O caso Jon Sobrino
D. Estevão Bettencourt, OSB
Revista “Pergunte e Responderemos”
Ano XLVII - Julho 2007 – nº 541
Em síntese: As obras teológicas do Pe. Jon Sobrino contêm afirmações que não se coadunam com a fé professada pela Igreja. Daí uma Notificação da Congregação para a Doutrina da Fé, que aponta seis momentos em que se dá a dissonância: 1) Pressupostos metodológicos; 2) A Divindade de Jesus Cristo; 3) A Encarnação do Filho de Deus; 4) A relação entre Jesus Cristo e o Reino de Deus; 5) A autoconsciência de Jesus; 6) O valor salvífico da morte de Jesus.
Jon Sobrino é um jesuíta, teólogo espanhol, que mora em EI Salvador (América Central). É um dos mais exponenciais autores da Teologia da Libertação. Escreveu várias obras, cujo conteúdo contraria a doutrina católica. Em conseqüência, em outubro de 2001 começou um processo da Congregação para a Doutrina da Fé a fim de averiguar os pontos discutíveis e ouvir a respeito o autor. Visto que este, repetidamente interrogado, manteve suas concepções, a mesma Congregação houve por bem publicar uma Notificação, que explica ao público o que é inaceitável nas obras do teólogo. O povo de Deus tem o direito de saber exatamente o que a fé católica professa, e à Igreja toca o dever de lho indicar com exatidão.
Vamos, a seguir, expor os seis pontos de Jon Sobrino censurados pela Igreja, que é Mãe e Mestra.
1. Pressupostos metodológicos
“A Cristologia latino-americana determina que o seu lugar são os pobres deste mundo” (Jesu Cristo libertador). Isto quer dizer que a Cristologia tem que ser cultivada na ótica dos pobres ou tomando como referencial permanente a categoria dos pobres - o que traz conotações políticas. O teólogo professa aprofundar a fé que a Igreja ensina a todos os fiéis, sejam ricos, sejam pobres. Toca à Doutrina Social da Igreja encarar os problemas de ordem social.
Sobrino, além disto, julga que os grandes Concílios da Igreja antiga se afastaram progressivamente do conteúdo do Novo Testamento. - A propósito deve-se notar que os quatro primeiros Concílios da Igreja (Nicéia I 325; Constantinopla I 381; Efeso 431 e Calcedônia 451) utilizaram conceitos e vocábulos da cultura do seu tempo, não para se conformar a essa cultura; não foi uma helenização do Cristianismo, mas precisamente o contrário. O progresso da mensagem cristã fez que a cultura grega sofresse, e uma transformação, tornando-se instrumento para a defesa dq verdade bíblica.
2. A Divindade de Jesus Cristo
Sobrino afirma que nos primeiros tempos não se falava de Jesus como Deus. Esta concepção provavelmente só apareceu após a queda de Jerusalém em 70.
A propósito, porém, podem-se citar passagens do Novo Testamento que professam a Divindade de Jesus; assim Jo 1, 1; 20, 28; 1 Ts 1, 10; FI 2, 511; 1 Cor 12, 3; Rm 1, 3s; 10,9; CI 2, 9 … 1. Os escritores e Concílios da Igreja continuaram a professar esta mesma fé. Sobrino porém replica que no Novo Testamento se tratava de uma fé em gérmen e não explícita, A réplica não resiste à evidência dos textos citados do Novo Testamento. A confissão da Divindade de Jesus Cristo é um ponto essencial da fé da Igreja desde as suas origens, ponto este que o Novo Testamento professa claramente.
3. A Encarnação do Filho de Deus
“O Filho faz a experiência da humanidade, da vida, do destino e da morte de Jesus”, escreve Sobrino em Jesucristo, p. 308.
O autor assim estabelece uma distinção entre o Filho e Jesus, que leva a pensar na existência de dois sujeitos em Cristo: o Filho e a realidade de Jesus; o Filho faz a experiência do humano existente em Jesus. Não se saberia dizer com firmeza que o Filho é Jesus e Jesus é o Filho. Isto renova a heresia antiga do homo assumptus (homem assumido).
Outra é a fé da Igreja formulada pelo Concílio de Calcedônia nos seguintes termos: “Ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho Senhor nosso Jesus Cristo, perfeito na divindade e perfeito na humanidade; verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, de alma racional e corpo, consubstancial ao Pai segundo a Divindade e consubstancial a nós conforme a humanidade”.
Dessa noção de Encarnação resulta o que se chama “communicatio idiomatum” (comunicação de propriedades), ou seja, a possibilidade de atribuir as propriedades da humanidade à Divindade, e vice-versa. Pode-se dizer: “Jesus, como Deus, ressuscitou Lázaro” e “Jesus, como homem, morreu na Cruz”. Há um só sujeito de tudo que Jesus faz; tal sujeito é Deus Filho que age ora através do poder divino, ora através da fragilidade humana.
Ora Sobrino destoa desta concepção ao dizer: “A compreensão adequada da comunicação de propriedades é a seguinte: o humano, limitado como é, pode ser atribuído a Deus, mas o Divino, ilimitado como é, não pode ser atribuído a Jesus” (La fe, p. 408).
Em Cristo há uma só Pessoa, um só sujeito e duas naturezas (a divina e a humana). Tal é a fé da Igreja.
4. Jesus Cristo é o Reino de Deus
Jon Sobrino considera o Reino de Deus como algo distinto do próprio Jesus.
O autor distingue entre mediador e mediação com certa sutileza. - Ora a fé da Igreja ensina que Jesus é o próprio Reino de Deus inaugurado na terra. Não basta atribuir a Jesus uma certa intimidade com o Reino. Jesus Cristo e o Reino se identificam na pessoa de Jesus: nele o Reino já se faz presente. O Reino de Deus não é um conceito, uma doutrina, um programa, mas é, acima de tudo, uma Pessoa que tem o nome e o rosto de Jesus de Nazaré, imagem de Deus Invisível.
Pode e deve dizer-se que Jesus Cristo tem, para o gênero humano e para a sua história, um significado e um valor singulares e únicos, só a Ele próprios, exclusivos, universais e absolutos. Jesus é de fato o Verbo de Deus feito homem para a salvação de todos.
5. A autoconsciência de Jesus Cristo
Segundo Sobrino, Jesus foi um crente extraordinário, a fé foi a artéria central de toda a vida de Jesus; Ele teve fé como qualquer outro ser humano.
A estas afirmações respondemos, citando textos do Novo Testamento, como Mt 11,25-27, em que se lê:
“Tudo me foi dado por meu Pai, e ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai a não ser o Filho e aquele a quem o Filho O quiser revelar” (cf. Lc 10, 21s).
Os Evangelhos manifestam a única e singular intimidade de Jesus com o Pai.
Jesus, Filho de Deus feito carne, tem um conhecimento oriundo e imediato do seu Pai, ou seja, uma visão que vai além dos parâmetros da
fé. A união hipostática e a sua missão de Mestre e Redentor requerem a visão do Pai e o conhecimento do seu plano de salvação. É o que indicam os textos do Evangelho.
Se Jesus fosse um crente como nós, não poderia introduzir os homens no mistério do amor divino. Para cumprir sua missão, ele necessitava da intimidade com o Pai, que decorria do conhecimento direto e imediato do Pai.
6. O valor salvífico da morte de Jesus
Segundo Sobrino, Jesus não atribuiu à sua morte um valor salvífico.
Foram os escritores do Novo Testamento que lhe deram o valor de sacrifício expiatório, satisfação vigária (em favor dos homens). A morte de Jesus tem apenas um valor moral, isto é, vem a ser um exemplo de coragem e coerência para todos os homens. Esse exemplo eloqüente deve atrair os homens à entrega total ao Pai.
Ora quem assim escreve, não está levando em conta os textos do Novo Testamento em que o próprio Jesus atribui à sua morte um valor redentor e expiatório. Tenha-se em vista, por exemplo, Mc 10, 45:
“O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”.
Nas fórmulas de instituição da S. Eucaristia ressoa o mesmo motivo da expiação salvífica. Assim em Lc 22, 19s:
“Isto é o meu corpo, que é dado por vós … Este cálice é a nova Aliança em meu sangue, que é derramado em favor de vós”; Ct. Mt 26,2628; Mc 14, 23s; 1Cor 11, 23-25.
Com outras palavras: Jesus não foi somente causa exemplar, mas foi também causa eficiente da nossa salvação. O Concílio de Trento (séc. XVI), retomando palavras de São Paulo, declara: “A Ele (Cristo) propôs Deus como Propiciador pela fé no seu sangue (Rm 3, 25) pelos nossos pecados, e não só pelos nossos, mas pelos do mundo inteiro (1 Jo 2, 2)”.
O Catecismo da Igreja Católica diz por sua vez:
“Este plano divino de salvação pela entrega à morte do Servo, o Justo, tinha sido de antemão anunciado nas Escrituras como um mistério de redenção universal, ou seja, de resgate que liberta os homens da escravidão do pecado” (nQ 60i).
Conclusão
A Conclusão da Notificação propõe em síntese o papel do teólogo católico.
A Teologia é a fé que procura compreender. Por conseguinte o teólogo parte da fé da Igreja e procura aprofundá-Ia. Essa fé da Igreja leva em conta os dados da Revelação, que valem igualmente para ricos e pobres de maneira objetiva e imparcial. Portanto não é determinada por alguma categoria social que oriente o trabalho do teólogo:
A investigação teológica dará frutos tanto mais abundantes, para o bem de todo o povo de Deus e de toda a humanidade quanto mais se inserir na corrente viva que, graças à ação do Espírito Santo, procede dos Apóstolos e foi enriquecida pela reflexão das gerações que nos precederam.
Até aqui vai o texto da Notificação. Deus julgará a consciência de Jon Sobrino. O que interessa à Igreja no seu pronunciamento sobre as obras dele, é esclarecer o povo de Deus, a fim de que este não tome o erro por verdade e guarde a pureza da fé. Referindo-se às heresias, São Paulo utiliza eloqüente comparação: “A palavra deles (hereges) é como uma gangrena que corrói” (2Tm 2, 17). A heresia é gangrena!
Tal Notificação foi assinada aos 13 de outubro de 2006 pelo Cardeal Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé William Levada, com a aprovação do Papa Bento XVI.
1 Eis alguns textos mais significativos:
Jo 1, 1: “No princípio era o Lagos e o Lagos era Deus … O Lagos se fez carne e habitou entre nós”.
Jo 20, 28: Tomé exclama: “Meu Senhor e meu Deus!”.
FI 2, 65: “Ele (Jesus Cristo) tinha a condição divina e não considerou o ser igual a Deus como algo a que se apegar ciosamente. Mas esvaziou-se a si mesmo e assumiu a condição de servo, tomando a condição humana”,
C12, 9: “Em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da Divindade”. Mt 16, 16: ‘Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!”.