*Daniel Romero Pernalete -
- 08/12/2009
Hoje, como nunca, se fala de Bolívar. É elemento chave da retórica presidencial. Não há discurso, de rua ou de escritório, que não seja completado com alguma, descontextualizada, frase do Libertador. O presidente, por ignorância, por conveniência, omite um outro Bolívar: o Bolívar civil, o estadista, o simples cidadão. E quando se conhece esse Bolívar dar-se conta de quão longe estão as motivações de um processo que pretende abafar com seu nome.
Quando alguém contempla assombrado, os esforços do presidente para submeter ao seu comando todos os poderes, não pode menos que recordar que aquela parte do discurso de Bolívar no Convento dos Franciscanos, no dia 2 de janeiro de 1814, no qual afirmava: “Ai do país onde um só exerça todos os poderes: é um país de escravos”… Esse mesmo pensamento expressou 14 anos mais tarde no dia 27 de agosto de 1828, quando se dirigiu aos cidadãos da Grande Colômbia nos seguintes termos: “Temos pena do povo que obedece e do homem que ordena só!” (Esse é o Bolívar que Chávez não leu).
Quando alguém revisa a invasão de militares, ativos e retirados, em todos os níveis do governo, escuta o discurso militar e bélico do presidente, se lhe vem a memória uma lapidar frase de Bolívar ele escreveu a Maradiaga no dia 26 de novembro de 1816: “O sistema militar é da força, e a força não é governo”. Esta idéia permanece constante no Libertador, quem 13 anos mais tarde, o dia 13 de setembro de 1829, escreveu “O Leary”: “É insuportável o espírito militar no comando civil”. (Esse é o Bolívar que Chávez não leu)
Quando alguém escuta as ameaças de Chávez de permanecer no poder até além do legal e legitimamente admissível, lhe retumbam em seus ouvidos as palavras de Bolívar no discurso do Congresso de Angostura, em 15 de fevereiro de 1819: “Nada é tão perigoso como deixar permanecer muito tempo o mesmo cidadão no poder”… e quatro anos mais tarde, no dia 15 de abril de 1823, qualifica não só a situação mas a atitude de quem se agarra no poder por todos os meios, quando ele escreveu a Santander: “É uma mania miserável de querer mandar a todo custo” (Esse é o Bolívar que Chávez não leu).
Quando alguém adverte os esforços presidenciais em minar qualquer consulta cidadã que ponha em risco sua permanência em Miraflores, pensa em Bolívar que na carta para Doutor Castillo Lara, em 15 de abril de 1823: “Os intrigantes corrompem os povos, desprestigiando a autoridade”, opinião que ratifica ao mesmo Santander, em 23 de fevereiro de 1825, quando escreve: “Na política nada vale tanto e custa menos como as demonstrações de respeito e consideração” (Esse é o Bolívar que Chávez não leu).
Quando alguém observa o uso que o presidente faz da Força Armada para amedrontar e reprimir a todos que se neguem a aceitar o processo, recorda o que Bolívar escreveu no projeto de Constituição para a Bolívia, em 25 de maio de 1826: “O destino do exército é guardar as fronteiras. Deus nos preserve se volver suas armas contar os cidadãos!” (Esse é o Bolívar que Chávez não leu).
Quando alguém, em suma, recorre à história do último quinquênio, e soma as palhaçadas, os desatinos, as sandices a as mau criações do presidente, alguém se convence (e cada dia mais) de que, como Bolívar escreveu a Santander em 12 de novembro de 1823, “ Um bobo não pode ser autoridade”. (Esse é o Bolívar que Chávez não leu).
* Daniel Romero Pernalete é sociólogo e professor titular da Escola de Ciências Sociais da Universidade do Oriente, no Núcleo de Sucre.
Fonte: Catolicanet
Local: Sucre (Bolívia)

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