«Christopher Hitchens e o final da evolução»

Filed under: Sem Categoria — Prof. Felipe Aquino at 10:20 pm on Wednesday, October 3, 2007

Por Pe. Raniero Cantalamessa:Publicamos o comentário do Pe. Raniero Cantalamessa OFMcap, pregador da Casa Pontifícia, ao ensaio difundido pelo jornalista anglo-americano Christopher Hitchens, sob o título «Deus não é grande – A religião envenena tudo». ROMA, terça-feira, 25 de setembro de 2007 ( ZENIT.org).
Há algum tempo, um anônimo benfeitor se preocupou por fazer-me chegar como presente, da parte do editor, o ensaio do conhecido jornalista anglo-americano Christopher Hitchens, titulado «Deus não é grande»; o subtítulo é: «A religião envenena tudo» («God is not great. How religion poisons everything», Nova York 2007). Penso que não o fez com afã polêmico, mas com o desejo de ajudar-me a sair do engano no qual, em sua opinião, me encontro como crente e como comentarista do Evangelho na televisão.
Quero logo dizer que estou agradecido a este desconhecido amigo. Muitas rejeições que Hitchens dirige aos crentes de todas as religiões (o islã não recebe no livro um trato melhor que o cristianismo, coisa que revela uma boa dose de valor por parte do autor) são fundados e devem ser levados em consideração para não repetir os mesmos erros do passado. O Concílio Vaticano II afirma que a fé cristã pode e deve tirar proveito também das críticas daqueles que a atacam, e este é certamente um dos casos.

Mas Hitchens considera que tudo é farinha do mesmo saco. Diz ater-se ao critério evangélico de julgar a árvore por seus frutos, mas da árvore da religião ele considera só os frutos podres, nunca os frutos bons. Os santos, os gênios e os benfeitores dados à humanidade pela fé, ou alimentados por ela, não contam nada. Com os mesmos critérios, isto é, considerando só o lado obscuro de uma instituição, se poderia escrever um livro negro de todas as grandes realidades humanas: da família, da medicina (recorde-se para que servia a medicina em Auschwitz), da psicanálise (dele se escreveu recentemente, de fato, um «livro negro»), do próprio jornalismo que exerce o autor (quantas vezes esteve, e está, a serviço dos tiranos e dos interesses de grupos de poder!).

De sua crítica não se salva ninguém. Francisco de Assis? «Um mamífero que acreditava falar aos pássaros!» A Madre Teresa de Calcutá? «Uma ambiciosa monja albanesa», feita famosa pelo livro «Algo belo para Deus», escrito sobre ela por Malcom Muggeridge. Em outras palavras, um produto como tantos outros da era da mídia!

Pascal conclui o relato de seu descobrimento do Deus vivo com as palavras: «Alegria, alegria, lágrimas de alegria», e C.S. Lewis descreve sua conversão como ter sido «surpreendido pela alegria»; mas para Hitchens, «há algo sombrio e incongruente» nestes dois autores, uma fundamental ausência de felicidade como em todos os crentes («Por que uma crença assim não torna seus seguidores felizes?»).

Dostoievski foi uma das principais testemunhas de peso da religião, mas dele se tomam em consideração muito mais os argumentos postos na boca do rebelde e do ateu Ivan que os do devoto Aliocha, o qual, como se sabe, reflete bastante mais de perto o pensamento do escritor.
Tertuliano se converte em um «Padre da Igreja» de maneira que seu «credo quia absurdum», «creio porque é absurdo», possa apresentar-se como o pensamento de todo o cristianismo, enquanto se sabe que, quando escreve tais palavras (interpretadas, além de tudo, fora do próprio contexto e de modo inexato), Tertuliano é considerado pela Igreja como um herege. Estranha também esta crítica a Tertuliano, porque se existe um apologista ao qual Hitchens se pareça espetacularmente, no lado oposto, é precisamente este africano: a mesma capacidade dialética, a mesma vontade de triunfar do adversário, sepultando-o sob uma massa de argumentos aparentemente, mas só aparentemente, indiscutíveis: a quantidade substituindo a qualidade dos argumentos.
Um comentarista inglês comparou o autor do livro com um desafiante púgil que no ginásio lança murros furiosos contra um saco de areia inerte, ignorando que o verdadeiro campeão que deve abater está em outro lugar. Ele não derruba a verdadeira fé, mas sua caricatura. Para mim, a leitura do livro me trouxe à memória um tipo de tiro ao alvo: lançam-se ao ar alvos artificialmente confeccionados que o atirador, sem esforço, destrói com tiros precisos.

Hitchens combate os distintos integrismos religiosos com outro de sinal oposto. «O de Hitchens – observa Renzo Guolo em ‘
La Repubblica’ – se assemelha ao manifesto militante de um mundo que parece polarizado entre os inquietantes partidários do fundamentalismo, com seus loucos projetos de novos, totalitários estados éticos, e os inclinados a um neo-secularismo integral que desvaloriza a busca de sentido de muitos no tempo do final das ‘grandes narrações’».
Hitchens dá prova de integrismo também em outro sentido. Ainda com intenções opostas, ele lê as Escrituras exatamente como o fazem certos representantes do fundamentalismo bíblico de cunho evangélico americano, isto é, ao pé letra, sem esforço algum de contextualização e de hermenêutica histórica. Isso lhe permite falar do «pesadelo do Antigo Testamento».
Mas Christopher Hitchens é uma pessoa inteligente. Prevê que a religião sobreviverá também a seu ataque, como sobreviveu a muitíssimos outros que o precederam, e se preocupou por dar uma explicação a este embaraçoso fato: «A fé religiosa – escreve – é inextirpável, porque somos criaturas
em evolução. Não se extinguirá nunca, ou ao menos, não se extinguirá enquanto não vençamos o medo da morte, do escuro, do desconhecido e dos demais». A religião não é mais que um estágio intermediário provisional, ligado à situação do homem que é um «ser em evolução».
Dessa forma, o autor se atribui tacitamente o papel de quem quebrou tal barreira, antecipando solitariamente o final da evolução e, como o Zaratustra nietzschiano, que volta à terra para iluminar sobre as realidades das coisas aos pobres mortais.
Repito: não se pode deixar de admirar a extraordinária cultura do autor e certas críticas suas. Pena que tenha preferido vencer clamorosamente, renunciando assim a convencer, inclusive quando poderia tê-lo feito em proveito da sociedade e da própria religião.

Sobre uma Carta ao Papa Bento 16

Filed under: Igreja — Prof. Felipe Aquino at 5:07 pm on Wednesday, October 3, 2007

Uma Carta enviada ao Papa foi publicada na “Folha de São Paulo” (30 set 07), de autoria de Carlos Alberto Roma, ex-postulante franciscano, em nome de 110 leigos católicos.Apresentamos alguns pontos dessa Carta, e em seguida um comentário sobre cada ponto. A Carta diz:

“Cresce a nossa insatisfação, enquanto leigos católicos, com a insensibilidade da hierarquia da nossa igreja que está no Vaticano. A questão de fundo é a explícita falta de coragem para dar os passos necessários para colocar a Igreja no século 21, especialmente se abrindo para os leigos.”“Somos 110 leigos. Após refletirmos sobre a prática e a coragem de Jesus diante da religião de seu tempo, tendo como texto de aprofundamento o livro “Com Jesus na Contramão”, de frei Carlos Mesters, decidimos redigir uma carta ao papa Bento 16 e toda a Cúria romana: “Estamos cada vez mais motivados em servir a Deus por meio da nossa Igreja. No entanto, estamos sofrendo muito, pois os sucessivos padres que atuam em nossa paróquia têm enfrentado um problema grave: por mais que motivem, a juventude atual não se sente entusiasmada a entrar no seminário para servir como sacerdote.”

“Com a grande falta de padres, confirmada em pesquisas realizadas em todos os países do mundo, nos perguntamos: por que não reconhecer o sacerdócio casado, o sacerdócio feminino e reconduzir os padres casados ao serviço da Igreja?”.“Os tempos atuais conclamam a que façamos corajosa revisão e mudemos nossos paradigmas. Solicitamos que Sua Santidade crie uma comissão, também composta por leigas e leigos, para aprofundar e solucionar urgentemente quatro questões:
1) Implantação de dois modelos de sacerdócio: a) celibatário e b) casado, com normas canônicas específicas para cada estado.

2) Implantação do sacerdócio feminino, com duas modalidades: a) celibatária e b) casada, com normas canônicas específicas para cada estado. 3) Reintegração, no serviço da igreja, dos sacerdotes já casados, ainda vocacionados.
4) Rever a situação dos cristãos casados em segunda união e sua participação na eucaristia. .” “A hierarquia de nossa Igreja Católica vai continuar indiferente? Ou vai abrir-se ao Espírito Santo e dar um passo à frente? Não podemos adiar ainda mais esse debate. Falta-nos, quem sabe, “vontade eclesial” ou “decisão política”?”A Carta convida os leigos a entrar neste debate, pelo site:
www.softline.com.br/leigoscatolicosnacontramao.

Comentários:

Atendendo ao convite deste grupo de leigos, para entrar neste debate, coloco alguns pontos:

1 - É muito estranho que um grupo de leigos fale de “insatisfação com a hierarquia da Igreja que está no Vaticano”. Ora, esta hierarquia é formada de Cardeais, Arcebispos, Bispos e Sacerdotes que formam a Cúria Romana, escolhidos pelo Papa, especialmente os Prefeitos das Congregações e os Presidentes dos Pontifícios Conselhos. Portanto, manifestar insatisfação com o Vaticano, é manifestar falta de confiança no Papa. O bom católico jamais pode agir assim.

É grave a acusação de que “falta coragem” na Hierarquia para “colocar a Igreja no século 21”. É uma acusação que cai também sobre o Papa. O grupo confunde falta de coragem com fidelidade do Papa e dos seus auxiliares com Jesus Cristo; na verdade, o Papa atual, bem como João Paulo II, mostraram ao mundo muita coragem em manter o que não pode ser mudado por ser a vontade de Deus. Eles não aceitam trocar o que foi legado pela Sagrada Tradição da Igreja e seu Magistério pelo que hoje se chama “politicamente correto” (aquilo que agrada o povo), mesmo com tanta contestação da mídia e desses grupos católicos adversos.

É preciso lembrar que o atual Papa foi por 25 anos o “Prefeito da Congregação da Fé”, auxiliar de confiança de João Paulo II, e enfrentou muitas criticas sem jamais deixar de cumprir sua missão árdua e fundamental de auxiliar o Papa a “guardar o bom depósito da fé”.

Embora “humilde servo da vinha do Senhor”, o então Cardeal Ratzinger nunca foi covarde ou omisso; e agora, como Papa, tem mostrado a mesma disposição ao conduzir o Rebanho de Cristo. Não podemos esquecer que ele foi eleito Papa em uma das eleições mais rápidas que já houve em um Conclave. Logo, essas acusações contra o Papa e seus assessores, caem também sobre os Cardeais que o elegeram Papa. Será que os Cardeais da Igreja são também medrosos?

2 - A Carta desse grupo de leigos propõe, mais uma vez, o sacerdócio casado, o sacerdócio feminino e reconduzir os padres casados ao serviço da Igreja. Ora, é preciso dizer que mais uma vez o Vaticano analisou esses pontos no Sínodo dos Bispos realizado em Roma sobre a Eucaristia em 2005; após o qual o Papa publicou a exortação apostólica “Sacramentum Caritatis”. Nela o Papa diz que confirmou o pedido dos Bispos que participaram do Sínodo recomendando a manutenção do celibato sacerdotal. O sacerdócio feminino nem passou pela análise dos Padres sinodais, por ser um assunto encerrado na Igreja Católica. O Papa escreveu:

“Os padres sinodais quiseram sublinhar como o sacerdócio ministerial requer, através da ordenação, a plena configuração a Cristo. Embora respeitando a prática e tradição oriental diferente, é necessário reiterar o sentido profundo do celibato sacerdotal, justamente considerado uma riqueza inestimável e confirmado também pela prática oriental de escolher os bispos apenas de entre aqueles que vivem no celibato, indício da grande honra em que ela tem a opção do celibato feita por numerosos presbíteros.” Sobre o sacerdócio feminino, o Papa João Paulo II disse na Encíclica Ordinatio Sacerdotalis, de 1994, o seguinte:

“Portanto, para que seja excluída qualquer dúvida em assunto da máxima importância, que pertence à própria constituição divina da Igreja, em virtude do meu ministério de confirmar os irmãos (cf. Lc 22,32), declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja.” (grifo meu)

Esta definição do Papa João Paulo II foi considerada pela Congregação da Fé, respondendo a uma consulta, como tendo força dogmática, isto é, a Igreja não pode mais alterar esta posição.

3 - Sobre a proibição dos casados em segunda união, o Papa João Paulo II já havia dito na “Familiaris Consortio”: “A Igreja, contudo, reafirma a sua práxis, fundada na Sagrada Escritura, de não admitir à comunhão eucarística os divorciados que contraíram nova união. Não podem ser admitidos, do momento em que o seu estado e condições de vida contradizem objetivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja, significada e atuada na Eucaristia. Há, além disso, um outro peculiar motivo pastoral: se se admitissem estas pessoas à Eucaristia, os fiéis seriam induzidos em erro e confusão acerca da doutrina da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimônio.” O Papa Bento XVI confirmou esta mesma posição.

4 - Se este grupo acha que não há vocações sacerdotais por causa dos fatores que apontam contra o Vaticano, é preciso dizer que graças a Deus as vocações sacerdotais e religiosas estão crescendo e muitos Seminários que estavam vazios, agora estão repletos de vocacionados ao sacerdócio. Especialmente os Seminários ligados ás Comunidades de vida e de aliança, têm recebido abundantes vocações. O que me parece é que os jovens não querem mais procurar Seminários e Congregações que não lhes ofereçam uma espiritualidade sadia, onde de fato se valorize a oração, a Palavra de Deus, a Eucaristia e a Confissão, o jejum e a meditação, e a fidelidade a Cristo e a Igreja. O que começa ficar claro é que os jovens vocacionados ao sacerdócio e à vida religiosa aspiram hoje o que pediu João Paulo II: “Uma nova evangelização”, com novo ardor (o fogo do Espírito Santo), novos métodos (evangelização pela mídia, etc.) e nova expressão (vida em comunidade).O que afasta os jovens dos Seminários não é o celibato e nem as normas da Igreja, e sim, a falta de ardor religioso. As comunidades de vida e de aliança estão repletas de jovens que querem o sacerdócio.

Prof. Felipe Aquino – www.cleofas.com.br

A moça que jogou o filho abortado pela janela

Filed under: Aborto — Prof. Felipe Aquino at 3:57 am on Wednesday, October 3, 2007

A mídia deu ampla cobertura ao caso da mãe que  jogou um bebê em um rio, em Contagem-MG.

 Uma ouvinte enviou-me uma carta dizendo que isto “mostra a hipocrisia e a contradição dos meios de comunicação que dão voz e vez aos que defendem o aborto.” 

“Segunda a reportagem da Folha de São Paulo (01 out 07), Elisabete Cordeiro dos Santos, a mãe do bebê, disse à polícia ter tomado um chá abortivo e “comprimido azul”, que os policiais ainda não sabem do que se trata. Isso teria causado o nascimento prematuro do bebê, com oito meses, a qual ela jogo pela janela.” 

“Agora – ela me diz -  vem meu questionamento para os abortistas e principalmente para o Ministro da Saúde: ”Se a mãe, tomando chá abortivo, matasse a criança estaria tudo correto para os abortistas. Não entendo o escândalo e o espanto dos abortistas, porque a mãe apenas escolheu uma outra forma de matar a criança. Porque na prática não há diferença alguma. Por que a mãe deveria ser presa nesse caso? Não é a mesma vida interrompida? Não é mesma criança? Porque a imprensa recusa-se nesse caso em questionar o aborto? Por que a imprensa não debate essa monstruosa legalização agora? Não adianta agora esses legalizadores execrarem a mãe desse bebê como sendo um monstro, demonstrando uma falsa piedade recheada de hipocrisia”. 

“Devemos defender a vida de qualquer inocente!!! NÃO AO ABORTO! Não ao assassinato de crianças, estejam elas no ventre ou não da mãe!” 

A  ouvinte tem razão; é incrível que a Imprensa tenha ficado horrorizada com o fato da moça ter jogado a criança no rio, e tem toda razão, mas não se manifestou com o mesmo horror pelo fato da moça ter tentado matar a criança pelo aborto. Ambas as atitudes são demasiadamente graves e deveriam ser igualmente condenadas.

Prof. Felipe Aquino – www.cleofas.com.br