O caso Jon Sobrino

Arquivado em: D. Estevão, Teologia — Prof. Felipe Aquino at 2:15 pm on terça-feira, julho 24, 2007

D. Estevão Bettencourt, OSB

Revista “Pergunte e Responderemos”

Ano XLVII - Julho 2007 – nº 541

Em síntese: As obras teológicas do Pe. Jon Sobrino contêm afirma­ções que não se coadunam com a fé professada pela Igreja. Daí uma Notificação da Congregação para a Doutrina da Fé, que aponta seis mo­mentos em que se dá a dissonância: 1) Pressupostos metodológicos; 2) A Divindade de Jesus Cristo; 3) A Encarnação do Filho de Deus; 4) A rela­ção entre Jesus Cristo e o Reino de Deus; 5) A autoconsciência de Jesus; 6) O valor salvífico da morte de Jesus.

Jon Sobrino é um jesuíta, teólogo espanhol, que mora em EI Salva­dor (América Central). É um dos mais exponenciais autores da Teologia da Libertação. Escreveu várias obras, cujo conteúdo contraria a doutrina católica. Em conseqüência, em outubro de 2001 começou um processo da Congregação para a Doutrina da Fé a fim de averiguar os pontos dis­cutíveis e ouvir a respeito o autor. Visto que este, repetidamente interro­gado, manteve suas concepções, a mesma Congregação houve por bem publicar uma Notificação, que explica ao público o que é inaceitável nas obras do teólogo. O povo de Deus tem o direito de saber exatamente o que a fé católica professa, e à Igreja toca o dever de lho indicar com exatidão.

Vamos, a seguir, expor os seis pontos de Jon Sobrino censurados pela Igreja, que é Mãe e Mestra.

1. Pressupostos metodológicos

“A Cristologia latino-americana determina que o seu lugar são os pobres deste mundo” (Jesu Cristo libertador). Isto quer dizer que a Cristologia tem que ser cultivada na ótica dos pobres ou tomando como referencial permanente a categoria dos pobres - o que traz conotações políticas. O teólogo professa aprofundar a fé que a Igreja ensina a todos os fiéis, sejam ricos, sejam pobres. Toca à Doutrina Social da Igreja enca­rar os problemas de ordem social.

Sobrino, além disto, julga que os grandes Concílios da Igreja antiga se afastaram progressivamente do conteúdo do Novo Testamento. - A propósito deve-se notar que os quatro primeiros Concílios da Igreja (Nicéia I 325; Constantinopla I 381; Efeso 431 e Calcedônia 451) utilizaram con­ceitos e vocábulos da cultura do seu tempo, não para se conformar a essa cultura; não foi uma helenização do Cristianismo, mas precisamente o contrário. O progresso da mensagem cristã fez que a cultura grega sofresse, e uma transformação, tornando-se instrumento para a defesa dq ver­dade bíblica.

2. A Divindade de Jesus Cristo

Sobrino afirma que nos primeiros tempos não se falava de Jesus como Deus. Esta concepção provavelmente só apareceu após a queda de Jerusalém em 70.

A propósito, porém, podem-se citar passagens do Novo Testamento que professam a Divindade de Jesus; assim Jo 1, 1; 20, 28; 1 Ts 1, 10; FI 2, 5­11; 1 Cor 12, 3; Rm 1, 3s; 10,9; CI 2, 9 … 1. Os escritores e Concílios da Igreja continuaram a professar esta mesma fé. Sobrino porém replica que no Novo Testamento se tratava de uma fé em gérmen e não explícita, A réplica não resiste à evidência dos textos citados do Novo Testamento. A confissão da Divindade de Jesus Cristo é um ponto essencial da fé da Igreja desde as suas origens, ponto este que o Novo Testamento professa claramente.

3. A Encarnação do Filho de Deus

“O Filho faz a experiência da humanidade, da vida, do destino e da morte de Jesus”, escreve Sobrino em Jesucristo, p. 308.

O autor assim estabelece uma distinção entre o Filho e Jesus, que leva a pensar na existência de dois sujeitos em Cristo: o Filho e a realida­de de Jesus; o Filho faz a experiência do humano existente em Jesus. Não se saberia dizer com firmeza que o Filho é Jesus e Jesus é o Filho. Isto renova a heresia antiga do homo assumptus (homem assumido).

Outra é a fé da Igreja formulada pelo Concílio de Calcedônia nos seguintes termos: “Ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho Senhor nosso Jesus Cristo, perfeito na divindade e perfeito na hu­manidade; verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, de alma racional e corpo, consubstancial ao Pai segundo a Divindade e consubstancial a nós conforme a humanidade”.

Dessa noção de Encarnação resulta o que se chama “communicatio idiomatum” (comunicação de propriedades), ou seja, a possibilidade de atribuir as propriedades da humanidade à Divindade, e vice-versa. Pode-se dizer: “Jesus, como Deus, ressuscitou Lázaro” e “Jesus, como homem, mor­reu na Cruz”. Há um só sujeito de tudo que Jesus faz; tal sujeito é Deus Filho que age ora através do poder divino, ora através da fragilidade humana.

Ora Sobrino destoa desta concepção ao dizer: “A compreensão adequada da comunicação de propriedades é a seguinte: o humano, limi­tado como é, pode ser atribuído a Deus, mas o Divino, ilimitado como é, não pode ser atribuído a Jesus” (La fe, p. 408).

Em Cristo há uma só Pessoa, um só sujeito e duas naturezas (a divina e a humana). Tal é a fé da Igreja.

4. Jesus Cristo é o Reino de Deus

Jon Sobrino considera o Reino de Deus como algo distinto do pró­prio Jesus.

O autor distingue entre mediador e mediação com certa sutileza. - Ora a fé da Igreja ensina que Jesus é o próprio Reino de Deus inaugurado na terra. Não basta atribuir a Jesus uma certa intimidade com o Reino. Jesus Cristo e o Reino se identificam na pessoa de Jesus: nele o Reino já se faz presente. O Reino de Deus não é um conceito, uma dou­trina, um programa, mas é, acima de tudo, uma Pessoa que tem o nome e o rosto de Jesus de Nazaré, imagem de Deus Invisível.

Pode e deve dizer-se que Jesus Cristo tem, para o gênero humano e para a sua história, um significado e um valor singulares e únicos, só a Ele próprios, exclusivos, universais e absolutos. Jesus é de fato o Verbo de Deus feito homem para a salvação de todos.

5. A autoconsciência de Jesus Cristo

Segundo Sobrino, Jesus foi um crente extraordinário, a fé foi a artéria central de toda a vida de Jesus; Ele teve fé como qualquer outro ser humano.

A estas afirmações respondemos, citando textos do Novo Testa­mento, como Mt 11,25-27, em que se lê:

“Tudo me foi dado por meu Pai, e ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai a não ser o Filho e aquele a quem o Filho O quiser revelar” (cf. Lc 10, 21s).

Os Evangelhos manifestam a única e singular intimidade de Jesus com o Pai.

Jesus, Filho de Deus feito carne, tem um conhecimento oriundo e imediato do seu Pai, ou seja, uma visão que vai além dos parâmetros da

fé. A união hipostática e a sua missão de Mestre e Redentor requerem a visão do Pai e o conhecimento do seu plano de salvação. É o que indicam os textos do Evangelho.

Se Jesus fosse um crente como nós, não poderia introduzir os ho­mens no mistério do amor divino. Para cumprir sua missão, ele necessita­va da intimidade com o Pai, que decorria do conhecimento direto e imedi­ato do Pai.

6. O valor salvífico da morte de Jesus

Segundo Sobrino, Jesus não atribuiu à sua morte um valor salvífico.

Foram os escritores do Novo Testamento que lhe deram o valor de sacri­fício expiatório, satisfação vigária (em favor dos homens). A morte de Jesus tem apenas um valor moral, isto é, vem a ser um exemplo de cora­gem e coerência para todos os homens. Esse exemplo eloqüente deve atrair os homens à entrega total ao Pai.

Ora quem assim escreve, não está levando em conta os textos do Novo Testamento em que o próprio Jesus atribui à sua morte um valor redentor e expiatório. Tenha-se em vista, por exemplo, Mc 10, 45:

“O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”.

Nas fórmulas de instituição da S. Eucaristia ressoa o mesmo moti­vo da expiação salvífica. Assim em Lc 22, 19s:

“Isto é o meu corpo, que é dado por vós … Este cálice é a nova Aliança em meu sangue, que é derramado em favor de vós”; Ct. Mt 26,26­28; Mc 14, 23s; 1Cor 11, 23-25.

Com outras palavras: Jesus não foi somente causa exemplar, mas foi também causa eficiente da nossa salvação. O Concílio de Trento (séc. XVI), retomando palavras de São Paulo, declara: “A Ele (Cristo) propôs Deus como Propiciador pela fé no seu sangue (Rm 3, 25) pelos nossos pecados, e não só pelos nossos, mas pelos do mundo inteiro (1 Jo 2, 2)”.

O Catecismo da Igreja Católica diz por sua vez:

“Este plano divino de salvação pela entrega à morte do Servo, o Justo, tinha sido de antemão anunciado nas Escrituras como um mistério de redenção universal, ou seja, de resgate que liberta os homens da es­cravidão do pecado” (nQ 60i).

Conclusão

A Conclusão da Notificação propõe em síntese o papel do teólogo católico.

A Teologia é a fé que procura compreender. Por conseguinte o teó­logo parte da fé da Igreja e procura aprofundá-Ia. Essa fé da Igreja leva em conta os dados da Revelação, que valem igualmente para ricos e pobres de maneira objetiva e imparcial. Portanto não é determinada por alguma categoria social que oriente o trabalho do teólogo:

A investigação teológica dará frutos tanto mais abundantes, para o bem de todo o povo de Deus e de toda a humanidade quanto mais se inserir na corrente viva que, graças à ação do Espírito Santo, procede dos Apósto­los e foi enriquecida pela reflexão das gerações que nos precederam.

Até aqui vai o texto da Notificação. Deus julgará a consciência de Jon Sobrino. O que interessa à Igreja no seu pronunciamento sobre as obras dele, é esclarecer o povo de Deus, a fim de que este não tome o erro por verdade e guarde a pureza da fé. Referindo-se às heresias, São Paulo utiliza eloqüente comparação: “A palavra deles (hereges) é como uma gangrena que corrói” (2Tm 2, 17). A heresia é gangrena!

Tal Notificação foi assinada aos 13 de outubro de 2006 pelo Cardeal Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé William Levada, com a aprovação do Papa Bento XVI.

 

1 Eis alguns textos mais significativos:

Jo 1, 1: “No princípio era o Lagos e o Lagos era Deus … O Lagos se fez carne e habitou entre nós”.

Jo 20, 28: Tomé exclama: “Meu Senhor e meu Deus!”.

FI 2, 65: “Ele (Jesus Cristo) tinha a condição divina e não considerou o ser igual a Deus como algo a que se apegar ciosamente. Mas esvaziou-se a si mesmo e assu­miu a condição de servo, tomando a condição humana”,

C12, 9: “Em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da Divindade”. Mt 16, 16: ‘Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!”.