Por que o celibato do sacerdote?

Arquivado em: Sacramento da Ordem — Prof. Felipe Aquino at 7:25 pm on quinta-feira, novembro 20, 2008

Jesus Cristo é o verdadeiro sacerdote e foi celibatário; então, a Igreja vê Nele o Modelo do verdadeiro sacerdote que, pelo celibato se conforma ao grande Sacerdote. Jesus deixou claro a sua aprovação e recomendação ao celibato para os sacerdotes, quando disse: “Porque há eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos céus. Quem puder compreender, compreenda.” (Mateus 19,12) 

Nisto Cristo está dizendo que os sacerdotes devem assumir o celibato, como Ele o fez, “por amor ao Reino de Deus”. O  sacerdote deve ficar livre dos pesados encargos de manter uma família, educar filhos, trabalhar para manter o lar; podendo assim dedicar-se totalmente ao Reino de Deus. É por isso que desde o ano 306, no Concilio de Elvira, na Espanha, o celibato se estendeu por todo o Ocidente, ate´ que em 1123 o Concílio universal de Latrão I o tornou obrigatório.  

É preciso dizer que a Igreja não impõe a celibato a ninguém; ele deve ser assumido livremente, e com alegria, por aqueles que têm essa vocação especial de entregar-se totalmente ao serviço de Deus e da Igreja. É uma graça especial que Deus concede aos chamados ao sacerdócio e à vida religiosa. Assim, o celibato é um sinal claro da verdadeira vocação sacerdotal.  

No inicio do Cristianismo a grandeza do celibato sacerdotal ainda não era possível; por isso São Paulo escreve a Timóteo, que S. Paulo colocou como bispo de Éfeso, dizendo: “O epíscopo ou presbítero deve ser esposo de uma só mulher” (1Tm 3, 2). Estaria, por isto, o padre hoje obrigado a casar-se? Não. O Apóstolo tinha em vista uma comunidade situada em Éfeso cujos membros se converteram em idade adulta, com muitos já casados. Dentre esses o Apóstolo deseja que sejam escolhidos para o sacerdócio homens casados (evitando os viúvos recasados). Já no ano 56, São Paulo, que optou pelo celibato,  escrevia aos fiéis de Corinto (1Cor 7,25-35) enfatizando o valor do celibato: “Aos solteiros e às viúvas digo que lhes é bom se permanecessem como eu. Mas se não podem guardar a continência que se casem”. (1Cor 7,8). “Não estás ligado a uma mulher? Não procures mulher”. O Apóstolo se refere às preocupações ligadas ao casamento (orçamento, salário, educação dos filhos…). E Paulo enfatiza:  

“Quem não tem esposa, cuida das coisas do Senhor e do modo de agradar à esposa, e fica dividido. Da mesma forma a mulher não casada e a  virgem cuidam das coisas do Senhor, a fim de serem santas de corpo e de espírito. Mas a mulher casada cuida das coisas do mundo; procura como agradar ao marido”. “Procede bem aquele que casa sua virgem; aquele que não a casa, procede melhor ainda” (1Cor 7, 38). A virgindade consagrada e o celibato não tinham valor nem para o judeu nem para o pagão. Eles brotam da consciência de que o Reino já chegou com Jesus Cristo. 

O último Sínodo dos Bispos sobre a Eucaristia, confirmou o celibato e o Papa Bento XVI expressou isso na Exortação Apostólica pos-sinodal, “Sacramentum Caritatis”, de 22 fev 2007. Disse o Papa:  

“Os padres sinodais quiseram sublinhar como o sacerdócio ministerial requer, através da ordenação, a plena configuração a Cristo… é necessário reiterar o sentido profundo do celibato sacerdotal, justamente considerado uma riqueza inestimável e confirmado também pela prática oriental de escolher os bispos apenas de entre aqueles que vivem no celibato (…) Com efeito, nesta opção do sacerdote encontram expressão peculiar a dedicação que o conforma a Cristo e a oferta exclusiva de si mesmo pelo Reino de Deus. O fato de o próprio Cristo, eterno sacerdote, ter vivido a sua missão até ao sacrifício da cruz no estado de virgindade constitui o ponto seguro de referência para perceber o sentido da tradição da Igreja Latina a tal respeito. Assim, não é suficiente compreender o celibato sacerdotal em termos meramente funcionais; na realidade, constitui uma especial conformação ao estilo de vida do próprio Cristo. Antes de mais, semelhante opção é esponsal: a identificação com o coração de Cristo Esposo que dá a vida pela sua Esposa. Em sintonia com a grande tradição eclesial, com o Concílio Vaticano II e com os Sumos Pontífices  meus predecessores, corroboro a beleza e a importância duma vida sacerdotal vivida no celibato como sinal expressivo de dedicação total e exclusiva a Cristo, à Igreja e ao Reino de Deus, e, consequentemente, confirmo a sua obrigatoriedade para a tradição latina. O celibato sacerdotal, vivido com maturidade, alegria e dedicação, é uma bênção enorme para a Igreja e para a própria sociedade.”(n.24)  O Mahatma Ghandi, hindu, tinha grande apreço pelo celibato. Ele disse:   “Não tenham receio de que o celibato leve à extinção da raça humana. O resultado mais lógico será a transferência da nossa humanidade para um plano mais alto… “Vocês erram não reconhecendo o valor do celibato: eu penso que é exatamente graças ao celibato dos seus sacerdotes que a Igreja católica romana continua sempre vigorosa”. (Tomás Tochi, “Gandhi, mensagem para hoje”, Ed.  Mundo 3, SP, pp. 105ss,1974) 

Alguns querem culpar o celibato pelos erros de uma minoria de padres que se desviam do caminho de Deus. A queda desses padres no pecado não é por culpa do celibato, e sim por falta de vocação, oração, zelo apostólico, mortificação, etc; tanto assim que a maioria vive na castidade e por uma longa vida. Quantos e quantos padres e bispos vivendo em paz e já com seus cabelos brancos! 

         O casamento poderia trazer muitas dificuldades aos sacerdotes. Não nos iludamos, casados, eles teriam todos os problemas que os leigos têm, quando se casam. O primeiro é encontrar, antes do diaconato, uma mulher cristã exemplar que aceite as muitas limitações que qualquer sacerdote tem em seu ministério. Essa mulher e mãe teria de ficar muito tempo sozinha com os filhos. Depois, os padres casados teriam de trabalhar e ter uma profissão, como os pastores protestantes, para manter a família. Quantos filhos teria? Certamente não todos que talvez desejasse. Teria certamente que fazer o controle da natalidade pelo método natural Billings, que exige disciplina. A esposa aceitaria isso? 

Além disso, podemos imaginar como seria nocivo para a Igreja e para os fiéis o contra-testemunho de um padre que por ventura se tornasse infiel à esposa e mãe dos seus filhos! Mais ainda, na vida conjugal não há segredos entre marido e mulher. Será que os fiéis teriam a necessária confiança no absoluto sigilo das confissões e aconselhamentos com o padre casado?  Você já pensou se um dos filhos do padre entrasse pelos descaminhos da violência, da bebedeira, das drogas e do sexo prematuro, com o possível engravidamento da namorada? 

Tudo isso, mas principalmente a sua conformação a Jesus Cristo, dedicado total e exclusivamente ao Reino de Deus, valoriza o celibato sacerdotal.  

Prof. Felipe Aquino – www.cleofas.com.br 

  

5 Comentários »

Comentário por Daniel

21/11/2008 @ 22:49

O celibato não é só para os padres,e sim para qualquer um que queira seguir vida religiosa.A pessoa tem que se decidir se vai servir unicamente Deus,ou se vai se dividir entre Deus e família,pois se a pessoa escolhe em se dividir entre Deus e família,então essa pessoa não tem nenhuma condição de seguir vida religiosa.

Comentário por Andre Luiz

23/11/2008 @ 03:15

Caro prof. Felipe, sou um homem separado. Quando casei não era convertido e me casei como um pagão e meu Matrimonio foi a deriva. Hoje sou celibatário, pois tenho cosciencia que não posso ir para uma segunda união, pois é uma união falsa e construida sobre areia movediça. Não é facil viver o celibato, mas com Jesus tudo é possivel.

Comentário por Edem de Almeida

23/11/2008 @ 21:27

Prezado Prof. Aquino,

Como sempre seus textos são muito bons, porém a frase que pergunta se a esposa do padre aceitaria o uso do método Billings não está boa. Ela só permite duas alternativas de entendimento: ou não crê na ação do Espírito Santo na Igreja, porque crê que o padre teria uma enorme dificuldade em encontrar uma esposa católica convicta ou, então, sua esposa teria que assumir compromissos eventualmente dispensáveis para as demais esposas dos não sacerdotes. Não é SÓ porque uma mulher católica é esposa de um padre que deveria usar os métodos naturais, todas as esposas católicas têm esse dever moral.

Comentário por Claudimar Barbosa da Silva

24/11/2008 @ 23:39

Prezado Professor Felipe.

Primeiramente, preciso destacar que admiro muito seu modo claro, justo e honesto de manifestar-se, de forma a fazer-se entender por todas as pessoas, do iletrado ao culto.

Contudo, penso que as suas considerações sobre o celibato dos membros da hierarquia da Igreja se apegam, por demais, a situações-problemas, como se o responsável pelas mesmas fosse o casamento.

Ora, o matrimônio é, também, um sacramento e, como tal, é abençoado por Deus; não se pode imaginar que o matrimônio seja um estado em que as pessoas estejam expostas a todos os malefícios que são apontados no seu artigo, sob pena de se considerar que ninguém devesse escolher este caminho, com o que em pouco tempo os católicos desapareceriam por completo.

Homem e mulher cristãos exemplares, filhos, trabalho, métodos de controle de natalidade, até onde me parece, não são problemas, mas sim uma benção para um casal.

Filhos que, eventualmente, trilhem caminhos da violência, sexo prematuro, álcool, drogas e gravidez antes do casamento são situações-problemas a que todas as famílias - sem exceção - podem vivenciar, sem que impliquem em contra-testemunho.

Além disso, Professor, não consta que o celibato seja dogma de fé ou esteja previsto na Bíblia, consistindo, isto sim, em norma disciplinar da Igreja. Bem por isso, a Igreja latina somente veio a exigir o celibato a partir do século XII, reafirmando-o no século XVI. Até então tanto padres quanto bispos podiam se casar, assim como podiam optar pelo celibato.

Pedro, o primeiro Papa, era casado, assim como, seguramente, muitos dos demais apóstolos. Paulo era celibatário, mas, em suas cartas, estabeleceu regras para a ordenação de bispos, presbíteros e diáconos, entre as quais estava o de serem casados com apenas uma mulher (o que afastava da ordenação apenas os cristãos que tivessem optado pela poligamia).

Acho que isto o senhor sabe, embora não tenha feito nenhuma referência em seu artigo, que tem por objetivo destacar a posição da Igreja latina de impor o celibato a todos os pretendentes a sua hierarquia.

Digo Igreja latina, pois é sabido que a Igreja oriental, que tem comunhão com Roma, também admite padres casados, não sendo registrados os problemas destacados em seu artigo.

Sendo mera norma disciplinar - razão pela qual não é necessário que todos os católicos concordem com esta norma, podendo dela discentir - o celibato clerical pode ser revisto pela Igreja a qualquer tempo.

Creio que se o celibato fosse opcional na Igreja, haveria mais ceifeiros para a grande messe do Senhor.

Comentário por Silvana

25/11/2008 @ 13:02

Prof Felipe,
Este texto vai me ajudar muito quando surguir este questionamento.
Obrigada pelo seus ensinamentos.
A Paz!!

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