A IGREJA: SUA ORIGEM E SUA NATUREZA

 

O então Cardeal Joseph Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, proferiu palestra pública, no Rio de Janeiro aos 26/07/90, sobre o tema acima. Antes do mais, colocou a pergunta: Quis Jesus fundar a Igreja? Que é a Igreja?  

 Frente às teorias dos últimos cem anos, inspiradas por fatores filosóficos e culturais contingentes, mostrou que a Igreja tem uma memória, ou seja, tem fontes próprias para reconhecer sua identidade; é a Ekklesía (= convocação ou assembléia convocada, em grego), que corresponde aos anseios do povo de Deus no Antigo Testamento; este, após o exílio babilônico (587-538 a.C.), pedia a Deus que  reunisse os segmentos de Israel dispersos entre os diversos povos do Oriente, do Egito e do Ocidente; essa reunião seria o cumprimento das profecias do Antigo Testamento referentes à vinda do Reino de Deus. Ora Jesus  realizou essa convocação, reunindo não só  o povo de Israel disperso, mas também os povos pagãos, numa assembléia católica, universal. O Reino de Deus não é algo de topográfico ou espacial, mas é o próprio Cristo; estar com Cristo é estar no Reino. 

O episódio de Pentecostes (At 2, 1-41) concretizou muito vivamente essa  convocação, que deu origem ao povo de Deus: as línguas foram multiplicadas para que as muitas culturas da humanidade fossem levadas á unidade da  Igreja; nesta há uma só fé e uma só Eucaristia, que sela a definitiva Aliança de Deus com os homens. Assim se vê que a Igreja não é o produto da criatividade humana, mas tem origem em Deus; ela vem a ser a realização das expectativas dos Profetas do  antigo Israel. 

 O então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal Joseph Ratzinger, fez três palestras, sempre na primeira sessão da manhã, sobre “Igreja Universal e Igreja Particular”, “Pedro e a Unidade dos Cristãos”, o “Munus do Bispo e a Igreja Particular”.

 

Eis, em síntese, o teor da  conferência do Cardeal Joseph Ratzinger: 

1.    Um pouco de história recente 

Que é a Igreja? Donde provém? Será expressão da vontade de Jesus Cristo? 

Para elucidar tais perguntas, há tantas teorias entre os exegetas e teólogos que parece impossível dar uma resposta segura a tais indagações. Deveremos, então, desistir da pesquisa? … e passar simplesmente para a vivência do Evangelho segundo os critérios individuais de cada cristão? – Tal atitude seria grave infidelidade a Cristo. Ao estudioso cristão não é lícito fechar-se no ceticismo. 

Como então proceder para chegar a uma elucidação dos quesitos propostos? 

O melhor ponto de partida há de ser a procura de uma visão de conjunto das teorias existentes. Uma vista aérea panorâmica das mesmas permitirá descobrir caminhos que levem a uma solução do aparente impasse. 

Ora podem-se distinguir três camadas de teorias sobre Jesus e a  Igreja propostas pelos teólogos dos últimos anos: 

1) A exegese dita “liberal” concebia Jesus como um pregador liberal, que reduzia a Religião à ética cristã. Opunha-se às instituições existentes em sua época; por conseguinte, não terá fundado alguma instituição ou Igreja, mas haverá despertado nos homens o desejo de experiência de Deus meramente pessoal ou subjetiva. 

2) Tais concepções perderam sua voga após a primeira guerra mundial (1914-18). Os povos perceberam que o cientificismo e muitos esteios de uma falsa auto-afirmação do homem haviam fracassado; a guerra incitou os homens a reconhecer sua fragilidade. Isto os levou a procurar estimar de novo os valores sagrados. Tomaram consciência de que Jesus era avesso ao culto de Deus e à Liturgia, como fora dito pelas gerações anteriores. Conseqüentemente o protestantismo na Alemanha, na Inglaterra, na Escandinávia restaurou com novo interesse a prática da oração e os ritos sagrados. Entre os católicos a Eucaristia foi mais reconhecida como centro da vida cristã; o movimento litúrgico tomou vulto e reavivou a piedade. Nesta fase tiveram certa influência os teólogos ortodoxos russos exilados em Paris, que contribuíram notavelmente para a elaboração de uma Eclesiologia eucarística mais densa e profunda. Tornou-se forte a consciência de que o Messias deixou as linhas fundamentais da constituição de um povo santo ou messiânico. 

3) Sobreveio a segunda guerra mundial, que por sua vez deslocou o foco de atenção dos estudiosos. Uma das mais notáveis conseqüências do conflito foi a abertura de um fosso crescente entre povos ricos (liberais) e povos pobres; no Ocidente  os povos do bem-estar restauraram a antiga filosofia Liberal, que por sua vez ressuscitou a teologia liberal, segundo a qual Jesus  foi tão somente um moralista, desligado de instituições. Alguns teólogos apelaram para a distinção, existente no Antigo Testamento, entre sacerdotes e profetas; aqueles teriam representado a Lei e as instituições de Israel, ao passo que estes significavam o carisma e a oposição às  instituições; ora Jesus se terá alinhado do lado dos Profetas, contra os sacerdotes; por conseguinte, não terá fundado Igreja alguma. Mais, diziam tais estudiosos: Jesus julgava que o mundo acabaria em breve ou com a geração do próprio Cristo, de modo que lhe era alheia a idéia de criar uma instituição duradoura.¹ 

A sumária exposição das três camadas de teorias feita até aqui manifesta que cada qual delas é o reflexo da sua época ou foi marcada pelas circunstâncias sociais, políticas e culturais da respectiva época. A Eclesiologia foi formulada em consonância com esses fatores extrínsecos e contingentes, e não de acordo com a memória da Igreja, ou seja, com as concepções constantes e tradicionais que formam o fio condutor da história e da doutrina da Igreja. É, pois, necessário redescobrir a memória e a Tradição da Igreja. 

2.    A memória e a Tradição da Igreja 

Para começar, notemos a freqüente ocorrência da expressão Reino de Deus nos escritos do Novo Testamento: aparece 122 vezes nestes, sendo que 99 vezes nos Evangelhos sinóticos e 90 vezes diretamente nos lábios de Jesus. Era na base desta verificação que Loisy dizia: “Jesus pregou o Reino de Deus (= a consumação definitiva da história), mas o que veio é a Igreja”. 

Eis, porém, que a oposição “Reino de Deus x Igreja” é falsa. Com efeito; os Profetas do Antigo Testamento anunciavam o Reino de Deus como realidade última e definitiva; São João Batista também reunia os homens numa só comunidade que aguardava o termo final da história. Ora Jesus veio justamente, como representante de Deus Pai, para reunir os homens no reino prometido. Este, porém, não é um lugar, um espaço; é Jesus mesmo; é Deus posto diante do homem. Observemos que, quando Jesus se aproximava do povo para anunciar-lhe a Boa-Nova, dizia-lhe: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo” (Mc 1,15). Jesus é o Reino que se aproxima; onde  Ele está, aí está o Reino; o Reino de Deus é a atuação de Deus na história dos homens. Por isto a frase de Loisy deveria ser assim corrigida: “Anunciou-se o Reino e chegou Jesus”. 

Esse Jesus nunca está só. Ele ve3io reunir os homens num só povo. Dentre as diversas imagens que designam esse povo – rebanho, cidade de Deus, templo de Deus, campo de  Deus… -, a preferida é a imagem da família de  Deus; nesta os homens são filhos de Deus e Jesus é o Primogênito. 

Nessa  família  três pontos chamam-nos a atenção: 

1) Os discípulos pediram ao Mestre que lhes ensinasse uma oração: a oração da comunidade. Na verdade, os grupos religiosos outrora tinham, como marco constitutivo, uma oração própria. Em resposta, Jesus ensinou o Pai-Nosso. Isto quer dizer que a  comunidade congregada por Jesus está ligada à oração; a oração a distingue, caracteriza e consolida. 

2) Mais: a comunidade de Jesus não é um núcleo amorfo. Jesus chamou doze seguidores; este número é tão importante que servia para designar, sem aposto, a comunidade (só após a ressurreição do Senhor foram eles chamados Apóstolos); cf. Lc 9,1; Mc 6,7; 3,14. Por isto, após a defecção de Judas, o número 12 foi restaurado pela escolha de Matias. – Ora o número 12 lembra os filhos de Jacó, dos quais descendiam as doze tribos de Israel. Jesus, acompanhado pelos doze, faz as vezes de Patriarca de um novo Israel; este é consagrado não pelos traços do sangue, mas pelos da pertença a Jesus. 

Além dos doze seguidores imediatos, Jesus tinha setenta discípulos. Ora também este número tem suas conotações valiosas. Com efeito; os antigos concebiam o mundo povoado por setenta povos (cf. Gn 10, 1-32); também foram, segundo se dizia, setenta os tradutores da Bíblia de Israel do hebraico em grego – o que significava que era um livro destinado a todas as nações. 

Assim acompanhado por doze apóstolos e setenta discípulos, Jesus quer chamar todos os homens para que integrem o novo povo de Deus. Ele, aliás, termina a sua missão terrestre enviando os Apóstolos a todos os povos para que os batizem e os façam discípulos de Jesus; cf. Mt 28, 18-20. 

3) A oração comum dos seguidores de Jesus foi acompanhada de novo elemento cúltico. Sim; Jesus quis transformar a Páscoa de Israel em selo de uma nova Aliança de Deus com os homens, … com todos os homens. Cumpriram-se assim as profecias de Isaías concernentes ao Servo de Javé (cf. Is. 52,13-53,12), vítima de expiação pelos pecados, que reuniria os homens todos e, reconciliados, os levaria a Deus Pai. O pão e o vinho da  nova Páscoa foram entregues aos Apóstolos como sendo o alimento que une os discípulos com o Senhor Deus e uns com os outros. A Aliança do Sinai foi assim ultrapassada em favor de outra, cujo mediador e ponto central é o próprio Jesus. 

A Eucaristia – nome dado à ceia instituída por Jesus – não é, pois, um culto semelhante aos que já existiam, É celebração de Aliança, … da nova e definitiva Aliança; ela faz dos homens o povo da Aliança mediante a participação no corpo  e no sangue de Cristo. Desta maneira a  Eucaristia é a origem e  o centro da vida da Igreja; ela faz a Igreja, e a Igreja, por sua vez, faz a Eucaristia. 

Tendo assim percorrido as grandes linhas do ministério de Jesus, examinemos a face de 

3.    A Igreja dos Apóstolos 

Os livros do Antigo  Testamento designavam Israel como o povo de Deus. No Novo Testamento o povo constituído pela Eucaristia é chamado Ekklesía = Igreja. Por que isto? 

- A palavra qahal, no Antigo Testamento, significa assembléia, … assembléia de caráter cúltico, político, jurídico. Compreendia não só homens (como as assembléias políticas e jurídicas da Grécia), mas também mulheres e crianças… Ora, após o exílio de Israel na Babilônia (587-538 a. C.), os judeus ficaram esparsos por diversas regiões do Oriente Médio, do Egito e do Ocidente; essa dispersão quebrava brutalmente a unidade do povo (aliás, já violada pelo cisma das dez tribos em 930 após a morte de Salomão; cf. 1Rs 12, 1-33). Por isto os judeus pediam a Javé que congregasse o povo disperso, restaurando o qahal ou o povo reunido; nutriam ardentes anseios neste sentido, especialmente nos tempos próximos à vinda de Cristo. 

Ora Jesus veio realizar estes anseios. Por isto os cristãos das primeiras gerações, assumindo o nome grego Ekklesía (= convocação, chamamento dos que estavam longe), queriam declarar que neles se realizava a nova qahal almejada pelos  judeus. A Lei (Torá) da qahal antiga se transformava em Lei do amor (cf. Jo 13, 34): “Eu vos dou um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei”. Jesus, entregando a vida por seus discípulos num gesto de amor, podia promulgar a nova aliança sobre esse amor, fazendo dele a grande diretriz de vida dos seus seguidores. 

A noção de Igreja assim entendida é explicitada no livro dos Atos dos Apóstolos, escrito por São Lucas. Tem-se aí uma Eclesiologia  narrativa, isto é, descrita através da narração de fatos históricos. Todo esse livro sagrado se prestaria a fecundo estudo da concepção eclesiológica dos Apóstolos e das primeiras comunidades cristãs. Neste contexto seja suficiente  realçar três quadros apresentados no início de tal obra: 

1) At 1, 12-26: temos aqui a primeira reunião dos seguidores de Jesus. Estavam no Cenáculo Pedro e os dez (Judas apostatara e Matias ainda havia de ser eleito), Maria SS. e alguns discípulos (homens e mulheres) fiéis. Todos os pormenores deste quadro são importantes na sua própria singeleza: a sala de reunião era o Cenáculo ou a sala da instituição da Eucaristia na última Ceia; os onze Apóstolos são apresentados um por um. Perseveravam unânimes na oração ou numa atitude de abertura para a graça e a vontade de Deus; o seu número total era de cento e vinte – o que lembra o número 12 sagrado e profético, pois indica a totalidade; era o número das tribos de Israel e dos Apóstolos de Jesus. 

São Pedro se  fez  porta-voz do desígnio de Deus: era preciso escolher o substituto do 12.º Apóstolo ou do traidor. A escolha se fez mediante um sinal de Deus, que indicava Matias à comunidade orante; a decisão veio do Alto, pois o quadro não era o de um Parlamento, que decide por critérios  humanos, mas era o de uma autêntica qahal-ekklesía, ou de um povo convocado pela graça de Deus, unido, em santa Aliança, ao Senhor e regido por critérios transcendentais; era ele o espelho do novo povo de Deus, no qual Pedro exerce uma função primacial, fortalecendo e confirmando seus irmãos, levando-os a identificar-se com o plano de Deus. 

2) At 2, 42-47: Quatro características assinalam a Igreja nascente: a fidelidade ao ensinamento dos Apóstolos, a comunhão fraterna, a  fração do pão e a oração. Isto quer dizer: - a Palavra de Deus e o pão sacramental fundamentam a Igreja de Deus; 

- esta é algo de institucional; é preciso obedecer aos ensinamentos dos Apóstolos; o Cristianismo não é algo que se possa viver isoladamente, na base de intuições particulares. O Cristão deve sentir-se membro de uma comunidade, selada pela fração e a partilha do pão (eucarístico); 

- a fidelidade dos cristãos a Cristo implica o respeito a um testemunho vivo (a Palavra viva dos Apóstolos, a vida e o agir da comunidade) mais do que a um livro. Os livros sagrados (Evangelhos, epístolas) são posteriores a essa fase da Igreja nascente; esta encontrava na Palavra proferida e vivida o seu liame e a sua luz ou o roteiro de sua fidelidade a Cristo. 

3) Entre At 1, 12-26 e At 2, 42-47 acha-se a cena do primeiro Pentecostes cristão (At 2, 1-14). Esta significa que a Igreja (ekklesía = convocação) não é obra criada ou fundada pelos homens, mas pelo Espírito Santo; é este quem comunica aos Apóstolos o dom das línguas, mediante as quais puderam chamar à nova qahal judeus e não judeus ou pagãos. As línguas multiplicadas em Pentecostes significam as muitas culturas humanas convocadas a se entrelaçarem sob a orientação de uma só fé e um só amor. É interessante que São Lucas registra como presentes ao primeiro Pentecostes judeus provenientes de doze partes do mundo (partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judéia e da Capadócia, do Ponto, da Ásia, da Panfília, do Egito e das regiões da Líbia próximas de Cirene), além dos romanos, representantes do mundo pagão. Com outras palavras: são convocados judeus e gentios, ou seja, todos os povos. Assim a Igreja, já ao nascer, é católica ou universal; depois da comunidade de Jerusalém foram fundadas outras comunidades na Terra Santa e também fora  da Terra Santa; mas não foram essas comunidades esparsas que deram à Igreja o seu cunho de católica; ao contrário, foi a índole católica da Igreja oriunda em Jerusalém que se transferiu para as outras comunidades eclesiais, tornando-as católicas. 

Pentecostes, levando a multiplicidade dos homens e das culturas à unidade da Ekklesía, resgata o episódio de Babel, no qual a unidade se dissolveu em multiplicidade por causa da arrogância dos homens frente a Deus. A volta è unidade se  faz sem violência nem constrangimento, mas por efeito do amor derramado pelo Espírito Santo nos corações (cf. Rm 5,5). 

No decorrer do livro dos Atos, São Lucas desenvolve o acontecido em Pentecostes: o caminho da Boa-Nova e da Igreja oriundas em Jerusalém, berço judaico, e destinadas aos pagãos, cuja capital era  Roma. Sim; o livro começa em Jerusalém no Cenáculo, apresentando a nova qahal e seu Pentecostes, e termina em Roma; esta cidade, na mente de Lucas, tem valor teológico, é o ponto que sela e confirma a catolicidade da  Igreja. 

O livro de São Lucas, aliás, é todo ele escrito em perspectiva profundamente teológica: demonstra o mistério da Igreja, que é a continuação da assembléia do povo do Antigo Testamento, disperso  nos tempos de Cristo e convocado para constituir novo povo, baseado não sobre a pertença a uma raça, mas sim sobre a pertença a Jesus Cristo, que é o Reino de Deus iniciado; tal pertença  implica nova  Aliança firmada no sacrifício de Cristo, que pão e vinho sacramentais perpetuam sobre os altares. 

Assim São Lucas, de certo modo, antecipou as questões que se colocariam posteriormente sobre a origem e a natureza da Igreja, e forneceu a chave para resolver os problemas eclesiológicos de nossos tempos. 

Eis a síntese da conferência do Cardeal J. Ratzinger. A conclusão (parágrafo final) deste texto responde às indagações iniciais: quis Jesus fundar a Igreja? Que é a Igreja? – Como se vê, a resposta não é deduzida de contingências da história, mas da “memória” da Igreja, ou seja, dos arquivos mais autênticos da mesma; é a história da salvação, considerada desde o Antigo Testamento, que apresenta a Igreja como o fruto de  longa preparação: a Aliança do Sinai, a Ceia de Páscoa, a assembléia (qahal) de culto a Deus e de comunhão fraterna… são concepções do antigo Israel que chegam à sua plenitude na Ekklesía ou na assembléia convocada, que reúne em seu bojo judeus  e gentios, ou seja, todos os homens; a catolicidade da Igreja não extingue as peculiaridades étnicas e culturais, mas fá-las convergir para constituírem um novo povo consolidado pelo amor de Deus derramado nos corações mediante o Espírito Santo (Rm 5,5). São Lucas, nos Atos dos Apóstolos é o doutor que faz reviver os antigos episódios e mostra a Igreja fundada pelo próprio Cristo como emissário do Pai e Patriarca da linhagem dos filhos de Deus (em Cristo os homens são feitos filhos no FILHO). 

 

 

 

 

¹ Eis as palavras com que o próprio Cardeal Ratzinger exprime seu pensamento no artigo “A Memória Histórica da Igreja” publicado no JORNAL DO BRASIL, caderno “Idéias/Ensaios” de 5/8/90, pp. 7s. Tais dizeres ajudam a compreender afirmações de teólogos da libertação no Brasil:“Esse novo tipo de liberdade pode  transformar-se, com grande facilidade, em uma interpretação de orientação marxista da Bíblia. O confronto entre sacerdotes e profetas converte-se na chave da luta de classes como lei da História. Nesse caso, Jesus foi morto na luta contra as forças opressoras e se converte em símbolo do proletariado que sofre e luta, símbolo do povo, como se prefere dizer. O caráter escatológico da mensagem remete para o finde  uma sociedade classista; na dialética  profeta-sacerdote expressa-se a dialética da  História, que culmina com a  vitória dos oprimidos e o surgimento de uma sociedade sem classes. Nesta concepção pode-se encaixar o fato de que Jesus quase nunca falou de Igreja, referindo-se, constantemente, ao Reino de Deus; o Reino será, então, a sociedade sem classes, e será a meta da luta do povo oprimido; ele ocorre onde o proletariado organizado, isto é, seu partido, com o socialismo alcançou vitória. A eclesiologia volta a ter significado, neste modelo dialético, dado pelo desmembramento da Bíblia em sacerdotes e profetas, correspondente à  diferença entre instituição e povo. Segundo esse modelo dialético, à Igreja institucional, oficial, se opõe a Igreja do povo, aquela que, renascendo constantemente com ele, perpetua as intenções de Jesus, sua luta contra as instituições e seu poder opressor, a favor de uma nova sociedade livre, o reino.”  

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”D. Estevão Bettencourt, osb.Nº 341 – Ano 1990 – Pág. 434. 

 

A Conferência Episcopal Espanhola (CEE) publicou uma nota em que adverte a “gravidade dos enganos” contidos no livro “Teologia do pluralismo religioso. Curso sistemático de Teologia Popular” do teólogo claretiano Pe. José María Vigil que a tornam “um instrumento especialmente daninho para a fé dos mais simples”.(acidigital.com – 04 jan 2008)

Trata-se de mais uma obra baseada na teologia da libertação (TL) de cunho marxista,  e que não se coaduna com a fé da Igreja Católica; e que por isso é condenada pelos bispos da Espanha, antes mesmo da Santa Sé. Sem dúvida o Vaticano deverá se pronunciar da mesma forma no sentido de proteger o Rebanho de Cristo contra os insistentes erros dos teólogos ligados à TL.

É lamentável que esses teólogos, recalcitrantes em seus erros, continuem insistindo numa linha teológica condenada pelo Vaticano e pela maioria dos Bispos. Há poucos meses a Santa Sé condenou uma obra similar do padre Jon Sobrino, também espanhol.

A gravidade dos erros da chamada “teologia popular” é que ela inverte a ordem de valores que fundamentam e sustentam a Igreja: coloca o poder sagrado nas mãos do povo e não da hierarquia, do Papa e dos bispos como Cristo instituiu. Com base nisso, esta teologia desviada da verdade evangélica, revira a fé católica no avesso;  pretende que o povo possa assumir o poder na Igreja, inclusive o de indicar sacerdotes e bispos, independente da Hierarquia. Cria um novo cristianismo que já não é o de Jesus Cristo. É por isso que a  “Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé” da “Conferência Episcopal da Espanha” diz na nota sobre a obra condenada do padre José Vigil, que ao recorrer ao que seu autor denomina “metodologia latino-americana”, cai em “incorretos presupostos metodológicos” que “levam a afirmações incompatíveis com a fé da Igreja Católica” que têm como fundo “a negação da verdade sobre Cristo, o Filho de Deus encarnado, e da originalidade do cristianismo”.         Diz ainda a nota dos Bispos que a “gravidade destes enganos”, além das “valorações históricas injustificadas e marcadas por uma ideologia dialética” que oferece o sacerdote no livro de caráter divulgativo –está concebido “para ser utilizado como manual de estudo em grupos de formação cristã”– , “fazem desta obra um instrumento especialmente daninho para a fé dos mais simples“,  que com o comunicado procura “fortalecer a vida dos fiéis na confissão jubilosa e humilde de Jesus Cristo, e rechaçar o que a danifica“.  A Igreja não é uma democracia comum e nunca será; isto é, o seu poder não vem do povo, mas de Deus, do alto, não de baixo, de Cristo que instituiu a Sua Igreja (Mt 16, 18) e lhe deu regras claras de funcionamento até que ele volte na Parusia. O nosso Catecismo diz:

§816 - “A única Igreja de Cristo,… é aquela que nosso Salvador, depois da sua Ressurreição, entregou a Pedro para apascentar e confiou a ele e aos demais Apóstolos para propagá-la e regê-la… Esta Igreja, constituída e organizada neste mundo como uma sociedade, subsiste (“subsistit in”) na Igreja Católica governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele” (LG 8).

§874 – “O próprio Cristo é a fonte do ministério na Igreja. Instituiu-a, deu-lhe autoridade e missão, orientação e finalidade: Para apascentar e aumentar sempre o Povo de Deus, Cristo Senhor instituiu em sua Igreja uma variedade de ministérios que tendem ao bem de todo Corpo. Pois os ministros que são revestidos do sagrado poder servem a seus irmãos para que todos os que formam o Povo de Deus… cheguem à salvação (LG 18)”.

§875 – “Ninguém, nenhum indivíduo, nenhuma comunidade pode anunciar a si mesmo o Evangelho. “A fé vem da pregação” (Rm. 10,17). Ninguém pode dar a si mesmo o mandato e a missão de anunciar o Evangelho. O enviado do Senhor fala e age não por autoridade própria, mas em virtude da autoridade de Cristo; não como membro da comunidade, mas falando a ela em nome de Cristo. Ninguém pode conferir a si mesmo a graça; ela precisa ser dada e oferecida. Isto supõe ministros da graça autorizados e habilitados da parte de Cristo. Dele, os bispos e os presbíteros recebem a missão e a faculdade (o “poder sagrado”) de agir “na pessoa de Cristo-Cabeça”, os diáconos, a força de servir o Povo de Deus na “diaconia” da liturgia, da palavra e da caridade, em comunhão com o bispo e seu presbitério. A tradição da Igreja chama de “sacramento” este ministério, pelo qual os enviados de Cristo fazem e dão, por dom de Deus, o que não podem fazer nem dar por si mesmos. O ministério da Igreja é conferido por um sacramento específico”.

Uma igreja dirigida pelo “povo” e não pela Hierarquia querida por Cristo, já não seria mais a Igreja de Cristo; e toda a salvação da humanidade estaria em risco; por isso os bispos da Espanha já deram o alerta. É a missão sagrada deles, como São Paulo lhes disse: “Cuidai de vós mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastorear a Igreja de Deus, que ele adquiriu com o seu próprio sangue. Sei que depois da minha partida se introduzirão entre vós lobos cruéis, que não pouparão o rebanho. Mesmo dentre vós surgirão homens que hão de proferir doutrinas perversas, com o intento de arrebatarem após si os discípulos.” (At 20,28-29)

Prof. Felipe Aquino – www.cleofas.com.br

O Filho de Deus nasceu revestido de nossa miséria humana, escondendo-se sob as feições de um menino comum toda a “plenitude de sua divindade” como disse S. Paulo. Assim quase ninguém pôde suspeitar que naquele Menino chamado Jesus se ocultasse Deus. Mas Deus, de sua maneira, quis manifestar a sua glória, dignidade e a divindade. 

Houve a primeira manifestação aos pastores pobres de Belém, os primeiros judeus a reconhecerem o seu Deus; eles contemplaram os Anjos cantando o “Glória in excelsis Deo”. Esses pastores, avisados pelos Anjos, naquela mesma noite reconheceram e adoraram o recém-nascido Salvador do Mundo. 

Uma segunda manifestação da divindade de Jesus aconteceu quarenta dias após o nascimento, em sua apresentação no Templo. Simeão e Ana manifestaram a sua glória.  Uma terceira vez, ainda mais solene, aconteceu por meio de ilustres personagens, provenientes de longe: é a terceira Epifania (manifestação) de Jesus ao mundo, mas agora aos pagãos.  

Enquanto os anjos, com seus cânticos, anunciavam nos campos de Belém o nascimento de Jesus, uma nova Estrela anunciava-O no Oriente de maneira misteriosa.  Os representantes dos pagãos foram os Magos; homens que se ocupavam das ciências, especialmente da astronomia, da medicina e da matemática. 

Pouco sabemos sobre esses reis Magos; eram pequenos reis soberanos de tribos primitivas do Oriente, viviam como patriarcas, senhores de rebanhos. Não há consenso sobre o país exato de onde vieram. São Jerônimo (†420) e Santo Agostinho (†430) diziam que os Magos vieram da Caldéia.  

Os Padres gregos, a tradição da Síria, vários doutores da Igreja, afirmam que vieram da Pérsia. São Clemente de Alexandria (†215), São João Crisóstomo (†407), Santo Efrém (†373), S. Cirilo de Alexandria (†442), doutores da Igreja, afirmam que vieram da Pérsia, onde eram sacerdotes e pertenciam à uma casta religiosa e científica. Esses têm a seu favor as pinturas das Catacumbas de Roma, dos primeiros séculos, que os representam sempre com roupas persas: chapéus altos com abas caindo sobre os dois lados do rosto; túnica branca e comprida presa na cintura, sobre a qual cai longo manto para trás.  

Segundo esses Padres, os reis Magos eram cultos, conheciam os livros dos judeus e professavam uma religião muita acima do paganismo; conheciam a ciência dos astros e liam pergaminhos antigos. De alguma forma conheciam a fé do povo judeu, a espera do Messias que traria salvação não só para Israel, mas também para as demais nação. Não podemos esquecer daquele eunuco etíope, evangelizado e batizado por S. Felipe (At 8,29ss).  

E este oriental lia o profeta Isaias, e exatamente o trecho que falava do Servo Sofredor (Is 53,7). Este fato é uma prova de que muitos no oriente conheciam a glória de Israel e a sua fé.  

E não podemos esquecer também que: “A rainha de Sabá, tendo ouvido falar de Salomão e da glória do Senhor, veio prová-lo com enigmas.(1Rs 10,1-2).  

Ora, se a rainha de Sabá conhecia a fama de Salomão, 900 anos antes de Cristo, então, os reis Magos também podiam conhecer a fé judaica. Eles possuíam os livros dos hebreus deixados no exílio; e neles se falava de um Salvador que nasceria de uma virgem em Israel, e que seria adorado por todas as nações do mundo, e que seria o redentor da humanidade.  

Neste tempo muitos no Oriente já usavam o astrolábio para conhecer as estrelas e estudavam atentamente o céu. Não é fantasioso imaginar que no mesmo dia do nascimento de Jesus eles possam ter vislumbrado um astro diferente no céu, de uma beleza singular, que os fez concluir que aparecera  a “estrela de Jacó”, que se movia do sul para o norte, em sentido contrário aos demais astros.  

Santo Inácio de Antioquia (†107), mártir em Roma, diz na Carta aos Efésios que este astro que guiou os Magos era como aquela coluna de fogo que guiou Israel pelo deserto em sua marcha à Terra Prometida. Enfim, a fé os levou em busca do Salvador, e eles não desanimaram até encontrá-Lo.  Segundo uma tradição esses reis magos simbolizavam as três raças humanas: a amarela, a negra a e branca, descendentes dos três filhos de Noé: Sem (Gaspar), Cam (Balthazar) e Jafé (Melchior). 

Gaspar que dizer: “ele vai levado pelo amor”; Balthazar quer dizer: “sua vontade é rápida como a flecha e faz a vontade de Deus”; Melchior significa: “Ele penetra docilmente”. Os reis da Abissínia reivindicam a honra de serem descendentes dos reis Magos.  

A estrela milagrosa, servindo-lhes de guia, conduziu-os até a Cidade Santa e desapareceu. A tal desaparecimento, pensaram os Magos que o Menino tivesse nascido nessa cidade, razão pela qual perguntaram: “Onde nasceu o Rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no Oriente e viemos para adorá-Lo.” (Mt 2, 2) 

Eles esperavam encontrar Jerusalém exultante e em festa, mas ficaram decepcionados ao perceber que ninguém ali sabia informar sobre o “Rei dos Judeus”. Certamente um desânimo profundo os abateu; mas a fé e a coragem reviveram em seus pobres corações. Quem acendera no firmamento aquela Estrela brilhante e os trouxera de tão longe, não os abandonaria agora que chegaram.  

Deus age assim mesmo com os seus escolhidos; é para lhes testar a fé e aumentar ainda mais os seus méritos. Conosco também é assim quando somos guiados por Deus para fazer sua obra.  

As caravanas desses reis  entraram em Jerusalém e assustaram a cidade; deixando Herodes preocupado e sentindo-se ameaçado por aquele Menino. Isto mostra que não estamos diante de uma lenda ou fantasia, mas algo histórico. Herodes I, chamado o Grande, era descendente de Esaú e não de Jacó, era de Edom, não era judeu. Fez-se eleger rei da Judéia por ser adulador de Julio César. 

Os Magos concordaram com a “proposta” de Herodes, saindo da cidade, foram novamente guiados pela estrela até o lugar onde se encontravam José, Maria e o Menino. Aqueles reis compareceram com seus servos diante da Sagrada Família e lhes deram presentes, depois de adorar o Menino.Encontraram e viram o Criador feito Menino, no regaço de Maria, que em sua simplicidade se preparara para receber a singular visita, e, humildemente prostrados a seus pés, cheios de fé e veneração, adoraram-No e se ofereceram a si mesmos juntamente com as suas nações. É incrível que na fé régia os Magos não tivessem se abalado diante da pobreza do Rei dos Judeus. Como pode um rei nascer tão pobre e abandonado?  

É um milagre não terem voltado atrás desiludidos; esta é a maior prova de que foram conduzidos por Deus até Belém para em nome dos pagãos de todos os tempos prestarem o culto de adoração ao Menino Deus. Souberam deixar que Deus lhes governasse os corações. Tomaram portanto os vasos preciosos, expostos pelos servos em cima dos tapetes, e, abrindo-os, ofereceram ao Menino, ouro, incenso e mirra: misteriosa oblação em sinal dos profundos sentimentos de fé, amor e veneração que lhes enchiam a alma, e símbolo da divindade do Menino, de sua majestade e de sua missão redentora.  

Após os mais vivos agradecimentos, regressaram, e, avisados em sonho pelo Anjo do Senhor para não tornarem a Herodes, por outro caminho voltaram à sua pátria. Estava cumprida a sua missão. Uma bela missão de fé.  

Prof. Felipe Aquino – www.cleofas.com.br