TRISTES EPISÓDIOS DA PAIXÃO DE CRISTO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho
Professor no Seminário de Mariana - MG
Preso abruptamente por volta das vinte e três horas, à meia noite Jesus foi levado à presença de Anás, que dominava o Sinédrio no qual cinco sacerdotes eram filhos seus e o presidente, seu genro Caifás. Anás envia Jesus amarrado a Caifás. Apenas duas testemunhas de acusação depuseram, dizendo ter ouvido Jesus Cristo afirmar: “Posso destruir o Templo de Deus e reconstruí-lo em três dias” (Mt 26, 61). Como Jesus nada respondesse, Caifás obtém dos lábios do próprio Cristo a declaração de que Ele era o Messias, o Filho de Deus. Proclama-o, então, blasfemo, réu de morte. Os milagres que Cristo operara, sinais claros de sua divindade não suscitara naquele homem a fé naquele que era o Messias prometido e que possuía tais poderes. Caifás rasga suas vestes em sinal de horror, mas segundo alguns bons autores os sumos sacerdotes já tinham um rasgão de antemão preparado e ligeiramente costurado que podia servir para outras encenações de pasmo, intentando comover a turba, sem danificar as vestimentas. Ali ele conseguiu plenamente o seu intento, pois cuspiram em Jesus, o esbofetearam e zombaram dele. Era o início de uma série de ousados maus-tratos a quem a tantos agraciara!
Como o Tribunal Supremo dos Judeus não tinha força para condenar alguém à morte, pois Jerusalém estava sob o domínio dos romanos, Jesus foi encaminhado a Pilatos. Antes, porém do Pretório, é bem que seja recorado de um fato lastimável que se deu na casa de Caifás: a negação de Pedro. Ali um galo cantou. o discípulo negou, olhou depois para Jesus e chorou. Pedro no meio de toda sua debilidade tinha, porém, uma certeza: ele amava Jesus. Por isto, apesar de duvidar como aconteceu com Moisés, de ter sido intempestivo como Esaú, ele era bondoso como Booz e vai se retratar como Jonas, pranteando como Jeremias. É mau e é bom, fraco e forte, sinuoso e retilíneo, contraditório e coerente. É um ser humano sujeito a grandes erros. Naquele instante, porém, sua afirmativa de que não conhecia Jesus era o símbolo de todas negações dos cristãos através dos tempos, daqueles que se dizem discípulos do Filho de Deus, mas que não praticam o que Ele ensinou.
Ser cristão na fé e epicureu na prática eis aí a grande aberração que multiplica o gesto infeliz de Pedro. Autenticidade é e será sempre o clamor da Igreja, pois na vida do epígono de Cristo o Credo e o Decálogo, o ato de fé e a observância dos preceitos evangélicos devem se unir harmoniosamente, coerentemente. O Apóstolo Tiago proclamará: “ Meus irmãos, se alguém disser que tem fé, mas não tem obras, que lhe aproveitará isso? … Mostra-me a tua fé sem as obras e eu te mostrarei a fé pelas minhas obras” (Tg 2,14. 18). Tal a triste sina de Pedro naquele momento: suas palavras contradisseram a fé que depositava na divindade do Mestre. Entretanto, a culpa de Pedro sempre há de servir de advertência para todos, mesmo porque suas lágrimas de arrependimento repararam a grande falha. Condenado já pelo tribunal religioso, os judeus querem que Pilatos não apenas ratifique a sentença de morte, mas fazem uma armação para transformar o crime de Jesus numa subversão política: Ele se diz rei dos judeus.
Diante, porém, das explicações de Cristo que com tanta sinceridade mostra ao Procurador Romano que seu reino não era deste mundo e que Ele apenas dava testemunho da verdade, Pilatos declara que não via nele culpa alguma que justificasse uma sentença de morte. Arguto, porém, como era, ao ouvir os clamores proclamando que o acusado que amotinara todo o povo da Galiléia, Pilatos logo se lembra que o governador da Galiléia e da Peréia se encontrava em Jerusalém para as festas da Páscoa e remete Jesus a Herodes Antipas, filho do velho tetrarca Herodes. Pilatos queria ganhar tempo, pois não desejava se envolver numa situação de condenação de um inocente. Pilatos sabia que Herodes não podia julgar fora da fronteira de seu Estado, que limitava a sua competência jurisdicional e que, portanto. Jesus deveria ser julgado na Judéia e não na Galiléia. A competência era dele e não de Herodes, mas, ardilosamente, temporizou a solução da magna questão. Pilatos era bem a representação daqueles que covardemente não assumem as responsabilidades!