O Dr. William Douglas, que é um  juiz protestante, fez uma veemente defesa da permanência dos crucifixos nos lugares públicos, contrariando aqueles que querem retirá-los dali. Trancrevo aqui alguns trechos do seu escrito, retirado da fonte:

http://www.conjur.com.br/2009-ago-11/retirada-crucifixos-discussao-pirotecnica-intolerante

Em atenção à queixa de um cidadão, que se sentiu discriminado pela presença de um crucifixo no Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo, a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão entrou com uma ação civil pública para obrigar a União a retirar todos os símbolos religiosos ostentados em locais de atendimento ao público no Estado. 

Em junho de 2007, o Conselho Nacional de Justiça indeferiu o pedido de retirada de símbolos religiosos de todas as dependências do Judiciário.

O tema vem sendo cada vez mais discutido e, ao meu ver, está sendo objeto de uma interpretação equivocada por aqueles que desejam a retirada dos símbolos religiosos. O Estado é laico, isso é o óbvio, mas a laicidade não se expressa na eliminação dos símbolos religiosos, e sim na tolerância aos mesmos.

A resposta estatal ao cidadão queixoso, mencionado acima, não deveria ser uma ação civil pública, mas uma simples orientação, no sentido de que o país ter uma formação histórica-cultural cristã explica que haja na parede um crucifixo e que tal presença não importa em discriminação alguma. Ao contrário, o pensamento deletério e a ser combatido é a intolerância religiosa, que se expressa quando alguém desrespeita ou se incomoda com a opção e o sentimento religioso alheios, o que inclui querer eliminar os símbolos religiosos.

Ao contrário do que entende o ilustre Procurador mencionado, a medida não se limitará aos ambientes de atendimento  ao público. O próximo passo será proibir também os símbolos na mesa de trabalho, seja porque o ambiente pertence ao serviço público, seja porque em tese poderia ofender algum colega que visualizasse o símbolo. No final, como se prenuncia no poema “No caminho, com Maiakóvski”, o culto e devoção terão que ser feitos em sigilo, sempre sob a ameaça de que alguém poderá se ofender com a religião do próximo.

Nesse passo, eu, protestante e avesso às imagens (é notório o debate entre protestantes e católicos a respeito das imagens esculpidas de santos), tive a ocasião de ver uma funcionária da Vara Federal onde sou titular colocar sobre sua mesa uma imagem de Nossa Senhora de Aparecida. A minha formação religiosa e jurídica, onde ressalto a predileção, magistério e cotidiano afeito ao Direito Constitucional, me levou a ver tal ato com respeito, vez que cada um escolhe sua linha religiosa. A imagem não me ofendeu, mas sim me alegrou por viver em um país onde há liberdade de culto. Igualmente, quando vejo o crucifixo com uma imagem de Jesus não me ofendo por (segundo minha linha religiosa) haver ali um ídolo, mas compreendo que em um país com maioria e história católica aquela imagem é natural.

O crucifixo nas cortes, independentemente de haver uma religião que surgiu do crucificado, é uma salutar advertência sobre a responsabilidade dos tribunais, sobre os erros judiciários e sobre os riscos de os magistrados atenderem aos poderosos mais do que à Justiça.

Vale dizer que se a medida for ser levada a sério, deveríamos também extinguir todos os feriados religiosos, mudar o nome de milhares de ruas e municípios e, ad reductio absurdum, demolir simbolos e imagens, a exemplo, que identificam muitas das cidades brasileiras, incluindo-se no cotidiano popular de homens e mulheres estratificados em variados segmentos religiosos. Ao meu sentir, as pessoas que tentam eliminar os símbolos religiosos têm, elas sim, dificuldade de entender e respeitar a diversidade religiosa. Então, valendo-se de uma interpretação parcial da laicidade do Estado, passam a querer eliminar todo e qualquer símbolo, e por consequência, manifestação de religiosidade. Isso sim é que é intolerância.

Embora cristão, as doutrinas católicas diferem em muitos pontos do que eu creio, mas se foram católicos que começaram este país, me parece mais que razoável respeitar que a influência de sua fé esteja cristalizada no país. Querer extrair tais símbolos não só afronta o direito dos católicos conviverem com o legado histórico que concederam a todos, como também a história de meu próprio país e, portanto, também minha. Em certo sentido, querer sustentar que o Estado é laico para retirar os santos e Cristos crucificados não deixaria de ser uma modalidade de oportunismo.

A recusa à existência de Deus, a qualquer religião ou forma de culto a uma divindade não é uma opção neutra, mas transformou-se numa nova modalidade religiosa. Se por um lado temos um ateísmo como posição filosófica onde não se crê na(s) divindade(s), modernamente tem crescido uma vertente antiteísta.

Esta nova religião, a “não religião”, ao invés de assumir o controle ou titularidade da representação divina, optou por entender que não existe Deus nenhum. Aqui o homem que professa tal tipo de crença não é mais o representante de Deus, mas o próprio ser superior. Nesse passo, a nova religião tem outra penosa característica das religiões pouco amadurecidas, consistente na arrogância e prepotência de seus seguidores, apenas igualada pelo desprezo à capacidade intelectual dos que não seguem a mesma linha de pensamento.

Assim, enquanto existe um ateísmo que simplesmente não crê e que demonstra as razões disso em um ambiente de respeito e diversidade, vemos crescer também um outro ateísmo, agressivo, que não apenas não livrou o mundo dos males da religião, mas também passou a reprisá-los.

Ao meu ver, discutir os símbolos religiosos é mais fácil do que enfrentar a distribuição de renda, a fome, injustiça e a desigualdade social. Não nego a importância do assunto, mas acharia cômico se não fosse trágico que as pessoas se ofendam com uma cruz o bastante para acionar o Estado e não o façam diante de outras situações evidentemente mais prementes. Talvez mexer com os religiosos seja mais simples, divertido e seguro, mas certamente não demonstra uma capacidade superior de escolher prioridades. Portanto, parece conveniente lembrar que católicos, judeus, evangélicos, espíritas e muçulmanos, e bom número de ateus também, gastam suas energias ajudando aos necessitados. Tenho a esperança de que nas discussões haja mais coerência e menos “pirotecnia” e “perfumaria” de quem discute o sexo, digo, a existência dos anjos em vez de enfrentar os verdadeiros problemas de um país que, salvo raras e desonrosas exceções, é palco de feliz tolerância religiosa.

A eliminação dos símbolos religiosos atende aos desejos de uma vertente religiosa perfeitamente identificada, e o Estado não pode optar por uma religião em detrimento de outras. A solução correta para a hipótese é tolerar e conviver com as diversas manifestações religiosas.

Por fim, acaso fosse possível ser feita uma opção, não poderia ser pela visão da “minoria”, mas da “maioria”. Talvez essa afirmação choque o leitor. Dizer que se for para optar, que seja pela “maioria” choca, pois o conceito de “respeito às minorias” já está razoavelmente assimilado. Mas também deveria chocar a ditadura da minoria, a tirania dos que se transformam em vítimas ao invés de evoluírem o suficiente para ver nos símbolos religiosos não uma ofensa, mas um direito, e entender que os que já estão por aí, nas ruas, repartições e monumentos são apenas uma consequência da nossa longa formação histórica e cultural.

Em suma, espero que deixem este crucifixo, tão católico apostólico romano quanto é, exatamente onde ele está. Excluir símbolos é fazer o Estado optar por quem não crê. A laicidade aceita todas as religiões ao invés de persegui-las ou tentar reduzi-las a espaços privados, como se o espaço público fosse privilégio ou propriedade de quem se incomoda com a fé alheia. Eu, protestante e empedernidamente avesso às imagens esculpidas, as verei nas repartições públicas e saudarei aos católicos, que começaram tudo, à liberdade de culto e de religião, à formação histórica desse país e, mais que tudo, ao fato de viver num Estado laico, onde não sou obrigado a me curvar às imagens, mas jamais seria honesto (ou laico, ou cristão, ou jurídico) me incomodar com o fato de elas estarem ali.

http://www.conjur.com.br/2009-ago-11/retirada-crucifixos-discussao-pirotecnica-intolerante

 

9 Comentários

  1. Marco Aurélio

    Intolerância religiosa é crime. No estado do RJ, pessoas estam sendo enquadradas por não respeitarem a religião dos outros.

  2. José Carvalho de Novais

    Aos simbolos, sim devemos respeita-los como lembrança daquele que fez muito mais por nós todos, deu nos a vida pela nossa salvação.
    Ainda bem que tem pessoas que ainda sendo protestante, ajuda a preservar e respeitar a opção pela religião católica, sem entrar em confronto e orientando aos demais sobre a liberdade de escolha.
    que vença sempre o bem que queremos ao inves do mal que não queremos.

    José Carvalho (católico, pastoral familiar – Urucuia – MG)

  3. José Carvalho de Novais

    Aos simbolos, sim devemos respeita-los como lembrança daquele que fez muito mais por nós todos, deu nos a vida pela nossa salvação.
    Ainda bem que tem pessoas que ainda sendo protestante, ajuda a preservar e respeitar a opção pela religião católica, sem entrar em confronto e orientando aos demais sobre a liberdade de escolha.
    que vença sempre o bem que queremos ao inves do mal que não queremos.

    José Carvalho (católico, pastoral familiar – Urucuia – MG)

  4. Claudio Ramirez Filho

    Prof Felipe!

    Fui seminarista salesiano de 2004 a 2008, por vezes vi o senhor nas missas diarias da basilica de São Benedito em Lorena, mas isso não vem ao caso. Gostaria de deixar aqui o meu choque (no bom sentido) ao ler esse texto. Mesmo tendo sido seminarista, nunca bebi em tais fontes de exemplo e argumentos sobre o assunto.

    Obrigado por seu trabalho !
    Claudio Ramirez Filho

  5. Carlos Eugênio

    Reforçando o que diz na reportagem, o Estado brasileiro tem mais com o que se preocupar que não seja em defender a “não religião”.
    Na minha opinião, em um país onde uma das causas de muitos problemas tem sido a falta de Deus no caração, de uma fé em que se apegar ou mesmo o temor a um ser supremo e superior, a gente tem mais é que se preocupar em estimular a fé e o credo nas pessoas e não o contrário.
    Nosso Senhor Jesus Cristo sempre pregou o amor e a fraternidade, e é justamente a falta destes dois pontos que nos impossibilita termos o mundo um lugar melhor pra se viver. O egoismo e o individualismo são a ruina do mundo.

    DEUS SEJA LOUVADO, AMÉM.

  6. Flavio Carvalho

    Protestante, o juiz Willians Douglas deu um dos mais lúcidos e probos testemunhos daquilo que é maior riqueza religiosa do nosso país, e que faz dessa terra ser abençoada por DEUS: a tolerãncia. Imagem atual e concreta do mandamento do Senhor “amai o teu próximo como a ti mesmo. Nisso vos reconhecerão que sois os meus discípulos”

    O quanto parece difícil para a sociedade de hoje concretizar esse testemunho fiel das palavras do Senhor. Como se o fato de o outro não partilhar a mesma linguagem religiosa que eu o diminua ou desqualifique ante Deus-Pai. Se eu católico professo, busquei e encontrei na eucarístia, na comunhão dos santos e na Igreja a reconciliação possível e necessária no Cristo crucificado, símbolo maior da redenção humana e do amor incondicional do Pai por nós, mais ainda me vejo na condição de testemunhar e bendizer o seu santo nome onde e quando for o momento, ainda que nos espaços do Estado.

    Cabe a quem recorrer do injustiçamento que sente das imagens santas, repensar as bases da própria fé, e de sua moralidade cristã, recordando nas sagradas escrituras as inúmeras parábolas nas quais o Senhor evoca a misericórdia e a igualidade de todos ante o Pai, expressão ifinita da copiosa mansidão e benignidade do coração celeste.

    O mandamento maior do Cristo crucificado nos lembra sempre sem cessar que devemos orar e interceder pelos que não creem e também pelo apreço que devemos possuir pela anúncio da boa nova em toda e qualquer parte; e isso não nos autoriza a demandar protesto contra a imagem do mesmo cristo crucificado, que é memória e testemunho para nós, povo de Deus, e brasileiros, quem somos e no que acreditamos. O mesmo salvador, a mesma promessa, o mesmo reino, a mesma salvação.

    Sem essa percepção de cristianidade no viver, no pensar e no agir do povo brasileiro, corroboramos o princípio do pecado original, que é a negação e a indiferença ao amor e a paternidade de Deus, gerando como conseqüência que sejamos apartados da herança do reino de Cristo Jesus – Ressussitado e Crucificado.

  7. Júnior Teles

    Professor Felipe, bom dia!
    Vindo de quem veio, o texto tem sua importância ímpar! Além de famoso no meio jurídico, William Douglas é, também, um grande incentivador dos milhares (me incluo nos milhares) concurseiros que lutam por passar em um concurso público e SERVIR melhor ao país. Sempre soube que ele era protestante, mas, antes de tudo, CRISTÃO, como nós, católicos, somos. E, ler o que ele escreveu, sobre o respeito, não só às imagens, mas à liberdade religiosa, me deixa profundamente feliz e tranquilo que, apesar das diferenças, há possibilidade de diálogos entre os irmãos em Deus. Aliás, o Estado é laico, mas não quer dizer que seja ateu. Basta ver o preâmbulo da nossa Constituição Federal. Além do mais, como bem disse WD, para ele, a imagem, no meio judiciário, representar como NÃO SE DEVE JULGAR AS PESSOAS (Cristo não teve um julgamento digno, e foi condenado à morte no mesmo dia). Para nós, católicos, a meu ver, a imagem representa como deveremos nos doar para o próximo, assim como Ele se doou para nossa salvação (conceito difícil de ser digerido por quem não conhece a religião – verbo re-ligar a Deus – ou não pratica a boa nova dita nos Evangelhos).

    Até sempre, professor!
    José Teles da Silva Júnior
    Sobradinho – DF.

  8. Aquino, estou com você nesta luta!
    Crucifixo não é propriedade de nenhuma igreja!
    Crucifixo é um dos símbolos (mais popular!)do Cristianismo. E não deve ser mexido – ora!
    Abraços, Pr PCSampaio http://www.benedictus.com.br

  9. Carlos Alberto

    Caro Professor,
    É oportuno lembrar a este Senhor que pediu a remoção do símbolo Cristão, que a foto, ou as fotos de sua genitora ou parentes que se encontram espalhadas pelas paredes de sua residência, constituem também para os protestantes, uma idolatria!
    Em tempo: Estou pedindo a intercessão de Maria que junto ao seu filho amado, acalme este coração intolerante.
    Cordialmente,
    Carlos.

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