A Igreja proibiu o ensino na Idade Média?

Arquivado em: Igreja — Prof. Felipe Aquino at 1:25 am on sábado, maio 23, 2009

 

 

Algumas pessoas mal informadas ou mal intencionadas, afirmam que a Igreja bloqueou o estudo e a ciência na Idade Média; e assim querem jogar os jovens contra ela e mostrar que a ciência é oposta à fé. Nada mais mentiroso. Uma  marca registrada da Igreja na Idade Média, e que foi a base da nossa Civilização Ocidental,  foi o ensino. É grave calúnia dizer que a Igreja tinha o interesse em manter o povo na ignorância para dominá-lo; os fatos da História mostram o contrário; e contra fatos não há argumentos.

 

As escolas na Idade Média eram fundadas e mantidas geralmente pela Igreja: havia as escolas das Paróquias, as das Catedrais e a dos Mosteiros. Além disto, os senhores feudais podiam fundar suas escolas, como também os habitantes de um lugarejo podiam se associar para sustentar um professor encarregado de ensinar às crianças.  Elas eram admitidas na escola com sete ou oito anos de idade: o ensino, que preparava para os estudos da Universidade, estendia-se por uma dezena de anos. 

 

No séc. VI São Cesário de Arles já expunha no Concílio de Vaison (529) na França, a necessidade de criar escolas no campo; e os bispos se dedicaram a isto. Foi a Igreja que montou para o Imperador católico Carlos Magno (†814) a sua política escolar; e retomou a tarefa educadora no séc. X após o fim do seu Império.

 

O III Concílio de Latrão (1179), em Roma, presidido pelo Papa Alexandre III (1159-1181), ordenou ao clero que abrisse escolas por toda a parte para as crianças, gratuitamente. Obrigou a todas as dioceses terem ao menos uma. Essas escolas foram as sementes das Universidades que logo surgiam: Sorbone (Paris) e Montpellier, Bolonha, La Sapienza, Salerno e Raviera (Itália), Oxford e Canterbury (Inglaterra), Toledo e Salamanca (Espanha); Coimbra em Portugal, e muitas outras.

 

Como acusar a Igreja de obscurantista se foi ela quem fundou as primeiras universidades do mundo, para estudar as línguas, a medicina, a matemática, a oratória, a física, a astronomia, as artes plásticas, a música, a teologia?… Somente quem não conhece História ou a interpreta com uma maldosa dose ideológica – e não cientifica -  pode chegar a essa conclusão.

 

Os níveis escolares criados pela Igreja eram três: primário, secundário e superior. Na base, estavam as escolas paroquiais, “as pequenas escolas”. No plano superior havia as escolas monásticas e as escolas das catedrais e capitulares, o que corresponde ao ensino secundário. Dos sete aos vinte anos as crianças e os jovens eram recebidos nessas escolas sem distinção de classes. Havia escolas só para meninas e moças. As disciplinas dividiam-se em “trivium” (gramática, dialética e retórica) e “quadrivium” (artimética, geometria, astronomia e música). Mas um grande pedagogo da época Thierry de Chartres, mostrou que o “trivium e o quadrivium” eram apenas um meio e que o fim era “formar almas na verdade e na sabedoria”.

 

No séc. XII havia só na França 70 abadias com escolas. Todos os grandes bispos também quiseram ter escolas; na França, no séc. XII havia mais de 50 escolas episcopais. O importante era o conjunto do saber humano, hoje tão desprezado.

 

A Abadia de Argenteuil, por exemplo, onde foi educada Heloísa, ensinava às alunas a S. Escritura, as letras, a medicina e mesmo a cirurgia, sem contar o grego e o hebraico, que Abelardo lá ensinou.  Em geral, as pequenas escolas davam a seus alunos até ensino de música e teologia que lhes permitiam chegar às Universidades; e muitas ministraram um ensino técnico.

 

Os estudantes mais dotados iam para a Universidade, de acordo com as suas preferências.  Paris atraía de modo especial, pois lá se aprendiam as artes liberais e a teologia por parte de estudantes provenientes da Alemanha, da Itália, da Inglaterra, da Dinamarca, da Noruega. Nunca houve tanta universalidade.

 

Em muitas escolas os alunos tinham ensino técnico de como trabalhar o ouro, prata e cobre. Aos poucos surgiam as especializações: Chartres (letras), Paris (teologia), Bolonha (direito), Salerno e Montpellier (medicina).

 

  O Concilio geral de Latrão III, aprovou  o seguinte cânon:

“A Igreja de Deus, qual mãe piedosa, tem o dever de velar pelos pobres aos quais pela indigência dos pais faltam os meios suficientes para poderem facilmente estudar e progredir nas letras e nas ciências. Ordenamos, portanto, que em todas as igrejas catedrais se proveja um benefício (rendimento) conveniente a um mestre, encarregado de ensinar gratuitamente aos clérigos dessa igreja e a todos os alunos pobres” (can. 18, Mansi XXII 227s). O IV Concílio ecumênico do Latrão (1215), renovou este decreto.

 

Teodulfo, bispo de Orléans no séc. VIII, promulgou o seguinte decreto:

“Os sacerdotes mantenham escolas nas aldeias, nos campos; se qualquer dos fiéis lhes quiser confiar os seus filhos para aprender as letras não os deixem de receber e instruir, mas ensinem-lhes com perfeita caridade. Nem por isto exijam salário ou recebam recompensa alguma a não ser por exceção, quando os pais voluntariamente a quiserem oferecer por afeto ou reconhecimento” (Sirmond, Concilia Galliae II 215).

 

Este decreto passou verbalmente para as legislações eclesiásticas da Inglaterra. Freqüentemente os concílios regionais dos séc. XIII e XIV repetiram essas normas.

É preciso entender que os homens da ciência na época, não tinham o aparato técnico para experiências e investigações precisas como temos hoje. Por causa dessa carência, a ciência medieval cometia erros. A falta de instrumentos precisos como temos hoje (cromatógrafos, espectofotometros, balanças de precisão, laser, sensores, computadores, etc.), fazia com que os cientistas medievais procediam por dedução mais do que por indução. As leis da natureza eram formuladas recorrendo-se a princípios especulativos, abstratos, dos quais julgavam poder deduzir a explicação dos fenômenos da natureza. Com boa fé, achavam que a  Bíblia Sagrada podia ser utilizada para esclarecer não somente questões teológicas, mas também temas de ciências. Isto deu margem ao caso Galileu, no séc. XVII.

 

É muito significativo um dos últimos depoimentos sobre a acusação de que a Igreja obstruiu a ciência na Idade Média, proferido em 1957 por um grupo de estudiosos que, sem intenção confessional alguma, escreveram a história da ciência antiga e medieval:

 

“Parece-nos impossível aceitar a dupla acusação de estagnação e esterilidade levantada contra a Idade Média latina. Por certo a herança (cultural) antiga não foi totalmente conhecida nem sempre judiciosamente explorada;… mas não é menos verdade que de um século para outro - mesmo de uma geração a outra dentro do mesmo grupo - há evolução e geralmente progresso. A Igreja (…) na Idade Média salvou e estimulou muito mais do que freou ou desviou. Por isto, embora só queira apelar para a Antigüidade, a Renascença é realmente a filha ingrata da Idade Média” (La science antique et médiévale, sous la direction de René Taton, Presses Universitaires de France. Paris 1957, 581s).

 

Em particular com referência ao fato de que só a partir de fins do séc. XIII se começaram a fazer dissecações e observações em cadáveres humanos, dizem os mencionados estudiosos:

“Como quer que seja, não se poderia aceitar a opinião um tanto simplista segundo a qual a Igreja teria sido a grande responsável da estagnação dos estudos de anatomia” (ibd. 580).

 

Por outro lado, a capacidade humana de especulação filosófica atingiu o auge da sua clareza nas famosas Sumas de lógica e metafísica da Idade Média, de São Tomás de Aquino, S. Alberto Magno e muitos outros filósofos e teólogos. Estas obras, continuando as dos grandes pensadores gregos (principalmente de Aristóteles), até hoje são monumentos atuais, não ultrapassados, da cultura humana. É, sem dúvida, este aspecto positivo que merece destaque na apreciação objetiva da Idade Média.

 

Resta perguntar: Como, então, algum professor mal informado, ou mal intencionado, pode afirmar que a Igreja manteve  o povo nas trevas da ignorância na Idade Média? Como é possível que a história seja tão manipulada e distorcida em favor de interesses ideológicos lastreados num laicismo anticatólico?

 

Prof. Felipe Aquino – www.cleofas.com.br

 

 

 

 

15 Comentários »

Comentário por Tamyres

23/05/2009 @ 16:04

Prof Felipe,
belíssimo texo! Acho que está na hora de também criar “escolas da fé” que ensine essas coisas nos nossos grupos e apostolados, para que as pessoas não sejam enganadas com essa conversa mentirosa de quem odeia a Igreja.
Deus o abençoe.

Comentário por Claudia - Guararapes - sp

23/05/2009 @ 16:14

Prof. Felipe:
Deus sabia o que estava fazendo quando o criou…Infinita Sapiência fez mais ainda: o fez nascer em um lugar como o Brasil, “tão católico” e por isso, tão atacado pelo inimigo. Concluo que o querido Deus, realmente é infinitamente sábio.
Ter no Brasil um pensador, pesquisador e possuidor de oratória tão contundente é uma benção grande para o nosso povo.
Estar a serviço de nosso querido Deus, como instrumento D’ele, desta maneira, é motivo de grande alegria para o nosso povo, para mim também.
Que o Espírito Santo de Deus o proteja sempre, de todos os seus inimigos e o fortaleça cada dia mais na saúde física e espiritual, porque o senhor, professor é uma das grandes fortalezas, pilares que o inimigo deve enxergar pela frente.
Por isso, rezo por ti, para que Deus fortaleça tuas forças e neutralize tuas fraquezas para que o inimigo não possa nem ousar chegar perto de ti ou em nenhum dos seus…

Um grande abraço de quem o ama fraternalmene e o admira demais..

Claudia Regina Sarraceni - Guararapes - São Paulo.

Comentário por jonas

23/05/2009 @ 16:18

A paz,,
prof.felipe de aquino,,le seu livro UMA HISTORIA QUE NÃO É CONTADA, e gostei muito,foi muito esclarecedor.
seria d grande valia,se todos os católicos pudessem ler esse livro..
fique com Deus,e estou esperando o livro sobre a inquisição..
salve maria!

Comentário por DRA. JULIANA BOTREL

23/05/2009 @ 16:46

PARABÉNS, GRANDE MESTRE FELIPE AQUINO!!! O SR. É UM FAROL NESTE MUNDO ATEU E DOENTE.
O SR. TEM SIDO UM PAI ESPIRITUAL PARA MIM, MEU ESPOSO E MEUS FILHOS.
MINHAS ORAÇÕES.
SUA AFILHADA,
DRA. JULIANA BOTREL E FAMÍLIA (MÉDICA)

Comentário por Ana Luiza

23/05/2009 @ 17:01

Prof. Felipe, meus parabéns pelo seu trabalho.
Gostei mto desse texto, e tbm gosto mto do programa Escola da Fé…
Gosto mto de como o senhor relaciona ciencia e fé, pq realmente ambas caminham juntas.
É mto ótimo saber de certas coisas q são omitidas pela midia, e pelas escolas, q preferem criticar a Igreja e ‘pintá-la’ como a vilã da história…
Que Deus continue lhe abençoando e iluminando mto em seu trabalho!

Comentário por Ivan Antonio dos Reis Zerlim

23/05/2009 @ 17:54

Obrigado Prof. Felipe Aquino, estas palavras são como que uma luz para que as pessoas conheçam mais a irrevogável caridade da Igreja para com os seus filhos.

Comentário por musico ex-drogado

23/05/2009 @ 18:28

lindo, pf.felipe. de +! estou me convertendo lendo seus livros. depois q vi urbano medeiros no academia ele mesmo me recomendou. já estou no 5. livro.
o sr mora no meu coraçao.
ex-drogado

rio g. do sul

Comentário por evandro

23/05/2009 @ 19:52

” Ignorancia não esta só em quem não tem saber dos livros, esta tambem nos que tem acesso a eles (Livros)”

Comentário por Joe Nascimento

23/05/2009 @ 20:53

não há como enviar este interessante texto aos amigos?!!

Comentário por luis aires

24/05/2009 @ 01:08

querido professor felipe
sou catolico defendo a igreja de cristo
e apesar de nao ser doutor em historia
sei que as trevas da idade media foi consequencia da queda do imperio romano - queda esta provocada pela corrupcao , e segundo a historia era tanto que soldados romanos gritaram do alto; - ” roma esta sendo vendida a qq preço.
Empurrados pelos hunos (povo animalesco) os barbaros foram descendo ate a o sul da europa invadindo roma que ja estava enfraquecida
Disto resultou a criaçao dos feudos e divisao da europa em cidades estados ate que os burgos lutassem pela unificação das moedas.
nao era a igreja e sim a europa que era um continente ignorante, sendo que, os ingleses eram povos atrasados, e a unica cultura rica q tinham veio de roma.
Alias, foi telemaco -cirstao- q comecou a ir contra os assassinatos no coliseu.
bem eu acredito que a idade das trevas nao foi causa da igreja e sim da falta da igreja.
pq o rei salomao é da igreja e com todo respeito;
ele nao era nem um pouco burro…..
de LUIS AIRES TESCH
EM CRISTO

Comentário por Marcos

25/05/2009 @ 00:30

É imperativo que aqueles que debruçam sobre o passado do aprendizado humano,saibam reconhecer a igreja como a matriarca do conhecimento ciêntífico e filosófico atual. Ela sim, colaborou sistemáticamente ao longo dos anos para que o saber chegasse aos nossos dias…

Comentário por Pedro Adalberto Feitosa Maia Maia

25/05/2009 @ 01:47

Prof.

Hoje, um grande culpado está sendo cassado e como não existem instituições respeitáveis que se possa acusar, atacam a Igreja Católica, por esta ser a que mais dá Ibope, que mais chama atenção da mídia ávida por sensacionalismo. Não é de se estranhar que a TV do Edir Macedo, vive catando notícias sôbre “desvios de conduta” que alguns religiosos cometem apenas com a finalidade de conseguir mais fiéis pra sustentar seus programas de violência e futilidades.Mas isso não nos deve surpreender, apenas devemos estar atentos contra esses vendilhões do templo. O resto é interesse monetário.

Abraço

Pedro Maia

Comentário por Walter Mureb Schneider

25/05/2009 @ 15:28

Por muito tempo, eu e meus colegas de ginásio fomos direcionados e inducidos a pensar nessa triste verdade. E assim, na minha adolecência eu amaldiçoei a Igreja, acreditando nas mentiras que nos foram passadas, como as cruzadas, a inquisição, Gallileu e tantas outras. Isso fez que eu me afastasse da Igreja. Mas como Deus é amor e não esqueçe de seus filhos, agora adulto, sentindo a necessidade de algo mais, começei a voltar e lendo e pesquisando, eu descobri a maldade na minha juventude. Tanto tempo que eu perdi em ficar mais perto de Deus.
OBRIGADO PROFº FELIPE AQUINO, MUITO OBRIGADO POR ESSA LUTA SUA DE ESCLARECER E MOSTRAR A VERDADE. PARABÉNS. QUE DEUS CONTINUE A TE ABENÇOAR E ILUMINAR NESSA CAMINHADA.

Comentário por aldo oliveira dos santos

29/05/2009 @ 03:57

Sr DEIXOU BEM CLARO QUEA IGREJA É UNICA EM TODOS ASPECTOS.
QUEM ACREDITA EM NOSSO SENHOR RESSUCITADO VIVO E SEMPRE, NUNCA DEVEMOS COLOCAR EM DUVIDAS AS OBRAS EM QUE NOSSA MÃE MARIA NOS ENSINOU AMAR SEU FILHO NOSSO SENHOR.
FICA ESCLARECIDO MUITO QUE NENHUM FILME PODE COLOCAR NOSSA FÉ EM DUVIDAS.
RELACIONO A ISSO AO FILME ANJOS E DEMONIOS…..

OBRIGADO; FIQUE COM DEUS TENHA CERTEZA QUE ESTAREMOS REZANDO PELO Sr E SUA FAMILIA

ALDO OLIVEIRA DOS SANTOS

Comentário por Adriana Prá

29/11/2009 @ 18:09

Prof.Felipe, é louvável a sua divulgação quanto a grande contribuição da Igreja Católica ao modelo educacional que hoje conhecemos e que foi criado na Idade Média.Ressalto também, a importância do trabalho exaustivo dos monges que copiavam os livros à mão e assim nos preservaram a história.No entanto, não podemos deixar de mencionar que é veridico que da Igreja partiram os primeiros modelos educativos e as práticas de formação, que consequentemente organizaram as instituições e as intervenções, mas também era ela (naquele contexto)que discutia tanto as práticas como os modelos a serem adotados tanto para o POVO como para as CLASSES ALTAS, obedecendo ao dualismo social típico da época para obter e manter a hegemonia política.Fato que não lhe tira seus devidos méritos, mas que necessitam serem abordados e assumidos. Parabéns pela obra!

Graça e Paz,

Adriana
Professora universitária

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