Palavras de um pai de um filho Anencéfalo

Filed under: Meditação, Familia — Prof. Felipe Aquino at 12:58 pm on Tuesday, May 20, 2008

    Paulo Tominaga, Mestre em Ciência da Computação, engenheiro pela Unicamp, advogado, atualmente Consultor do Núcleo Jurídico do PRODASEN - Senado Federal. Tem três filhos, sendo que o segundo, já falecido, era anencéfalo.Vale a pena ler o seu depoimento sobre o assunto.

“Após ter um filho anencéfalo no ano passado, é com pesar que vejo como o tema tem sido tratado desde a recente decisão de um dos ministros do STF, na qual se assegura às mães o direito de dispor da vida daqueles que venham a gerar. É interessante notar como apenas de modo passageiro se faz referência a estas pequenas pessoas, ficando a tônica da discussão sobre um tal “direito à liberdade de escolha” dos adultos envolvidos no caso. Como se a gravidez correspondesse apenas a uma vida – a da mãe –, podendo prescindir da existência do filho.
Este enfoque parece ilustrar como o egoísmo impera em nossa sociedade. Sempre tinha ouvido falar no amor da mãe por seus filhos como o mais excelso tipo de amor possível. E desde os antigos gregos, este costumava ser indicado, para todos, como um ideal a ser alcançado, na relação com os demais.
Hoje o que parece preponderar como meta é outra espécie de “amor”, verdadeiro culto religioso, por uma triste caricatura de “liberdade”, entendida como absoluta falta de compromissos. Não mais se aceita, nem mesmo, o compromisso de se preservar a vida de um filho, se este não puder corresponder às expectativas de seus pais ou – o que é pior – da maioria da sociedade. Neste quadro, fica claro que, para alguns, só se tem filhos para uma satisfação da auto-estima, como parte de um projeto pessoal ou para que possam, de certa forma, “divertirem-se” com as crianças, utilizando-os, como se fossem um objeto qualquer. Se não há a perspectiva de que uma criança venha a proporcionar alegrias aos pais, então é melhor descartá-la o quanto antes – no ventre da mulher, de preferência, pois assim termina logo esta existência “insuportável e sem sentido”!
Uma pessoa não pode ser eliminada simplesmente porque não é como nós gostaríamos que fosse. Criam-se teorias e mais teorias para tentar encobrir o óbvio: está se matando uma pessoa, em nome de se “eliminar os terríveis sofrimentos, verdadeira tortura”, que sua existência causa a sua mãe, a seu pai. Além do mais, dizem, esta criança está condenada à morte, de qualquer forma. Assim, apenas se está antecipando aquilo que naturalmente iria ocorrer em pouco tempo.
Amigos, a criança já terá uma vida breve. Que saibamos respeitá-la. Posso assegurar, por experiência própria, que este caminho conduz a um crescimento grande no amor entre os cônjuges, e na capacidade de se doar aos demais filhos. Filhos que virão, com certeza, como veio para nós neste ano o pequeno Rafael – talvez a demonstração mais palpável de que não há qualquer “trauma” no caso, se os pais souberem agir com serenidade.
Se realmente desejam ajudar aos que passam por tais situações, saibam tratar do tema com um enfoque prático que não distorça a realidade mais óbvia, querendo criar teorias para esconder uma vida ou afirmar cegamente que este filho nunca existiu. O problema de saúde, a má formação da criança, é um fato que atualmente não se pode reverter. A questão não está apenas no que se deve fazer durante a gestação. O grande problema, para os pais – e para a mãe, em especial – é como lidar com o fato ocorrido, depois deste período ter acabado. Porque não é possível se esquecer de um filho: ficará para toda a vida a recordação destes dias. E então, ou a mãe irá se lembrar de que, não podendo ajudar seu filho, matou-o, porque ele não era nem poderia vir a ser como se desejava que ele fosse; ou irá se lembrar, com carinho e ternura, de que seu filho, que teve uma breve existência, foi sempre amado e respeitado.
Amem seus filhos. Garanto que vale a pena.”

As Imagens na Tradição da Igreja

Filed under: Imagens — Prof. Felipe Aquino at 3:44 pm on Monday, May 19, 2008

Na Encarnação do Verbo, Jesus Cristo mostrou aos homens uma face visível de Deus, que quis se servir de numerosos elementos sensíveis (imagens, palavras, cenas históricas…) para nos comunicar a Boa-Nova.

Os cristãos foram, então, compreendendo que segundo a pedagogia divina, deveriam passar da contemplação do visível ao invisível. As imagens, principalmente os que reproduziam personagens e cenas da história sagrada, tornaram-se “a Bíblia dos iletrados” ou analfabetos.

As imagens sempre foram usadas por Jesus e pelos Apóstolos como instrumentos eficazes e reveladores da realidade invisível: para anunciar o Reino de Deus usaram imagens de lírios, pássaros, sal, luz, etc., coisas que estimulavam a compreensão do abstrato através de imagens retiradas do mundo concreto. São Paulo também ensina que o Deus invisível tornou-se visível em Jesus Cristo (cf. Cl 1,15).

A controvérsia iconoclasta, inspirada por correntes judaizantes e heréticas nos séculos VIII e IX, que condenava o uso das imagens,  terminou com a reafirmação do culto dessas no Concílio de Nicéia II, em 787.

Os Reformadores protestantes rejeitaram as imagens por causa dos abusos do fim da Idade Média; Lutero, porém, se mostrou bastante liberal com as imagens; não as proibia. Ultimamente entre os luteranos a atitude diante das imagens tem sido submetida a revisão. Lutero disse em 1528:
“Tenho como algo deixado à livre escolha as imagens, os sinos, as vestes litúrgicas… e coisas semelhantes. Quem não os quer, deixe-os de lado, embora as imagens inspiradas pela Escritura e por histórias edificantes me pareçam muito úteis… Nada tenho em comum com os Iconoclastas (quebradores de imagens)” (Da Ceia de Cristo).

S. Clemente de Alexandria († antes de 215) dizia que: “O próprio homem é a imagem viva de Deus”, eis o argumento que repete, acrescentando ainda um adágio freqüente na Igreja antiga: “Viste teu irmão, viste teu Deus” (Stromateis I 19 e II 15, PG 8,812 e 1009).

Os cristãos foram percebendo que a proibição de fazer imagens no Antigo Testamento era apenas uma questão pedagógica de Deus com o povo de Israel.  As gerações cristãs foram compreendendo que a realidade da Encarnação do Verbo como homem, visível, indicava que eles deveriam subir ao Invisível passando pelo visível que Cristo apresentou aos homens. Assim, começaram a representar e meditar as fases da vida de Jesus e a representação artística das mesmas começaram a surgir como um meio valioso para que o povo fiel se aproximasse do Filho de Deus.

É relevante notar que já nas antigas Catacumbas de Roma, os antigos cemitérios cristãos, encontram-se diversos afrescos geralmente inspirados pelo texto bíblico:  Noé salvo das águas do dilúvio, os três jovens cantando na fornalha, Daniel na cova dos leões, os pães e os peixes restantes da multiplicação efetuada por Jesus, o Peixe (Ichthys), que simbolizava o Cristo …

Note que esses cristãos dos primeiros séculos ainda estão debaixo da perseguição dos romanos. E eles faziam imagens e pintavam figuras. Será que eram idólatras por isso? É lógico que não, eles morriam às vezes mártires exatamente para não praticarem a idolatria, reconhecendo César como Deus e lhe queimando incenso. Ora, se os nossos mártires usavam figuras pintadas,  é claro que elas são legítimas.

Nas Igrejas as imagens tornaram-se a “Bíblia dos iletrados”, dos simples e das crianças, exercendo grande função catequética.  Alguns escritores cristãos nos contam isso.
S. Gregório de Nissa (†394) escreveu:
“O desenho mudo sabe falar sobre as paredes das igrejas e ajuda grandemente” (Panegírico de S. Teodoro, PG 94, 1248c).

S.João Damasceno, doutor da Igreja, grande defensor das imagens no Concilio de Nicéia II, disse:
“O que a Bíblia é para os que sabem ler, a imagem o é para os iletrados” (De imaginibus I 17 PG, 1248c).
“Antigamente Deus, que não tem corpo nem face, não poderia ser absolutamente representado através duma imagem. Mas agora que Ele se fez ver na carne e que Ele viveu com os homens, eu posso fazer uma imagem do que vi de Deus.”
“A beleza e a cor das imagens estimula minha oração. É uma festa para os meus olhos, tanto quanto o espetáculo dos campos estimula o meu coração para dar glória a Deus”  (CIC, 1162).
“Como fazer a imagem do invisível? … Na medida em que Deus é invisível, não o represento por imagens; mas, desde que viste o incorpóreo feito homem, fazes a imagem da forma humana: já que o inviável se tornou visível na carne, pinta a semelhança do invisível”  (I 8 PG 94, 1237-1240).
“Outrora Deus, o Incorpóreo e invisível, nunca era representado. Mas agora que Deus se manifestou na carne e habitou entre os homens, eu represento o “visível” de Deus.  Não adoro a matéria, mas o Criador da matéria” (Ibid. I 16 PG 94, 1245s).

O Papa São Gregório Magno († 604), doutor da Igreja,  escreveu a Sereno, bispo de Marselha, que ordenou quebrar as imagens:
“Tu não devias quebrar o que foi colocado nas Igrejas não para ser adorado, mas simplesmente para ser venerado.  Uma coisa é adorar uma imagem, outra coisa é aprender, mediante essa imagem, a quem se dirigem as tuas preces.  O que a Escritura é para aqueles que sabem ler, a imagem o é para os ignorantes; mediante essas imagens aprendem o caminho a seguir.  A imagem é o livro daqueles que não sabem ler”  (epist. XI 13 PL 77, 1128c).

O Concílio de Nicéia II (787), com base nos sólidos argumentos de grandes teólogos como São João Damasceno, doutor da Igreja,  reafirmou a validade do culto de veneração (não adoração) das imagens.  O Concílio distinguiu entre Iatréia (em grego adoração), devida somente a Deus, e proskynesis (veneração), tributável aos santos e também às imagens sagradas na medida em que estas representam os santos ou o próprio Senhor; o culto às imagens é, portanto, relativo, só se explica na medida em que é tributado indiretamente àqueles que as imagens representam.  Assim se pronunciaram os padres conciliares:

“Definimos … que, como as representações da Cruz …, assim também as veneráveis e santas imagens, em pintura, em mosaico ou de qualquer outra matéria adequada, devem ser expostas nas santas igrejas de Deus (sobre os santos utensílios e os paramentos, sobre as paredes e de quadros), nas casas e nas entradas.  O mesmo se faça com a imagem de Deus Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, com as da … santa Mãe de Deus, com as dos santos Anjos e as de todos os santos e justos.  Quanto mais os fiéis contemplarem essas representações, mais serão levados a recordar-se dos modelos originais, a se voltar para eles, e lhes testemunhar … uma veneração respeitosa, sem que isto seja adoração, pois esta só convém, segundo a nossa fé, a Deus” (sessão 7, 13 de outubro de 787; Denzinger-Schönmetzer, Enchridion Symbolorum nº 600s).

Note, então, que muito antes da Reforma Protestante, a Igreja já tinha estudado o uso das imagens; isto foi há cerca de 750 anos antes da Reforma.

A sagrada Tradição da Igreja, sempre assistida pelo Espírito Santo (cf. Jo14,15.25; 16,12-13) sempre reconheceu o valor pedagógico e psicológico das imagens como um auxílio para a vida de oração.

Todos os santos da Igreja, em todas as épocas, valorizaram as imagens. Santa Teresa de Ávila († 1582), ao ensinar as vias da oração às suas Religiosas, dizia :
“Eis um meio que vos poderá ajudar… Cuidai de ter uma imagem ou uma pintura de Nosso Senhor que esteja de acordo com o vosso gosto. Não vos contenteis com trazê-las sobre o vosso coração sem jamais a olhar, mas servi-vos da mesma para vos entreterdes muitas vezes com Ele” (Caminho de Perfeição, cap. 43,1).

Enfim, Deus não proibiu imagens de maneira absoluta; mas proibiu imagens de ídolos para serem adorados. Sabemos que uma meia verdade é pior do que uma mentira. Não se pode interpretar a Bíblia lendo apenas alguns versículos sobre um determinado assunto; é preciso ler todos os versículos da Bíblia que falam do mesmo assunto  para que a interpretação seja correta.
O perigo da interpretação fundamentalista é este: fixar os olhos em um único versículo e querer tirar daí uma interpretação definitiva de uma verdade religiosa. Cai-se no erro.

O Evangelho de Felipe

Filed under: Evangelhos — Prof. Felipe Aquino at 12:45 pm on Monday, May 19, 2008

Revista : PERGUNTE E RESPONDEREMOS
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 533 - Ano : 2006 - Pág. 488

Em síntese: O Evangelho de Felipe, apócrifo de origem gnóstica, foi recentemente publicado em português com os comentários de Jean Yves Leloup. Este autor endossa a tese segundo a qual Jesus se casou com Maria Madalena, não levando em conta o caráter não cristão do texto gnóstico; este é de data tardia (século II) e recorre ao pseudônimo do Apóstolo São Filipe. Não há um vestígio de tal casamento em toda a tradição cristã – o que já seria suficiente para lançar suspeita sobre a veracidade da hipótese apresentada por Leloup.

Foi publicado em português o texto do apócrifo gnóstico intitulado “O Evangelho de Felipe”1 acompanhado de comentários de Jean-Yves Leloup. Tal apócrifo tem sido freqüentemente citado como portador de notícias que a Igreja subtraiu ao conhecimento do público, mas que seriam verídicas. – Em vista da importância de tal escrito no debate teológico, será, a seguir, explanado, levando-se em conta as ponderações de Leloup.

1.    O Evangelho de Felipe: origem

Na década de 1940 foi encontrado em nag Hammadi (Egito) um papiro, escrito em língua copta e intitulado “O Evangelho de Felipe”. Pertence a um acervo de escritos de origem gnóstica ou não cristã. Terá sido escondido este texto num recanto de Nag Hammadi por monges que o queriam salvar da destruição que a Igreja oficial lhe infligiria se o tivesse em mãos; terá sido um escrito proibido, porque dá notícia de um presumido casamento de Jesus com Maria Madalena, notícia esta envolvida em considerações “místicas” sobre a união conjugal.

“Pode ter acontecido que estes textos se encontrassem ameaçados não só pela ortodoxia…, mas talvez também pelos monofisitas, chocados por verem certos detalhes lembrar de forma tão explícita o realismo da encarnação do Verbo. O corpo que falava era também um corpo que amava, e amava não de maneira platônica ou grega, mas com toda a presença sensual e psíquica do humano bíblico” (ob. Cit., p. 11).

_____________________
1 O Evangelho de Felipe. Traduzido e comentado por Jean-Yves Leloup. – Ed. Vozes, Petrópolis 2006, 183 pp.

Comentaremos oportunamente esta tese de Leloup.

O manuscrito do Evangelho de Felipe assim descoberto consta de 150 páginas, cada qual com trinta e três e trinta e sete linhas. O texto em pauta deve datar do início do século IV; é uma tradução copta do original grego, que pode ter sido redigido por volta de 150. Vem a ser uma compilação de sentenças atribuídas a Jesus em estilo sibilino ou obscuro, que se presta a mais de uma interpretação.

2.    O Evangelho de Felipe:  conteúdo

Observa Leloup: “Os temas propostos por esse florilégio ou esse colar de pérolas, que é o Evangelho de Felipe, são numerosos. Cada lógion (sentença), como cada pérola do colar, pode ser uma fonte de luz e exigiria um longo comentário” (ob. cit., p. 21). O comentador realça os três seguintes tópicos:

2.1.    Íntimo relacionamento de Jesus com Maria Madalena

A sentença 55 é assim concebida:

“A companheira do Filho é Miryam de Magdala. O Mestre amava Miryam mais que a todos os discípulos e beijava-a freqüentemente na boca.
Os discípulos, vendo-o amar dessa forma Miryam, disseram-lhe: “Por que a amas mais que a todos nós?” O Mestre lhes respondeu: “Por que pensam que não os amo tanto quanto a ela?”
O pseudo-Felipe exalta a união conjugal como algo de sagrado e, por isto, compatível com a dignidade do Mestre:
“O quarto nupcial é o Santo dos Santos… Esta libertação se manifesta no quarto nupcial… Aqueles que verdadeiramente oram em Jerusalém, tu os encontrarás somente no Santo dos Santos… no quarto nupcial” (lógion 76).

Este é o tópico que mais interessa aos estudiosos do apócrifo em questão.

2.2.    Ressurreição espiritual

Em linguagem obscura Leloup parece negar a realidade da ressurreição corporal de Jesus, admitindo apenas a ressurreição espiritual. Assim é interpretado o lógion 21:

“Aqueles que afirmam que o Senhor morreu primeiro e que depois ressuscitou se enganam pois primeiro Ele ressuscitou e em seguida morreu. Se alguém, antes de tudo, não ressuscita, não pode senão morrer. Se já ressuscitou, vive como Deus vivo”.

Esta proposição condiz com o dualismo gnóstico, que julga ser a matéria má e o espírito bom ontologicamente ou por sua própria natureza.

2.3.    Não-dualidade

Por não-dualidade Leloup entende não haver distinção nítida entre o bem e o mal. “É, sem dúvida, imprudente delimitarmos com muita precisão os territórios do bem e do mal; um não funciona sem o outro, como o dia não existe sem à noite; isto nos conduz também à parábola do joio e do trigo: arrancar um é destruir o outro” (ob. cit., p. 21s). Tal afirmação é depreendida do seguinte lógion:

“Luz e trevas, vida e morte, direita e esquerda são irmãos e irmãs. Seão inseparáveis. Por isto a bondade não é apenas boa, a violência violenta, a vida apenas vivificante, a morte apenas mortal” (lógion 10).

Na verdade, dever-se-ia dizer: o bem e o mal, as trevas e a luz, à direita e a esquerda… são distintos entre si, mas caminham conjuntamente na mesma estrada. Convém recordar a terminologia precisa:

Dualismo: dois princípios antagônicos entre si; o corpo seria mau, o espírito seria bom. Tal concepção não é cristã.
Dualidade: dois princípios distintos um do outro, mas não antagônicos e, sim, complementares; tal é o caso de homem e mulher, são distintos um do outro e se complementam mutuamente.
Monismo: um só princípio.

Pergunta-se agora:

3.    Que dizer?

O Evangelho de Felipe é um texto difícil ou obscuro, prestando-se a diversas interpretações. O seu comentador Jean-Yves Leloup também se ressente da falta de clareza em suas páginas. Como quer que seja, tal apócrifo transmite uma nítida concepção: Jesus teve relacionamento íntimo com Maria Madalena, ficando insinuado que se casaram. É este o ponto que nos interesse considerar mais atentamente:
Começamos por observar que há dois tipos de apócrifos: os de origem cristã e os de origem gnóstica.
Os de origem cristã são o eco daquilo que as comunidades cristãs pensavam desde os inícios da história da Igreja. Apresentam um Jesus taumaturgo e maravilhoso, completando a seu modo o teor dos Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João. Não referem especial relacionamento de Jesus com Madalena. Nesses apócrifos se encontram dados que a tradição cristã aceitou como verídicos (ou, ao menos, verossímeis os nomes dos genitores de Maria SSma. (Joaquim e Ana), a apresentação de Maria no Templo aos três anos de idade, o nascimento de Jesus numa gruta entre o boi e o burro, os nomes dos três magos tidos como reis (Gaspar, Belchior e Baltasar), os nomes dos dois ladrões (Dimas e Gesta), o nome do soldado que feriu o lado de Jesus com a lança (Longino), o episódio de Verônica, que enxugou o rosto ensangüentado de Jesus…
Os apócrifos de origem gnóstica não procedem do tronco cristão como os anteriores, mas de premissas de escolas dualistas que floresceram nos séculos II e III e quiseram apresentar suas concepções sob a forma de textos bíblicos como se fossem autenticamente cristãs. Essa literatura é muito complexa: assim como ela refere à intimidade de Jesus com Madalena, refere também a aversão às mulheres, que se deveriam tornar homens para salvar. Com efeito: em Nag Hammadi, no mesmo lote de manuscritos que continham o  Evangelho de Felipe, achava-se também o Evangelho de Tomé, que se encerra com o seguinte lógion:

“Simão Pedro disse a eles: “Maria deveria deixar-nos, pois as mulheres não são dignas da vida”.
Jesus respondeu: “Eu a guiarei para fazer dela um homem, de modo que também ela possa tornar-se um espírito vivo semelhante a vocês, homens. Pois toda mulher que se tornar homem entrará no reino do céu”. (lógion 114).

Percebe-se assim a contradição dentro do próprio setor gnóstico: ora Maria Madalena é estimada como mulher “companheira” de Jesus, ora é rejeitada no que ela tem de feminino e transformada em homem. Tal contradição desqualifica a tese do casamento de Jesus.

De resto, em nenhum documento da história do Cristianismo aparece vestígio dessa pretensa união conjugal do Mestre Divino. Se tal união fosse uma realidade histórica, não teria permanecido vinte séculos oculta pela prepotência da Igreja ciosa de dominar, pois “a mentira tem pernas curtas” como se diz em linguagem popular. A Igreja não tem medo da verdade.

Notemos outrossim que, ao morrer, Jesus toma providências em relação à sua Mãe, mas não parece estar preocupado com o futuro de Maria Madalena – o que não seria compreensível se houvesse íntimo relacionamento entre o Senhor e Madalena.

Pergunta-se então: Por que devia Jesus permanecer celibatário?

- Jesus veio anunciar a entrada do Reino de Deus no tempo dos homens (cf. Mc 1,14). Começou aqui na terra o Definitivo com toda a riqueza de seus dons. A consciência disto levou os cristãos desde a primeira geração a abraçar a vida uma ou indivisa para se dedicarem totalmente ao Eterno Presente; cf. 1Cor 7, 25-35. O próprio Jesus nos diz que no Reino de Deus consumado não haverá casamento, mas serão todos como os anjos de Deus (Mt 22,23-33). Sendo assim, Jesus, como arauto desse Reino, devia ser o primeiro a abraçar a vida uma ou indivisa. O celibato é o testemunho de que a sede de vida e felicidade do ser humano pode ser satisfeita com bens invisíveis e com a renúncia aos valores passageiros e, por vezes, ilusórios deste mundo. Jesus não foi menos homem pelo fato de não se casar; teve os nobres sentimentos de um coração humano; estes, porém, eram dirigidos para além dos bens materiais e visíveis. Muito sabiamente escreveu Saint-Exupéry: “O essencial é invisível”. O celibatário acima, mas ama segundo os parâmetros do Definitivo e Absoluto. – É isto que compete dizer a Jean-Yves Leloup.

A Pioneira do Aborto arrependida

Filed under: Aborto — Prof. Felipe Aquino at 5:50 pm on Friday, May 16, 2008

O jornal El Mundo, trouxe em 19 de dezembro de 2003 uma crônica de Jane Roe, sob o titulo de “A pioneira do aborto arrependida”
Em 22 de janeiro de 1973 a Suprema Corte dos Estados Unidos reconheceu o direito ao aborto de Jane Roe, nome fictício para proteger Norma McCorvey, uma mulher de Dallas, soltera, pobre, maltratada e que usava drogas. O Texas estava, então, entre os Estados que condenavam com até cinco anos de prisão a mulher que abortasse.
A sentença Roe contra Wade chegou tarde para que a jovem interrompesse a sua gravidez, mas o seu caso extendeu o direito do aborto a todo o país. Trinta anos depois, Norma McCorvey, que agora tem 55 anos, luta pela vida e renega todo o seu passado, se converteu ao catolicismo e criou um grupo anti-aborto, chamado “Roe nunca mais”. “Tudo mudou quando me converti ao cristianismo”, explicou Norma a CRONICA por telefone.
Por que motivo abandonou a causa que defendeu durante 20 anos?
Simplemente compreendi que não se pode tomar a vida de uma criança e matá-la, isto não é para os que creem em Deus. A primeira vez que fui à Igreja, um sábado à noite, acompanhada de duas meninas pequenas, senti que tinha de pertencer a esta comunidade e renegar tudo.
Você se arrepende de tudo o que fez em sua vida anterior?
Por sorte, eu não cheguei a abortar. Agora aconselho as mulhers desesperadas. Minha missão na vida é ajudá-las a evitar que abortem.
Você não admite o direito ao aborto em absoluto, nem mesmo em casos de estupro ou perigo para a vida da mulher?
Não há nenhuma diferenaça. De qualquer forma, continua sendo um assassinato.
Durante 17 anos McCorvey permaneceu no anonimato. Deu a seu filho em adoção e tentou seguir adiante. Para os grupos pró-aborto, ela era uma heroína; para a frente anti-aborto, o simbolo da degradação do país. Somente nos anos 80 revelou o mistério de quem era Jane Roe. Então escreveu um livro e se voltou ativamente à defesa do direito que ela havia conseguido para todas as americanas. Inclusive trabalhou em clínicas abortivas como conselheira.
Neste tempo, segundo conta agora, tentou várias vezes os suicídio e se entregou às drogas pela dor de consciência de haver sido a causa da perda de tantas vidas.
Em 1995, Norma deu um giro radical a sua vida e surpreendeu aos ativistas das duas partes. Foi batizada e se uniu a um grupo ultra cristão contra o aborto chamado Operação Resgate.
Norma entrou em contato com eles quando a Associação abriu uma delegação justo ao lado de uma clínica onde trabalhava. Uma cura mudou a sua vida, e ela decidiu renegar tudo o que havia sido em suas últimas quatro décadas.
Inclusive o seu lesbianismo. Norma tinha vivido durante 30 anos com Connie Gonzales, sua única parceira desde que as duas se converteram ao catolicismo. Continuam partilhando a vida e a profissão, mas Norma agora vê a homossexualidade como pecado. Connie controla de perto todos os movimentos de Norma, é sua sombra constante. A protege da imprensa, das críticas e do que haja falta. Filtra suas chamadas telefonicas e basicamente vive para ela. É tão radical em suas posições como Norma. “Quando passou o que passou, não havia grupos como nós que ajudaram a mulheres” explica Connie sobre Texas, um dos estados mais conservadores do país.
Segundo ela Norma caiu nas garras das advogadas pró-abortistas porque não havia médicos e nem ativistas que lhe deram apoio.Neste país, todo mundo cuida das mulheres como ela, muitos pessoas defendem a vida. Não sei como é no resto do mundo”, conclui Connie. “Sou ex-lebiana, ex-pró-abortista, ex Jane Roe”, disse Norma em um documentário. Sou uma ex de tudo, parece que quanto maior sou, mais ex me volto”.
Como justificação a seus anos de ativismo pró-aborto, afirma que foi manipulada por “advogadas ambiciosas” que utilizaram a uma garota desesperada para fazerem-se famosas e conseguir seus propósitos, e que depois abandonaram.
Em 1969 ela estava só, tinha deixado o Colégio e já tinha dado filhos para adoção. As advogadas Sarah Weddington e Linda Coffee, a convenceram para que denunciasse ao fiscal de Dallas, Henry Wade, e lutar pelo direito de abortar no Texas. E assim nasceu Roe contra Wade: segundo Norma, um acúmulo de mentiras. Disse a suas advogadas que a haviam violentada, com a intenção de que a Justiça fosse mais rápida em seu caso. Anos depois confessou que não era certo: sua gravidez foi fruto de “uma simples aventura”, segundo declarou em uma entrevista no 25º aniversário da sentença, em 1998.
No começo dos anos 90, começou a decepcionar-se das campanhas e da clínica; não suportava a pressão de todas as mulheres que a cercavam para lhe dar graças por haver permitido que elas pudessem abortar.
Quando começou a trabalhar com o grupo católico, toda a sua vida até o momento lhe pareceu um erro. “Caiu da bandeira de símbolo do aborto, e fui direta aos braços de Deus”, explica uma ativista católico na página web de “Roe nunca mais”. Assim Norma se converteu em porta voz de sua causa e publicou um novo livro contrário a tudo que tinha feito antes: “Won by Love” (Vencida pelo Amor).
Faz cinco anos, declarou no subcomitê constitucional dirigido por John Ashcroft, então senador e ativista anti-aborto que recolhia testemunhos para combater a decisão do Supremo Tribunal. Este é o aniversário de uma trajédia” disse o hoje fiscal geral dos Estados Unidos. “Foram perdidas 37 milhões de vidas de crianças que nunca conheceram o calor do abraço de um pai ou a força do carinho de uma mãe”.
Norma McCorvey disse rezar cada ano que passa para que não chegue o aniversário seguinte.
No portal da página web dos defensores da vida há uma imagem de um feto, acompanhada da frase: “Eu sou americano”. Patriotismo e anti-aborto em uma combinação perfeita.

Vida Para Além da Morte

Filed under: Morte — Prof. Felipe Aquino at 3:31 pm on Friday, May 16, 2008

O último artigo do nosso Credo diz: “Creio na vida eterna”.
A maior esperança cristã é esta: a vida não termina na morte, mas continua no além. E muitos perguntam ” o que virá depois? “. Somente a fé católica tem resposta clara para esta questão.
A Carta aos hebreus diz que “está determinado que os homens morram uma só vez e em seguida vem o juízo” (Hb 9,27). Para nós católicos, isso liquida de vez com a mentira da reencarnação, que engana tantas pessoas, e as deixa despreparadas diante da morte, acreditando neste erro, e com uma falsa idéia de salvação.
São Paulo ensinava aos cristãos de Corinto, muito influenciados pela mitologia grega que dominava a região, que “ao se desfazer esta tenda que habitamos neste mundo, recebemos uma casa preparada por Deus e não por mãos humanas, uma habitação eterna,  no céu ” (2Cor 5,10). Mas, Paulo não deixou de dizer que “teremos de comparecer diante do tribunal de Cristo. Alí cada um receberá o que mereceu, conforme o bem ou o mal que tiver feito enquanto estava no corpo” (2Cor 5,10).
A Igreja nos ensina que logo após a morte vem o Juízo particular da pessoa. Diante da justiça perfeita de Deus, seremos julgados. Mas é preciso lembrar que o Juíz é o mesmo que chegou até o lenho da Cruz para que ninguém fosse condenado, e tivesse à sua disposição, através dos Sacramentos da Igreja, o perdão e a salvação que custaram a Sua Vida.
Afirma o nosso indispensável Catecismo que: “Cada homem recebe em sua alma imortal a retribuição eterna a partir do momento da morte, num Juízo Particular que coloca sua vida em relação à vida de Cristo, seja através de uma purificação, seja para entrar de imediato na felicidade do céu, seja para condenar-se de imediato para sempre” (§ 1022).
Isto mostra que imediatamente após a morte a nossa alma já terá o seu destino eterno definido: o céu, mesmo que se tenha de viver o estado de purificação antes (purgatório), ou o inferno.
Sobre o céu diz São Paulo que “o que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram, e o coração do homem não percebeu, isso Deus preparou para aqueles que o amam” (1Cor 2,9).
O Papa Bento XII (1335-1342), assegurou através da Bula “Benedictus Deus”, que as almas de todos os santos, mesmo antes da ressurreição dos mortos e do juízo geral, já estão no céu. A Igreja, desde o tempo dos primeiros mártires acredita, sem dúvida, que eles já estam no céu, intercedendo pelos que vivem na terra. São muitos os documentos antigos que confirmam isto.
Sobre o purgatório a Igreja também não tem dúvida, já que esta verdade de fé foi confirmada em vários concílios ecumênicos da Igreja: Lião(1245), Florença (1431-1442), Trento (1545-1563), com base na Tradição e na Sagrada Escritura (1Cor 3,15; 1Pe1,7; 2Mac 12,43-46 ).
Ensina o Catecismo que:  “A Igreja denomina Purgatório esta purificação final dos eleitos, que é completamente distinta do castigo dos condenados”(§1031). As almas do Purgatório já estão salvas, apenas completam a sua purificação para poderem entrar na comunhão perfeita com Deus. Diz a Carta aos hebreus que “sem a santidade, ninguém pode ver o Senhor” (cf. Hb 12,14).
Mais do que um estado de sofrimento, o Purgatório é, ensina São Francisco de Sales, doutor da Igreja, um estado de esperança, amor, confiança em Deus, e paz, embora a alma sofra para se santificar.
Para os que rejeitarem a Deus e sua graça, isto é, que deixaram o coração endurecer, o destino será a vida eterna longe de Deus, para sempre, e junto daqueles que também rejeitaram a Deus. Jesus diz que alí haverá “choro e ranger de dentes”.
É preciso dizer aqui que Jesus foi ao extremo do sacrifício humano para garantir a todos os homens a salvação; logo, Ele fará de tudo para que ninguém seja condenado. Mas Deus respeita a liberdade de cada um, e, como disse Santo Agostinho, Ele que nos criou sem precisar de nós, não pode nos salvar sem a nossa ajuda.
Ao falar do inferno, o Catecismo diz que: “Deus não predestina ninguém para o inferno; para isto é preciso uma aversão voluntária a Deus (um pecado mortal), e persistir nela até o fim. São Pedro diz que Deus “não quer que ninguém se perca, mas que todos venham a converter-se” (2Pe 3,9).
Se a lembrança do inferno trouxer medo ou insegurança ao seu coração, lembre-se daquilo que disse um dia São Bernardo, doutor da Igreja: “Nenhum servo de Maria será condenado”. Sem dúvida a Mãe de Deus saberá salvar aqueles que foram seus fiéis devotos aqui na terra. Ela é, afinal, a Mãe do Juiz!
A Igreja nos lembra ainda que na segunda vinda de Cristo, a Parusia, que ninguém sabe quando será, haverá o Juízo final ou geral. O Catecismo ensina que:  “A ressurreição de todos os  mortos, ‘dos justos e dos injustos’ (At 24,15), antecederá o Juízo Final” (§ 1038).
O Magistério da Igreja ensina que esta será  “a hora em que todos os que repousam no sepulcro ouvirão a Sua voz e sairão, os que tiverem feito o bem para uma ressurreição da vida; os que  tiverem praticado o mal para uma ressurreição de julgamento” (Jo 5,28-29). “Então Cristo virá em sua glória e todos os seus anjos com Ele…” (Mt 25,31).
Portanto, a ressurreição dos corpos ainda não aconteceu nem mesmo para os santos. Os seus corpos ainda aguardam a ressurreição do último dia. Somente Jesus e Maria já ressucitaram e têm seus corpos já glorificados.
Quanto a este grande Dia da volta gloriosa do Senhor, a Igreja não quer que se faça especulações sobre ele; pois o próprio Cristo o proibiu. Muitos foram enganados e a fé desacreditada por muitos que ao longo dos séculos ousaram marcar a hora da volta do Filho de Deus.
Sobre isto, o Papa João Paulo disse recentemente: “A história caminha rumo à sua meta, mas Cristo não indicou qualquer prazo cronológico. Ilusórias e desviantes são, portanto, as tentativas de previsão do fim do mundo.(L’Osservatore Romano, n.17 - 25/4/98)
Muitas vezes a Igreja já se pronunciou sobre esta questão. No Concílio ecumênico do Latrão, em 1516, assim afirmou:
“Mandamos a todos os que estão, ou futuramente estarão incumbidos da pregação, que de modo nenhum presumam afirmar ou apregoar determinada época para os males vindouros para a vinda do Anticristo ou para o dia do juízo. Com efeito a Verdade diz:   “Não toca a vós ter conhecimento dos tempos e momentos que o Pai fixou por Sua própria autoridade. Consta que os que até hoje ousaram afirmar tais coisas mentiram, e, por causa deles, não pouco sofreu a autoridade daqueles que pregam com retidão. Ninguém ouse predizer o futuro apelando para a Sagrada Escritura, nem afirmar o que quer que seja, como se o tivesse recebido do Espírito Santo ou de revelação particular, nem ouse apoiar-se sobre conjecturas vãs ou despropositadas. Cada  qual  deve,  segundo  o preceito divino, pregar o Evangelho a toda a criatura, aprender a detestar o vício, recomendar e ensinar a prática das virtudes,  a  paz e a caridade mútuas, tão recomendadas por nosso Redentor”.
Diz o nosso Catecismo: “Só o Pai conhece a hora deste Juízo, só Ele decide do seu advento. Através do seu Filho Jesus Ele pronunciará a sua palavra definitiva sobre toda a história. Conheceremos então o sentido último de toda a obra da criação”(§ 1040).

« Previous PageNext Page »