d’Ars, de quem celebramos este ano os 150 anos da sua morte, escreveu um dia: “Oh, o padre tem alguma coisa de grande. Não se compreenderá bem o sacerdócio senão no Céu. Se o compreendêssemos na Terra, morreríamos, não de espanto, mas de amor” .

Mas não foi apenas um santo sacerdote que reconheceu que o sacerdócio é um mistério de amor. Santa Teresa de Lisieux, uma humilde carmelita, sente-se devorada pelo desejo de contribuir para a salvação do mundo, quereria ser apostola desde o princípio do mundo até à escatologia e quereria dar toda a sua vida derramando o sangue como os mártires. Mas Deus fez-lhe perceber, lendo São Paulo, que, no amor, ela poderia ser tudo isso e escreve: “compreendi que a Igreja tem coração, um coração ardente de amor; compreendi que só o amor fazia actuar os membros da Igreja e que, se o amor viesse a extinguir-se, nem os apóstolos continuariam a anunciar o Evangelho, nem os mártires a derramar o seu sangue; compreendi que o amor encerra em si todas as vocações, que o amor é tudo e que abrange todos os tempos e lugares, numa palavra, que o amor é eterno. E então (…) exclamei: a minha vocação é o amor” .

Nem podemos imaginar a intensidade com que Maria amou o mundo, encarnando a intensidade do amor salvífico de Deus. Essa intensidade comoveu o próprio coração de Deus, a ponto de o mensageiro divino a saudar como a “cheia de graça”, aquela que vive a plenitude do amor. Na sua vocação, ao aceitar o chamamento de Deus, onde ela identifica o desígnio salvífico, ao partilhar com o seu Filho o sacrifício redentor, Maria viveu, na radicalidade do seu coração o amor sacerdotal. Como mais tarde a Igreja, ela percebeu e aceitou que a sua vocação e a sua missão era o amor.

3. A dimensão sacerdotal do Povo de Deus e as suas instituições inserem-se no dinamismo da redenção, levando um Povo “que o Senhor abençoou” a recuperar a sua vocação primordial de comunhão com Deus. No desígnio de salvação, esta não consiste, apenas, na plenitude escatológica. A comunhão com Deus é para ser vivida já neste mundo, pois ela define o mistério da vida. O primeiro fruto da dimensão sacerdotal é levar o Povo a louvar o Senhor, em tudo o que se é e o que se faz: rezando, toda a Liturgia é um acto de louvor, praticando o amor e a justiça, proclamando as maravilhas de Deus. Israel e a Igreja são chamados a ser um povo que louva o Senhor. A primeira manifestação desse louvor é reconhecer a acção de Deus em favor do Seu Povo, na consciência de que, sem Deus, os homens não conseguem ultrapassar a fronteira entre o pecado e a graça. A confissão de fé dos crentes de Israel é recordar, fazer memória, das maravilhas que Deus realizou em favor do seu Povo. Encontramos na primeira leitura que escutámos (Is. 61, 9-11) essa atitude de louvor: “Exulto de alegria no Senhor, a minha alma rejubila no meu Deus, que me revestiu com as vestes da salvação e me envolveu num manto de Justiça”. O Profeta Isaías sente essa misericórdia de Deus como expressão da sua ternura amorosa: “Como o noivo que cinge a fronte com o diadema e a noiva que se adorna com as suas jóias”.

Reconhecer e fazer memória da acção salvífica de Deus é a essência da dimensão sacerdotal. A própria Eucaristia, principal expressão do Povo Sacerdotal, onde se tona clara a especificidade do ministério dos sacerdotes e da sua convergência com a oferta do Povo Sacerdotal, é a memória da acção decisiva de Deus, em Jesus Cristo, para a salvação da humanidade. Maria fá-lo espontaneamente, assumindo atitude sacerdotal, ao reconhecer as maravilhas que Deus realiza nela e que relaciona com as maravilhas que fez em favor do seu Povo: “A minha alma glorifica o Senhor… o Todo Poderoso fez em mim maravilhas, Santo é o seu Nome… acolheu a Israel seu servo, lembrado da sua misericórdia, como tinha prometido a nossos pais” (cf. Lc. 1,46-55).

4. A dimensão sacerdotal exprime-se, também, na oferta a Deus de sacrifícios de louvor. A melhor expressão do louvor que o homem pode ter é oferecer a sua vida a Deus e viver a vida de modo digno para ser oferecida. São Paulo pede isso aos cristãos de Roma, como ouvimos na segunda leitura: “Peço-vos, irmãos, pela misericórdia de Deus, que vos ofereçais a vós mesmos, como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus, como culto espiritual” (Rom. 12,1). A consciência teológica de Israel vai percebendo que na oferta pura que o justo faz da sua vida a Deus, ele merece a redenção dos seus irmãos. Encontramos a plenitude desta oferta sacerdotal da própria vida, no sacrifício de Cristo de que a Igreja faz memória sempre que celebra a Eucaristia.

Esta oferta total da própria vida, Maria fá-la desde o momento em que disse a Deus: “faça-se em mim segundo a tua Palavra” e radicaliza-a, para todo o sempre, aos pés da Cruz de seu Filho, oferecendo-O e oferecendo-se com Ele. Ela é verdadeiramente co-redentora. Este sacrifício perene de Jesus Cristo, não se repete, mas actualiza-se, como se fosse oferecido hoje, no poder sacramental da Igreja na Eucaristia e na presença amorosa de Maria na Igreja. A memória viva que guarda no seu coração daquele momento decisivo do Calvário é também uma forma de lhe dar actualidade na vida da Igreja. Com a Igreja, Maria oferece e oferece-se em cada Eucaristia.

5. Proclamar a Palavra que nos revela o amor de Deus e levar o povo a escutá-la e a segui-la, pondo-a em prática, é outra expressão da dimensão sacerdotal. Esta dimensão viveram-na apaixonadamente os profetas, deve devorar o coração dos sacerdotes que também são profetas. Maria é, também neste aspecto da dimensão sacerdotal uma estrela que nos guia. “Eu sou a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua Palavra” (Lc. 1,18). E nas Bodas de Caná convida os criados: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo. 2,5). Esse é o desafio que a Igreja, Povo Sacerdotal, faz ao mundo a que é enviada: escutai o que Deus vos diz; fazei tudo o que Ele vos disser.

6. A dimensão sacerdotal é, no meio dos homens, a manifestação da solicitude de Deus pelas necessidades do Povo e de cada um. Ele é o pastor do seu Povo, conhece as suas ovelhas, sabe do que precisam, cuida das doentes e das débeis, vai à procura delas, carrega aos ombros a que está ferida. Esta atenção à vida concreta de cada homem é desafio a toda a Igreja, Povo Sacerdotal, é-o particularmente para nós, sacerdotes, chamados a sermos presenças vivas de Cristo Bom Pastor. Nas Bodas de Caná, Maria mostra essa atitude pastoral de atenção ao pequeno-grande problema que afligia os esposos. Mostra-o quando diz a Jesus: “não têm vinho” (Jo. 2,5). Que solicitude, que atenção ao pormenor, que capacidade de avaliar um problema pessoal.

7. O sacerdócio é a expressão do amor de Deus e hoje sabemos o seu nome: é o Espírito Santo, o que realiza toda a obra de Deus em favor do seu Povo. O Espírito Santo é o segredo da acção sacramental. Todos os membros da Igreja são sacerdotes porque são ungidos pelo Espírito Santo. Os sacerdotes são ungidos e consagrados pelo Espírito na sua ordenação. E todos sabemos que a fecundidade sacerdotal é obra do Espírito Santo, a certeza da Igreja de “que a Deus nada é impossível”. Contemplemos a missão de Maria como um sacerdócio, em dois momentos da salvação a acontecer. Na Anunciação, o Anjo diz a Maria: “O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a Sua sombra” (Lc. 1,35). E, na Eucaristia, antes da consagração do Pão e do Vinho, o sacerdote reza assim: “santificai estes dons, derramando sobre eles o vosso Espírito, para que se convertam, para nós, no Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Euc. II). De facto a Deus nada é impossível. A acção do Espírito em Maria prolonga-se na acção da Igreja, no seu poder sacerdotal. O amor de Deus continua a transformar a história.

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

Peregrinação Internacional Aniversária de Setembro

Homilia da Eucaristia de 13.09.2009, celebrada no Recinto de Oração do Santuário de Fátima

Irradiante e convincente beleza espiritual de Maria

1. A sede de maravilha, de admiração, é uma constante dos corações, constitui um peregrinar incessante da alma humana. Na arte, na poesia, na ternura da relação humana buscamos saciar esta sede de encanto.

A Igreja vai ao encontro desta busca ao convidar-nos, nesta liturgia, a contemplar, com íntima alegria, a beleza espiritual de Maria, a candura de Maria Imaculada. Para nós, a beleza consiste na santidade, em ser imagem da bondade e da fidelidade de Cristo, o mais santo e, por isso, “o mais belo entre os filhos dos homens” (Sl 44,3). Depois de Cristo, todo o esplendor das criaturas, plasmadas pelo Espírito criador de Deus, se reflecte no fulgor espiritual de Santa Maria. Ela é “espelho inefável de um pensamento de divina perfeição”, como disse Paulo VI, que, como poucos, delineou com vigor o vibrar da beleza espiritual de Maria. Nesta criatura vemos a luz irradiante do Espírito, graças à obra do artífice divino, do Supremo artista do universo. Em Maria, nós, Povo de Deus, reconhecemos o modelo realizado da verdade original a que os crentes são chamados, por puro dom de Deus.

Esta celebração canta e transpõe para Maria a sapiência divina. Na sua boca, como sede da Sabedoria incarnada, colocamos expressões sublimes como a de hoje: “Eu sou a mãe do amor formoso”. “Em mim está toda a graça do caminho e da verdade, em mim está toda a esperança da vida e da virtude”. Estes deliciosos textos da Sagrada Escritura tratam da sapiência divina, poeticamente personificada, como base das coisas criadas. A singular beleza de Maria decorre de ser expressão corpórea da beleza invisível.

Nela brilha o Hóspede que a habita, porque traz no seio e esplendor do Novo Adão. Nela começam a manifestar-se as maravilhas de Deus que o Espírito Santo realizará em Cristo e na sua Igreja. Para reconstruir o paraíso perdido, a primeira célula desse mundo novo será Maria, admirável mãe de Jesus.

2.Porque lhe chamamos formosa?

- Santa Maria é formosa, antes de mais, por ser “cheia de graça”, “adornada com os dons do Espírito Santo” (Col 3), plena da harmonia dos bens encantadores de Deus. “Alegra-te, cheia de graça“ é a saudação de inefável e exultante júbilo do mensageiro Gabriel. É significativo que a primeira expressão dirigida à Graciosíssima, no Novo Testamento, seja um convite à alegria, à formosura vibrante da graça de Deus. Como não há-de gozar de trepidante alegria aquela da qual nascerá Jesus, a alegria de todos os povos, o mais engraçado, o mais belo na plenitude de humanidade, imagem perfeita da santidade do Altíssimo. A beleza das coisas terrenas é pálida diante do fulgor da superabundante vida de Deus que habita Maria. A sua vocação única implica uma vontade de amor singular da parte de Deus-amor, que lhe oferece gratuitamente as primícias da plenitude da graça. Inaugurou-se um novo regime de beleza. Se Moisés, os patriarcas e profetas tiveram graça aos olhos de Deus, quanto mais a alma de Maria cheiinha, envolvida e plasmada pela beleza encantadora de Deus. Porque, agora, era a raiz da sua existência, o núcleo profundo da sua realidade que acolhia o Senhor, dava morada à Palavra.

- Santa Maria é também formosa por amar com amor formoso a Deus, a Cristo e a toda a humanidade. Deus primou nesta criatura toda a eficácia da sua graça. Em Maria tem início a maior das obras de Deus, na história humana e na vida do mundo. Mas não se reduz a uma perfeição pessoal, antes ordena-se a outros e atrai. A missão nova da cheia de graça, da mãe formosa corresponde a uma vasta e plena qualidade excepcional do seu amor, do seu programa de vida, dos traços admiráveis da sua maternidade virginal. Porque a beleza cristã não se separa da bondade, o cristão é chamado a fazer resplandecer Deus na própria vida. Ora a mais luminosa e irradiante realização é Maria, que atinge o auge, acima de qualquer ser humano.

- A Mãe de Cristo é, ainda, formosa por aderir e participar de modo admirável no mistério do seu nascimento, vida, morte e ressurreição, aderindo “com fortaleza e suavidade, com harmonia e fidelidade ao plano salvador de Deus”. (IGREJA CATÓLICA. Liturgia - Missas da Virgem Santa Maria: Missal. Coimbra: CEP, 1997, p.173). Esta plena adesão mostra a integridade da sua sublime beleza. Em todas as estruturas e dinamismos do seu ser é imagem da pureza absoluta, é luz brilhante, harmonia plena, integridade total. Esta beleza fora de série é densa e convincente. Realmente, uma obra-prima assim tem força de convicção irresistível e conquista os corações, mesmo rebeldes. Até incrédulos reconhecem em Maria uma beleza inatacável.

3. Caríssimos peregrinos:

Não é uma doçura descobrir em Maria como a transparência divina é uma possibilidade em nós? De facto, diz a Palavra hoje proclamada: “Quem trabalha comigo não pecará” porque o pecado é feio. “A vontade de Deus é que eviteis a impureza”. Deus não nos chamou para a impureza mas para a santidade. Este Santuário, ao escolher como tema deste mês: “o pudor protege o mistério da pessoa e do seu amor”, integrado no tema do ano: “os puros de coração verão a Deus”, está a indicar-nos um caminho, uma via de beleza para que quem escuta a Palavra: “Saiba possuir o seu corpo em santidade e honra, sem se deixar levar pelas paixões desregradas”. Encontrar a harmonia no corpo é uma graça que evita muitas desgraças, estragos da dignidade humana, deturpação do projecto belo e bom do nosso Deus.

A ausência de pudor conduz à provocação sedutora. A busca de excitação sensual no modo de vestir não condiz com a autêntica atracção, conduz a perder o verdadeiro fascínio que existe em cada criatura humana, banaliza a dignidade do corpo.

Há tanta diferença entre o fascínio de um olhar sorridente e puro, que aprecia a beleza humana e se eleva, e a sensualidade possessiva, que perturba, agita e desregula os comportamentos! Há tanta diferença entre o encanto da beleza inocente que suaviza a vida e a malícia do olhar, produto de mente obscurecida! Quando projectos políticos apenas ratificam a decadência humana, em lugar de dignificar a qualidade de vida e elevar o nível das relações e dos vínculos entre as pessoas, contribuem para tornar a vida feia e confundir as mentes.

Nós aqui estamos a contemplar Maria para purificar o nosso olhar. Como modelo inspirador e esperança consoladora, na beleza que nela resplandece, lavamos as seduções que nos arrastam e prendem, as atracções que nos desviam da fidelidade, as tentações que conduzem à perda da bela harmonia do corpo. Pelas lágrimas da penitência recuperamos a visão da beleza divina, falseada ou perdida nos desvarios contemporâneos. Temos necessidade de fixar a beleza de Maria porque os nossos olhos são ofendidos por imagens enganadoras de caducos e ilusórios impulsos. Precisamos de restaurar, nas nossas mentes e nos costumes à nossa volta, a experiência feliz do que é verdadeiramente belo. A Senhora de Fátima irradia para nós atitudes puras, grandes, fortes.

Perante esta criatura tão estupenda, tenho que terminar louvando a glória de Deus.

Te louvamos, Deus de infinita beleza, por esta “Senhora mais brilhante que o sol”. É luz inspiradora para redimirmos o nosso olhar de qualquer marca de falsa e inferior beleza. Seduz homens e mulheres para a santidade, como atrai artistas e poetas para a Beleza incontaminada. Motiva, qual Mãe do amor formoso, as comunidades cristãs a caminhar na perfeição, como concede aos doentes sentido e serenidade. Liberta a nossa consciência política para nos batermos, com determinação, por um Portugal e um mundo orientados por ideais dignos e nobres, mobilizadores da responsabilidade de todos, na alegria de unir vontades para ser mais belo viver.

D. Carlos Moreira Azevedo

Bispo auxiliar de Lisboa

Peregrinação Internacional Aniversária de Setembro

Homilia da Eucaristia de 12.09.2009, celebrada no Recinto de Oração do Santuário de Fátima

Descobrir o sentido da cruz: prosseguir, com Maria, em sacerdotal entrega pelos outros

1.Perante os discípulos, Jesus lança a interrogação fundamental sobre a sua identidade. Alguns quiseram ir embora quando falou do pão da vida e não entenderam essa linguagem. Implicava dar a vida em alimento. Agora, o que constará para aí de Jesus? Pedro, contra as sondagens, afirma a verdade: Tu és o Messias. Pedro dá uma resposta pelo grupo, pelo povo nascente nos discípulos acolhedores do mistério de Jesus. Também Maria, ao dar uma resposta de fé ao projecto de Deus, exerce a missão de representar a humanidade. Em nome dessa humanidade é que Ela foi convidada a pronunciar o seu “sim”, a aderir ao plano de Deus e não aos seus interesses. No dinamismo da aliança entre Deus e a humanidade, quando alguém, como Maria e como Pedro, respondem com a sua decisão empenham todo o género humano. Maria e Pedro representam-nos como comunidade. Assim dão o primeiro passo que consiste em reconhecer Cristo.

2.Com Maria de Nazaré, os discípulos descobrem e confirmam o que ia passando pelo seu espírito, no seguimento de Jesus de Nazaré. Jesus, contudo, não fica embevecido na confissão, mas com uma clareza fantástica, previne: olhai que isto de ser Messias não vai ser como pensais. Com frontalidade pouco diplomática, sem deixar lugar a enganos, anuncia o caminho da sua paixão, do sofrimento. É uma linguagem ainda mais directa do que a do pão da vida, embora a mensagem seja idêntica. Cristo quer discípulos que unam fé reconhecida por palavras com obras vividas.

Anuncia, então, a realidade do sofrimento, sem rodeios, directamente. Parece desarmar o entusiasmo dos discípulos. Mal descobrem que seguiam o Messias esperado, vem o que não contavam. Esse Messias não tem contornos de triunfalismo esmagador, que liberta forçosamente de todo o domínio da maldade. E o desapontamento dos discípulos não termina aqui. É que Jesus, depois de aplicar a si a continuidade com o servo sofredor do profeta Isaías, que dá a cara aos perseguidores e não recua medroso diante da adversidade, engloba os seus discípulos no mesmo barco. Quem quiser segui-lo não pense que tem diferente sorte. Os condicionamentos da condição humana, para além dos culturais, político-económicos, são muitas vezes adversos à perspectiva de Deus e dos seus enviados. Ora nós, como discípulos de Cristo, não somos retirados do sofrimento, mas a cruz é sinal de identidade da nossa vida interior. Somos seguidores de quem, como o Mestre, nos fala claro, sem fazer promessas vagas de felicidade, antes apontando o caminho da cruz.

3.Como pode o cristianismo espalhar-se, pelos quatros cantos da terra, a anunciar que a cruz é uma dimensão fundamental do verdadeiro cristão?

“O Senhor Deus é que me assiste” (Is.50,10), vem em meu auxílio, está perto de mim, defende-me. Assim nos aquietava o salmo. Realmente, Deus virá em nosso auxílio, não nos sentiremos confusos. A fortaleza moral permite resistir. Deus inspira a defesa perante o tribunal das razões mundanas que nos julgam. Confiemo-nos e entreguemo-nos à oração e, como servos seguidores do Deus de Jesus, ultrapassaremos os ultrajes e as afrontas. Quem se oferece, em sacrifício, para cumprir a vontade de Deus será salvo.

Neste ano sacerdotal, aqui, reavivamos a consciência de ser povo sacerdotal. Aqui, oferecemos ao Senhor nosso Deus o sofrimento e as renúncias ao mal. Aqui, o Senhor nos ajuda a entregar a vida toda e a oferecê-la, a dar sentido à cruz e a torná-la gesto redentor. Maria ensina-nos a renunciar a nós mesmos sem sermos gente frustrada, a levar a cruz sem sentir a vida mutilada?

A Mãe da Igreja, sinal do cuidado materno de Deus por nós, leva cada pessoa a identificar-se com Cristo, a participar na vida de Cristo, Messias de Deus vivo. Ser cristão é uma frontalidade que a nossa condição humana não acolhe imediatamente. A força de Deus nos anime para a coragem de tomar a cruz e nos encaminharmos para a Ressurreição. Quem perder a vida pela Boa-Nova há-se salvá-la. Mergulhar na morte e glorificação de Cristo é encontrar a possibilidade de dar à própria vida o cume da eficácia, com a entrega de obras concretas que demonstram a fé.

Não é por gosto que defendemos perspectivas diferentes para encarar o sofrimento e a doença, os males da vida e a morte. Não é por gosto de sofrer. Não é por tradição ultrapassada que não sabe ser moderna e actualizada. É por fidelidade à verdade da pessoa humana. Não podemos desviar o rosto dos que nos insultam ou cospem nos nossos princípios.

4.Ser peregrinos deste Santuário nos anima para resistir, em momentos difíceis e dolorosos; nos impulsiona a lutar sem tréguas pela justiça; nos incentiva a prosseguir na oferta pelos outros, no sacrifício feliz pelo bem do próximo, a tratar carinhosamente dos doentes, dos presos, dos postos de lado. Entregar-se pelos outros é essencial na proposta de Jesus. Foi o que os pastorinhos descobriram na mensagem de Maria.

Maria aparece, diante de nós, como uma vida profética: palavras, gestos e acções unem-se na sua verdade inteira. Maria acredita profundamente e compromete-se inteiramente. Cada sua acção exprime fé ardente, a sua presença discreta e silenciosa é acto de amor.  É por isso natural que Maria fale à Igreja e cada um de nós, como acontece aqui, em Fátima. O seu silêncio é activo, adorante da Palavra que nela se faz Vida.

Não sentis a Senhora de Fátima a dizer-vos ao ouvido:

- escuta o meu Jesus e segue os interesses de Deus Pai,

- acolhe a tua cruz, alivia a cruz de quem vive contigo,

- oferece-te para renovar a Igreja,

- entrega-te por um Portugal mais livre e justo,

- colabora na construção de um mundo novo?

D. Carlos Moreira Azevedo

Bispo auxiliar de Lisboa

13 de Agosto: Homilia proferida por D. Alexandro Ruffinoni,

bispo auxiliar de Porto Alegre / Brasil, responsável pela Pastoral dos responsável pela Pastoral dos Brasileiros no Exterior, 2009-08-11

1ª leitura: Prov 8, 17-21.34-35
2ª leitura: Col 3, 1-5
Evangelho: Lc 2, 15b-19

“Migram os pássaros e os animais, levados pelo instinto; migram as sementes nas asas dos ventos; migram as plantas de continente a continente, levadas pelas correntes das águas e, mais que todos, migra o homem, instrumento daquela Providência que preside e guia os destinos humanos, para a meta, que é o aperfeiçoamento do homem e a glória de Deus” (Scalabrini).

Assim o Pai e Apóstolo dos migrantes, João Batista Scalabrini, via as migrações: um instrumento da Providência para espalhar no mundo a fé, o progresso e a solidariedade.

Na carta a Diogneto está escrito: “Para o cristão toda terra estrangeira é pátria e toda pátria é terra estrangeira…. o cristão habita a terra, mas é cidadão do céu”.

É intenso e profundo pensar num mundo sem fronteiras, sem a palavra estrangeiro, pois esta é uma palavra triste, fria, uma palavra que separa e divide…

Na Igreja ninguém é estrangeiro, disse o Papa João Paulo II°, todos somos irmãos e irmãs, filhos e filhas do mesmo Pai.

Jesus disse: “Não vos chamo servos… mas vos chamo amigos…”. Somos todos da mesma família de Deus. A Igreja é mãe e como mãe acolhe a todos e aceita todas as etnias.

Não me perguntem quantos idiomas eu falo, porque para o migrante, há apenas dois idiomas. O idioma de Caim e o de Abel. O de Caim é o do ódio, da inveja, da humilhação, do engano, do aproveitamento, da esperteza, da prisão, da deportação, das patrulhas,das rondas… Já o idioma de Abel é o do amor, da acolhida, da solidariedade, do perdão, da fraternidade, da administia… Não importa se sou italiano, português, brasileiro, americano, chinês ou japonês. Aquilo que é realmente importante é que somos todos feitos a imagem e semelhança de Deus.

Neste contexto, poderíamos nos perguntar: Que sentido tem esta peregrinação dos migrantes ao Santuário de Fátima? Por que reunir tanta gente ao redor de uma mesa eucarística, na casa da nossa Mãe comum, Maria Santíssima? Os motivos são muitos, queridos irmãos e irmãs. A Igreja como demonstração de amor e carinho, quer dizer aos seus filhos e filhas que reconhece a trajetória de cada um; que não os esqueceu, apesar de estarem longe, dispersos pelo mundo inteiro; que os acompanha com sua prece, para que não cansem e não desanimem na busca de uma vida melhor.

A Igreja, hoje e sempre, quer dizer, também, a todos vocês e a todos os migrantes do mundo um muito obrigado pelo trabalho realizado, pela contribuição com o progresso das nações que os acolhem. Vocês são sementes de Deus que espalham com a sua vida e o seu testemunho a fé, os costumes e as tradições de sua pátria, enriquecendo, assim, os povos com os quais estão convivendo.

Vocês são como os pastores de Belém, que após haverem visto e adorado a Jesus na manjedoura partiram para proclamar as maravilhas de Deus. Muita gente ao receber, vocês migrantes, se contagia com sua fé e acredita em Deus. Vocês partiram como simples discípulos e pastores e tornaram-se grandes missionários em nosso mundo. Quantas lindas histórias poderia aqui contar de migrantes que plantaram no meio da floresta, no meio das grandes metrópoles, nas planícies e nos montes, com a ajuda de um simples quadro, ou imagem, um grande santuário ou uma grande Catedral ao redor dos quais se desenvolveram uma fé e uma tradição cristã. Em viagens ao Japão e aos Estados Unidos constatei como a presença dos migrantes é uma forte contribuição para o crescimento de valores cristãos e humanos entre as pessoas.

Por isso, o migrante nunca pode ser considerado como um problema, nem pela Igreja, nem pelo Estado que o acolhe, e sim uma riqueza de grande valor de que devemos agradecer a Deus.

Na recente Encíclica Caritas in Veritate, o Papa Bento XVI chama a atenção para o fenômeno das migrações na contemporaneidade. “É um fenômeno impressionante pela quantidade de pessoas envolvidas, pelas problemáticas sociais, económicas, políticas, culturais e religiosas que levanta, pelos desafios dramáticos que coloca às comunidades nacional e internacional. Pode-se dizer que estamos perante um fenômeno social de natureza epocal, que requer uma forte e clarividente política de cooperação internacional para ser convenientemente enfrentado. Esta política há-de ser desenvolvida a partir de uma estreita colaboração entre os países donde partem os emigrantes e os países de chegada; há-de ser acompanhada por adequadas normativas internacionais capazes de harmonizar os diversos sistemas legislativos, na perspectiva de salvaguardar as exigências e os direitos das pessoas e das famílias emigradas e, ao mesmo tempo, os das sociedades de chegada dos próprios emigrantes. Nenhum país se pode considerar capaz de enfrentar, sozinho, os problemas migratórios do nosso tempo (…). Todo o imigrante é uma pessoa humana e, enquanto tal, possui direitos fundamentais inalienáveis que hão-de ser respeitados por todos em qualquer situação” (62).

Também no Documento de Aparecida (maio 2007) os Bispos Latino-americanos e Caribenhos recordam o dever do acompanhamento pastoral dos migrantes, afirmando: “Entre as tarefas da Igreja em favor dos migrantes está a denúncia profética dos atropelos que eles sofrem frequentemente. Como Igreja que ama seus filhos devemos nos esforçar para conseguir uma política migratória que leve em consideração os direitos das pessoas em mobilidade” (DAp 414).

A Igreja, dioceses e paróquias, deve dar o exemplo para uma melhor acolhida dos migrantes, ajudando os fiéis a superar preconceitos e prevenções. Ela é chamada a ser encontro fraterno e pacífico, casa de todos, edifício sustentado pela verdade, pela justiça, pela caridade e pela liberdade (João XXIII). Onde está o povo que sofre e trabalha, aí deve estar a Igreja (Scalabrini)

O migrante não é um estrangeiro, mas um mensageiro de Deus que surpreende e rompe a regularidade e a lógica da vida cotidiana. No migrante a Igreja vê Cristo que “coloca a sua tenda no meio de nós” (Jo 1,14) e que “bate à nossa porta (Ap 3,20).

Feliz daquele povo que sabe acolher e abrir a porta ao migrante, porque encontrará mais paz e alegria.

Uma palavra, agora, aos migrantes Brasileiros presentes nesta peregrinação e que encontraram, nesta nação, acolhida e trabalho. Como bispo encarregado pela CNBB  da pastoral dos migrantes brasileiros no exterior (PBE), quero dizer-lhes que a Igreja do Brasil é orgulhosa de todos vocês, pela sua fé, pelo trabalho e pelo espírito de alegria que contagia a todos. Todos os anos, no mês de junho, celebramos, nas Dioceses do Brasil, a semana do migrante e é precisamente neste tempo que elevamos a Deus as nossas preces para os migrantes, de maneira especial recordando os 4 milhões de brasileiros/as espalhados no mundo. Como responsável da pastoral para os brasileiros no exterior, queremos ser ponte entre a sua pátria de origem e a nova pátria que os acolhe. Queremos dialogar e pedir encarecidamente aos nossos irmãos bispos e sacerdotes, que agora são os seus pastores, para que façam o possível, para que não lhes falte acompanhamento espiritual e o apoio fraterno.

Permitam que termine a minha mensagem fazendo uma prece a nossa Senhora de Fátima.

Ó Virgem e Nossa Senhora de Fátima, Mãe dos peregrinos. Ensina-nos o caminho do amor e da fraternidade. Fica conosco nos momentos de desânimo e de tristeza. Fica conosco quando ao redor de nossa fé surgem as dúvidas e as dificuldades. Fica em nossas famílias para que continuemos sendo ninhos de amor, respeito e união. Fica com aqueles nossos irmãos e irmãs que mais sofrem em terras estrangeiras, porque não tem casa, trabalho e comida. Olha com carinho às nossas crianças e aos jovens. Que possam crescer como o teu Filho Jesus, em idade, bondade e sabedoria. Que eles nos ajudem a fazer desta terra um lugar de fraternidade e de paz. Fortalece a todos na fé para que sejamos discípulos missionários de teu Filho Jesus.  Amém.

Viva Nossa Senhora de Fátima!

+  Alessandro Ruffinoni

12 de Agosto - Homilia proferida por D. Vitalino Dantas,
Bispo de Beja e presidente da Comissão Episcopal da Mobilidade Humana da Conferência Episcopal Portuguesa

HOMILIA NA ÍNTEGRA:

Missa pela Paz e pela Justiça

LEITURAS:

1. 1ª leitura: Is 32, 15-18:
2. 2ª leitura: Tiago 3, 13-14.17:

Existe alguém entre vós que seja sábio e entendido? Mostre, então, pelo seu bom procedimento, que as suas obras estão repassadas da mansidão própria da sabedoria. 14Mas, se tendes no vosso coração uma inveja amarga e um espírito dado a contendas, não vos vanglorieis nem falseeis a verdade. 15Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é a terrena, a da natureza corrompida, a diabólica. 16Pois, onde há inveja e espírito faccioso também há perturbação e todo o género de obras más. 17Mas a sabedoria que vem do alto é, em primeiro lugar, pura; depois, é pacífica, indulgente, dócil, cheia de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem hipocrisia; 18e é com a paz que uma colheita de justiça é semeada pelos obreiros da paz.

3. Evangelho: Jo 14, 23-29:

Perguntou-lhe Judas, não o Iscariotes: «Porque te hás-de manifestar a nós e não te manifestarás ao mundo?» 23 Respondeu-lhe Jesus: «Se alguém me tem amor, há-de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos morada. 24Quem não me tem amor não guarda as minhas palavras; e a palavra que ouvis não é minha, mas é do Pai, que me enviou.» 25«Fui-vos revelando estas coisas enquanto tenho permanecido convosco; 26mas o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, esse é que vos ensinará tudo, e há-de recordar-vos tudo o que Eu vos disse.»

1. Virá sobre nós o espírito do alto. Então o deserto se converterá em pomar, e o pomar será como uma floresta (Is 32, 15), assim nos falou Deus através do profeta Isaías, na primeira leitura desta Missa pela paz e pela justiça.

Amados peregrinos, estamos aqui neste lugar sagrado da Cova da Iria, vindos de muitos pontos da terra, formando uma assembleia orante, convocada pela fé e pela devoção a Maria, a Senhora de Fátima, a Mãe de Jesus e nossa Mãe também. Somos um povo em mobilidade, que não resigna perante as dificuldades e a aridez de muitos ambientes, mas procura transformar o deserto de uma sociedade egoísta e injusta em pomar frondoso, onde há frutos suficientes para todos viverem, reinando aí o direito e a justiça, dos quais brotam como frutos apetecíveis a paz, a segurança e a tranquilidade. Que belas promessas feitas a um povo oprimido, a viver no exílio, longe da sua terra natal! Quem não anseia estes dons para a sua vida? Mas também quem não constata à sua volta a falta de tudo isso? Quem não verifica constantemente pessoas, grupos e até povos inteiros a cair nos caminhos da vida, vítimas das injustiças, do egoísmo, da fome e das guerras?

O nosso mundo poderia ser um pomar com frutos suficientes para todos, se nos deixássemos inundar pelo Espírito que Jesus prometeu aos Apóstolos e que enviou sobre eles no Pentecostes e também sobre nós, quando nos convertemos, escutamos e seguimos a Palavra de Jesus, o Evangelho, a Boa nova de salvação para todos os que peregrinam a caminho do Reino de Deus, que é uma semente sempre a ser lançada à terra e uma sementeira sempre em crescimento, mas onde também cresce muito joio, muitas ervas daninhas, que retiram a força às boas plantas e as impede de dar fruto abundante para todos.

2. Viemos aqui a este lugar abençoado fortalecer as nossas mãos débeis, robustecer os nossos joelhos vacilantes, animar o nosso coração pusilânime, para podermos continuar o nosso caminho, o nosso crescimento, e não nos deixarmos abafar pelas forças do mal. Esta peregrinação de Agosto, dedicada aos migrantes e refugiados, é, mais que qualquer outra, um sinal concreto da mensagem do profeta Isaías. Aqui estamos para receber a força de Deus.

Hoje, mais que nunca, vivemos num mundo em constante mobilidade e, mesmo aqueles que aguentam permanecer nas suas aldeias, partilham das alegrias e tristezas, esperanças e desânimos dos seus vizinhos ou familiares que se puseram a caminho à procura de melhores condições de vida ou até mesmo da liberdade, que, por diferentes razões, lhes era negada na sua terra natal.

Nesta Vigília da nossa peregrinação estamos a celebrar a Missa votiva pela paz e pela justiça, dons necessários para que haja verdadeiro crescimento e desenvolvimento. Quando elas faltam, o progresso não é possível ou sê-lo-á apenas para alguns, aumentam as desigualdades, o fosso entre ricos e pobres torna-se cada vez mais profundo, o pomar dos ricos sobranceia com o deserto de grande parte da humanidade. Aqui surgem a inveja, o descontentamento e até a revolta, que minam a paz, a tranquilidade e a segurança de todos. Já S. Tiago, de que escutámos um trecho na segunda leitura, nos advertia neste mesmo sentido. Passados dois mil anos parece que ainda não aprendemos muito. Na sua recente encíclica sobre o desenvolvimento integral da pessoa humana e da humanidade com o título de Caridade na Verdade, o Santo Padre Bento XVI apontava também estas e outras causas que impedem a construção de uma sociedade justa e dão origem a muitas crises, sendo a financeira e económica a última a assolar o nosso mundo globalizado.

3. Como poderemos vencer estas crises que assolam a humanidade? Estamos todos condenados à falência, ao fracasso? Ou temos possibilidade de as superar?

Aqui estamos, amados peregrinos, para agradecer a Deus, por intermédio de Maria, a sua protecção no meio de uma sociedade egoísta e corrupta e também para pedir-lhe que continue a enviar sobre nós o Espírito do alto, que nos faz compreender toda a mensagem de Jesus, que nos dá a verdadeira sabedoria, para vencermos a mentira e a injustiça dos nossos ambientes, quem sabe se mesmo dentro da nossa própria família! Quantas vezes temos desavenças, contendas e querelas nos tribunais, por nos sentirmos vítimas das injustiças daqueles com quem vivemos ou então para tentarmos impor a nossa vontade aos outros?

Precisamos de nos abrir ao Espírito de Jesus. A conversão, a oração, aqui pedida e recomendada por Nossa Senhora aos três Pastorinhos de Fátima, ajudar-nos-ão a acolher a Boa Nova do Reino de Deus e a partilhá-la com os nossos semelhantes. Não desistamos de rezar pela nossa conversão e pela de todos os pecadores. A oração abre o nosso coração ao amor, à verdade que nos liberta. A nossa oração, aqui unida à de muitos irmãos nossos, mas sobretudo em uníssono com a de Jesus na celebração da Eucaristia, será a arma que vencerá as divisões e injustiças deste mundo. Este é um milagre que sempre acontece quando cumprimos os pedidos de Nossa Senhora, como outrora nas bodas de Cana (fazei o que Ele vos disser) e há 92 anos, em 1917, quando aconteceram as aparições e reinava o flagelo da primeira guerra mundial. Com esta arma também nós venceremos as crises e as guerras de hoje.

4. A este propósito cito a Mensagem de Bento XVI para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, apresentando S. Paulo como modelo de evangelizador e de construtor de uma nova sociedade, onde todos vivem como irmãos, sem discriminação de pessoas e que constitui também o tema desta peregrinação: Guiado pelo Espírito Santo, S. Paulo prodigalizou-se sem reservas para que fosse anunciado a todos, sem distinção de nacionalidade e de cultura, o Evangelho que é «poder de Deus para a salvação de todos os fiéis… Nas suas viagens apostólicas, não obstante as reiteradas oposições, proclamava primeiro o Evangelho nas sinagogas, chamando a atenção sobretudo dos seus compatriotas na diáspora (cf. Act 18, 4-6). Se eles o rejeitavam, dirigia-se aos pagãos, fezendo-se autêntico «missionário dos migrantes», ele mesmo migrante e embaixador itinerante de Jesus Cristo, para convidar todas as pessoas a tornarem-se, no Filho de Deus, «novas criaturas» (2 Cor 5, 17).

5. Nesta meditação da Missa da Vigília da Peregrinação Internacional dedicada aos Migrantes e Refugiados convosco, amados peregrinos, peço a Deus, por intercessão de Nossa Senhora de Fátima, para que surjam entre as comunidades emigrantes as vocações sacerdotais necessárias ao seu desenvolvimento humano integral, do qual faz parte a relação com Deus, que precisa de ser alimentada com a Palavra de Jesus Cristo e com o Pão do Céu, que é Ele próprio e que se torna presente na celebração da Eucaristia, dom da Vida de Jesus para a vida do mundo. Peçamos a Deus este alimento que vem do alto e para cuja recepção precisamos da mediação da Igreja e dos seus sacerdotes. Sem Eucaristia, sem o Pão do Céu, em vão lutaremos pelo progresso. Este nunca será integral e capaz de saciar a fome do ser humano, feito para o eterno.

Estamos num Ano sacerdotal. Continuamente nos chegam pedidos de sacerdotes para acompanharem os nossos emigrantes nas várias partes do mundo e nem sempre temos capacidade de resposta, porque as nossas dioceses também não têm suficientes para as suas necessidades, No entanto não podemos limitar-nos a pedir ajuda. Temos que contribuir para que entre os filhos dos emigrantes surgem as vocações sacerdotais necessárias à vida da Igreja onde residem e trabalham. Aqui e acolá vão aparecendo algumas, mas ainda estamos muito dependentes da ajuda exterior. Por isso, reunidos em oração neste santuário bendito, rezemos pelos nossos missionários, testemunhas do Evangelho nas várias partes do mundo onde se encontram emigrantes de língua portuguesa, mas rezemos também pelas vocações sacerdotais entre os próprios filhos dos emigrantes.

6. Aqui, junto da Mãe de Jesus, viemos fortalecer a nossa esperança, a nossa fé e caridade, para sabermos viver em paz e em comunhão com todos os nossos irmãos, sejam eles da nossa família ou de outros países, e que em Portugal procuram o que não encontraram noutra parte. Connosco eles querem contribuir para o desenvolvimento da Europa e do nosso pais, que, apesar da tragédia do desemprego crescente, já não consegue subsistir sem o contributo dos imigrantes. A redução da natalidade entre nós deixou muitas aldeias desertas e muitos sectores da vida social e laboral sem as forças activas necessárias.

A comunidade dos irmãos brasileiros é a mais numerosa entre nós. Por isso convidámos para presidir à peregrinação deste ano o nosso colega no episcopado D. Alessandro Carmelo Ruffinoni, encarregado, a nível da Conferência Episcopal do Brasil, dos emigrantes brasileiros, o maior país da América Latina e um dos maiores do mundo e que fala a nossa língua. Sabendo que muitos portugueses encontraram estabilidade pessoal e familiar no Brasil, sejamos hoje também agradecidos a Deus pelo bem que os nossos antepassados encontraram nesse grandes pais. E a gratidão mostra-se no acolhimento, na hospitalidade, nas relações fraternas, fazendo do imigrante um membro da nossa família humana.

Que Nossa Senhora de Fátima interceda por todos nós, para que nos tornemos numa grande família de irmãos, sem discriminações nem acepção de pessoas, não apenas aqui em Fátima, mas em todo o lado onde vivemos e trabalhamos. Que esta peregrinação seja um forte impulso no aprofundamento dos laços fraternos e na construção da família humana, onde não há senhores e escravos, cidadãos e estrangeiros, mas só concidadãos e peregrinos, de mãos dadas e corações unidos, a caminho da Jerusalém celeste, a pátria definitiva, de que esta assembleia litúrgica é um grande sinal. Ámen!

† António Vitalino, Bispo de Beja

Peregrinação Aniversária de Julho/ dia 13

Missa votiva do Imaculado Coração de Maria

1. Caríssimos irmãos e irmãs em Cristo,
Reunidos neste magnífico santuário mariano de Fátima para celebrar mais um aniversário das Aparições de Nossa Senhora aos três pastorinhos, a todos dirijo a saudação de São Paulo aos cristãos de Corinto: “Graça e paz de Deus nosso Pai e de Nosso Senhor Jesus Cristo” (2 Cor 1, 2)!

É para mim, como Representante do Santo Padre o Papa Bento XVI, uma enorme alegria poder peregrinar até à Cova da Iria e, convosco, rezar e venerar a Virgem Maria, Rainha do Santo Rosário e honrar o Seu Imaculado Coração. De facto estamos a celebrar a Missa votiva do Imaculado Coração de Maria.

Venerar o “Coração da Virgem” significa venerar a própria pessoa da Virgem Santa Maria, o Seu “ser” íntimo e único, o centro e a fonte da Sua vida interior: inteligência e memória, vontade e amor; a Sua atitude indivisível com que amou Deus e os irmãos e Se dedicou intensamente à obra de salvação do Seu Filho.

[Assim como na Missa do Coração de Jesus se celebra o amor misericordioso de Deus pela Igreja e pela humanidade, assim também na liturgia do Coração de Maria se contempla a solicitude maternal da Santíssima Virgem e é apontado o modelo de “coração novo”, dom e sinal da Nova Aliança.]

Na Oração Colecta, o Coração da Virgem Santíssima que, livre de mancha de pecado, cheio de fé e de amor, recebeu o Verbo de Deus, é chamado em primeiro lugar “morada” do Verbo e “santuário do Espírito Santo”, porque nele habitou sempre o Espírito divino.

E no Prefácio o Coração da Bem-aventurada Virgem Maria é celebrado como:
“sábio e dócil”, porque, a Santíssima Virgem, comparando as profecias com os factos, conservava nele a memória das palavras e das realidades relacionadas com o mistério da salvação, conformando-Se totalmente com a vontade divina;
“novo e humilde”, porque, revestida da novidade da graça merecida por Cristo, Maria foi a primeira discípula d’Aquele que é «manso e humilde de coração» (Mt 11,29);
“simples e puro”, isto é, livre de toda a duplicidade e totalmente impregnado do Espírito da verdade; pelo qual, segundo a Bem-aventurança do Senhor, Maria é capaz de ver a Deus (Mt 5,8) e digna de contemplá-l’O no Céu;
“firme e vigilante” para suportar corajosamente a espada da dor quando se desencadeou a perseguição contra o Seu Filho (Mt 2,3) e quando chegou o momento da Sua morte (Jo 19,25), esperando confiante a Sua ressurreição enquanto Ele dormia no sepulcro.

É este o Coração Imaculado de Maria que, segundo a Sua promessa, feita aqui em Fátima, triunfará.
E é neste Coração que nós vimos depositar as nossas orações e as nossas esperanças, por nós mesmos, por todos aqueles que trazemos no coração, pela Igreja, pelo mundo inteiro.
Também a nós, como à Lúcia, Maria nos repete hoje: «O Meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá a Deus».

2.  Meus irmãos e minhas irmãs,
Eu vim aqui, de modo particular, para confiar à Mãe de Deus, em cujo ventre o Verbo Se fez carne, as famílias do mundo inteiro. Contemplando em Maria Aquela que acolheu em Si o Verbo de Deus e O entregou ao mundo, rezemos, nesta Santa Missa, por todos quantos constituíram família, no sacramento do matrimónio, a fim de que nos seus corações permaneça sempre a fidelidade que juraram mutuamente, e deles não saiam pensamentos perturbadores capazes de romper os compromissos assumidos.
Diz Jesus no Seu Evangelho: «É do coração que provêm pensamentos malévolos, assassínios, adultérios e maus pensamentos» (Mat 15, 19). E ainda: «Do interior do homem é que saem as más inclinações» (Mc 7, 21).


Em Janeiro deste ano realizou-se, na cidade do México, o VI Encontro Mundial das Famílias. No encerramento, o Santo Padre Bento XVI dirigiu-Se aos milhares de congressistas nestes termos: «A família é o fundamento indispensável para a sociedade e os povos, assim como um bem insubstituível para os filhos, dignos de virem à vida como fruto do amor, da doação total e generosa dos pais. Assim como Jesus o manifestou, honrando Nossa Senhora e São José, a família ocupa um lugar primário na educação da pessoa. É uma verdadeira escola de humanidade e de valores perenes». [...] «A família, fundada no matrimónio indissolúvel entre um homem e uma mulher, expressa a dimensão relacional, filial e comunitária, e é o âmbito no qual o homem pode nascer com dignidade, crescer e se desenvolver de modo integral».

3.  O Concílio Vaticano II chama à família “Igreja Doméstica” porque é, de facto, no seio da família que os pais são para os filhos, pela palavra e pelo exemplo, as primeiras testemunhas da fé.
É na família que se exerce de modo privilegiado o sacerdócio baptismal do pai de família, da mãe, dos filhos, de todos os seus membros, «na recepção dos sacramentos, na oração e acção de graças, no testemunho de uma vida santa, na abnegação e na caridade activa» (LG  10).

O lar é assim a primeira escola de vida cristã e, «uma escola de enriquecimento humano» (LG 52). É aí que se aprende a fadiga e a alegria do trabalho, o amor fraterno, o perdão generoso e, sobretudo, o culto divino pela oração e oferenda da sua vida.

A família nasce, pois, desta vocação relacional e dialogal do homem e por isso ela está vocacionada para ser o lugar onde o homem encontra o sentido e a harmonia das diversas dimensões da sua existência. A experiência mostra que, quando a integração familiar falha, todos os outros aspectos da vida sofrem ou entram em conflito.

Este é o desígnio de Deus para o homem e para a mulher: juntos, em família, “crescer”, “multiplicar”, “encher a terra” e “submetê-la”.

E o Catecismo da Igreja Católica lembra-nos que a família é «vestígio e imagem da comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A sua actividade procriadora e educadora é o reflexo da obra criadora do Pai [eterno]» (CIC § 2205).

Toda esta reflexão nos leva a concluir que cada homem e cada mulher que deixam pai e mãe para se unirem em matrimónio e constituírem uma nova família, não o podem fazer de ânimo leve, mas sim por um autêntico amor, que não é uma entrega passageira, mas uma doação definitiva, absoluta, total, madura, responsável, fiel até à morte.

4.  Irmãos caríssimos,

Não permitais que do interior do vosso coração nasçam as más inclinações que afectam sempre e inexoravelmente as vossas relações humanas e matrimoniais. Dai espaço à experiência do amor verdadeiro, por detrás do qual está sempre o mistério da Santíssima Trindade. É por isso que o casamento dos cristãos tem uma referência necessária e inevitável a Jesus Cristo e, por Ele, à Trindade divina. Ele é o Outro com Quem cada um dos esposos já se relaciona na fé; só Ele pode dar à união amorosa da família cristã a autêntica dimensão do amor, pois só Ele redime o coração do homem.

5.  Antes de concluir é-me agradável recordar as palavras com que o Santo Padre Bento XVI encerrou, recentemente no Vaticano, o mês de Maio:

«O coração de Maria, em perfeita consonância com o seu Filho divino, é templo do Espírito da Verdade, onde cada palavra e acontecimento são conservados na fé, na esperança e na caridade (cf. Lc 2,19.51).
Assim, podemos estar certos de que o santíssimo Coração de Jesus em todo o arco da vida escondida em Nazaré sempre encontrou no Coração imaculado da Mãe uma ‘chama’ ardente de oração e de atenção constante à voz do Espírito.
O que aconteceu durante as bodas de Caná é testemunho desta singular sintonia entre mãe e Filho na busca da vontade de Deus. Numa situação cheia de símbolos da aliança, como é o banquete nupcial, a Virgem Maria intercede e provoca, por assim dizer, um sinal de graça superabundante: o ‘vinho bom’ que remete para o mistério do Sangue de Cristo.

Isto conduz-nos directamente ao Calvário, onde Maria se encontra aos pés da cruz juntamente com as outras mulheres e com o apóstolo João. A Mãe e o discípulo recolhem espiritualmente o testamento de Jesus: as suas últimas palavras e o seu último suspiro, no qual Ele começa a efundir o Espírito; e recolhem o brado silencioso do seu Sangue, inteiramente derramado por nós (cf. Jo 19, 25-34). Maria sabia de onde provinha aquele sangue: tinha-se formado nela por obra do Espírito Santo, e sabia que aquele mesmo ‘poder’ criador teria ressuscitado Jesus, como Ele tinha prometido.  [...]
Queridos amigos, na escola de Maria, aprendamos também nós a reconhecer a presença do Espírito Santo na nossa vida, a escutar as suas inspirações e a segui-las docilmente. Ele faz-nos crescer segundo a plenitude de Cristo, de acordo com aqueles bons frutos que o apóstolo Paulo enumera na Carta aos Gálatas: “Amor, alegria, paz longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio” (5, 22)» (Bento XVI, 31 de Maio de 2009 na conclusão do mês mariano no Vaticano).

6.  Minhas irmãs e meus irmãos:

Com o Santo Padre «desejo-vos que estejais sempre repletos destes dons e que caminheis com Maria segundo o Espírito».
E convido-vos a confiar a Nossa Senhora de Fátima todos os casais aqui presentes e todas as famílias de Portugal e do mundo.
Maria foi a divina Mãe de Jesus no lar de Nazaré. Com São José, Seu esposo, deu à Sua família o ambiente de harmonia, simplicidade e amor de Deus que só Ela, a «cheia de graça» era capaz de realizar. Por isso é que o Seu Filho Jesus crescia em «estatura e graça».

Como Maria, deixemo-nos amar por Deus!
Acolhamos docilmente a acção do Espírito em nossos corações para que do seu íntimo nasçam pensamentos e acções que consolidem cada vez mais todas as famílias, fundadas no matrimónio entre um homem e uma mulher, comunhão de amor humano no tempo que realiza um projecto eterno do amor divino, “sacramento grande”, sinal da união de Deus com o Seu Povo e de Cristo com a Igreja, Sua Esposa. Ámen.

D. Rino Passigato

Núncio Apostólico em Portugal

12 de Julho, domingo
Missa do domingo XV do tempo comum

Caríssimos irmãos e irmãs em Cristo

1.   Nesta vigília de oração e adoração ao Senhor nosso Deus imploramos da Mãe do Céu que nos acompanhe, com o seu desvelo e carinho, como o fez com os Apóstolos reunidos no Cenáculo.
Também o Santo Padre o Papa Bento XVI está aqui presente, espiritualmente, nestas celebrações da Peregrinação Internacional Aniversária. Como seu Representante, é para mim uma alegria imensa presidir a esta solene celebração.

Os textos da liturgia da Palavra deste Domingo têm como tema o anúncio de Deus e o envio dos seus mensageiros. Estamos, pois, perante o tema da evangelização. De facto, na primeira leitura encontramos o profeta Amós a responder ao sacerdote de Betel: «Foi o Senhor que me tirou da guarda do rebanho e me disse: Vai profetizar ao meu Povo de Israel» (Amós 7, 15). E no Evangelho Marcos diz que «Jesus chamou os doze  Apóstolos e começou a enviá–los dois a dois» (Mc 6, 10), e «Os Apóstolos partiram e pregaram o arrependimento, expulsaram muitos demónios, ungiram com óleo muitos doentes e curaram-nos» (Mc 6, 10-13).

2. Amós é um profeta extraordinário. Os seus temas são candentes: os crimes de guerra, cometidos quer pelos inimigos, quer pelos próprios judeus; a imensa injustiça social, resultante de um progresso que enriqueceu mais os ricos, mas aumentou a miséria dos pobres; a religião de fachada, expressa em cerimónias faustosas custeadas pelos ricos, mas vazias de fidelidade e de amor. Por isso o profeta não poupa críticas ao próprio rei. Isto suscita a indignação de Amasias, sacerdote de Betel: «Vai-te daqui, vidente, (…) aqui é o santuário real, o templo do reino» (cf. Amós 7, 12-15).

Caríssimos irmãos e irmãs,
Quantas vezes o anúncio da Palavra de Deus incomoda. Ontem como hoje. Mas nem por isso podemos resignar-nos ao silêncio cómodo de quem prefere não anunciar. O mandato do Senhor é claramente de envio e de anúncio.

3. Na Sua última aparição depois da Ressurreição, antes de subir ao Céu, Jesus disse aos Onze: «Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura» (Mc 16, 15).

Como baptizados, não podemos deixar de anunciar aos homens, explicitamente, com a nossa palavra e, sobretudo, com a nossa vida e o nosso exemplo, as verdades e os valores eternos que o Senhor Jesus proclamou durante a sua vida pública: as verdades sobre Deus, Que é único e só a Ele devemos adorar; e as verdades sobre o homem, criado à imagem e semelhança de Deus, varão e mulher, com igual dignidade, complementares, filhos de Deus no Filho Unigénito, Jesus Cristo, herdeiros de um destino eterno de felicidade.

O mandato do Senhor: «Ide e fazei discípulos de todas as nações», é o dinamismo missionário mais profundo que manifesta a força do Espírito na Igreja. O Senhor deseja ardentemente atrair todos os homens a Si: «Quando for elevado da terra, atrairei todos a mim». (Jo 12, 32).

E o caminho eclesial desta atracção é a força do anúncio e do testemunho dos que acreditam e da novidade da vida da graça, vivida em comunidade. A disponibilidade para a missão será sempre uma das principais manifestações da vitalidade da Igreja.

É urgente que os membros das comunidades paroquiais, dos movimentos, das famílias religiosas e dos institutos seculares se disponham a partir, para a cidade dos homens, participando na evangelização com a convicção de que a missão da Igreja tem de ser obra de todos os cristãos.

Mas, sem excluir a generosidade do envio para a missão «ad gentes», para as terras longínquas, de todos aqueles e aquelas que desejam partir para servirem temporária ou definitivamente outras Igrejas, precisamos todos de nos mobilizar permanentemente para a missão junto de nós: nas famílias, no trabalho, na praça pública, enfim, em todos os lugares por onde passa a nossa vida quotidiana.

4. Irmãs e irmãos,

O extraordinário “prólogo” da carta aos Efésios, proclamado na segunda leitura (Ef 1,3-14), com sentido de surpresa e maravilha nos revela o projecto de salvação que desde sempre Deus tem perante Si e manda prosseguir na história «para se realizar na plenitude dos tempos: instaurar todas as coisas em Cristo, tudo o que há nos Céus e na terra» (v. 10), isto é, toda a realidade criada, nela incluído o mundo dos anjos (cf. 4,10).
Em Cristo, Palavra e Sabedoria eterna do Pai, feito Homem por obra do Espírito Santo no seio virginal de Maria de Nazaré, morto na cruz e ressuscitado ao terceiro dia, sentado à direita de Deus Pai, o Vivente, o Alfa e o Ómega, o Primeiro e o Último, o Principio e o Fim (cf. Ap 22, 13), tudo se reorganiza em unidade e toda a criação deve tornar a reconhecer, n’Ele, o senhorio de Deus Criador, Senhor único do universo.
Mas este grandioso desígnio de salvação efectua-se mediante a indispensável colabora-ção dos homens, chamados à fé em Cristo pela força do Espírito, que guia, estimula e ilumina a Igreja, para que alcance, ainda que fatigada-mente, percorrendo com Cristo o caminho da cruz, as metas queridas por Deus: «Foi n’Ele que vós também, depois de ouvirdes a Palavra da verdade, o Evangelho da vossa salvação, abraçastes a fé e fostes marcados pelo Espírito Santo. E o Espírito Santo prometido é o penhor da nossa herança, para a redenção do povo que Deus adquiriu para louvor da Sua glória» (Ef 1, 13-14).

5. Concluo: a presença particularmente forte e sentida de Nossa Senhora neste Santuário é para nós, fiéis discípulos do Senhor, garantia de que não estamos sós: connosco vai Maria. E Maria conduz-nos a Jesus, o Salvador único de todos os homens, o rosto humano de Deus, Criador Omnipotente e Pai Misericordioso.

Percorramos, caríssimos irmãos, os caminhos da nossa vida, anunciando, sem desfalecer, a misericórdia e o amor de Deus.
Confiemos à Senhora do Rosário de Fátima, a Seu Imaculado Coração, o esforço do anúncio e a vitória da fé.
Ela o tem prometido: «Por fim o meu Imaculado coração triunfará».
Ámen.

Peregrinação de 12 e 13 de Junho 2009 – Fátima

Celebração do dia 13 de Junho

Homilia


Caros Peregrinos

Perante a perplexidade, a curiosidade e a universalidade que a pergunta dos Apóstolos desperta acerca da restauração do reino de Israel, que de algum modo sintetiza as grandes questões universais acerca da orientação da humanidade para um bem comum, Jesus promete-lhes o envio do Espírito Santo. Os Apóstolos, na nova forma de relação com Jesus Cristo que advém da Ascensão, sentem a necessidade de voltar aos locais da intimidade com Jesus, nos quais o Mestre revelou a profundidade da sua relação com eles, a transcendência da sua missão e o audacioso envio que, pela acção do Espírito Santo, a Igreja, ao longo da história,  experimentaria em todos os seus membros. Maria, a Mãe de Jesus, está presente. Ela é agora a Mãe da Igreja nascente que acompanhará os Apóstolos com a mesma intensidade e afecto materno com que acompanhou o seu Filho.

Hoje, somos nós, também, a colocar-nos na experiência do mistério pascal de Cristo, através dos sinais que Ele mesmo deixou à sua Igreja, na participação da Ceia Pascal, no caminho da renovação que a cruz provoca, na experiência do Espírito Santo derramado. Maria, a Mãe de Jesus, está connosco. É precisamente neste contexto que a Igreja perscruta os sinais reveladores de Deus para que possa encontrar resposta às grandes inquietações da humanidade.

É oportuno recordar as palavras do Santo Padre, Bento XVI, na Páscoa deste ano. Diz ele: «O núncio da ressurreição do Senhor ilumina as zonas escuras do mundo em que vivemos. Refiro-me de modo particular ao materialismo e ao niilismo, àquela visão do mundo que não sabe transcender o que é experimentalmente constatável e refugia-se desconsolada num sentimento de que o nada seria a meta definitiva da existência humana».

Na linguagem de S. Lucas, na cena apresentada no Evangelho, Maria, a Mãe de Jesus, juntamente com os familiares, irrompe do meio da multidão para se vir encontrar com o Seu Filho. Sim, Maria de Nazaré, se por um lado, junto da Cruz, é entregue aos discípulos para com eles iniciar a nova aventura da missão de Jesus Cristo, através da Igreja, por outro, ela é a Mulher que sobressai do meio da multidão dos homens e das mulheres de todos os tempos para se colocar perante o Salvador, não apenas ela, com o olhar contemplativo do Mistério da Graça e da Vida de Deus, mas com o coração de Mãe que quer trazer junto do seu Filho todas as inquietações e angústias, as dúvidas e as misérias da humanidade. «Se é verdade – diz Bento XVI – que a morte já não tem poder sobre o homem e sobre o mundo, todavia restam ainda muitos, demasiados sinais do seu antigo domínio. Se, por meio da Páscoa, Cristo já extirpou a raiz do mal, todavia precisa de homens e mulheres que, em todo o tempo e lugar, O ajudem a consolidar a sua vitória com as mesmas armas d’Ele: as armas da justiça e da verdade, da misericórdia, do perdão e do amor» .

Nós fazemos parte desta multidão que é abraçada pelo coração de Maria, Nossa Senhora.

É significativo que Jesus, ao ser-lhe apresentado o desejo da sua família de O ver, ele mesmo, a transforme num horizonte universal. A verdadeira família de Jesus Cristo é formada por todos aqueles que escutam a Palavra de Deus e a colocam na prática. Afinal, com a irrupção do Mistério de Cristo no meio do mundo, a criação toma novo significado e as relações familiares, mesmo as mais nobres e íntimas, tomam uma nova profundidade a partir de Deus que, em Jesus Cristo, se revela com a única paternidade que transmite o sentido novo a tudo o que existe.

É desta novidade que nos fala S. Paulo na Carta aos Gálatas. Segundo ele, aqueles que fazem a experiência do Espírito, e portanto são de Cristo, «crucificaram a carne com as suas paixões e apetites». Deste modo, Paulo que é um incansável promotor da verdadeira liberdade humana, convida à experiência libertadora que em cada pessoa se realiza, sempre que se assume o mistério Pascal de Cristo. A finalidade é a nova criação, a humanidade nova, o homem e a mulheres renovados, mas tal não se alcança sem a conversão da mente e do coração. Mais ainda, aquele que alcançou a liberdade na sua autenticidade, que lhe é oferecida pelo Espirito Santo, não deve deixar de caminhar nela. Isto significa, que é uma caminhada permanente, sob pena de se desviar e de a adulterar.

O lema do Santuário, ao convidar a todos a viver o 9º Mandamento da Lei de Deus «os puros de coração verão a Deus» que traduz também uma das Bem-aventuranças, insere-se aqui, na docilidade ao Espírito Santo.

A possibilidade de «ver» a Deus marcou a caminhada da humanidade de todos os tempos e marcou o drama do pensamento moderno e contemporâneo. Situados apenas nas possibilidades da razão como possibilidade de conhecimento, a pessoa humana, progressivamente, foi afastando a sua capacidade racional do confronto com o mistério divino que, através da revelação, oferece à criatura a orientação e o desafio, muitas vezes árduo, da busca da verdade, isto é, da busca de Deus.

Após tempos de angustiosa busca da verdade, passou-se a uma situação generalizada de alheamento perante o que são valores absolutos e, consequentemente, já não só a tomar uma atitude de indiferença perante Deus, mas desvalorizando de tal forma o homem que este é visto simplesmente na sua dimensão horizontal à mercê de todas as tendências de opinião. Cedo se passa para um relativismo moral e para uma instrumentalização da pessoa humana.

O avassalador «nada» característico da nossa cultura está a lançar os seus tentáculos e a destruir progressivamente o homem.
As análises estão feitas e as consequências estão bem patentes na crise de valores, que caracteriza a situação social actual, que infelizmente afecta tantos dos nossos contemporâneos. «Num tempo de global escassez de alimento, de desordem financeira, de antigas e novas pobrezas, de preocupantes alterações climáticas, de violências e miséria que constringem muitos a deixar a sua terra à procura duma sobrevivência menos incerta, de terrorismo sempre ameaçador, de temores crescentes perante a incerteza do amanhã, é urgente descobrir perspectivas capazes de devolverem a esperança» . Isto é, importa encontrar outro sentido para a nossa existência.

Bento XVI, no discurso para a Universidade de La Sapienza, afirma-o deste modo: «Verdade significa mais do que saber: o conhecimento da verdade tem como finalidade o conhecimento do bem (…)A verdade torna-nos bons, e a bondade é verdadeira: tal é o optimismo que vive a fé cristã, porque a esta foi concedida a visão do Logos, da Razão criadora que, na encarnação de Deus, se revelou conjuntamente como o Bem, como a própria Bondade». Olhando para o desenvolvimento actual, afirma o Papa que com ele, «abriu-se à humanidade não apenas uma medida imensa de saber e de poder; mas aumentaram também o conhecimento e o reconhecimento dos direitos e da dignidade do homem (…) No entanto, o caminho do homem jamais pode dizer-se completo, e o perigo de cair na desumanidade nunca está esconjurado de todo: como se vê no panorama da história actual». De entre os múltiplos perigos que experimenta o homem actual, o Papa realça que o maior de todos é que «o homem hoje, precisamente à vista da grandeza do seu saber e do seu poder, desista diante da questão da verdade; significando isto ao mesmo tempo que, no fim de contas, a razão cede face à pressão dos interesses e á atracção da utilidade, obrigada a reconhecê-La como critério derradeiro». Por seu lado, como afirma o Concílio,  «a Igreja afirma que o reconhecimento de Deus não se opõe de forma alguma à dignidade humana, porque esta dignidade encontra no próprio Deus o seu fundamento e a sua perfeição». E, continua, «com efeito, o homem foi constituído inteligente e livre, em sociedade, por Deus Criador; mas sobretudo como filho, é chamado à comunhão com Deus e a participar da sua própria felicidade». Conclui, dizendo que «a Igreja ensina (…) que a esperança escatológica não diminui a importância das tarefas terrestres, antes salienta a importância da sua realização com novos motivos». Adverte, ainda, o concilio que «quando falta o fundamento divino e a esperança da vida eterna, a dignidade do homem é gravissimamente lesada, como se verifica frequentemente em nosso dias, e fica sem solução o enigma da vida e da morte, do pecado e do sofrimento, de tal modo que não raro, os homens caem no desespero» (GS, 21). Porque o homem é para si mesmo um problema sem solução, «só Deus lhe pode responder plenamente e com toda a segurança. Ele que chama o homem a uma reflexão mais profunda e a uma procura mais humilde»(GS, 21).

Na mensagem dirigida aos jovens, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, deste ano, Bento XVI adverte os jovens para a crise da esperança. Diz ele: «penso em tantos coetâneos vossos, feridos pela vida, condicionados por uma imaturidade pessoal que muitas vezes é consequência de um vazio familiar, de opções educativas permissivas e libertinárias e de experiências negativas e traumáticas. Para alguns e infelizmente não são poucos a saída quase obrigatória é uma fuga alienante com comportamentos de risco e violentos, na dependência de drogas e álcool, e em muitas outras formas de mal-estar juvenil».

Na certeza que também estes mergulhados na desorientação e na indignidade humana, buscam a felicidade, pergunta-se, como anunciar a esperança a estes jovens? Por isso, continua o Papa, «nós sabemos que só em Deus o ser humano encontra a sua verdadeira realização. O compromisso primário que interpela todos é, portanto, o de uma nova evangelização, que ajude as novas gerações a redescobrir o rosto autêntico de Deus, que é Amor» .

É esta certeza que leva a Igreja a afirmar que «a sua mensagem está de acordo com os anseios mais profundos do coração humano, quando defende a dignidade da vocação do homem, restituindo a esperança àqueles que já desesperam do seu destino mais nobre. A sua mensagem, longe de diminuir o homem, difunde, para o seu progresso, luz, vida e liberdade, e fora dessa mensagem nada pode satisfazer o coração humano: “fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em Ti”» (GS 21).

A Igreja, no cumprimento da sua missão, «tem o dever de perscrutar os sinais dos tempos e de os interpretar à luz do Evangelho, de tal sorte que possa responder, de um modo adequado a cada geração, às perenes interrogações dos homens sobre o sentido da vida presente e futura e sobre a sua relação recíproca. Importa, por conseguinte, conhecer e compreender este mundo no qual vivemos, as suas esperanças, as suas aspirações, a sua indole frequentemente dramática»(GS, 4). É precisamente à luz do Verbo Encarnado, que revela o homem ao próprio homem, que a Igreja ausculta o que Deus Criador e Redentor quer oferecer para a libertação integral dos seus filhos.

O Concílio conduz-nos no reconhecimento de que estamos hoje numa idade nova da história do género humano, caracterizada por mudanças profundas e rápidas que se estendem gradualmente ao mundo inteiro. São provocadas pela inteligência do homem e pela sua actividade criadora e têm reflexos profundos na vida e no ser do próprio homem, nos seus juízos,  nos seus desejos individuais e colectivos, no seu modo de pensar e de agir. Estamos perante uma transformação cultural que bem se pode chamar de metamorfose social e  cultural, com efeitos profundos na vida religiosa.  Chama-lhe crise de crescimento e, como tal, acarreta consigo sérias dificuldades. Deste modo, afirmam os Padres Conciliares: «enquanto o homem amplia extraordinariamente o seu poder, nem sempre consegue pô-lo ao seu serviço. Esforçando-se por penetrar sempre mais na sua intimidade espiritual, com frequência se manifesta mais incerto de si mesmo. Descobre aos poucos, e sempre com maior clareza, as leis da vida social, mas hesita sobre as orientações que importa dar-lhe» (GS, 4). Já o Concílio descreveu as ambiguidades sócio-culturais que vive o mundo contemporâneo. Por isso, diz: «Oprimidos por uma situação tão complexa, muitos dos nosso contemporâneos estão impedidos de descobrir verdadeiramente os valores perenes e, ao mesmo tempo, de os harmonizar com as descobertas recentes; por isso, vivem cheios de inquietação, agitados entre a esperança e o temor, interrogando-se sobre a evolução do mundo contemporâneo» (GS, 4).

Esta realidade cultural, complexa, com tanta perplexidade e ambiguidade, onde incidem factores fracturantes sobre os valores e os critérios que harmonizam o homem e a sociedade, tem repercussões na vida religiosa. Assim o reconhece o Vaticano II, ao sublinhar: «Por um lado, o espirito crítico purifica a vida religiosa de uma concepção mágica do mundo e de superstições que vão sobrevivendo, e exige uma adesão à fé cada vez mais pessoal e actuante, o que faz que não poucos atinjam um sentido mais vivo de Deus. Por outro lado, multidões cada vez mais numerosas afastam-se, na prática, da religião» (GS, 7). Reconhecem, os Padres conciliares, que «recusar Deus ou a religião, não se preocupar com isso, não é, ao contrário de outros tempos, um facto excepcional e individual: hoje, com efeito, tal atitude é frequentemente apresentada como uma exigência do progresso científico ou de um qualquer humanismo» (GS, 7). E concluem que «em numerosas regiões, tudo isto não se exprime só ao nível filosófico; afecta também, e em muita larga escala, a literatura e a arte, a concepção das ciências do homem e da história e as próprias leis civis de tal modo que muitos se perturbam com isso» (GS, 7).

A Igreja, em todos os seus membros, é convidada a testemunhar a verdade de Deus para servir a verdade do homem. Como afirma João Paulo II: «O homem é o caminho da Igreja», mas o homem entendido na abrangência e na riqueza do seu ser, criado à imagem e semelhança de Deus e a Ele continuamente relacionado.

Só com a experiência de um coração purificado, límpido da cegueira do pecado, liberto da unilateralidade das ideologias, resgatado às escravidões do mundo, o homem poderá gozar da autêntica liberdade para a qual Jesus Cristo o resgatou.

Deixemo-nos conduzir até aos lugares da intimidade com Jesus Cristo, onde se celebra permanentemente a Ceia Pascal de Cristo, para aí, pela acção do Espírito Santo, escutarmos a voz que convida a sermos testemunhas de Jesus Redentor até aos confins da terra.

Irmanados com toda a humanidade, com a qual fazemos parte desta multidão, através da qual Nossa Senhora irrompe, levando consigo as nossas angústias e sofrimentos, perplexidades e anseios, e tornando-nos presentes a seu Filho, que nos transforma em sua família, pela escuta e pela prática da Sua Palavra. Sejamos dignos da nossa condição de filhos de Deus.

Imploremos de Nossa Senhora de Fátima, dos beatos Francisco e Jacinta, que nos alcancem de Jesus a benção para as nossas famílias, crianças, jovens, idosos e para todos os que sofrem. Amen

+ João Lavrador - Bispo Auxiliar do Porto

Peregrinação de 12 e 13 de Junho 2009 – Fátima

Celebração do dia 12 de Junho

Homilia:

Caros Peregrinos

«Se alguém tem sede venha a Mim e beba». Com este convite, Jesus Cristo identifica-se não só com o Pai que, no deserto, atento à súplica de Moisés, fez jorrar a água que matou a sede ao Povo em demanda da terra prometida, mas Ele mesmo possui o dom capaz de saciar a sede de todo o ser humano, como Ele mesmo exprimiu à Samaritana: «Se conhecesses o dom de Deus(…)tu é que lhe terias pedido, e Ele dar-te-ia uma água viva» (Jo.4, 10). E, Jesus sublinha, ainda, que tipo de água é esta que ele oferece: «quem bebe desta água voltará a ter sede; mas quem beber da água que Eu lhe der jamais terá sede, porque a água que Eu lhe der tornar-se-á nele uma nascente de água a jorrar para a vida eterna» (Jo. 4, 13 –14).

O ser humano é sedento de verdade, de bem, do belo, da justiça e do amor, o ser humano é sedento de Deus. Não lhe basta fazer a experiência de matar a sede do seu ser através de um conjunto de actos exteriores, ele tem necessidade de uma comunhão de vida com a fonte, ou nascente, onde jorra o manancial de água que sacia plenamente a sua sede.

É esta participação na comunhão com Deus que Jesus oferece pelo dom permanente do Espírito Santo. Como afirma João Paulo II: «O homem não pode viver sem amor. Ele permanece para si próprio incompreensível e a sua vida é destituída de sentido, se não lhe for revelado o amor, se não se encontra com o amor, se não o experimenta e o não torna algo de si próprio, se nele não participa vivamente» (R H, 10). Por isso, Jesus Cristo na sua redenção, não só revela o homem ao próprio homem, mas também o homem experimenta a sua grandeza, a dignidade e o valor próprio da sua humanidade. Deste modo, continua João Paulo II, «no mistério da redenção o homem é novamente “confirmado” e, de algum modo, é novamente criado» (RH, 10). Para concluir, dizendo, se o homem quiser compreender-se a si mesmo profundamente, deve, com a sua inquietude, incerteza e também fraqueza e pecaminosidade, com a sua vida e com a sua morte, aproximar-se de Cristo. E, o saudoso Papa diz mesmo «deve, por assim dizer, entrar nEle com tudo o que é em si mesmo, deve “apropriar-se” e assimilar toda a realidade da Encarnação e da Redenção, para se encontrar a si mesmo» (RH, 10). Quando se verificar este processo profundo, então o homem produz frutos não só de adoração a Deus, mas de profunda maravilha perante si mesmo.

«A Igreja, tendo em conta Cristo e a razão do seu mistério que constitui a vida própria da Igreja, não pode permanecer insensível a tudo o que serve ao verdadeiro bem do homem, como tão pouco pode permanecer indiferente ao que o ameaça» (RH, 13). Estas são palavras de João Paulo II, logo ao inicio do seu pontificado e bem demonstram o serviço da Igreja ao homem concreto, histórico, porque o ser humano é a única criatura sobre a terra a ser querida por Deus por si mesma. A Igreja, fiel a Cristo, não pode abandonar o homem, cuja eleição, chamamento, nascimento e morte, salvação ou perdição, estão estreitamente unidos a Cristo. Trata-se da verdade do homem que só perante o mistério do Verbo Encarnado se descobre.

O homem é o caminho da Igreja. Por isso, ela está atenta à situação do homem, aos seus êxitos e aos seus fracassos, às suas conquistas e às suas ameaças. Numa palavra, a Igreja deve estar bem consciente de tudo aquilo que é contrário ao processo de nobilitação da vida humana (cfr. RH, 14).

A Igreja reconhece que o progresso e o desenvolvimento da civilização do nosso tempo, assinalado pelo predomínio da técnica, exigem proporcional desenvolvimento da moral e da ética. Neste contexto, uma pergunta sobressai: será que o progresso da inteligência tem tornado a vida humana, em todos os seus aspectos, mais humana? Ou seja, mais digna do homem? A resposta só poderá ser uma e só será afirmativa «se o homem enquanto homem, no ambiente do actual progresso, se torna verdadeiramente melhor, isto é, mais amadurecido espiritualmente, mais consciente da dignidade da sua humanidade, mais responsável, mais aberto para os outros, especialmente para os mais necessitados e mais fracos, e mais disponível para proporcionar e prestar ajuda a todos» (RH, 15). Importa lembrar um principio importantíssimo que o Concílio ofereceu para a leitura do verdadeiro progresso, referindo-se ao domínio que o homem exerce sobre o mundo visível, que lhe foi confiado pelo Criador, que só se dará na prioridade da ética sobre a técnica, no primado da pessoa sobre as coisas, na superioridade do espírito sobre a matéria (cfr. RH, 16). Numa palavra, urge gritar ao homem de hoje, tratar-se, não tanto de ter mais, mas de ser mais.

Mas o Evangelho refere que «do seio daquele que acredite em Mim, correrão rios de água viva». Com estas palavras, Jesus Cristo não só promete que sacia a sede de toda a pessoa sequiosa, mas responsabiliza-nos a nós, cristãos, em primeiro lugar, por sermos dispensadores da «verdadeira água» capaz de saciar a sede dos nossos contemporâneos. Quem pode saciar o ser humano? Só Cristo. Tal como Ele mesmo se revelou e como quis ficar presente na Igreja e no mundo. Eis o primeiro serviço ao homem de hoje: a fidelidade. Assim o sentiu S. Paulo ao reconhecer que, embora interpelado por diversos modos de vida e de pensamento, não poderia oferecer outra coisa que não fosse a Jesus Cristo e Cristo crucificado. Porque Ele é para os eleitos poder e sabedoria de Deus.

«Deus é que nos marcou com o Seu selo e deu aos nossos corações o penhor do Espírito». Dizia S. Paulo na segunda leitura. Estamos marcados pelo espírito da verdade que nos leva a descobrir continuamente a verdade acerca do ser humano e a verdade de Deus, revelada em Jesus Cristo. O homem na sua inteligência e no seu coração não fica realizado por mera troca de opinião. Ele sente a necessidade de se lançar na aventura da conquista que o torna o ser mais sublime de toda a criação, o incansável buscador da verdade que o leva a encontrar-se com Deus que, por Sua vez, vem ao seu encontro.

É precisamente neste processo que a palavra proclamada na primeira leitura e o lema do santuário para este ano nos iluminam.

O profeta Ezequiel interpreta a vontade de Deus em reunir o seu povo, em purificá-lo, em dar-lhe um coração novo e infundir nele o Seu espírito. Segundo as suas palavras, é Deus que toma a iniciativa de procurar o ser humano e, pelo seu grande amor, projecta sobre ele um futuro de perfeição.

Estará o homem aberto a esta acção de Deus? Esta foi a pergunta que percorreu a história da salvação. Com esta interrogação se deparou Jesus Cristo, confrontando a sua vida, Ele que é «o caminho a verdade e a vida», com a obstinação dos seus contemporâneos em se abrirem à acção de Deus, aceitando a sua identificação com o Pai. Este é o drama do nosso tempo, o afastamento do homem da verdade presente em pessoa divina, em Jesus Cristo, que interpela mas, ao mesmo tempo, oferece a redenção e, pela acção do Espírito Santo, fá-lo experienciar a plenitude da verdade, na comunhão com o Pai.

O lema deste santuário, «os puros de coração verão a Deus», coloca-nos perante a exigência que nos é feita pelo profeta «lavai-vos, purificai-vos, afastai de mim a malícia das vossas acções»  (Is. 1,16), só deste modo podemos percorrer os caminhos da verdade que na experiência cristã se interliga com a experiência do amor. Em S. João, não só o reconhecimento de Deus, a verdade plena, se alcançará pela prática do amor(cfr. 1Jo. 4, 7ss), como no significado da Ceia Pascal, Jesus Cristo despoja-se a si mesmo, e tomando a condição de servo, coloca-se em atitude de quem quer lavar os seus apóstolos, convidando-os à humildade para reconhecerem que necessitam que Ele mesmo os purifique, e exorta-os a que façam o mesmo aos seus irmãos (cfr.Jo.13, 4-15).

Estamos a viver um contexto civilizacional, no qual, a fé cristã está constantemente a ser confrontada, já não tanto, com modelos racionais, mas sobretudo com modelos pagãos. É perante a idolatria do ser humano, da sua sensualidade, do poder, da ganância e dos bens materiais, que S. Paulo nos adverte, como fez à comunidade de Corinto, que após sublinhar que todos os idólatras não possuirão o reino de Deus, volta-se para os cristãos para os advertir, dizendo: «Mas vós fostes lavados, mas fostes santificados, mas fostes justificados pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito do nosso Deus» (1Cor. 6, 11). Depois de gritar aos ouvidos dos seus contemporâneos: «Fugi da imoralidade» (1Cor. 6, 18), Paulo exorta os baptizados da comunidade de Corinto com as seguintes palavras: «Não sabeis, porventura, que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós, que recebestes de Deus e que não vos pertenceis a vós mesmos? É que fostes comprados por um grande preço. Glorificai a Deus no vosso corpo»(1Cor. 6, 19-20).

Repito, envolvidos num clima religioso neo-pagão, a necessitar de escutar a palavra do Evangelho, como se fosse pela primeira vez, para re-introduzir o ser humano no verdadeiro sentido da sua vida, importa alertar os cristãos, tantas vezes seduzidos pelo ambiente que os rodeia, que, para serem autenticamente missionários nos meios onde vivem, devem começar por apreciar em si mesmos o valor da redenção operada por Jesus Cristo.

Um dos graves problemas do nosso tempo, fruto da sedução neo-pagã, tem a ver com a utilização dos símbolos cristãos mas sem a sua verdadeira densidade simbólica, ou seja, sem passar pela verdadeira compreensão do conteúdo que os sinais contêm. Mas igualmente grave é o corte existencial entre a prática dos ritos da fé cristã e a consequente vida moral. Também neste campo dos comportamentos morais e éticos, devemos escutar a S. Paulo que sentiu a ameaça deste mesmo perigo. Diz ele: «Vós irmãos, fostes chamados à liberdade, não tomeis porém a liberdade, como pretexto para servir a carne. Pelo contrário, fazei-vos servos uns dos outros pela caridade(…) (Gal. 5,13-14). E, após enumerar as obras vinda da escravidão da carne, apresenta os frutos do espírito do seguinte modo: «caridade, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, temperança» (Gal. 5, 22-23). Conclui afirmando que os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e apetites, porque se vivemos pelo Espírito, caminhemos também segundo o Espírito (cfr. Gal. 5, 24-25).

João Paulo II alerta para esta mesma realidade com a seguintes palavras: «A radical separação entre liberdade e verdade é consequência, manifestação e realização de uma outra dicotomia mais grave e perniciosa, a que separa a fé da moral. Esta separação constitui uma das mais sérias preocupações pastorais da Igreja no actual processo de secularismo, onde tantos, demasiados homens pensam e vivem “como se Deus não existisse”» (VS, 88).  Reconhece o Papa que nos encontramos diante de uma mentalidade que atinge, frequentemente de modo profundo, vasto e capilar, as atitudes e os comportamentos dos cristãos, cuja fé se debilita e perde a própria originalidade de novo critério interpretativo e operativo para a existência pessoal, familiar e social. Insiste, dizendo que os critérios de juízo e de escolha, assumidos por muitos crentes, apresentam-se, frequente-mente, no contexto de uma cultura amplamente descristianizada, como alheios ou mesmo contrapostos aos do Evangelho (cfr. VS, 88). Duas urgências à pastoral da Igreja, neste domínio: que os cristãos redescubram a novidade da sua fé e a sua força de discernimento; recuperem e voltem a propor o verdadeiro rosto da fé cristã, que não é simplesmente um conjunto de proposições a serem acolhidas e ratificadas com a mente. Trata-se, sim, de um conhecimento existencial de Cristo, memória viva dos seus mandamentos, verdade a ser vivida (cfr. VS, 88).

O ser humano, convidado a purificar o seu olhar, coloca-o no horizonte de viver em plenitude a liberdade na responsabilidade. Mas depara-se com um drama, que João Paulo II descreve do seguinte modo: «A reflexão racional e a experiência quotidiana demonstram a debilidade que caracteriza a liberdade do homem. É liberdade real mas finita (…) É liberdade de uma criatura, ou seja, a liberdade dada, que deve ser acolhida com um gérmen e fazer-se amadurecer com responsabilidade. É parte constitutiva daquela imagem de criatura que fundamenta a dignidade da pessoa: nela ressoa a vocação original com que o Criador chama o homem ao verdadeiro bem, e, mais ainda, com a revelação de Cristo, chama-o a estabelecer amizade com Ele, participando na mesma vida divina. É inalienável propriedade pessoal e, ao mesmo tempo, abertura universal a todo o vivente, com a saída de si rumo ao conhecimento e ao amor do outro. Portanto, a liberdade radica na verdade do homem e destina-se à comunhão» (VS, 86). Considera ainda o saudoso Papa: «A razão e a experiência atestam, não só a debilidade da liberdade humana, mas também o seu drama. O homem descobre que a sua liberdade está misteriosamente inclinada a trair esta abertura à Verdade e ao Bem, e que, com bastante frequência, de facto, ele prefere escolher bens finitos, limitados e efémeros» (VS, 86). Para concluir que a liberdade necessita de ser libertada, porque detrás dos erros e das opções negativas, o homem detecta a origem de uma revolta radical, que o leva a rejeitar a Verdade e o Bem para se arvorar em princípio absoluto de si próprio. Só Cristo é libertador. Como refere S. Paulo, «Ele nos libertou, para que permaneçamos livres» (Gal. 5,1).

Só a Verdade autêntica, Jesus Cristo, caminho, verdade e vida, é condição para a autêntica liberdade. Como sublinha S. João «Conhecereis a Verdade e a verdade vos libertará» (Jo. 8,32).

Não apaguemos ou descuidemos a marca do Espírito Santo que nos assinalou para a Vida eterna.

Imploro da Santíssima Virgem, Nossa Senhora de Fátima, dos Beatos Francisco e Jacinta, que nos alcancem de Jesus Cristo as bênçãos para vivermos a alegria da vida segundo o Espírito. Amen

+ João Lavrador - Bispo Auxiliar do Porto

Homilia 12.08.2008 - Missa pelos Exilados e Refugiados

Missa do dia 12.8.2008, 22h00, Recinto de Oração do Santuário de Fátima

Presidida por D. António Vitalino Dantas, Bispo de Beja e presidente da Comissão Episcopal da Mobilidade Humana

Na Peregrinação dos Migrantes e Refugiados a Fátima. Este ano dedicada aos Imigrantes Africanos

Amados Peregrinos,
1.Vindos de perto e de longe, emigrantes e imigrantes, juntamo-nos aqui em Fátima, lugar que Nossa Senhora escolheu para recordar a um mundo dividido e em guerra, em 1917 e hoje também, o essencial daquilo que Jesus disse e fez na plenitude dos tempos, há dois mil anos, por nosso amor, para nosso bem e salvação.
Nesta peregrinação de Agosto celebramos o acontecimento mais significativo da semana das migrações, este ano especialmente dedicada aos jovens migrantes como protagonistas da esperança e entre estes, de modo muito concreto, os jovens africanos, que batem às portas da Europa e, normalmente, constatam que não se abrem para eles, ou até são empurrados para fora, como se fossem malfeitores, no caso de terem conseguido entrar. A recente directiva comunitária sobre as migrações veio confirmar esta atitude de uma Europa apenas preocupada com o seu próprio bem-estar, seleccionando os cérebros dos países pobres e rejeitando os menos capacitados.

2. Nesta peregrinação queremos avivar a nossa vocação cristã, chamados a constituir a nova família dos filhos de Deus, onde não pode haver acepção de pessoas, todos peregrinos da cidade futura, a pátria celeste, pois não temos aqui morada permanente, como nos lembrava a segunda leitura desta Missa pelos Exilados e Refugiados.
A 13 de Agosto de 1917, as três crianças das aparições de Fátima, Lúcia, Francisco e Jacinta foram levadas para a prisão em Ourém e impedidas de estar aqui na Cova da Iria, para receber a visita e a mensagem da Senhora, que em Maio lhes pedira para virem a este lugar nos dias 13 dos meses seguintes. Também eles, inocentes crianças, como tantos exilados e refugiados, sentiram na pele a prisão e o afastamento dos seus entes queridos. Mas como os pastorinhos também nós queremos aprender a perdoar, a não fazer aos outros o que não gostamos que nos façam a nós, a lembrar-nos que todos somos estrangeiros neste mundo, cidadãos da cidade futura. Por isso como os pastorinhos oferecemos a nossa oração e sacrifícios pela conversão dos pecadores, por todos os que são vítimas do exílio, expulsos da sua própria pátria. Esta Europa, que, ao longo dos séculos, continuamente evangelizada desde os tempos apostólicos, soube acolher e integrar no seu seio povos de diferentes proveniências e culturas, precisa de continuar fiel à sua vocação. Foram os valores cristãos, personalizados em Cristo, o Mestre, o Salvador e Senhor, que deram a verdadeira unidade à Europa, mesmo quando esta teve de vencer graves crises, guerras e conflitos. Fátima foi um ponto alto dessa história, pois a Senhora da Mensagem transmitiu aos pastorinhos os valores fundamentais do Evangelho, a conversão e a oração, para que houvesse paz entre as nações. Esta velha Europa precisa, hoje, de ser recordada das suas raízes cristãs e do seu dever de praticar a hospitalidade, para que abra as suas portas e colabore com os filhos dos países mais pobres que chegam às suas fronteiras, não como malfeitores, mas como pessoas, com dignidade igual à nossa, à procura de trabalho e de melhores condições de vida que nos seus países de origem, como o fizeram e continuam a fazer tantos europeus por esse mundo fora.

3. Queridos peregrinos de Fátima, hoje representamos aqui as centenas de milhares de imigrantes a residir e trabalhar no nosso país e também os 5 milhões de emigrantes portugueses, espalhados pelo mundo, cerca de um terço da nossa população. Todos temos em comum o factor da migração do torrão natal para outro local, com tudo o que isso implica de desenraizamento, de ruptura, de aventura e encontro de novas culturas, ambientes, pessoas e sociedades. Vivemos num mundo global, em constante mobilidade, à procura de uma vida melhor, mas, como crentes em Deus, à semelhança do povo eleito e de Abraão, sempre confiantes no poder e na misericórdia de Deus, peregrinos da terra prometida, dos novos céus e da nova terra, cujo esboço já antevemos na fé, mas cuja realização plena será para todos um dom de Deus, que temos de continuamente implorar com as palvras da oração que Jesus nos ensinou: venha a nós o vosso Reino.

4. Aqui em Fátima viemos também implorar a cura das nossas doenças, contraídas nos caminhos do nosso peregrinar pelo mundo. À semelhança do leproso do Evangelho, há pouco proclamado, também nós nos prostramos neste lugar sagrado e pedimos: “Senhor, se quiserdes podeis curar-me”. Aqui também poderemos ouvir a palavra da libertação pronunciada pelo Senhor através da sua Igreja: “Quero, mas vai mostrar-te ao sacerdote”, isto é, integra-te na comunidade, a começar pela família. Vai, deixa os teus caminhos de orgulho, de isolamento, reúne-te aos teus, partilha com eles as tuas alegrias, as tuas tristezas, os teus haveres, constrói com eles um mundo melhor, mais solidário, mais em comunhão, sempre aberto à reconciliação e à reconstrução da nossa cidade. Sabemos que podemos contar com o amor fiel de Deus e a protecção de Nossa Senhora, pois nunca se ouviu dizer que alguém a Ela tenha recorrido em vão. Aqui em Fátima são curadas as feridas da nossa identidade cristã e fortalecidas as nossas certezas e confiança. Por isso vale sempre a pena vir a Fátima como peregrinos da esperança. Esta peregrinação no período das nossas férias pode ser a melhor forma de refazer as nossas energias e as nossas relações com Deus e uns com os outros.
Aproveitemos a oportunidade e voltemos os nossos pensamentos e o nosso coração para Maria, a Mãe que nos deu Jesus, o Salvador e que Jesus nos deu na Cruz também como Mãe nossa. Ela convida-nos agora a aproximar-nos de seu Filho, que vai ficar realmente presente no nosso meio, no sacramento do seu Corpo e Sangue, o alimento da vida eterna.

5. Irmãos peregrinos, aqui reunidos em vigília de oração, somos uma assembleia unida à volta de Nossa Senhora, que nos quer pôr em comunhão profunda com seu Filho, Jesus, nosso Salvador, sem discriminação de raças, de cores, de ideologias políticas ou de proveniência. Aqui antecipamos simbolicamente a realidade do Céu. A Igreja tem de ser testemunho, sinal e realização da união do género humano em Deus. Mas também estamos conscientes do longo caminho que temos a percorrer até à realização total desse desígnio de Deus. Podemos dizer que Fátima antecipa essa vontade de Deus. Por isso nós viemos até aqui, percorrendo longas distâncias e sentimo-nos bem neste recinto, conscientes de que Deus está connosco e Nossa Senhora, que é Mãe, intercede por nós e nos pede, para escutarmos o seu Filho Jesus.

6. Antes de terminar esta breve exortação gostaria de pedir às nossas comunidades espalhadas pelo mundo para se abrirem aos mais jovens, dar-lhes lugar e vez nas iniciativas que vamos desenvolvendo, pois eles são mais sensíveis aos factores provenientes da sua dupla pertença, o país de origem dos seus progenitores e o pais onde vivem e se preparam para a vida e nesta encruzilhada poderão fazer surgir comunidades humanas mais ricas e coesas, para bem de toda a família humana, que só terá futuro se se abrir à diferença, à multiculturalidade, às novas gerações. Deste modo os jovens tornar-se-ão verdadeiramente os protagonistas da esperança de um mundo envelhecido e empedernido em rivalidades e nacionalismos sem sentido.

7. Aqui estamos, irmãos peregrinos, neste local bendito, para reavivar a nossa comunhão com o Senhor e uns com os outros, para nos apoiarmos mutuamente nos caminhos da nossa vida, contando sempre com Jesus, que encontrou esta maneira maravilhosa de ficar connosco, na Eucaristia, mistério de amor e de doação da vida por todos nós. Alimentando-nos do Pão descido do céu, temos parte na sua vida e na sua glória. Aprendemos a viver numa atitude de doação, de gratidão, de misericórdia, de transformação da nossa vida em oferta agradável a Deus.
A  Maria confiamos e consagramos as nossas famílias, sobretudo as que mais sofrem as consequências das migrações que separam os seus membros e dificultam a sua agregação.
Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe, Senhora de Fátima e de tantos outros títulos com que sois invocada pelo mundo fora, velai por todos os que vivem e trabalham longe da sua terra natal, amparai as suas famílias, uni-as no amor, fortalecei a identidade de dupla pertença dos nossos jovens, para que sejam verdadeiramente protagonistas da esperança num mundo desiludido e triste, fechado sobre si mesmo, rogai por nós, agora e na hora da nossa morte. Ámen.


HOMILIA de D. Zacarias Kamwenho

MARIA, MÃE DO BOM CONSELHO - Rogai por nós -

Peregrinação Internacional dos Migrantes, em Fátima (12 e 13 de Agosto de 08)

Disse Deus pela boca do Profeta Jeremias: “Bem conheço os desígnios que tenho à cerca de vós… são desígnios de prosperidade e não de calamidade. Quero garantir-vos um futuro e uma esperança. “ (Jer 29,11)

1 - O tema chave que norteia a nossa reflexão nesta Peregrinação Internacional é o tema da Esperança. A mensagem do Santo Padre para este dia a isto nos conduz bem como a Palavra de Deus que acabámos de escutar, e que o Profeta Jeremias sintetizaria no versículo acima citado: Deus quer garantir-nos um futuro e uma Esperança.
Sob o olhar de Maria que há noventa anos aqui apareceu a dar-nos o concelho do regresso à vida cristã, fica-nos bem, no início da nossa meditação repetir do mais fundo dos nossos corações: “Mãe do Bom Conselho, rogai por nós”. Pois bem, Mãe, a Ti confiamos a nossa Peregrinação e as nossas vidas. Ajuda-nos mais uma vez com o Teu conselho a entender que a Emigração não é um facto rotineiro muitas vezes convertido em pesadelo para os homens e mulheres do nosso tempo mas sim, uma oportunidade oferecida a quem busca trabalho e melhorar a sua vida num país que não é o seu, como é também uma oportunidade para o país que acolhe o emigrante ou o refugiado, de repartir os benefícios da sua terra-Mãe, com estes seus irmãos.

E perdoa-nos, Mãe pelas vezes que, levados pela rotina e pelos maus conselhos do mundo ou pelo pai da mentira, Satanás, (cf. Jo 8,44), não seguimos o conselho que nos deixaste a quando das Bodas de Caná: “de fazermos tudo o que o Teu Filho nos dissesse”. (cf. Jo 2,5)
Por isso mais uma vez Te dizemos: “Mãe do Bom Conselho, roga por nós”.

2 – Os Bispos portugueses ao escolher este tema de Maria, Mãe do Bom Conselho, para a Peregrinação de 2008, ano em que neste Santuário a reflexão geral é sobre o 8º Mandamento da Lei de Deus, diria que quiseram apontar esta particularidade da Mãe do Grande Conselheiro: Ela, que, no Antigo Testamento pertenceu “àquele resto de Israel, que vivendo na esperança da Promessa, não disse mentiras, nem se encontrou em Sua boca língua dolosa”. (cf. Sof 3,13)
Ela que no Novo Testamento é a protótipo do discípulo “que guarda em Seu coração as palavras e as lembranças de Seu Filho.” (cf. Lc 2,51)
Ela que se deixou conduzir pelo espírito do conselho e “aderiu intimamente ao desígnio Divino de renovar todas as coisas em Cristo”. (Liturgia)
Sim! A todos nós aqui reunidos pede-nos Deus o mesmo comportamento como Maria, isto é, viver na verdade ainda que para isso tenhamos de guardar segredos para não trair a confiança do Amigo seja Ele Deus, seja Ele a Igreja, ou o nosso próximo.

3 – De 2 a 5 de Junho deste ano, em Nairobi (Quénia), sob os auspícios do Conselho Pontifício para a Mobilidade Humana, celebrámos o nosso primeiro Congresso de Pastoral para os Migrantes que inclui os refugiados, os prófugos, os deslocados e os exilados. A mensagem do Congresso, conquanto se dirija à Igreja e responsáveis Africanos toca, no entanto, os pontos sensíveis que afectam toda a Migração. Assim, pede aos dirigentes políticos e aos agentes económicos, nacionais e internacionais, maior atenção para o bem comum, e que a noção da justiça social não seja letra morta já que o Homem, como tal, é o primeiro património da humanidade. Mais: que as políticas migratórias desburocratizadas, levem a uma cultura de participação, eu diria, de colaboração, como diz o Profeta Jeremias aos exilados de Israel: “Toma a peito o bem do país (que te acolhe) e roga por ele ao Senhor, porque só terás a lucrar com a sua prosperidade.” (cf. Jer 29,7) A mensagem recordou ainda que nesta caminhada para a cidadania global necessitamos de pôr em pratica a convivência pacifica, ou seja, o saber viver na diversidade de culturas e de religiões e que isto implica uma pedagogia comum e recíproca que começa na família e, permeada pela escola, chegue àquela maturidade que considera toda a Migração como uma dádiva.

4 – A Palavra de Deus que acabámos de escutar nesta celebração ajuda-nos a entender e a viver quanto dissemos.
Servindo-nos da Encíclica do Santo Padre sobre a Esperança (Spe Salvi) entendemos qual é o conteúdo da Esperança Cristã e porque esta nos salva.
Na primeira leitura escutámos o Profeta Isaías a dizer que “O Menino que nos foi dado tem o poder sobre os Seus ombros e foi-lhe dado o nome de Conselheiro Admirável. (Is 9,5) Aqui está pois, o conteúdo da nossa Esperança.

O Papa Bento XVI na Encíclica citada ajuda-nos a compreender isto quando diz: “A Redenção é-nos oferecida no sentido em que nos foi dada a Esperança, uma Esperança fidedigna, graças à qual podemos enfrentar o nosso tempo: o presente ainda que custoso (Ss 1) e o futuro que a Fé atrai para dentro do presente.” (Ss7)
E assim sendo, quando no Credo dizemos que com a ressurreição final também esperamos “a vida do mundo que há-de vir”, estamos a dizer que este futuro compromete já a nossa vida hoje.

Por isso diz a Epístola aos Hebreus: “Corramos com perseverança para o certame que nos é proposto com os olhos fixos n’Aquele que é o autor e consumador da nossa Fé, Jesus que suportou a Cruz e está sentado à direita do Trono de Deus. ” (Heb 12, 1-2)
Na minha vida de Pastor notei que muitos jovens acreditam em Deus é certo, mas de Jesus Cristo têm apenas a ideia de Alguém que passou fazendo o bem, portanto sem exigências para os seus amigos ou seguidores. Na Mensagem que o Santo Padre escreveu para preparar a XXIII JMJ de Sidney a dada altura diz: “Recordai-vos, jovens, que a presença do Espírito Santo em nós atesta, constitui e constrói a nossa pessoa na Própria Pessoa de Jesus crucificado e ressuscitado.” (5)
Cristo morto e ressuscitado é o conteúdo da Esperança cristã. Esta verdade assumida modificou a vida do jovem Paulo de Tarso e ao longo da história da Igreja encontramos muitos outros jovens, rapazes e raparigas, que se deixaram transformar pela vida e obra de Jesus de Nazaré. Cristo morto e ressuscitado é Ele que foi anunciado pelos Profetas, é Ele que segundo os Evangelhos “vos precede na Galileia e lá o vereis.” (Mt 28,7) Ele é no final, O esperado que também nos espera, por isso, o Seu Evangelho não é uma simples informação, mas sim a semente da transformação, recorda o Papa na Spe Salvi.

Não é isto o que nos disse o Apóstolo Tiago, na 2ª leitura de hoje? ( cf. Tg 1,26-27)
“Se alguém pensa que é religioso, mas não refreia a sua língua… saiba que a sua religião é vã.”

A religião verdadeira, diríamos no nosso contesto da Peregrinação Internacional das Migrações, é estarmos atentos aos fenómenos que provocam as migrações, como sejam as alterações climáticas do planeta, a pobreza, a intolerância politica, ou, como diz o Papa na sua mensagem para este dia, estarmos atentos “ao processo da globalização em curso no mundo, que traz consigo uma exigência de mobilidade que estimula também numerosos jovens a emigrar e a viver longe de suas famílias e dos seus países.”
Todos conhecemos as consequências de tais situações, a maior das quais é a chamada “dificuldade da dupla pertença” que, não encontrando apoio nas próprias comunidades e por vezes nas Instituições Sociais, esvaziam os jovens dos seus valores mais sagrados.

Conclusão

O Evangelho de Marcos que nos foi proclamado põem-nos frente a frente com a eterna pergunta sobre Jesus Cristo. ”Quem dizem os homens que Eu sou?… E vós, que dizeis?” (Mc 8,29)

Naquele dia da confissão de Pedro em Cesareia de Filipe os discípulos foram proibidos de dizer a quem quer que fosse a sua descoberta sobre Jesus, como o Messias esperado. É que para se chegar a este ponto era necessário ter feito um caminho de Fé, que muitos dos homens do tempo de Jesus recusavam sistematicamente aceitar. Hoje a nós que vivemos no tempo-novo, somos obrigados a proclamar que Jesus é o Messias prometido e que Deus O constituiu Senhor e Cristo, este Jesus que por nós foi crucificado. (cf. Act 2,36)
O Santo Padre na mensagem deste dia chama aos jovens protagonistas da esperança, para que ao se lançarem através do mundo em conquista de novas esperanças procurem viver de tal modo, que, com as suas vidas possam dizer como São Paulo: “Vivo na Fé do Filho de Deus que me amou e Se entregou a Si mesmo por mim.” (Gal 2,20)
Para todo o cristão, hoje de modo particular o cristão migrante, é também isto que se lhe pede: viver na Verdade, como nos sugere o lema do Santuário para este ano.
A Maria, Estrela da Esperança, como lhe chamou o Papa, dizemos confiantes: Preparada a mesa da Eucaristia, Maria, Mãe do Bom Conselho, sabemos que virás, como outrora nas Bodas de Caná, que também estarás, quando o Teu Filho Se entregar a nós no Pão da Vida, esta Carne e este Sangue que Tu lhe deste por virtude do Espírito Santo.
Maria, vem connosco pelos caminhos do mundo; não Te canses de aconselhar-nos, hoje, aqui e em toda a parte onde nos encontremos.

Fátima, 13 de Agosto de 2008

+ Zacarias Kamwenho - Arcebispo do Lubango e Presidente da Comissão Episcopal das Migrações

HOMILIA DE D. JOAQUIM MENDES - 13 .07.2008:

Tema: “Vim ao mundo para dar testemunho da Verdade”

1. Com estas palavras, Jesus responde à interrogação de Pilatos: “Então Tu és rei?” “Tu o dizes: eu sou rei. Para isso nasci e para isto vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade escuta a minha voz” (Jo 18,37).
Jesus veio ao mundo para dar testemunho da verdade de Deus, de quem fala quase cada uma das páginas da Bíblia, que escutamos e aclamamos na Palavra proclamada.
Sempre que os cristãos se reúnem para celebrar a Eucaristia, antes da mesa eucarística, o Senhor põe a mesa da Palavra, com a qual alimenta o seu povo e o guia pelos caminhos da Aliança e da fidelidade à verdade revelada.

2. A Palavra exprime a fidelidade de Deus em relação à aliança, oferecida aos homens para a sua salvação. É escutada e acolhida por todo aquele que busca a verdade, vive na verdade: “Quem é da verdade escuta a minha voz” (Jo 18,37).
Esta palavra eficaz e de uma fecundidade extraordinária é indestrutível, porque vem de Deus, e exige do homem disponibilidade, conversão, confiança naquele que a pronuncia, apesar dos sinais de aparente insucesso.
O crente é continuamente tentado a perder esta confiança, quando vê multiplicarem-se os abandonos, a indiferença e a oposição, onde se esperava que a Palavra manifestasse a sua eficácia.

3. Dirigindo-se às pessoas que não vêem senão insucessos, para quem todas as esperanças em relação ao do Reino parecem goradas, Jesus responde com a parábola que escutámos: todos os insucessos, incontestáveis, não impedirão um sucesso final que compensará todas as perdas.
Dirigida a todas as pessoas desanimadas, a parábola do semeador é a parábola da esperança.
Jesus encontra dificuldades no seu ministério: abandonos, deserções, indiferenças e oposições, que impressionam os que estão à sua volta e que os levam a questionarem, se verdadeiramente Ele é capaz de estabelecer o Reino de Deus sobre a terra.
A estas objecções a parábola responde: raciocinar assim, seria apenas fixar-se na perda de uma parte da semente e concluir que a semente não dará qualquer fruto.
Uma parte da semente, de facto, perde-se, mas não se pode concluir que a semente não dá fruto, bem pelo contrário.

4. Os insucessos não faltam também hoje; não faltam cristãos desorientados, desiludidos, sem esperança. A parábola da semente conserva toda a sua actualidade.
Não obstante as adversidades, o terreno pedregoso, os espinhos que ameaçam e sufocam a semente, no fim, onde a semente consegue enraizar, a recolha é abundante, frutifica e produz cem, oitenta, sessenta e trinta…
Apesar das adversidades, do terreno refractário da história, dos espinhos das consciências egoístas, o Reino de Deus desenvolver-se-á em plenitude.
A parábola é por isso, um apelo à confiança e à esperança no Reino de Deus e na sua força oculta no manto da sua pobreza e do seu aparente insucesso.
Esta é também a mensagem do oráculo de Isaías, da primeira leitura: a Palavra de Deus é eficaz, a sua força fecundante é semelhante à da chuva tão desejada pelo agricultor e celebrada no “canto da primavera”, do salmo responsorial que cantamos.

5. A Palavra de Deus, também hoje, encontra um vasto horizonte de indiferença, hostilidade e rejeição, mas não é por isso que ela perde a sua força ou se deixa de proclamar.
Ela continua a contar com uma porção de “boa terra”, onde cai e frutifica e produz fruto abundante, que compensa largamente as perdas do terreno estéril.
A “boa terra” é o terreno espiritual dos “pequenos”, dos pobres, dos pecadores convertidos que alargam o coração e a vida à palavra de Cristo, que acolhem com entusiasmo e confiança a “Boa-Nova” do Reino que promete perdão e paz.
Esta semente santa, que cai no coração dos justos e dos fiéis, compensa as desilusões, pela semente estéril dos indiferentes, auto-suficentes e prepotentes.

6. Esta parábola da esperança é uma grande reflexão sobre o Reino de Deus, sobre a Igreja, sobre a fé e sobre as obras, sobre o mal, a incredulidade e a rejeição obstinada da luz e do bem, por isso Jesus adverte: “Quem tem ouvidos, oiça”.
A Palavra de Deus não é só verdade, mas é força que opera em nós e nos introduz no dinamismo da salvação, é fonte de vida.

Esta Palavra continua a viver na Igreja. O Evangelho que a Igreja proclama é Palavra de Deus, “viva, eficaz e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes; penetra até dividir o espírito (…) julga as disposições do coração. E não há criatura oculta à sua presença (Hb 4,12).
A Palavra liberta da “corrupção que escraviza”, produz uma transformação radical, que vai para além das nossas forças e possibilidades, responde à esperança da revelação que os filhos de Deus esperam ansiosamente, como refere o apóstolo S. Paulo, na segunda leitura.
A Palavra de Deus sacia a inteligência, aquece o coração, encoraja a vida.

7. Caríssimos irmãos e irmãs:

Como Maria Santíssima sejamos um “bom terreno”, que acolhe a Palavra com um coração aberto, disponível, generoso e dócil.
A Palavra gera em nós Cristo. Deste modo, podemos oferecê-lo ao mundo como Maria.
A Palavra é um grande tesouro, que precisámos de redescobrir e de valorizar na nossa vida de crentes e na vida das nossas comunidades cristãs. Ela é uma presença de Deus que nos acompanha e nos guia pelos caminhos da fidelidade à aliança.
Nela podemos escutar Deus que nos fala, dialogar com Ele, encontrar resposta para as nossas dúvidas e inquietações, encontrar razões para viver com esperança e dar razão da nossa esperança a quantos nos interrogam e nos questionam sobre a fé, manifestando assim que o Reino de Deus chegou, germina e frutifica em nós.
A Palavra ilumina, dá a força e a coragem de Cristo, para dar testemunho da Verdade, num mundo ferido pela mentira, pelo erro, pela falsidade, onde muitos se iludem, pensando que o Reino e os seus valores estão ultrapassados.

A Palavra responde à situação do nosso mundo, a todos aqueles que obstinadamente se fixam somente no terreno pedregoso e com espinhos onde a semente se perde; que procuram sublinhar o insucesso do Reino, descredibilizando a Igreja, procurando remetê-la para a esfera do privado.
A Palavra é um convite à esperança de crentes e não crentes, para que abram os olhos para ver a luz, a verdade e o bem, os frutos da semente da Palavra que germina no coração de tantos homens e mulheres e nas comunidades cristãs, que, no silêncio, na humildade e na discrição produzem, “umas, cem; outras, sessenta; outras, trinta por um”. Estes são todos aqueles que escutam a voz de Cristo e dão testemunho da verdade de Deus, hoje, no mundo.
Associemo-nos a eles, para que a nossa vida cristã seja fecunda, produza fruto abundante, glorifique a Deus, e seja sinal da presença de que o Reino está vivo e continua e fecundar a história.

Fátima, 13 de Julho de 2008

† Joaquim Mendes

Bispo Auxiliar de Lisboa

HOMILIA DE D. JOAQUIM MENDES - Missa da Vigília (12.07.2008):

Liturgia do dia 12: Missa do Imaculado Coração de Maria

1.ª leitura: Judite 13, 17-20; 15,9 «Não hesitaste em expor a tua vida»

2.ª leitura: Ap 7, 14-15 «Estes são os que vieram da grande tribulação»

Evangelho: Mt 5, 1-12 «Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos perseguirem e mentindo, disserem todo o mal contra vós”

1. A Palavra de Deus proclamada ilumina a nossa situação de cristãos, peregrinos, congregados na “casa de Maria”, para aprender a percorrer, com Ela, o difícil e o misterioso caminho da fé, na fidelidade ao Senhor, aos seus mandamentos e à verdade, no quotidiano da vida.

2. Somos membros de um Povo com uma história feita de fidelidades e infidelidades à Aliança com Deus, mas não abandonado à sua sorte.
Nesta história, Deus faz-se presente, ora com os seus silêncios, ora com as suas advertências, por meio dos profetas, ora com a sua intervenção providencial, expressão do seu amor e da sua misericórdia e sobretudo na “plenitude dos tempos” através de Jesus Cristo, seu Filho, nascido da Vigem Maria (cf Gal 4,4-5).
Na construção desta história, o Povo de Deus da Antiga e da Nova Aliança, conta com membros ilustres, que confessaram a fé, uns com o martírio “branco”, isto é, com o testemunho quotidiano, outros com o “vermelho”, os mártires. Ambos constituem a multidão dos “bem-aventurados”. Uns conhecêmo-los, outros são anónimos.
A Palavra de Deus proclamada fala-nos deles.

3. A primeira leitura apresenta-nos Judite, uma mulher, membro do Povo de Deus do Antigo Testamento, que arrisca a vida para libertar o seu povo das mãos do inimigo que o queria destruir.
Nela se manifestou o poder de Deus. A Escritura elogia-a e recorda-a: “A tua confiança em Deus nunca se apagará do coração dos homens que se lembrarem do poder de Deus.” (v.19); “Tu és o orgulho de Jerusalém, a glória insigne de Israel, a honra do nosso povo” (15,9).
Judite é figura de Maria Santíssima, que esmaga a cabeça da serpente infernal.
Também Maria Santíssima, confiou em Deus, abandonou-se à Sua Palavra. Nela se manifestou o poder e a misericórdia de Deus, que por meio de Jesus Cristo, seu Filho, salva o seu povo.

4. Maria, a criatura mais ilustre do Povo de Deus, é a mãe dos redimidos, a primeira da assembleia dos eleitos, que o apóstolo S. João contempla na visão que escutamos, na segunda leitura.
A visão que S. João nos convida a contemplar com ele, constitui um dos quadros mais ricos do livro do Apocalipse. Nela apresenta a “multidão imensa” dos eleitos que se une ao louvor de todas as criaturas celestes. Uma multidão universal, proveniente de todas as partes do mundo, uma única assembleia, que se encontra diante do Cordeiro, no serviço divino, numa verdadeira liturgia em honra de Deus criador e salvador.

5. Nesta assembleia, Deus é celebrado como princípio e autor da salvação e o Cordeiro como mediador e realizador, partilhando o trono de Deus, seu Pai.
Esta assembleia litúrgica é uma assembleia de triunfo e de alegria.
O branco é a cor da vitória e as palmas símbolo da alegria do triunfo. A veste branca é a expressão do novo ser, do “novo nascimento” no Sangue do Cordeiro.
Nesta multidão imensa reconhecemos não só os mártires da perseguição, mas todos os eleitos que venceram a prova da fé. “São os que vieram da grande tribulação”, da prova do martírio e da prova da fé.

6. A vida dos eleitos encontra a sua melhor expressão no serviço litúrgico, na celebração da salvação, na adoração e no louvor.
Esta noite somos essa assembleia, reunida neste local sagrado, onde sentimos a proximidade de Deus e podemos partilhar da sua intimidade.
Unidos à assembleia celeste, somos o povo fiel do Senhor, que segue o Cordeiro por onde quer que vá, como as ovelhas seguem o pastor, porque Ele nos conduz às fontes da vida.
O Senhor neste noite, proclamou para nós, o Evangelho das Bem-aventuranças, uma promessa de esperança para os pobres em espírito, para os que têm fome e sede de justiça, para todos aqueles que buscam uma medida alta de vida cristã, a nível moral e espiritual, e para todos aqueles que se encontram em situação difícil de pobreza, de aflição.
Ao mesmo tempo, nelas, o Senhor assegura a felicidade eterna aos misericordiosos, aos puros de coração, aos promotores da paz.

7. As Bem-aventuranças são um código de vida, um anúncio de esperança e de salvação, uma promessa que o Senhor oferece a todos, quantos vivem imersos na aflição da vida terrena, mas de modo particular aos pobres: “Bem aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus”.
Quem são os pobres desta bem-aventurança?
São os abatidos pela dor e pela miséria sobre os quais Deus se curva com infinita piedade, para lhes anunciar a salvação messiânica.
São os privados de bens e de segurança; são os oprimidos, os marginalizados e rejeitados.
São todos aqueles que confiam em Deus, se abandonam à sua misericórdia e somente dele esperam a salvação.
Os pobres são todos aqueles que sabem que a única e verdadeira esperança, para a situação difícil em que se encontram, está em Deus.

8. Maria Santíssima pertencia a este grupo de pobres. Ela partilhou da situação e da fé do seu povo. Ela viveu a esperança messiânica, a realização das promessas de Deus.
“Maria é a primeira entre os humildes e pobres do Senhor que confiadamente esperam e recebem a salvação de Deus. Com ela, excelsa Filha de Sião, passada a longa espera da promessa, se cumprem os tempos e se inaugura a economia da salvação, quando o Filho de Deus dela recebeu a natureza humana, para libertar o homem do pecado…” (LG 55).
Maria é a nova “Arca da Aliança” que transforma o sinal em realidade, a lei em coração palpitante, o de Cristo, Verbo que se fez carne no seu seio, que veio anunciar a Boa-nova aos pobres, a proclamar a libertação aos cativos, a mandar em liberdade os oprimidos (cf. Lc4,18-19).

9. Como Maria Santíssima, pertencemos ao grupo dos pobres, de todos quanto esperam e confiam em Deus.
Abertos ao futuro e à esperança, a nossa espera, como a de Maria Santíssima, é uma espera activa: Estamos disponíveis para colaborar com o Senhor, para que as suas promessas se tornem realidade, para que Deus intervenha na história para a transformar, inserindo nela os dinamismos do Reino, da salvação trazida por Jesus Cristo.
O cristão, como Maria, é chamado a ser um sinal da salvação de Deus, portador de esperança e de alegria.
O Senhor quer servir-se de nós, para levar a esperança a quantos a perderam, para levantar os “ânimos abatidos”, ser sinais e portadores do Seu amor e da sua solicitude junto dos pobres, de todos aqueles, para quem Deus é a única esperança.
No serviço aos irmãos, sobretudo aos mais necessitados, movidos pela fé, encontraremos motivos para louvar o Senhor, proclamar e testemunhar a sua misericórdia, prestar-lhe culto em “espírito e verdade” e ser associados à assembleia dos eleitos, dos “bem-aventurados”, que seguem Cristo, testemunham a verdade e vencem a prova da fé.

Fátima, 12 de Julho de 2008
† Joaquim Mendes
Bispo Auxiliar de Lisboa

pregações do Papa

Pio XII é exemplo de abandono nas mãos de Deus, diz Bento XVIHomilia do Papa no 50° aniversário da morte de Pacelli

CIDADE DO VATICANO, quinta-feira, 9 de outubro de 2008 (ZENIT.org).- Com ocasião do 50° aniversário da morte de Pio XII, Bento XVI recordou esta quinta-feira o testemunho de Pacelli.

Segundo o Papa, o pontificado de seu antecessor «desenvolveu-se nos anos difíceis da Segunda Guerra Mundial e no período subsequente, não menos complexo, da reconstrução e das difíceis relações internacionais que passaram à história com o nome significativo de ‘guerra fria’».A postura cultivada «constantemente» por Pio XII, recordou o Papa durante a homilia da missa celebrada na Basílica vaticana, foi a de «abandonar-se nas mãos misericordiosas de Deus», com a consciência de que «só Cristo é a verdadeira esperança do homem» e «apenas confinado nele, o coração humano pode abrir-se ao amor que vence o ódio».Esta consciência, acrescentou, «acompanhou Pio XII em seu ministério de Sucessor de Pedro, ministério iniciado precisamente quando pairavam sobre a Europa e o restante do mundo as nuvens ameaçadoras de um novo conflito mundial, o qual ele tentou evitar de toda forma».Durante a guerra, o Papa Pacelli levou adiante «uma intensa obra de caridade que promoveu em defesa dos perseguidos, sem distinção de religião, de etnia, de nacionalidade de pertença política», observou o pontífice.

Decidido a não abandonar nunca Roma, também quando, ocupada a cidade, lhe foi aconselhado repetidamente deixar o Vaticano para colocar-se a salvo, submeteu-se voluntariamente a «privações quanto à comida, calefação, vestes, comodidades», para compartilhar a condição da população duramente provada pelos bombardeios e pelas consequências da guerra».Pio XII, declarou Bento XVI, «atuou frequentemente de forma secreta e silenciosa, precisamente porque, à luz das situações concretas daquele momento histórico complexo, intuía que apenas desta forma podia evitar o pior e salvar o maior número possível de judeus».Por estas intervenções, ao término do conflito se dirigiram «muitas vítimas e unânimes reconhecimentos de gratidão», como o da ministra do Exterior de Israel, Golda Meir, que em sua morte afirmou: «Choramos pela perda de um grande servidor da paz».Em sua homilia, Bento XVI reconheceu que, «infelizmente, o debate histórico sobre a figura do Servo de Deus Pio XII, não sempre sereno, evitou que se colocassem à luz todos os aspectos de seu polivalente pontificado».Por isso, quis sublinhar alguns documentos importantes do Papa Pacelli, entre eles a encíclica Divino Afflante Spiritu, de 20 de setembro de 1943, que «estabelecia as normas doutrinais para o estudo da Sagrada Escritura, manifestando sua importância e seu papel na vida cristã».«Como não recordar esta encíclica, enquanto se desenvolvem os trabalhos do Sínodo que tem como tema precisamente ‘A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja’?», perguntou o pontífice.O Papa recordou também o «impulso notável» imprimido por Pio XII na atividade missionária da Igreja, confirmando o amor pelas missões demonstrado desde o início de seu pontificado, ordenando pessoalmente –em outubro de 1939– doze bispos de países de missão, entre eles um chinês, um japonês, o primeiro bispo africano e o primeiro bispo de Madagascar.Também, sublinhou, uma das «constantes preocupações pastorais» do pontífice foi «a promoção do papel dos leigos, para que a comunidade eclesial pudesse valer-se de todas as energias e recursos disponíveis».«A santidade foi seu ideal, um ideal que não deixou de propor a todos –acrescentou. Por isso, deu impulso às causas de beatificação e canonização de diferentes pessoas, representantes de todos os estados de vida, funções e profissões, reservando amplo espaço às mulheres.»

À propósito disso, durante o Ano Santo 1950, proclamou o dogma da Assunção, indicando à humanidade a Virgem «como sinal de segura esperança».«Neste nosso mundo que, como então, está assaltado por preocupações e angústias por seu futuro; desta forma, onde, talvez mais que então, o distanciamento de muitos da verdade e da virtude dá lugar a cenários sem esperança, Pio XII nos convida a voltar o olha para Maria assunta em glória celeste», disse Bento XVI.«Convida-nos a invocá-la com confiança, para que nos faça apreciar cada vez mais o valor da vida na terra e nos ajude a pôr o olhar na meta à qual todos estamos destinados: a da vida eterna, que, como assegura Jesus, quem escuta e segue sua palavra já possui.

Bento XVI: Maria nos precedeu no céu
Homilia na solenidade da Assunção de Nossa Senhora
Homilia que Bento XVI pronunciou na solenidade da Assunção de Nossa Senhora, em Castel Gandolfo.

Estimados irmãos e irmãs
Todos os anos, no meio do Verão, se comemora a Solenidade da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria, a mais antiga festa mariana. É uma ocasião para nos elevarmos com Maria às alturas do espírito, onde se respira o ar puro da vida sobrenatural e se contempla a beleza mais autêntica, a da santidade. O clima da celebração hodierna está inteiramente impregnado de alegria pascal. “Hoje assim canta a antífona do Magnificat Maria subiu ao Céu:  alegrai-vos, com Cristo Ela reina para sempre. Aleluia!”. Este anúncio fala-nos de um acontecimento totalmente único e extraordinário, mas que está destinado a encher de esperança e de felicidade o coração de cada ser humano. Com efeito, Maria é a primícia da humanidade nova, a criatura em que o mistério de Cristo encarnação, morte, ressurreição e ascensão ao Céu já teve o seu pleno efeito, resgatando-a da morte e levando-a de corpo e alma ao reino da vida imortal. Por isso a Virgem Maria, como recorda o Concílio Vaticano II, constitui para nós um sinal de esperança segura e de consolação (cf. Lumen gentium, 68). A festa hodierna impele-nos a elevar o olhar ao céu. Não se trata de um céu feito de ideias abstractas, nem sequer de um céu imaginário criado pela arte, mas do céu da realidade autêntica, que é  o  próprio  Deus:   Deus  é  o  céu. E Ele  é  a  nossa  meta,  a  meta  e a morada eterna, de onde vimos e para a qual tendemos.
São Germano, Bispo de Constantinopla no século VIII, num discurso pronunciado na festa da Assunção, dirigindo-se à celeste Mãe de Deus, assim se expressava:  “Tu és Aquela que, por meio da tua carne imaculada, uniste a Cristo o povo cristão… Como toda a pessoa sequiosa corre à fonte, assim também toda a alma corre a Ti, manancial de amor, e como todo o homem aspira a viver, a ver a luz que não conhece ocaso, assim também cada cristão aspira a entrar na luz da Santíssima Trindade, onde Tu já entraste”. Estes são os sentimentos que nos animam no dia de hoje, enquanto contemplamos Maria na glória de Deus. Quando Ela adormeceu para este mundo, despertando no céu, na realidade simplesmente seguiu pela última vez o Filho Jesus na sua viagem mais longa e decisiva, na sua passagem “deste mundo para o Pai” (Jo 13, 1).
Como Ele, juntamente com Ele, partiu deste mundo voltando “para a casa do Pai” (cf. Jo 14, 2). E tudo isto não está distante de nós, como talvez pudesse parecer num primeiro momento, porque todos nós somos filhos do Pai, de Deus, todos nós somos irmãos de Jesus e todos nós somos também filhos de Maria, nossa Mãe. E todos nós estamos orientados para a felicidade. A felicidade para a qual todos nós tendemos é Deus, e assim todos nós estamos a caminho daquela felicidade, que chamamos Céu, que na realidade é Deus. E Maria nos ajude, nos encoraje a fazer com que cada momento da nossa existência seja um passo neste êxodo, neste caminho rumo a Deus. Assim, nos ajude a tornar presente também a realidade do céu, a grandeza de Deus, na vida do nosso mundo. No fundo não é este o dinamismo pascal do homem, de cada homem que deseja tornar-se celeste, totalmente feliz, em virtude da Ressurreição de Cristo? E não é porventura este o início e a antecipação de um movimento que diz respeito a cada ser humano e ao cosmos inteiro? Aquela de quem Deus tinha tomado a sua carne, e cujo coração fora trespassado por uma espada no Calvário, encontrava-se associada por primeiro e de modo singular ao mistério desta transformação, para a qual todos nós tendemos, muitas vezes também nós trespassados pela espada do sofrimento neste mundo.
A nova Eva seguiu o novo Adão no sofrimento, na Paixão e deste modo também na alegria definitiva. Cristo é a primícia, mas a sua carne ressuscitada é inseparável da carne da sua Mãe terrena, Maria, e nela toda a humanidade está envolvida na Assunção a Deus, e com Ela toda a criação, cujos gemidos e sofrimentos são como diz São Paulo as dores do parto da nova humanidade. Nascem assim os novos céus e a nova terra, onde já não haverá pranto, nem lamentações, porque não haverá mais morte (cf. Ap 21, 1-4).
Como é grandioso o mistério de amor que hoje se repropõe à nossa contemplação! Cristo venceu a morte com a omnipotência do seu amor. Só o amor é omnipotente. Este amor impeliu Cristo a morrer por nós e assim a vencer a morte. Sim, unicamente o amor faz entrar no reino da vida! E Maria entrou após o Filho, associada à sua glória, depois que foi associada à sua paixão. Entrou com um ímpeto irrefreável, conservando depois de si mesma o caminho aberto para todos nós. É por isso que no dia de hoje a invocamos. “Porta do céu”, “Rainha dos anjos” e “Refúgio dos pecadores”. Sem dúvida, não são os raciocínios que nos fazem compreender estas realidades tão sublimes, mas sim a fé simples, pura, e o silêncio da oração que nos põe em contacto com o Mistério que nos ultrapassa infinitamente. A oração ajuda-nos a falar com Deus e a sentir como o Senhor fala ao nosso coração.
Peçamos a Maria que nos conceda hoje o dom da sua fé, a fé que nos faça viver já nesta dimensão entre o finito e o infinito, a fé que transforma também o sentimento do tempo e do transcorrer da nossa existência, aquela fé na qual sentimos intimamente que a nossa vida não se encontra encerrada no passado, mas orientada para o futuro, para Deus, aonde Cristo e, depois dele, Maria nos precederam.
Contemplando Nossa Senhora da Assunção no céu compreendemos melhor que a nossa vida de todos os dias, não obstante seja marcada por provações e dificuldades, corre como um rio rumo ao oceano divino, para a plenitude da alegria e da paz. Entendemos que o nosso morrer não é o fim, mas o ingresso na vida que não conhece a morte. O nosso crepúsculo no horizonte deste mundo é um ressurgir na aurora do mundo novo, do dia eterno.
“Maria, enquanto nos acompanhas nas dificuldades do nosso viver e morrer diários, conserva-nos constantemente orientados para a verdadeira pátria da bem-aventurança. Ajuda-nos a fazer como Tu fizeste”.
Amados irmãos e irmãs, queridos amigos que na manhã de hoje participais nesta celebração, dirijamos em conjunto esta oração a Maria. Diante do triste espectáculo de tanta alegria falsa e, contemporaneamente, de tanta dor angustiada que se difunde pelo mundo, temos que aprender dela a tornar-nos sinais de esperança e de consolação, temos que anunciar com a nossa vida a Ressurreição de Cristo.
“Ajuda-nos Tu, ó Mãe, fúlgida Porta do céu, Mãe da Misericórdia, nascente através da qual brotou a nossa vida e a nossa alegria, Jesus Cristo.
Amém!”.

[Tradução ao português difundida pela Santa Sé

© Copyright 2008 - Libreria Editrice Vaticana]

Modelo atual de «verdadeiro pacificador» em São Gregório Magno, propõe Papa

Bento XVI dedica a audiência geral ao Padre e Doutor da Igreja

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 28 de maio de 2008 (ZENIT.org).- «Verdadeiro pacificador» em um tempo «desesperado», São Gregório Magno continua demonstrando que a paz e a esperança são obtidas de Deus, recorda Bento XVI.

Seguindo as catequeses sobre os Padres da Igreja, o Papa dedicou a desta quarta-feira, na audiência geral, a um dos maiores da história, que foi pontífice romano do ano 590 a 604.

«Grande Papa e grande Doutor da Igreja», São Gregório, que já desde jovem havia alcançado o cume dos cargos civis como governador de Roma, decidiu retirar-se e iniciar uma vida monástica dedicada ao estudo da Sagrada Escritura e dos Padres da Igreja.

Por sua experiência e qualidades, logo foi nomeado enviado papal a Constantinopla e posteriormente secretário do pontífice. Com a morte do Papa Pelágio II, Gregório foi eleito seu sucessor na Sede Petrina.

«Tentou resistir, inclusive buscando a fuga, mas tudo foi inútil: ao final teve de ceder», relatou Bento XVI. «Reconhecendo que havia sucedido a vontade de Deus, o novo pontífice se pôs imediatamente a trabalhar com empenho».

«Foi dupla sua constante orientação na complexa situação: promover acordos no plano diplomático-político e difundir o anúncio da verdadeira fé entre as populações», sintetizou.

São Gregório promoveu a «conversão dos jovens povos e da nova organização civil da Europa», de maneira que «os Visigodos da Espanha, os Francos, os Saxões, os imigrantes na Bretanha e os Longobardos foram os destinatários privilegiados de sua missão evangelizadora», sublinhou Bento XVI.

Em particular, afligia naquele tempo a Itália e Roma, tanto civil como eclesialmente, «a questão longobarda», à qual o Papa Gregório dedicou «toda energia possível com vistas a uma solução verdadeiramente pacificadora».

E o fez contemplando aquele povo «com os olhos do bom pastor, preocupado por anunciar-lhes a palavra de salvação, estabelecendo com eles relações de fraternidade orientadas a uma futura paz fundada no respeito recíproco e na serena convivência entre italianos, imperiais e longobardos».

Conseguiu com tal povo um armistício estável, graças, também, à rainha católica bávara Teodolinda, um aspecto que o Santo Padre enfatizou nesta quarta-feira para mostrar «um belo testemunho da importância das mulheres na história da Igreja».

Por sua santidade de vida e rica humanidade, o Papa Gregório era muito amado pelos fiéis.

«O desejo de Deus estava sempre vivo no fundo de sua alma e precisamente por isso estava sempre muito perto do próximo, das necessidades das pessoas de sua época», afirmou Bento XVI.

Da ampla documentação que se conserva de São Gregório Magno se desprende sua «perene nostalgia», em constante aumento, pelo período de vida monástico dos inícios, «vida de diálogo permanente com o Senhor na escuta de sua palavra».

«Em um tempo desastroso, mais ainda, desesperado, soube criar paz e esperança. Este homem de Deus nos mostra as verdadeiras fontes da paz, de onde vem a esperança, e se converte assim em uma guia também para nós hoje.»

Bento XVI apresenta Papa São Gregório Magno

Queridos irmãos e irmãs!

Na quarta-feira passada, falei de um Padre da Igreja pouco conhecido no Ocidente, Romano o Meloda; hoje desejo apresentar a figura de um dos maiores Padres da história da Igreja, um dos quatro doutores do Ocidente, o Papa São Gregório, que foi bispo de Roma entre o ano 590 e 604, e que mereceu da parte da tradição o títuloMagnus/Grande. Gregório foi verdadeiramente um grande Papa e um grande Doutor da Igreja! Nasceu em Roma, em torno de 540, de uma rica família patrícia da gens Anicia, que se distinguia não só pela nobreza de sangue, mas também pelo apego à fé cristã e pelos serviços prestados à Sé Apostólica. Desta família procediam dois Papas: Félix III (483-492), tataravô de Gregório, e Agapito (535-536). A casa na qual Gregório cresceu se levantava na Clivus Scauri, rodeada de solenes edifícios que testemunhavam a grandeza da antiga Roma e a força espiritual do cristianismo. Para inspirar-lhe elevados sentimentos cristãos estiveram também os exemplos de seus pais Giordiano e Silvia, ambos venerados como santos, e os de suas tias paternas Emiliana e Tarsília, que viviam na própria casa como virgens consagradas em um caminho compartilhado de oração e ascese.

Gregório ingressou logo na carreira administrativa, que havia seguido também seu pai, e em 572 alcançou o cume, convertendo-se em prefeito da cidade. Este cargo, complicado pela tristeza daqueles tempos, permitiu-lhe aplicar-se em um amplo raio a todo tipo de problemas administrativos, obtendo deles luz para suas futuras tarefas. Em particular ficou nele um profundo sentido da ordem e da disciplina: já como Papa, sugerirá aos bispos que tomem como modelo na gestão dos assuntos eclesiásticos a diligência e o respeito das leis próprias dos funcionários civis. Aquela vida não lhe devia satisfazer, visto que, não muito depois, decidiu deixar todo cargo civil para retirar-se em sua casa e começar a vida de monge, transformando a casa de família no mosteiro de Santo André. Desse período de vida monástica, vida de diálogo permanente com o Senhor na escuta de sua palavra, ficou nele uma perene nostalgia que sempre de novo e cada vez mais aparece em suas homilias: em meio às preocupações pastorais, ele recordará várias vezes em seus escritos como um tempo feliz de recolhimento em Deus, de dedicação à oração, de serena imersão no estudo. Pôde assim adquirir esse profundo conhecimento da Sagrada Escritura e dos Padres da Igreja, do qual se serviu depois em suas obras.

Mas o retiro claustral de Gregório não durou muito. A preciosa experiência amadurecida na administração civil em um período carregado de graves problemas, as relações que teve nesta tarefa com os bizantinos, a estima universal que havia ganhado, induziram o Papa Pelágio a nomeá-lo diácono e a enviá-lo a Constantinopla como seu «apocrisiario» - hoje se diria «Núncio Apostólico» - para favorecer a superação dos últimos restos de controversa monofisista e sobretudo para obter o apoio do imperador no esforço de conter a pressão longobarda. A permanência em Constantinopla, onde havia reiniciado a vida monástica com um grupo de monges, foi importantíssima para Gregório, pois lhe permitiu ganhar experiência direta no mundo bizantino, assim como se aproximar do problema dos Longobardos, que depois colocaria à prova sua habilidade e sua energia nos anos do Pontificado. Passados alguns anos, foi chamado de novo a Roma pelo Papa, que o nomeou seu secretário. Eram anos difíceis: as contínuas chuvas, o transbordamento dos rios e a carestia atingiam muitas áreas da Itália e da própria Roma. No final se desatou a peste, que causou numerosas vítimas, entre elas também o Papa Pelágio II. O clero, o povo e o senado foram unânimes em eleger como seu sucessor na Sede de Pedro precisamente ele, Gregório. Tentou resistir, inclusive buscando a fuga, mas tudo foi inútil: ao final teve de ceder. Era o ano de 590.

Reconhecendo que havia sucedido a vontade de Deus, o novo pontífice se pôs imediatamente ao trabalho com empenho. Desde o princípio revelou uma visão singularmente lúcida da realidade com a qual devia medir-se, uma extraordinária capacidade de trabalho ao enfrentar os assuntos tanto eclesiais como civis, um constante equilíbrio nas decisões, também valentes, que sua missão lhe impunha. Conserva-se de seu governo uma ampla documentação graças ao Registro de suas cartas (aproximadamente 800), nas quais se reflete o enfrentamento diário dos complexos interrogantes que chegavam à sua mesa. Eram questões que procediam dos bispos, dos abades, dos clérigos, e também das autoridades civis de toda ordem e grau. Entre os problemas que afligiam naquele tempo a Itália e Roma, havia um de particular relevância no âmbito tanto civil como eclesial: a questão longobarda. A ela o Papa dedicou toda a energia possível com vistas a uma solução verdadeiramente pacificadora. Ao contrário do Imperador bizantino, que partia do pressuposto de que os Longobardos eram só indivíduos depredadores a quem era preciso derrotar ou exterminar, São Gregório via estas pessoas com os olhos do bom pastor, preocupado por anunciar-lhes a palavra de salvação, estabelecendo com eles relações de fraternidade orientadas a uma futura paz fundada no respeito recíproco e na serena convivência entre italianos, imperiais e longobardos. Preocupou-se pela conversão dos jovens povos e da nova organização civil da Europa: os Visigodos da Espanha, os Francos, os Saxões, os imigrantes na Bretanha e os Lonbogardos foram os destinatários privilegiados de sua missão evangelizadora. Ontem celebramos a memória litúrgica de Santo Agostinho de Canterbury, guia de um grupo de monges aos que Gregório encomendou ir a Bretanha para evangelizar a Inglaterra.

Para obter uma paz efetiva em Roma e na Itália, o Papa se empenhou a fundo – era um verdadeiro pacificador – empreendendo uma estreita negociação com o rei longobardo Agilulfo. Tal conversa levou a um período de trégua que durou cerca de três anos (598-601), após os quais foi possível estipular em 603 um armistício mais estável. Este resultado positivo se conseguiu graças também aos contatos paralelos que, entretanto, o Papa mantinha com a rainha Teodolinda, que era uma princesa bávara e, ao contrário dos chefes dos outros povos germanos, era católica, profundamente católica. Conserva-se uma série de cartas do Papa Gregório a esta rainha, nas quais ele mostra sua estima e sua amizade para com ela. Teodolinda conseguiu, pouco a pouco, orientar o rei para o catolicismo, preparando assim o caminho para a paz. O Papa se preocupou também de enviar-lhe as relíquias para a basílica de São João Batista que ela levantou em Monza, e não deixou de felicitar e oferecer preciosos presentes para a mesma catedral de Monza por ocasião do nascimento e do batismo de seu filho Adoaloaldo. A vicissitude desta rainha constitui um belo testemunho sobre a importância das mulheres na história da Igreja. No fundo, os objetivos sobre os que Gregório apontou constantemente foram três: conter a expansão dos Longobardos na Itália, subtrair a rainha Teodolinda da influência dos cismáticos e reforçar a fé católica, assim como mediar entre Longobardos e Bizantinos com vistas a um acordo que garantisse a paz na península e consentisse desenvolver uma ação evangelizadora entre os próprios Longobardos. Portanto, foi dupla sua constante orientação na complexa situação: promover acordos no plano diplomático-político e difundir o anúncio da verdadeira fé entre as populações.

Junto à ação meramente espiritual e pastoral, o Papa Gregório foi ativo protagonista também de uma multiforme atividade social. Com as rendas do conspícuo patrimônio que a Sede romana possuía na Itália, especialmente na Sicília, comprou e distribuiu trigo, socorreu quem se encontrava em necessidade, ajudou sacerdotes, monges e monjas que viviam na indigência, pagou resgates de cidadãos que eram prisioneiros dos Longobardos, adquiriu armistícios e tréguas. Também desenvolveu tanto em Roma como em outras partes da Itália uma atenta obra de reordenação administrativa, ministrando instruções precisas para que os bens da Igreja, úteis à sua subsistência e à sua obra evangelizadora no mundo, se dirigissem com absoluta retidão e segundo as regras da justiça e da misericórdia. Exigia que os colonos fossem protegidos dos abusos dos concessionários das terras de propriedade da Igreja e, em caso de fraude, que foram ressarcidos com prontidão, para que o rosto da Esposa de Cristo não se contaminasse com benefícios desonestos.

Gregório levou a cabo esta intensa atividade apesar de sua incerta saúde, que o obrigava com freqüência a ficar de cama durante longos dias. Os jejuns que havia praticado nos anos da vida monástica lhe haviam ocasionado sérios transtornos digestivos. Também sua voz era muito frágil, de forma que com freqüência tinha de confiar ao diácono a leitura de suas homilias para que os fiéis das basílicas romanas pudessem ouvi-lo. Ele fazia o possível por celebrar nos dias de festa Missarum sollmnia, isto é, a Missa Solene, e então se encontrava pessoalmente com o povo de Deus, que o estimava muito porque via nele a referência autorizada para obter segurança: não por acaso lhe atribuíram logo o título de consul Dei. Apesar das dificílimas condições nas quais teve de atuar, conseguiu conquistar, graças à santidade de vida e à rica humanidade, a confiança dos fiéis, conseguindo para seu tempo e para o futuro resultados verdadeiramente grandiosos. Era um homem imerso em Deus: o desejo de Deus estava sempre vivo no fundo de sua alma e precisamente por isso estava sempre muito perto do próximo, das necessidades das pessoas de sua época. Em um tempo desastroso, mais ainda, desesperado, soube criar paz e esperança. Este homem de Deus nos mostra as verdadeiras fontes da paz, de onde vem a esperança, e se converte assim em uma guia também para nós hoje.

«A fé é alegria e por isso cria beleza», explica Papa

Ao apresentar o escritor Romano o Meloda

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 20 de maio de 2008 (ZENIT.org).- Para Bento XVI, as belezas surgidas através da história da cultura cristã não são algo do passado, mas seguem vivas, manifestando-se sempre que alguém se aproxima delas com fé.

Foi o que o pontífice explicou ao receber oito mil peregrinos na Sala Paulo VI, no Vaticano. Outros muitos tinham saudado antes o Papa na Basílica vaticana, pois a forte chuva impediu que o encontro acontecesse na Praça de São Pedro.

«A fé é amor e por isso cria poesia e cria música. A fé é alegria e por isso cria beleza», disse.

No semanal encontro com os fiéis, o Papa continuou apresentando figuras que fizeram a história da Igreja. Nesta ocasião, falou de Romano o Meloda, escritor, poeta e teólogo, que viveu entre os séculos V e VI, cujos cantos trazem «humildade palpitante, ardor de fé, profunda humildade».

«Este grande poeta e compositor nos recorda todo o tesouro da cultura cristã, nascida da fé, nascida do coração que se encontrou com Cristo, com o Filho de Deus», disse.

Falando de Romano, que nasceu na atual Síria, e viveu boa parte de sua existência em Beirute e Constantinopla, mostrou como «deste contato do coração com a Verdade, que é Amor, nasce a cultura, toda a grande cultura cristã».

«E se a fé segue viva, esta herança cultural tampouco morre, mas que segue estando viva e presente.»

«Os ícones seguem falando hoje ao coração dos crentes, não são coisas do passado», enfatizou.

«As catedrais não são monumentos medievais, mas casas de vida, onde nos sentimos ‘em casa’: onde encontramos Deus e nos encontramos uns com os outros.»

«Tampouco a grande música – o gregoriano, ou Bach ou Mozart – é algo do passado, mas vive na vitalidade da liturgia e de nossa fé», assegurou.

« Se a fé está viva, a cultura cristã não fica em algo ‘passado’, mas segue viva e presente», comentou.

«Criatividade, inovação, cântico novo, cultura nova e presença de toda herança cultural na vitalidade da fé não se excluem, mas são uma só realidade: são presença da beleza de Deus e da alegria de ser filhos seus», concluiu o Papa.

Bento XVI: vida sem Deus está limitada
Mensagem para a 97ª Katholikentag alemã

CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 23 de maio de 2008 (ZENIT.org).- Uma vida que exclui  Deus está limitada ao «finito», observa Bento XVI na Mensagem que escreveu por ocasião do 97º Katholikentag alemão.

A «Jornada dos Católicos», que este ano está acontecendo em Osnabruck, se prolongará até 25 de maio e prevê 1.200 eventos em 60 praças e lugares característicos, com a participação de mais de 30 mil pessoas e 2 mil voluntários.

Recordando o tema do encontro, «Tu nos conduzes mar adentro» (Sal 18, 20), o Papa se perguntou o que é o «mar adentro» ao qual nos conduz o encontro com Deus, a fé.

Hoje, reconhece, muitas pessoas «têm medo de que a fé possa limitar sua vida, que possam estar limitados no envoltório dos mandamentos e dos ensinamentos da Igreja e que já não possam ser livres para mover-se no ‘mar adentro’ da vida e do pensamento de hoje».

Segundo o Pontífice, estas pessoas se sentem como o filho pródigo, «obrigadas a partir, deixando Deus de lado para saborear todo o ‘mar adentro’ do universo. Ao final, contudo, este ‘mar adentro’ se torna estreito e vazio».

«Só quando nossa vida consegue subir ao coração de Deus – constata –, teremos encontrado aquele ‘mar adentro’ para o qual fomos criados.»

Uma vida sem Deus, observa Bento XVI, «não se torna mais livre e mais ampla». Quem deixa Deus de lado, «limita a vida e o mundo ao ‘finito’, ao que nós mesmos podemos fazer e pensar, e isso é sempre pouco demais».

Deus, ao contrário, «aumenta nosso coração para que não pensemos só em nós mesmos», de modo que o homem já não tenha necessidade de «buscar, temeroso, sua felicidade, seu êxito ou de dar peso à opinião dos outros».

«É agora livre e generoso, aberto ao chamado de Deus. Com confiança pode doar-se totalmente porque sabe – onde quer que ele esteja – que está seguro nas mãos de Deus.»

O «mar adentro» do lema, acrescenta o Papa, não é só o que está em nós, «mas também o ‘mar adentro’ do futuro».

O lema do Katholikentag, portanto, «convida a reforçar em nós a confiança em Deus, a confiança em que Deus nos conduzirá a um futuro bom».

«Ainda que às vezes o presente sopra tempestuoso no rosto e temos grande medo pelo futuro – reconhece Bento XVI –, nunca devemos perder a confiança, não devemos ter medo porque Deus vem ao nosso encontro.»

Se compreendermos o futuro deste modo, sugere, poderemos recolher o desafio que nos apresenta e desfrutar as possibilidades que oferece.

«Não deixeis que sejam só os outros os que preencham o futuro, mas introduzi-vos com fantasia e capacidade de persuasão nos debates do presente!», exorta aos participantes do Katholikentag.

«Com o Evangelho como parâmetro, participai ativamente na vida política e social de vosso país. Como leigos católicos, atrevei-vos a participar na formação do futuro, em união com os sacerdotes e com os bispos!»

«Com Deus como garantia, podeis atuar com valor, porque é Ele o que nos assegura: ‘Quero dar-vos um futuro e uma esperança’ (Jer 29, 11).»

O Pontífice conclui sua mensagem dirigindo-se aos jovens que participam do Katholikentag, mostrando-se contente de que se reúnam em Osnabruck para reforçar-se «mutuamente na fé, na esperança e no amor».

«Desfrutai esta ocasião e deixai-vos conduzir pela mensagem do Katholikentag ao ‘mar adentro’ das possibilidades que Deus vos oferece! – exorta. Deus quer impregnar toda vossa vida e quer mostrar-vos quão grande é a liberdade de quem põe sua vida em suas mãos.»

«A vida de quem vive com Deus se torna ampla!»

Raniero Cantalamessa

Pregador do Papa: renunciar a si mesmo
Meditação sobre a passagem evangélica do XXII domingo do tempo comum

Pe. Raniero Cantalamessa, OFM Cap., pregador da Casa Pontifícia, à liturgia do próximo domingo.

Jeremias 20, 7-9; Romanos 12, 1-2; Mateus 16, 21-27
Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me
No evangelho deste domingo escutamos Jesus, que diz: «Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recobrá-la-á.
O que significa «renunciar a si mesmo»? E mais, por que se deve negar a si mesmo? Conhecemos a indignação que suscitava no filósofo Nietzsche esta exigência do Evangelho. Começo respondendo com um exemplo. Durante a perseguição nazista, muitos trens carregados de judeus partiam de todas as partes da Europa para os campos de extermínio. Eram convencidos de embarcar por falsas promessas de serem levados para lugares melhores para o seu bem, enquanto que, ao contrário, eram levados para a destruição. Às vezes, acontecia que em alguma parada do comboio, alguém que sabia a verdade gritava às escondidas para os passageiros: Desçam, fujam. E alguns conseguiam.
O exemplo é um pouco forte, mas expressa algo sobre nossa situação. O trem da vida no qual viajamos vai para a morte. Sobre isso, ao menos, não há dúvida. Nosso eu natural, sendo mortal, está destinado a termianr. O que o Evangelho nos propõe quando nos exorta a renunciar a nós mesmos e a descer deste trem é subir no outro que conduz à vida. O trem que conduz à vida é a fé n’Ele, que disse: «Que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá».
Paulo havia realizado este «transbordar», e o descreve assim: «Já não sou eu quem vive, mas é Cristo que vive em mim». Se assumimos o eu de Cristo, convertemo-nos em imortais, porque ele, ressuscitado da morte, não morre mais. Isso é o que significa as palavras que escutamos: «Aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recobrá-la-á». Portanto, está claro que negar-se a si mesmo não é uma operação autolesionadora e renunciadora, mas o golpe de audácia mais inteligente que podemos realizar na vida.
Mas devemos fazer imediatamente uma precisão: Jesus não nos pede para renegar o «que somos», mas «aquilo no que nos convertemos». Nós somos imagem de Deus, somos, portanto, algo «muito bom», como disse Deus mesmo no momento de criar o homem e a mulher. O que temos que renegar não é o que Deus fez, mas o que nós fizemos, usando mal nossa liberdade. Em outras palavras, as tendências más, o pecado, todas essas coisas que são como incrustações posteriores superpostas ao original.
Há alguns anos, descobriram-se no fundo do mar, no mar Jônico, duas massas informes que tinham uma ligeira semelhança com corpos humanos e que estavam recobertas de incrustrações marinhas. Foram levadas à superfície e limpas pacientemente. Hoje são os famosos «Bronzes de Riace» (estátuas gregas de grande beleza, que representam dois homens, e que estão datadas no século V antes de Cristo, N. do T.) custodiados no museu de Reggio Calábria, e estão entre as esculturas mais admiradas da antiguidade.
São exemplos que nos ajudam a entender o aspecto positivo que há na proposta do Evangelho. Nós nos parecemos, no espírito, a essas estátuas antes de sua restauração. A bela imagem de Deus que deveríamos ser está recoberta de sete estratos que são os sete pecados capitais. Talvez seja conveniente trazê-los à memória: soberba, avareza, luxúria, ira, gula, inveja e preguiça. São Paulo chama esta imagem desfigurada de «imagem terrestre», em oposição à «imagem celeste», que é a semelhante a Cristo.
«Renunciar a si mesmo» não é portanto uma operação para a morte, mas para a vida, para a beleza e para a alegria. Consiste também em aprender a linguagem do verdadeiro amor. Imagine, dizia um grande filósofo do século passado, Kierkegaard, uma situação puramente humana. Dois jovens se amam. Mas pertencem a dois povos diversos e falam duas línguas completamente distintas. Se seu amor quer sobreviver e crescer, é necessário que um dos dois aprenda o idioma do outro. Caso contrário, não poderão comunicar-se e seu amor não durará.
Assim, comentava, sucede entre Deus e nós. Nós falamos a linguagem da carne, ele o do espírito; nós o do egoísmo, ele o do amor. Renunciar a si mesmo é aprender a língua de Deus para poder comunicar-nos com ele, mas é também aprender a língua que nos permite comunicar-nos entre nós. Não somos capazes de dizer «sim» ao outro, começando pelo próprio cônjuge, se não somos capazes de dizer «não» a nós mesmos. No âmbito do matrimônio, muitos problemas e fracassos do casal dependem de que o homem nunca se preocupou em aprender o modo de expressar o amor à mulher, e a mulher o do homem. Também quando fala de renunciar a si mesmo, o Evangelho, como pode ser visto, está muito menos afastado da vida do que as pessoas acreditam.

Pregador do Papa: orgulho intelectual, cegueira espiritual

Comentário do evangelho do XIV Domingo do Tempo Comum

Publicamos o comentário do Pe. Raniero Cantalamessa, OFM Cap., pregador da Casa Pontifícia, sobre a liturgia do próximo domingo. XIV Domingo do tempo comumZacarias 9, 9-10; Romanos 8, 9.11-13; Mateus 11, 25-30O escondido aos sábios e revelado aos pequenosA passagem evangélica deste domingo, uma das páginas mais intensas e profundas do Evangelho, compõe-se de três partes: uma oração («Eu te louvo, Pai…»), uma declaração sobre ele mesmo («Tudo me foi dado por meu Pai…») e um convite («Vinde a mim todos os que estais cansados e fatigados…»). Eu me limitarei a comentar o primeiro elemento, a oração, pois contém uma revelação de uma importância extraordinária: «Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e aos prudentes e as revelaste revelado aos pequenos. Sim, Pai, porque assim o quiseste».Acaba de começar o Ano Paulino e o melhor comentário a estas palavras de Jesus é apresentado por São Paulo na primeira carta aos Coríntios: «De fato, irmãos, reparai em vós mesmos, os chamados: não há entre vós muitos sábios de sabedoria humana, nem muitos poderosos, nem muitos de família nobre. Mas o que para o mundo é loucura, Deus o escolheu para envergonhar os sábios, e o que para o mundo é fraqueza, Deus o escolheu para envergonhar o que é forte. Deus escolheu o que no mundo não tem nome nem prestígio, aquilo que é nada, para mostrar a nulidade dos que são alguma coisa. Assim, ninguém poderá gloriar-se diante de Deus» (1 Cor 1, 26-29).As palavras de Cristo e de Paulo chamam a atenção em particular ao mundo de hoje. É uma situação que se repete. Os sábios e os inteligentes ficam afastados da fé, com freqüência vêem com pena a multidão dos crentes, que reza, que crê nos milagres, que se agrupa ao redor do Padre Pio. Ainda que para dizer a verdade não são todos os doutos, e talvez nem sequer a maioria, mas certamente é a parte mais influente que tem à disposição os microfones mais potentes, a chatting society, como se diz em inglês, a sociedade que tem acesso aos grandes meios de comunicação.Muitos deles são pessoas honestas e sumamente inteligentes e sua posição se deve à formação, ao ambiente, a experiências de vida, e nem tanto a uma resistência diante da verdade. Portanto, não se trata de emitir um juízo sobre estas pessoas com nomes e sobrenomes. Eu mesmo conheço algumas delas e lhes tenho uma grande estima. Mas isso não deve impedir-nos de descobrir o núcleo do problema. O fechamento a toda a revelação do alto e, portanto, à fé, não é causado pela inteligência, mas pelo orgulho. Um orgulho particular que consiste na rejeição de toda dependência e na reivindicação de uma autonomia absoluta por parte do pensador.Esconde-se por trás da trincheira da palavra mágica «razão», mas na realidade não é a famosa «razão pura», que o exige, nem uma razão «soberana», mas uma razão escrava, com as asas cortadas. Filósofos, que não podem ser acusados de falta de inteligência ou de capacidade dialética, escreveram: «O ato supremo da razão está em reconhecer que há uma infinidade de coisas que a superam» (Pascal). Outro dizia: «Até agora sempre se disse isso: ‘Dizer que não se pode compreender isso ou aquilo não satisfaz a ciência que quer compreender’. Este é o erro. É preciso dizer o contrário: quando a ciência humana não quer reconhecer que há algo que não pode compreender, ou de maneira mais precisa, algo que com clareza pode ‘compreender que não pode compreender’, ou de maneira mais precisa, algo que com clareza pode ‘compreender que não pode compreender’, então tudo fica transtornado. Portanto, uma tarefa do conhecimento humano consiste em compreender que há coisas que ele não pode compreender, e descobrir quais são estas» (Kierkegaard). Quem não reconhece esta capacidade transcendente põe um limite à razão e a humilha; não o faz, portanto, o crente, que o reconhece.O que eu disse explica o motivo pelo qual o pensamento moderno, depois de Nietzsche, substituiu o valor da verdade pelo da busca da verdade e, portanto, da sinceridade. Em certas ocasiões, esta atitude se confunde com a humildade (é preciso contentar-se com o «pensamento frágil»!) e a atitude de quem crê em verdades absolutas se considera como presunção, mas é um juízo muito superficial. Enquanto a pessoa está em busca, ela é o protagonista, dirige o jogo. Uma vez encontrada a verdade, a verdade tem de subir ao trono e o buscador deve inclinar-se diante dela e isto, quando se trata da Verdade transcendente, custa o «sacrifício do intelecto».Neste panorama cultural, cai como uma provocação o que Jesus diz no Evangelho de João: «Eu sou a Verdade», assim como o que diz depois na passagem evangélica: «Ninguém vai ao Pai senão por mim… Vinde a mim todos os que estais cansados e fatigados e eu vos aliviarei». Mas é um convite, não é uma reprovação, e está dirigido também aos cansados de buscar sem encontrar nada, a quem passou a vida atormentando-se, dando murros contra a rocha do mistério.O psicólogo C. G. Jung, em seu livro, diz que todos os pacientes de uma certa idade aos que havia atendido sofriam de algo que podia chamar-se «ausência de humildade» e não se curavam enquanto não alcançavam uma atitude de respeito por uma realidade maior que eles, ou seja, uma atitude de humildade.Jesus repete também a tantos inteligentes e sábios honestos que existem no mundo de hoje seu convite cheio de amor: Vinde a mim todos os que estais cansados e fatigados e eu vos darei esse alívio e essa paz que buscais em vão em vossos atormentados raciocínios.

Pregador do Papa: «Os dois corpos de Cristo»

Comentário do Pe. Cantalamessa à liturgia do próximo domingo

ROMA, sexta-feira, 23 de maio de 2008 (ZENIT.org).- Publicamos o comentário do Pe. Raniero Cantalamessa, OFM Cap. – pregador da Casa Pontifícia – sobre a liturgia da Palavra do próximo domingo, Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo.

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Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

Deuteronômio 8, 2-3.14b-16a; 1 Coríntios 10, 16-17; João 6, 51-59

Os dois corpos de Cristo

Na segunda leitura, São Paulo nos apresenta a Eucaristia como mistério de comunhão: «O cálice que abençoamos não é acaso comunhão com o sangue de Cristo? E o pão que partimos, não é comunhão com o corpo de Cristo?». Comunhão significa intercâmbio, compartilhar. A regra fundamental de compartilhar é esta: o que é meu é teu, e o que é teu é meu. Tentemos aplicar esta regra à comunhão eucarística e perceberemos a «enormidade» do tema.
«O que tenho eu de especificamente ‘meu’? A miséria, o pecado: isto é exclusivamente meu. E o que Jesus tem de ‘seu’ que não seja santidade, perfeição de todas as virtudes? Então, a comunhão consiste no fato de que eu dou a Jesus meu pecado e minha pobreza. E Ele me dá sua santidade. Realiza-se o «maravilhoso intercâmbio», como o define a liturgia.
Conhecemos diversos tipos de comunhão. Uma comunhão bastante íntima é a que se produz entre nós e o alimento que comemos, pois este se torna carne e nossa carne e sangue de nosso sangue.
É verdade que a comida não é uma pessoa viva e inteligente com a qual podemos intercambiar pensamentos e afetos, mas suponhamos por um momento que o fosse. Acaso não se teria a perfeita comunhão? Pois é o que precisamente acontece na comunhão eucarística. Jesus, na passagem evangélica, diz: «Eu sou o pão vivo, descido do céu… Minha carne é verdadeira comida… Quem come minha carne tem vida eterna». Aqui o alimento não é uma simples coisa, mas uma pessoa viva. Tem-se a mais íntima, ainda que a mais misteriosa, das comunhões.
Observemos o que acontece na natureza, no âmbito da nutrição. É o princípio vital mais forte que assimila os menos fortes. É o vegetal que assimila ao mineral; é o animal que assimila o vegetal. Também nas relações entre o homem e Cristo se verifica esta lei. É Cristo quem nos assimila; nós nos transformamos n’Ele, não Ele em nós. Um famoso materialista ateu disse: «O homem é o que come». Sem saber, ele deu uma definição ótima da Eucaristia, graças à qual o homem se converte verdadeiramente no que come, isto é, no corpo de Cristo!
Leiamos como prossegue o texto inicial de São Paulo: «Porque ainda sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, pois todos participamos de um só pão». Está claro que neste segundo caso, a palavra «corpo» não indica já o corpo de Cristo nascido de Maria, mas nos indica «todos nós», indica aquele corpo de Cristo mais amplo, que é a Igreja. Isso significa que a comunhão eucarística é sempre também comunhão entre nós. Comendo todos do único alimento, formamos um só corpo.
Qual é a conseqüência? Que não podemos ter verdadeira comunhão com Cristo se estivermos divididos entre nós, nos odiarmos, não estivermos dispostos a reconciliar-nos. Se ofendeste teu irmão, dizia Santo Agostinho, se cometeste uma injustiça contra ele, e depois vais receber a comunhão como se nada tivesse acontecido, talvez cheio de fervor diante de Cristo, tu te pareces a quem vê chegar um amigo ao qual não vê há muito tempo. Corre a seu encontro, estende-lhe os braços ao pescoço e lhe dá um beijo na testa. Mas ao fazer isso, não se percebe que está pisando seus pés com seu calçado cheio de barro. Os irmãos, com efeito, especialmente os mais pobres e desvalidos, são os membros de Cristo, são seus pés colocados ainda na terra. Ao dar-nos a sagrada forma, o sacerdote diz: «O corpo de Cristo», e respondemos: «Amém!». Agora sabemos a quem dizemos «Amém», ou seja, sim, eu te acolho: não só Jesus, o Filho de Deus, mas também o próximo.
Na festa do «Corpus Domini», não posso esconder um pesar. Há formas de doença mental que impedem de reconhecer as pessoas próximas. É quando alguém durante horas: «onde está meu filho? Onde está minha esposa? O que aconteceu a eles?», e talvez o filho ou a esposa estejam lá, seguram sua a mão e repetem: «Estou aqui, não me vês? Estou contigo!». Assim acontece também com Deus. Os homens, nossos contemporâneos, buscam Deus no cosmos ou no átomo; discutem se houve ou não um criador no início do mundo. Continuamos perguntado: «Onde está Deus?», e não percebemos que Ele está conosco e se fez comida e bebida para estar ainda mais intimamente unido a nós. João Batista deveria repetir tristemente: «No meio de vós está aquele a quem não conheceis». A solenidade do «Corpus Domini» nasceu precisamente para ajudar os cristãos a tomarem consciência desta presença de Cristo entre nós, para manter desperto o que João Paulo II chamava de «estupor eucarístico».

[Tradução: Élison Santos. Revisão: Aline Banchieri]

Pregador do Papa: Palavra de Deus, rocha eterna

Comentário do Pe. Cantalamessa sobre a liturgia do próximo domingo

ROMA, sexta-feira, 30 de maio de 2008 (ZENIT.org).- Publicamos o comentário do Pe. Raniero Cantalamessa, OFM Cap. – pregador da Casa Pontifícia – sobre a Liturgia da Palavra do próximo domingo.

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IX Domingo do Tempo Comum

Deuteronômio 11, 18.26-28; Romanos 3, 21-25a. 28; Mateus 7, 21-27

A casa na rocha

Todos sabiam, no tempo de Jesus, que é imprudente construir a casa sobre a areia, no fundo dos vales, ao invés de fazê-lo no alto da rocha. Depois de cada chuva abundante se forma, com efeito, quase de imediato, uma torrente que varre as casas que encontra à sua passagem. Jesus se baseia nesta observação, que provavelmente havia feito em pessoa, para construir a partir dela a parábola deste domingo sobre as duas casas, que é como uma dupla parábola.
«Portanto, quem ouve estas minhas palavras e as põe em prática é como um homem sensato, que construiu sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos deram contra a casa, mas a casa não desabou, porque estava construída sobre a rocha.»
Com simetria perfeita, variando só pouquíssimas palavras, Jesus apresenta a mesma cena na negativa: «Por outro lado, quem ouve estas minhas palavras e não as põe em prática é como um homem sem juízo, que construiu sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos sopraram e deram contra a casa, e ela desabou, e grande foi a sua ruína».
Construir a própria casa sobre areia quer dizer voltar a pôr as próprias esperanças e certezas em coisas instáveis e aleatórias que não se subtraem ao tempo e à sorte. Tais são: o dinheiro, o êxito, a própria saúde. A experiência coloca isso diante dos nossos olhos cada dia: é muito pouco o que basta – um pequeno coágulo no sangue, dizia o filósofo Pascal – para que tudo se derrube.
Construir a casa sobre a rocha quer dizer, ao contrário, fundar a própria vida e as próprias esperanças naquilo que «os ladrões não podem roubar nem a traça desfazer», sobre o que não passa. «Os céus e a terra passarão – dizia Jesus –, mas minhas palavras não passarão».
Construir a casa na rocha significa, muito simplesmente, construir em Deus. Ele é a rocha. Rocha é um dos símbolos preferidos da Bíblia para falar de Deus: «Nosso Deus é uma rocha eterna» (Is 26, 4); «Ele é a rocha, perfeita é sua obra» (Dt 32, 4).
A casa construída sobre a rocha já existe; trata-se de entrar nela! É a Igreja. Não, evidentemente, a que está feita à base de tijolos, mas a formada pelas «pedras vivas» que são os crentes, edificados na «pedra angular» que é Cristo Jesus. A casa na rocha é aquela da qual Jesus falava quando dizia a Simão: «Tu és Pedro e sobre esta pedra (literalmente ‘rocha’)» edificarei a minha Igreja (Mt 16, 18).
Fundar a própria vida sobre a rocha significa, portanto, viver na Igreja; não ficar fora só apontando o dedo contra as incoerências e os defeitos dos homens de Igreja. Do dilúvio universal se salvaram só poucas almas, as que haviam entrado com Noé na arca; do dilúvio do tempo, que tudo engole, só se salvam os que entram na arca nova que é a Igreja (cf. 1 P 3, 20). Isso não quer dizer que todos os que estão fora dela não se salvam; existe uma pertença à Igreja de outro tipo, «conhecida só a Deus», diz o Concílio Vaticano II com relação a quem, sem conhecer a Cristo, atua segundo os ditados da própria consciência.
O tema da palavra de Deus, que está no centro das leituras deste domingo e sobre o que se celebrará em outubro o próximo Sínodo me sugere uma aplicação prática. Deus se serviu da palavra para comunicar-nos a vida e revelar-nos a verdade. Os seres humanos usam com freqüência a palavra para dar morte e esconder a verdade! Na introdução a seu famoso Dizionario delle opere e dei personaggi, Valentino Bompiani relata o seguinte episódio. Em julho de 1938 aconteceu em Berlim o congresso internacional dos editores, do qual ele também participou. A guerra se palpava já no ar e o governo nazista se mostrava mestre na manipulação das palavras com fins de propaganda. No penúltimo dia, Goebbels, que era ministro de Propaganda do Terceiro Reich, convidou os congressistas à sala do Parlamento. Pediu-se aos delegados dos distintos países uma palavra de saudação. Quando chegou a vez de um editor sueco, este subiu ao estrado e com voz grave pronunciou estas palavras: «Senhor Deus, devo pronunciar um discurso em alemão. Careço de vocabulário e de gramática, e sou um pobre homem perdido no gênero dos homens. Não sei se a amizade é feminino ou se o ódio é masculino, ou se o horror, a lealdade e a paz são neutros. Assim que, Senhor Deus, recobra as palavras e deixa-nos nossa humanidade. Talvez consigamos compreender-nos e salvar-nos». Estourou um aplauso, enquanto Goebbels, que havia captado a alusão, saía furioso da sala.
Um imperador chinês, interrogado sobre o que era o mais urgente para melhorar o mundo, respondeu sem duvidar: reformar as palavras! Queria dizer: devolver às palavras seu verdadeiro significado. Tinha razão. Há palavras que, pouco a pouco, foram esvaziadas completamente de seu significado original e cumuladas de um significado diametralmente oposto. Seu uso não pode mais que resultar prejudicial. É como pôr em uma garrafa de arsênico a etiqueta «digestivo efervescente»: alguém se envenenará. Os Estados se dotaram de leis severíssimas contra os falsificadores de moedas, mas de nenhuma contra a falsificação das palavras. A nenhuma palavra ocorreu o mesmo que à pobre palavra «amor». Um homem abusa de uma mulher e se justifica dizendo que o fez por amor. A expressão «fazer por amor» freqüentemente representa o ato mais vulgar de egoísmo, no qual cada um pensa em sua satisfação, ignorando totalmente o outro e reduzindo-o a simples objeto.

A reflexão sobre a palavra de Deus nos pode ajudar, como se vê, também a reformar e resgatar do vazio a palavra dos homens.

[Tradução: Élison Santos. Revisão: Aline Banchieri]

Pregador do Papa: O homem é mais que pó?
Comentário do padre Raniero Cantalamessa à liturgia do próximo domingo

ROMA, sexta-feira, 18 de abril de 2008 (ZENIT.org).- Publicamos o comentário do padre Raniero Cantalamessa, OFM Cap. –predicador da Casa Pontifícia– à Liturgia da Palavra do próximo domingo, V de Páscoa.

V Domingo de Páscoa

At 6, 1-7, Pd 2 ,4-9; Jo 14, 1-12

No livro do Gênesis, lê-se que depois do pecado, Deus disse ao homem: «Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar» (Gn. 3, 19). Todos os anos, na Quarta-feira de Cinzas, a liturgia repete esta severa advertência: «Recorda-te que és pó e ao pó voltarás». Se dependesse de mim, tiraria imediatamente esta fórmula da liturgia. Justamente agora, a Igreja permite substituí-la por outra: «Convertei e crede no Evangelho». Tomada ao pé da letra, sem as devidas explicações, aquelas palavras são a expressão perfeita do ateísmo científico moderno: o homem não é mais que um amontoado de átomos que se dissolverá, ao final, em outro amontoado de átomos.

O Qohélet (Eclesiastes, N do T.), um livro da Bíblia escrito em uma época de crise das certezas religiosas em Israel, parece confirmar esta interpretação atéia quando escreve: «Todos caminham para um mesmo lugar, todos saem do pó e para o pó voltam. Quem sabe se o sopro de vida dos filhos dos homens se eleva para o alto, e o sopro de vida dos brutos desce para a terra?» (Qo 3, 20-21). No final do livro, esta última terrível dúvida (quem sabe se há diferença entre a sorte final do homem e a do animal) parece resolvida de modo positivo, porque o autor diz: «antes que a poeira retorne à terra para se tornar o que era; e antes que o sopro de vida retorne a Deus que o deu» (Qo 12, 7). Nos últimos escritos do Antigo Testamento, começa, é verdade, a abrir caminho a idéia de uma recompensa dos justos depois da morte, e até a de uma ressurreição dos corpos, mas é uma crença ainda bastante vaga no conteúdo e não compartilhada por todos, por exemplo, pelos saduceus.

Neste contexto, podemos avaliar a novidade das palavras com que começa o Evangelho do domingo: «Não se perturbe o vosso coração. Credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Não fora assim, e eu vos teria dito; pois vou preparar-vos um lugar. Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei e tomar-vos-ei comigo, para que, onde eu estou, também vós estejais». Contêm a resposta cristã à mais inquietante das perguntas humanas. Morrer não é – como estava nos inícios da Bíblia e no mundo pagão – baixar ao Xeol ou ao Hades para levar ali uma vida de larvas ou de sombras; não é – como para certos biólogos ateus – restituir à natureza o próprio material orgânico para um posterior uso por parte de outros seres vivos; tampouco é – como em certas formas de religiosidade atuais que se inspiram em doutrinas orientais (com freqüência mal entendidas) – dissolver-se como pessoa no grande mar da consciência universal, no Todo ou, segundo os casos, no Nada… É, em contrapartida, ir estar com Cristo no seio do Pai, ser onde Ele é.

O véu do mistério não se ergueu porque não pode suprimir-se. Assim como não pode descrever o que é a cor um cego de nascimento, ou o som um surdo, tampouco se pode explicar o que é a vida fora do tempo e do espaço quem ainda está no tempo e no espaço. Não é Deus quem quis manter-nos na obscuridade… Nos disse, no entanto, o essencial: a vida eterna será uma comunhão plena, alma e corpo, com Cristo ressuscitado, compartilhar sua glória e sua alegria.

O Papa Bento XVI, em sua recente encíclica sobre a esperança (Spe salvi), reflete sobre a natureza da vida eterna desde um ponto de vista também existencial. Começa observando que há pessoas que não desejam em absoluto uma vida eterna, que inclusive têm medo. Para que serve – perguntam-se – prolongar uma existência que se revela cheia de problemas e de sofrimentos?

A razão deste temor, explica o Papa, é que não se consegue pensar na vida mais que nos modos que conhecemos aqui embaixo; enquanto que se trata, sim, de vida, mas sem todas as limitações que experimentamos no presente. A vida eterna – diz na encíclica – será submergir-se no oceano do amor infinito, no qual o tempo – o antes e o depois – já não existe. Não será um contínuo suceder-se de dias do calendário, mas como o momento pleno de satisfação, no qual a totalidade nos abraça e nós abraçamos a totalidade.

pregações do Papa

Pio XII é exemplo de abandono nas mãos de Deus, diz Bento XVIHomilia do Papa no 50° aniversário da morte de Pacelli

CIDADE DO VATICANO, quinta-feira, 9 de outubro de 2008 (ZENIT.org).- Com ocasião do 50° aniversário da morte de Pio XII, Bento XVI recordou esta quinta-feira o testemunho de Pacelli.

Segundo o Papa, o pontificado de seu antecessor «desenvolveu-se nos anos difíceis da Segunda Guerra Mundial e no período subsequente, não menos complexo, da reconstrução e das difíceis relações internacionais que passaram à história com o nome significativo de ‘guerra fria’».A postura cultivada «constantemente» por Pio XII, recordou o Papa durante a homilia da missa celebrada na Basílica vaticana, foi a de «abandonar-se nas mãos misericordiosas de Deus», com a consciência de que «só Cristo é a verdadeira esperança do homem» e «apenas confinado nele, o coração humano pode abrir-se ao amor que vence o ódio».Esta consciência, acrescentou, «acompanhou Pio XII em seu ministério de Sucessor de Pedro, ministério iniciado precisamente quando pairavam sobre a Europa e o restante do mundo as nuvens ameaçadoras de um novo conflito mundial, o qual ele tentou evitar de toda forma».Durante a guerra, o Papa Pacelli levou adiante «uma intensa obra de caridade que promoveu em defesa dos perseguidos, sem distinção de religião, de etnia, de nacionalidade de pertença política», observou o pontífice.

Decidido a não abandonar nunca Roma, também quando, ocupada a cidade, lhe foi aconselhado repetidamente deixar o Vaticano para colocar-se a salvo, submeteu-se voluntariamente a «privações quanto à comida, calefação, vestes, comodidades», para compartilhar a condição da população duramente provada pelos bombardeios e pelas consequências da guerra».Pio XII, declarou Bento XVI, «atuou frequentemente de forma secreta e silenciosa, precisamente porque, à luz das situações concretas daquele momento histórico complexo, intuía que apenas desta forma podia evitar o pior e salvar o maior número possível de judeus».Por estas intervenções, ao término do conflito se dirigiram «muitas vítimas e unânimes reconhecimentos de gratidão», como o da ministra do Exterior de Israel, Golda Meir, que em sua morte afirmou: «Choramos pela perda de um grande servidor da paz».Em sua homilia, Bento XVI reconheceu que, «infelizmente, o debate histórico sobre a figura do Servo de Deus Pio XII, não sempre sereno, evitou que se colocassem à luz todos os aspectos de seu polivalente pontificado».Por isso, quis sublinhar alguns documentos importantes do Papa Pacelli, entre eles a encíclica Divino Afflante Spiritu, de 20 de setembro de 1943, que «estabelecia as normas doutrinais para o estudo da Sagrada Escritura, manifestando sua importância e seu papel na vida cristã».«Como não recordar esta encíclica, enquanto se desenvolvem os trabalhos do Sínodo que tem como tema precisamente ‘A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja’?», perguntou o pontífice.O Papa recordou também o «impulso notável» imprimido por Pio XII na atividade missionária da Igreja, confirmando o amor pelas missões demonstrado desde o início de seu pontificado, ordenando pessoalmente –em outubro de 1939– doze bispos de países de missão, entre eles um chinês, um japonês, o primeiro bispo africano e o primeiro bispo de Madagascar.Também, sublinhou, uma das «constantes preocupações pastorais» do pontífice foi «a promoção do papel dos leigos, para que a comunidade eclesial pudesse valer-se de todas as energias e recursos disponíveis».«A santidade foi seu ideal, um ideal que não deixou de propor a todos –acrescentou. Por isso, deu impulso às causas de beatificação e canonização de diferentes pessoas, representantes de todos os estados de vida, funções e profissões, reservando amplo espaço às mulheres.»

À propósito disso, durante o Ano Santo 1950, proclamou o dogma da Assunção, indicando à humanidade a Virgem «como sinal de segura esperança».«Neste nosso mundo que, como então, está assaltado por preocupações e angústias por seu futuro; desta forma, onde, talvez mais que então, o distanciamento de muitos da verdade e da virtude dá lugar a cenários sem esperança, Pio XII nos convida a voltar o olha para Maria assunta em glória celeste», disse Bento XVI.«Convida-nos a invocá-la com confiança, para que nos faça apreciar cada vez mais o valor da vida na terra e nos ajude a pôr o olhar na meta à qual todos estamos destinados: a da vida eterna, que, como assegura Jesus, quem escuta e segue sua palavra já possui.

Bento XVI: Maria nos precedeu no céu
Homilia na solenidade da Assunção de Nossa Senhora
Homilia que Bento XVI pronunciou na solenidade da Assunção de Nossa Senhora, em Castel Gandolfo.

Estimados irmãos e irmãs
Todos os anos, no meio do Verão, se comemora a Solenidade da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria, a mais antiga festa mariana. É uma ocasião para nos elevarmos com Maria às alturas do espírito, onde se respira o ar puro da vida sobrenatural e se contempla a beleza mais autêntica, a da santidade. O clima da celebração hodierna está inteiramente impregnado de alegria pascal. “Hoje assim canta a antífona do Magnificat Maria subiu ao Céu:  alegrai-vos, com Cristo Ela reina para sempre. Aleluia!”. Este anúncio fala-nos de um acontecimento totalmente único e extraordinário, mas que está destinado a encher de esperança e de felicidade o coração de cada ser humano. Com efeito, Maria é a primícia da humanidade nova, a criatura em que o mistério de Cristo encarnação, morte, ressurreição e ascensão ao Céu já teve o seu pleno efeito, resgatando-a da morte e levando-a de corpo e alma ao reino da vida imortal. Por isso a Virgem Maria, como recorda o Concílio Vaticano II, constitui para nós um sinal de esperança segura e de consolação (cf. Lumen gentium, 68). A festa hodierna impele-nos a elevar o olhar ao céu. Não se trata de um céu feito de ideias abstractas, nem sequer de um céu imaginário criado pela arte, mas do céu da realidade autêntica, que é  o  próprio  Deus:   Deus  é  o  céu. E Ele  é  a  nossa  meta,  a  meta  e a morada eterna, de onde vimos e para a qual tendemos.
São Germano, Bispo de Constantinopla no século VIII, num discurso pronunciado na festa da Assunção, dirigindo-se à celeste Mãe de Deus, assim se expressava:  “Tu és Aquela que, por meio da tua carne imaculada, uniste a Cristo o povo cristão… Como toda a pessoa sequiosa corre à fonte, assim também toda a alma corre a Ti, manancial de amor, e como todo o homem aspira a viver, a ver a luz que não conhece ocaso, assim também cada cristão aspira a entrar na luz da Santíssima Trindade, onde Tu já entraste”. Estes são os sentimentos que nos animam no dia de hoje, enquanto contemplamos Maria na glória de Deus. Quando Ela adormeceu para este mundo, despertando no céu, na realidade simplesmente seguiu pela última vez o Filho Jesus na sua viagem mais longa e decisiva, na sua passagem “deste mundo para o Pai” (Jo 13, 1).
Como Ele, juntamente com Ele, partiu deste mundo voltando “para a casa do Pai” (cf. Jo 14, 2). E tudo isto não está distante de nós, como talvez pudesse parecer num primeiro momento, porque todos nós somos filhos do Pai, de Deus, todos nós somos irmãos de Jesus e todos nós somos também filhos de Maria, nossa Mãe. E todos nós estamos orientados para a felicidade. A felicidade para a qual todos nós tendemos é Deus, e assim todos nós estamos a caminho daquela felicidade, que chamamos Céu, que na realidade é Deus. E Maria nos ajude, nos encoraje a fazer com que cada momento da nossa existência seja um passo neste êxodo, neste caminho rumo a Deus. Assim, nos ajude a tornar presente também a realidade do céu, a grandeza de Deus, na vida do nosso mundo. No fundo não é este o dinamismo pascal do homem, de cada homem que deseja tornar-se celeste, totalmente feliz, em virtude da Ressurreição de Cristo? E não é porventura este o início e a antecipação de um movimento que diz respeito a cada ser humano e ao cosmos inteiro? Aquela de quem Deus tinha tomado a sua carne, e cujo coração fora trespassado por uma espada no Calvário, encontrava-se associada por primeiro e de modo singular ao mistério desta transformação, para a qual todos nós tendemos, muitas vezes também nós trespassados pela espada do sofrimento neste mundo.
A nova Eva seguiu o novo Adão no sofrimento, na Paixão e deste modo também na alegria definitiva. Cristo é a primícia, mas a sua carne ressuscitada é inseparável da carne da sua Mãe terrena, Maria, e nela toda a humanidade está envolvida na Assunção a Deus, e com Ela toda a criação, cujos gemidos e sofrimentos são como diz São Paulo as dores do parto da nova humanidade. Nascem assim os novos céus e a nova terra, onde já não haverá pranto, nem lamentações, porque não haverá mais morte (cf. Ap 21, 1-4).
Como é grandioso o mistério de amor que hoje se repropõe à nossa contemplação! Cristo venceu a morte com a omnipotência do seu amor. Só o amor é omnipotente. Este amor impeliu Cristo a morrer por nós e assim a vencer a morte. Sim, unicamente o amor faz entrar no reino da vida! E Maria entrou após o Filho, associada à sua glória, depois que foi associada à sua paixão. Entrou com um ímpeto irrefreável, conservando depois de si mesma o caminho aberto para todos nós. É por isso que no dia de hoje a invocamos. “Porta do céu”, “Rainha dos anjos” e “Refúgio dos pecadores”. Sem dúvida, não são os raciocínios que nos fazem compreender estas realidades tão sublimes, mas sim a fé simples, pura, e o silêncio da oração que nos põe em contacto com o Mistério que nos ultrapassa infinitamente. A oração ajuda-nos a falar com Deus e a sentir como o Senhor fala ao nosso coração.
Peçamos a Maria que nos conceda hoje o dom da sua fé, a fé que nos faça viver já nesta dimensão entre o finito e o infinito, a fé que transforma também o sentimento do tempo e do transcorrer da nossa existência, aquela fé na qual sentimos intimamente que a nossa vida não se encontra encerrada no passado, mas orientada para o futuro, para Deus, aonde Cristo e, depois dele, Maria nos precederam.
Contemplando Nossa Senhora da Assunção no céu compreendemos melhor que a nossa vida de todos os dias, não obstante seja marcada por provações e dificuldades, corre como um rio rumo ao oceano divino, para a plenitude da alegria e da paz. Entendemos que o nosso morrer não é o fim, mas o ingresso na vida que não conhece a morte. O nosso crepúsculo no horizonte deste mundo é um ressurgir na aurora do mundo novo, do dia eterno.
“Maria, enquanto nos acompanhas nas dificuldades do nosso viver e morrer diários, conserva-nos constantemente orientados para a verdadeira pátria da bem-aventurança. Ajuda-nos a fazer como Tu fizeste”.
Amados irmãos e irmãs, queridos amigos que na manhã de hoje participais nesta celebração, dirijamos em conjunto esta oração a Maria. Diante do triste espectáculo de tanta alegria falsa e, contemporaneamente, de tanta dor angustiada que se difunde pelo mundo, temos que aprender dela a tornar-nos sinais de esperança e de consolação, temos que anunciar com a nossa vida a Ressurreição de Cristo.
“Ajuda-nos Tu, ó Mãe, fúlgida Porta do céu, Mãe da Misericórdia, nascente através da qual brotou a nossa vida e a nossa alegria, Jesus Cristo.
Amém!”.

[Tradução ao português difundida pela Santa Sé

© Copyright 2008 - Libreria Editrice Vaticana]

Modelo atual de «verdadeiro pacificador» em São Gregório Magno, propõe Papa

Bento XVI dedica a audiência geral ao Padre e Doutor da Igreja

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 28 de maio de 2008 (ZENIT.org).- «Verdadeiro pacificador» em um tempo «desesperado», São Gregório Magno continua demonstrando que a paz e a esperança são obtidas de Deus, recorda Bento XVI.

Seguindo as catequeses sobre os Padres da Igreja, o Papa dedicou a desta quarta-feira, na audiência geral, a um dos maiores da história, que foi pontífice romano do ano 590 a 604.

«Grande Papa e grande Doutor da Igreja», São Gregório, que já desde jovem havia alcançado o cume dos cargos civis como governador de Roma, decidiu retirar-se e iniciar uma vida monástica dedicada ao estudo da Sagrada Escritura e dos Padres da Igreja.

Por sua experiência e qualidades, logo foi nomeado enviado papal a Constantinopla e posteriormente secretário do pontífice. Com a morte do Papa Pelágio II, Gregório foi eleito seu sucessor na Sede Petrina.

«Tentou resistir, inclusive buscando a fuga, mas tudo foi inútil: ao final teve de ceder», relatou Bento XVI. «Reconhecendo que havia sucedido a vontade de Deus, o novo pontífice se pôs imediatamente a trabalhar com empenho».

«Foi dupla sua constante orientação na complexa situação: promover acordos no plano diplomático-político e difundir o anúncio da verdadeira fé entre as populações», sintetizou.

São Gregório promoveu a «conversão dos jovens povos e da nova organização civil da Europa», de maneira que «os Visigodos da Espanha, os Francos, os Saxões, os imigrantes na Bretanha e os Longobardos foram os destinatários privilegiados de sua missão evangelizadora», sublinhou Bento XVI.

Em particular, afligia naquele tempo a Itália e Roma, tanto civil como eclesialmente, «a questão longobarda», à qual o Papa Gregório dedicou «toda energia possível com vistas a uma solução verdadeiramente pacificadora».

E o fez contemplando aquele povo «com os olhos do bom pastor, preocupado por anunciar-lhes a palavra de salvação, estabelecendo com eles relações de fraternidade orientadas a uma futura paz fundada no respeito recíproco e na serena convivência entre italianos, imperiais e longobardos».

Conseguiu com tal povo um armistício estável, graças, também, à rainha católica bávara Teodolinda, um aspecto que o Santo Padre enfatizou nesta quarta-feira para mostrar «um belo testemunho da importância das mulheres na história da Igreja».

Por sua santidade de vida e rica humanidade, o Papa Gregório era muito amado pelos fiéis.

«O desejo de Deus estava sempre vivo no fundo de sua alma e precisamente por isso estava sempre muito perto do próximo, das necessidades das pessoas de sua época», afirmou Bento XVI.

Da ampla documentação que se conserva de São Gregório Magno se desprende sua «perene nostalgia», em constante aumento, pelo período de vida monástico dos inícios, «vida de diálogo permanente com o Senhor na escuta de sua palavra».

«Em um tempo desastroso, mais ainda, desesperado, soube criar paz e esperança. Este homem de Deus nos mostra as verdadeiras fontes da paz, de onde vem a esperança, e se converte assim em uma guia também para nós hoje.»

Bento XVI apresenta Papa São Gregório Magno

Queridos irmãos e irmãs!

Na quarta-feira passada, falei de um Padre da Igreja pouco conhecido no Ocidente, Romano o Meloda; hoje desejo apresentar a figura de um dos maiores Padres da história da Igreja, um dos quatro doutores do Ocidente, o Papa São Gregório, que foi bispo de Roma entre o ano 590 e 604, e que mereceu da parte da tradição o títuloMagnus/Grande. Gregório foi verdadeiramente um grande Papa e um grande Doutor da Igreja! Nasceu em Roma, em torno de 540, de uma rica família patrícia da gens Anicia, que se distinguia não só pela nobreza de sangue, mas também pelo apego à fé cristã e pelos serviços prestados à Sé Apostólica. Desta família procediam dois Papas: Félix III (483-492), tataravô de Gregório, e Agapito (535-536). A casa na qual Gregório cresceu se levantava na Clivus Scauri, rodeada de solenes edifícios que testemunhavam a grandeza da antiga Roma e a força espiritual do cristianismo. Para inspirar-lhe elevados sentimentos cristãos estiveram também os exemplos de seus pais Giordiano e Silvia, ambos venerados como santos, e os de suas tias paternas Emiliana e Tarsília, que viviam na própria casa como virgens consagradas em um caminho compartilhado de oração e ascese.

Gregório ingressou logo na carreira administrativa, que havia seguido também seu pai, e em 572 alcançou o cume, convertendo-se em prefeito da cidade. Este cargo, complicado pela tristeza daqueles tempos, permitiu-lhe aplicar-se em um amplo raio a todo tipo de problemas administrativos, obtendo deles luz para suas futuras tarefas. Em particular ficou nele um profundo sentido da ordem e da disciplina: já como Papa, sugerirá aos bispos que tomem como modelo na gestão dos assuntos eclesiásticos a diligência e o respeito das leis próprias dos funcionários civis. Aquela vida não lhe devia satisfazer, visto que, não muito depois, decidiu deixar todo cargo civil para retirar-se em sua casa e começar a vida de monge, transformando a casa de família no mosteiro de Santo André. Desse período de vida monástica, vida de diálogo permanente com o Senhor na escuta de sua palavra, ficou nele uma perene nostalgia que sempre de novo e cada vez mais aparece em suas homilias: em meio às preocupações pastorais, ele recordará várias vezes em seus escritos como um tempo feliz de recolhimento em Deus, de dedicação à oração, de serena imersão no estudo. Pôde assim adquirir esse profundo conhecimento da Sagrada Escritura e dos Padres da Igreja, do qual se serviu depois em suas obras.

Mas o retiro claustral de Gregório não durou muito. A preciosa experiência amadurecida na administração civil em um período carregado de graves problemas, as relações que teve nesta tarefa com os bizantinos, a estima universal que havia ganhado, induziram o Papa Pelágio a nomeá-lo diácono e a enviá-lo a Constantinopla como seu «apocrisiario» - hoje se diria «Núncio Apostólico» - para favorecer a superação dos últimos restos de controversa monofisista e sobretudo para obter o apoio do imperador no esforço de conter a pressão longobarda. A permanência em Constantinopla, onde havia reiniciado a vida monástica com um grupo de monges, foi importantíssima para Gregório, pois lhe permitiu ganhar experiência direta no mundo bizantino, assim como se aproximar do problema dos Longobardos, que depois colocaria à prova sua habilidade e sua energia nos anos do Pontificado. Passados alguns anos, foi chamado de novo a Roma pelo Papa, que o nomeou seu secretário. Eram anos difíceis: as contínuas chuvas, o transbordamento dos rios e a carestia atingiam muitas áreas da Itália e da própria Roma. No final se desatou a peste, que causou numerosas vítimas, entre elas também o Papa Pelágio II. O clero, o povo e o senado foram unânimes em eleger como seu sucessor na Sede de Pedro precisamente ele, Gregório. Tentou resistir, inclusive buscando a fuga, mas tudo foi inútil: ao final teve de ceder. Era o ano de 590.

Reconhecendo que havia sucedido a vontade de Deus, o novo pontífice se pôs imediatamente ao trabalho com empenho. Desde o princípio revelou uma visão singularmente lúcida da realidade com a qual devia medir-se, uma extraordinária capacidade de trabalho ao enfrentar os assuntos tanto eclesiais como civis, um constante equilíbrio nas decisões, também valentes, que sua missão lhe impunha. Conserva-se de seu governo uma ampla documentação graças ao Registro de suas cartas (aproximadamente 800), nas quais se reflete o enfrentamento diário dos complexos interrogantes que chegavam à sua mesa. Eram questões que procediam dos bispos, dos abades, dos clérigos, e também das autoridades civis de toda ordem e grau. Entre os problemas que afligiam naquele tempo a Itália e Roma, havia um de particular relevância no âmbito tanto civil como eclesial: a questão longobarda. A ela o Papa dedicou toda a energia possível com vistas a uma solução verdadeiramente pacificadora. Ao contrário do Imperador bizantino, que partia do pressuposto de que os Longobardos eram só indivíduos depredadores a quem era preciso derrotar ou exterminar, São Gregório via estas pessoas com os olhos do bom pastor, preocupado por anunciar-lhes a palavra de salvação, estabelecendo com eles relações de fraternidade orientadas a uma futura paz fundada no respeito recíproco e na serena convivência entre italianos, imperiais e longobardos. Preocupou-se pela conversão dos jovens povos e da nova organização civil da Europa: os Visigodos da Espanha, os Francos, os Saxões, os imigrantes na Bretanha e os Lonbogardos foram os destinatários privilegiados de sua missão evangelizadora. Ontem celebramos a memória litúrgica de Santo Agostinho de Canterbury, guia de um grupo de monges aos que Gregório encomendou ir a Bretanha para evangelizar a Inglaterra.

Para obter uma paz efetiva em Roma e na Itália, o Papa se empenhou a fundo – era um verdadeiro pacificador – empreendendo uma estreita negociação com o rei longobardo Agilulfo. Tal conversa levou a um período de trégua que durou cerca de três anos (598-601), após os quais foi possível estipular em 603 um armistício mais estável. Este resultado positivo se conseguiu graças também aos contatos paralelos que, entretanto, o Papa mantinha com a rainha Teodolinda, que era uma princesa bávara e, ao contrário dos chefes dos outros povos germanos, era católica, profundamente católica. Conserva-se uma série de cartas do Papa Gregório a esta rainha, nas quais ele mostra sua estima e sua amizade para com ela. Teodolinda conseguiu, pouco a pouco, orientar o rei para o catolicismo, preparando assim o caminho para a paz. O Papa se preocupou também de enviar-lhe as relíquias para a basílica de São João Batista que ela levantou em Monza, e não deixou de felicitar e oferecer preciosos presentes para a mesma catedral de Monza por ocasião do nascimento e do batismo de seu filho Adoaloaldo. A vicissitude desta rainha constitui um belo testemunho sobre a importância das mulheres na história da Igreja. No fundo, os objetivos sobre os que Gregório apontou constantemente foram três: conter a expansão dos Longobardos na Itália, subtrair a rainha Teodolinda da influência dos cismáticos e reforçar a fé católica, assim como mediar entre Longobardos e Bizantinos com vistas a um acordo que garantisse a paz na península e consentisse desenvolver uma ação evangelizadora entre os próprios Longobardos. Portanto, foi dupla sua constante orientação na complexa situação: promover acordos no plano diplomático-político e difundir o anúncio da verdadeira fé entre as populações.

Junto à ação meramente espiritual e pastoral, o Papa Gregório foi ativo protagonista também de uma multiforme atividade social. Com as rendas do conspícuo patrimônio que a Sede romana possuía na Itália, especialmente na Sicília, comprou e distribuiu trigo, socorreu quem se encontrava em necessidade, ajudou sacerdotes, monges e monjas que viviam na indigência, pagou resgates de cidadãos que eram prisioneiros dos Longobardos, adquiriu armistícios e tréguas. Também desenvolveu tanto em Roma como em outras partes da Itália uma atenta obra de reordenação administrativa, ministrando instruções precisas para que os bens da Igreja, úteis à sua subsistência e à sua obra evangelizadora no mundo, se dirigissem com absoluta retidão e segundo as regras da justiça e da misericórdia. Exigia que os colonos fossem protegidos dos abusos dos concessionários das terras de propriedade da Igreja e, em caso de fraude, que foram ressarcidos com prontidão, para que o rosto da Esposa de Cristo não se contaminasse com benefícios desonestos.

Gregório levou a cabo esta intensa atividade apesar de sua incerta saúde, que o obrigava com freqüência a ficar de cama durante longos dias. Os jejuns que havia praticado nos anos da vida monástica lhe haviam ocasionado sérios transtornos digestivos. Também sua voz era muito frágil, de forma que com freqüência tinha de confiar ao diácono a leitura de suas homilias para que os fiéis das basílicas romanas pudessem ouvi-lo. Ele fazia o possível por celebrar nos dias de festa Missarum sollmnia, isto é, a Missa Solene, e então se encontrava pessoalmente com o povo de Deus, que o estimava muito porque via nele a referência autorizada para obter segurança: não por acaso lhe atribuíram logo o título de consul Dei. Apesar das dificílimas condições nas quais teve de atuar, conseguiu conquistar, graças à santidade de vida e à rica humanidade, a confiança dos fiéis, conseguindo para seu tempo e para o futuro resultados verdadeiramente grandiosos. Era um homem imerso em Deus: o desejo de Deus estava sempre vivo no fundo de sua alma e precisamente por isso estava sempre muito perto do próximo, das necessidades das pessoas de sua época. Em um tempo desastroso, mais ainda, desesperado, soube criar paz e esperança. Este homem de Deus nos mostra as verdadeiras fontes da paz, de onde vem a esperança, e se converte assim em uma guia também para nós hoje.

«A fé é alegria e por isso cria beleza», explica Papa

Ao apresentar o escritor Romano o Meloda

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 20 de maio de 2008 (ZENIT.org).- Para Bento XVI, as belezas surgidas através da história da cultura cristã não são algo do passado, mas seguem vivas, manifestando-se sempre que alguém se aproxima delas com fé.

Foi o que o pontífice explicou ao receber oito mil peregrinos na Sala Paulo VI, no Vaticano. Outros muitos tinham saudado antes o Papa na Basílica vaticana, pois a forte chuva impediu que o encontro acontecesse na Praça de São Pedro.

«A fé é amor e por isso cria poesia e cria música. A fé é alegria e por isso cria beleza», disse.

No semanal encontro com os fiéis, o Papa continuou apresentando figuras que fizeram a história da Igreja. Nesta ocasião, falou de Romano o Meloda, escritor, poeta e teólogo, que viveu entre os séculos V e VI, cujos cantos trazem «humildade palpitante, ardor de fé, profunda humildade».

«Este grande poeta e compositor nos recorda todo o tesouro da cultura cristã, nascida da fé, nascida do coração que se encontrou com Cristo, com o Filho de Deus», disse.

Falando de Romano, que nasceu na atual Síria, e viveu boa parte de sua existência em Beirute e Constantinopla, mostrou como «deste contato do coração com a Verdade, que é Amor, nasce a cultura, toda a grande cultura cristã».

«E se a fé segue viva, esta herança cultural tampouco morre, mas que segue estando viva e presente.»

«Os ícones seguem falando hoje ao coração dos crentes, não são coisas do passado», enfatizou.

«As catedrais não são monumentos medievais, mas casas de vida, onde nos sentimos ‘em casa’: onde encontramos Deus e nos encontramos uns com os outros.»

«Tampouco a grande música – o gregoriano, ou Bach ou Mozart – é algo do passado, mas vive na vitalidade da liturgia e de nossa fé», assegurou.

« Se a fé está viva, a cultura cristã não fica em algo ‘passado’, mas segue viva e presente», comentou.

«Criatividade, inovação, cântico novo, cultura nova e presença de toda herança cultural na vitalidade da fé não se excluem, mas são uma só realidade: são presença da beleza de Deus e da alegria de ser filhos seus», concluiu o Papa.

Bento XVI: vida sem Deus está limitada
Mensagem para a 97ª Katholikentag alemã

CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 23 de maio de 2008 (ZENIT.org).- Uma vida que exclui  Deus está limitada ao «finito», observa Bento XVI na Mensagem que escreveu por ocasião do 97º Katholikentag alemão.

A «Jornada dos Católicos», que este ano está acontecendo em Osnabruck, se prolongará até 25 de maio e prevê 1.200 eventos em 60 praças e lugares característicos, com a participação de mais de 30 mil pessoas e 2 mil voluntários.

Recordando o tema do encontro, «Tu nos conduzes mar adentro» (Sal 18, 20), o Papa se perguntou o que é o «mar adentro» ao qual nos conduz o encontro com Deus, a fé.

Hoje, reconhece, muitas pessoas «têm medo de que a fé possa limitar sua vida, que possam estar limitados no envoltório dos mandamentos e dos ensinamentos da Igreja e que já não possam ser livres para mover-se no ‘mar adentro’ da vida e do pensamento de hoje».

Segundo o Pontífice, estas pessoas se sentem como o filho pródigo, «obrigadas a partir, deixando Deus de lado para saborear todo o ‘mar adentro’ do universo. Ao final, contudo, este ‘mar adentro’ se torna estreito e vazio».

«Só quando nossa vida consegue subir ao coração de Deus – constata –, teremos encontrado aquele ‘mar adentro’ para o qual fomos criados.»

Uma vida sem Deus, observa Bento XVI, «não se torna mais livre e mais ampla». Quem deixa Deus de lado, «limita a vida e o mundo ao ‘finito’, ao que nós mesmos podemos fazer e pensar, e isso é sempre pouco demais».

Deus, ao contrário, «aumenta nosso coração para que não pensemos só em nós mesmos», de modo que o homem já não tenha necessidade de «buscar, temeroso, sua felicidade, seu êxito ou de dar peso à opinião dos outros».

«É agora livre e generoso, aberto ao chamado de Deus. Com confiança pode doar-se totalmente porque sabe – onde quer que ele esteja – que está seguro nas mãos de Deus.»

O «mar adentro» do lema, acrescenta o Papa, não é só o que está em nós, «mas também o ‘mar adentro’ do futuro».

O lema do Katholikentag, portanto, «convida a reforçar em nós a confiança em Deus, a confiança em que Deus nos conduzirá a um futuro bom».

«Ainda que às vezes o presente sopra tempestuoso no rosto e temos grande medo pelo futuro – reconhece Bento XVI –, nunca devemos perder a confiança, não devemos ter medo porque Deus vem ao nosso encontro.»

Se compreendermos o futuro deste modo, sugere, poderemos recolher o desafio que nos apresenta e desfrutar as possibilidades que oferece.

«Não deixeis que sejam só os outros os que preencham o futuro, mas introduzi-vos com fantasia e capacidade de persuasão nos debates do presente!», exorta aos participantes do Katholikentag.

«Com o Evangelho como parâmetro, participai ativamente na vida política e social de vosso país. Como leigos católicos, atrevei-vos a participar na formação do futuro, em união com os sacerdotes e com os bispos!»

«Com Deus como garantia, podeis atuar com valor, porque é Ele o que nos assegura: ‘Quero dar-vos um futuro e uma esperança’ (Jer 29, 11).»

O Pontífice conclui sua mensagem dirigindo-se aos jovens que participam do Katholikentag, mostrando-se contente de que se reúnam em Osnabruck para reforçar-se «mutuamente na fé, na esperança e no amor».

«Desfrutai esta ocasião e deixai-vos conduzir pela mensagem do Katholikentag ao ‘mar adentro’ das possibilidades que Deus vos oferece! – exorta. Deus quer impregnar toda vossa vida e quer mostrar-vos quão grande é a liberdade de quem põe sua vida em suas mãos.»

«A vida de quem vive com Deus se torna ampla!»