CIENTISTA DESCOBRE DEUS

Filed under: Ateísmo — Prof. Felipe Aquino at 6:59 pm on Tuesday, April 3, 2007

   

Pai do Projeto Genoma Humano diz, em obra que acaba de ser lançada no Brasil, que ser ateu é anticientífico         03/04/2007  - Diário da Manhã, Goiânia Ton AlvesDiretor de Redação 

No mundo Ocidental, desde sempre, Ciência e Religião se enfrentaram. Ao ponto de se estabelecer o preconceito imbecil de que cientistas e religiosos são, por natureza de suas vocações, inimigos naturais. Se papas, bispos, pastores e padres olham com desconfiança os que buscam a verdade nos laboratórios, no mundo da pesquisa científica a fé é vista, no mínimo, como sinal de ingenuidade e ignorância. 

Nas últimas décadas, as pesquisas no campo da genética se tornaram o ponto mais sensível desse enfrentamento. Apressadinhos de ambos os lados começaram a comemorar, antecipadamente, que a descoberta do código genético do ser humano daria aos laboratórios a condição de se igualarem a Deus, criando gente sob encomenda como as montadores de veículos produzem carros segundo as tendências do mercado. 

E foi justamente no ambiente dessas pesquisas que apareceu alguém com coragem para dizer que um cientista pode crer em Deus, professar a sua fé, sem deixar de ser respeitado pelo seu valor como pesquisador e estudioso: Francis Collins. 

Biólogo respeitadíssimo, Collins é um dos cientistas mais notáveis da atualidade. Diretor do Projeto Genoma, bancado pelo governo americano, foi um dos responsáveis por um feito espetacular da ciência moderna: o mapeamento do DNA humano, em 2001. Desde então, tornou-se o cientista que mais rastreou genes com vistas ao tratamento de doenças em todo o mundo.  

Alvo de críticas de seus colegas, cuja maioria nega a existência de Deus, Collins decidiu reagir. “Ignorância, superstição e falta de bom senso é negar a existência de Deus a priori, sem pensar de forma séria e metódica sobre o assunto. Nada é mais anticientífico do que ser ateu.” 

E para explicar direitinho essa sua convicção, o cientista publicou, ano passado, nos Estados Unidos, um livro que causou a maior polêmica. Agora, acaba de chegar às livrarias brasileiras a tradução do polêmico best-seller de Francis Collins, com o título “A Linguagem de Deus: um cientista apresenta evidências de que Ele existe”, publicado no Brasil pela Editora Gente.  

CONVERSÃO 

Até seus 27 anos, Collins era um ateu convicto. Foi somente na faculdade de Medicina que começou a perceber o verdadeiro poder da fé religiosa entre seus pacientes. Então, começou a mudar. Hoje, Collins é considerado um cientista religioso que defende a existência de Deus e a importância da ciência para a humanidade. 

Collins, que nas horas livres gosta de pilotar sua motocicleta, escrever paródias e tocar violão, por mais de 12 anos liderou o Projeto Genoma Humano. Com o apoio de Bill Clinton, empenhou-se em revelar a seqüência do DNA. Levou um susto quando o então presidente dos EUA afirmou, no dia da conclusão do projeto, que “hoje estamos aprendendo a linguagem com a qual Deus criou a vida”. Pensou em discordar de Clinton na hora, mas resolveu refletir sobre o assunto.  

No livro, Collins explica que a experiência de mapear o genoma humano, além de ser um mergulho no mais notável dos textos – o DNA –, pode ser encarada tanto como uma conquista científica quanto também uma descoberta digna de veneração. Ao combinar sua fé cristã à experiência adquirida na área de estudos genéticos, Collins se debruçou sobre questões de caráter científico e espiritual simultaneamente, e afirma que “a ciência não deve se sentir ameaçada por Deus, mas sim reforçada. E Deus certamente não está ameaçado pela ciência; foi Ele quem tornou tudo isso possível”. 

Para ele, “é nosso dever levar em consideração todo o poder das perspectivas científica e espiritual para entendermos tanto aquilo que enxergamos quanto aquilo que não enxergamos. E a sacada desse livro é a soberba integração entre essas duas perspectivas”. O pesquisador afirma que há uma base racional para crer na existência de um Criador e que todas as descobertas científicas “aproximam o homem de Deus”. E, por isso, acredita que uma das grandes tragédias do nosso tempo é a impressão que se criou de que ciência e religião devam estar em guerra. 

Partindo de sua experiência, Collins afirma que decifrar o genoma humano não criou um conflito em sua mente; porém, lhe permitiu verificar os trabalhos de Deus. “O problema é que nos últimos 20 anos, com muita freqüência, as vozes que são ouvidas nos debates públicos sobre esses temas são aquelas que defendem posições extremas”, afirma. O livro de Collins chega ao Brasil sob a luz dos holofotes da polêmica. Pena que por aqui a maioria das pessoas não vai se preocupar em debater o assunto, seja no mundo científico seja no mundo religioso.  

Uma bela entrevista

Filed under: Ateísmo — Prof. Felipe Aquino at 5:04 pm on Saturday, February 3, 2007

 

A revista “PERGUNTE E RESPONDEREMOS” (Nº 329 – Ano 1989 – Pág. 457) publicou uma entrevista esclarecedora com o  Cardeal Paul Poupard, ex-Presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo com os Não Crentes, dada ao repórter Angelo Bertani, da revista JESUS (edição de maio 1989, pp. 74s): 

Repórter: “Afirma o Cardeal Daneels¹ que a alternativa para a fé não é necessariamente o ateísmo, mas pode ser a  idolatria. Que diz V. Em.cia?” 

Paul Poupard: “De fato; o ateísmo puro é extremamente raro. Sartre diz em uma de suas obras, “Les Mots”, aliás uma obra-prima literária: “O ateísmo é um empreendimento difícil e de longo fôlego. Creio tê-lo realizado até o fim”. Sim; Sartre, Marx, Engels tinham uma certa inteligência cientificista ou niilista. Mas a questão se põe para Nietzsche: que é a sua exaltação da vida e do super-homem senão  uma série de ídolos feitos absolutos no lugar de Deus? E Lênin, com o mito do proletariado, da revolução, do comunismo… Não seriam ídolos tudo isto?  E não falamos da grande multidão daqueles que se dizem não-crentes com os seus ídolos mais terra-a-terra: sexo, dinheiro, drogas, esporte, sucesso econômico e social, prazeres estéticos e de outra ordem meramente terrena. 

A idolatria conheceu um desenvolvimento extraordinário e adquiriu o caráter de culto do Estado nos países socialistas. Por exemplo, assistimos na União Soviética ao ressurgimento dos mitos arcaicos, como o culto dos heróis, dos quais o primeiro é Lênin, do fogo eterno, símbolo da vida, dos ritos do batismo (imposição do nome), da iniciação da juventude (Confirmação), do casamento e das exéquias socialistas. Aliás, é preciso dizer que essas formas de idolatria socialistas não são senão um infeliz plágio dos ritos cristãos, plágio um pouco ridículo e que desagrada ao povo”. 

R.: “Por conseguinte, os “novos crentes” não têm muita segurança. E os “novos ateus” não deixam de ter esperanças…” 

P.P.: “Os novos crentes, os adoradores dos ídolos, encontram-se em posição insustentável. E isto, porque, após Jesus Cristo, os ídolos, os verdadeiros ídolos, são simplesmente impossíveis. Os  velhos deuses não podem mais ressuscitar, não podem ser levados a sério. É impossível crer sinceramente em Vênus, Mercúrio, Dionísio, etc. Ao homem europeu que fez a experiência de Cristo e teve o conhecimento da Revelação, não resta senão uma alternativa: ou Cristo ou o nada. Os deuses pagãos morreram realmente. 

Os “novos ateus”, os verdadeiros ateus, podem ter esperança? Sim, porque a esperança é a virtude dos tempos trágicos. E os dados são inequívocos: adesão a Deus, que se revelou
em Jesus Cristo, ou a escolha do nada. É diante desta prospectiva séria que Dostoievskij põe nos lábios de seus personagens: “O ateísmo pleno se encontra no alto da escada, no penúltimo degrau que leva à fé plena”.
 

R.: “Que diria hoje V. Em.cia a um ateu que lhe afirmasse: “Eu sou ateu!?” 

P.P.: “Eu o contemplaria profundamente nos olhos (como Jesus) e lhe diria: “Que maravilha! Tu, com o teu semblante iluminado pelo Espírito, com os teus olhos em que se lê uma individualidade imortal, com todo o teu corpo, obra-prima da criação, tu, com aquilo que és, tu és a prova mais estupenda de uma evolução criadora do universo, que, logicamente, não pôde ser orientada senão por uma inteligência amorosa, que os homens, há milênios, chamam Deus”. E, se ele me dissesse ainda: “Não creio em Deus”, eu lhe responderia: “Mas Deus crê em ti”. 

R.: “E que diria V. Em.cia a quem afirmasse: “A nós o fato religioso não interessa em absoluto?” 

P.P.: “Eu lhe diria: “É porque vives na superfície de ti mesmo, na distração e no divertimento. E negligencias a dimensão mais profunda, mais bela, mais interessante do teu ser. A vida provavelmente tem, em certos momentos (e tu o sabes bem!), um sabor de fastio; talvez em certas ocasiões um sentimento de desespero te acometa, e isto te leva a uma procura insaciável de prazeres. Mas sabes que se trata de um beco sem saída. Entra, pois, de novo dentro de ti mesmo, descobre as tuas profundidades, a dimensão total do teu ser e então descobrirás dentro de ti algo de sagrado, inviolável, uma santidade que tu mesmo não pudeste poluir, uma fome do além, uma nostalgia de beleza”. 

R.: “Enfim, como enfrentar aqueles que dizem: “Fiz uma experiência à altura das minhas necessidades em tal ou tal grupo ou seita, no(a) qual me sinto realizado e seguro?” 

P.P.: “Dir-lhe-ia: “Uma experiência religiosa que não seja senão a satisfação de necessidades íntimas e um meio de realizar-se, só pode ser uma ilusão, uma procura de si mesmo, o arbitrário elevado à categoria do absoluto, uma falsa segurança. Quem a faz, não sai deste mundo nem do seu eu mais ou menos turvo e egoísta. É preciso renunciar à auto-suficiência, à auto-suficiência deste mundo, e aceitar uma verdade que vem de outra fonte, abrir-se ao absolutamente outro. Aceitar esse absolutamente outro que nos põe radicalmente em foco, é uma via para nos libertarmos do mundo e de nós mesmos. Esse Outro é Jesus Cristo e o seu Evangelho, vivo na sua Igreja”. 

R.: “Portanto, que é que ainda ensinam os “novos crentes”, os “ateus” ou os “indiferentes”? 

P.P.: “Os novos crentes, para os cristãos, são figuras do passado, “os velhos deuses que dormem em mortalhas de ouro” (Renan), que nada pode ressuscitar: uma posição impossível e falsa. Os indiferentes, por princípio, nada têm a dizer. “Boh!” não é uma resposta. Os “novos ateus” que levaram o seu ateísmo até o extremo, os ateus coerentes consigo mesmos, os ateus heróicos e trágicos, são os que ficam mais próximos de nós e paradoxalmente nos podem ensinar algo: um mundo de total ausência de Deus, escolhido de maneira consciente e vivido de modo trágico. Eles nos dizem o que é a ausência real e, conseqüentemente, nos fazem saber o que é a presença real de Deus entre nós:  luz do coração, sentimento de liberdade, alegria e esperança”. 

Comentário: 

Eis como o cardeal Poupard vê o ateísmo contemporâneo; julga que é algo de artificial ou violento demais para o homem, a tal ponto que os ateus mais radicais parecem fadados a ter pouca estabilidade na sua posição atéia; experimentando o vazio e o trágico de um mundo sem Absoluto e sem plenitude de valores, estão perto de passar para o campo da fé  ou do reencontro do homem consigo e com os mais profundos anseios da alma humana. 

O caso mais doloroso e lamentável é o dos indiferentes ou o dos que ficam descomprometidos com qualquer ideal, ainda que errôneo. Já o Apocalipse comenta a hediondez de tal atitude, atribuindo a Cristo as palavras: “Conheço tua conduta; não é nem frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Assim, porque é morno, nem frio nem quente, estou para te vomitar de minha boca” (Ap 3,15s).O cristão, portanto, ao ver um ateu sincero, honesto, fiel aos seus deveres, alimenta esperanças a seu respeito. Sim; Deus está no termo de chegada da retidão e lealdade de consciência. 

 

 

¹ Arcebispo de Malines-Bruxelas (Bélgica).       

Por que há tanto ateísmo hoje?

Filed under: Ateísmo — Prof. Felipe Aquino at 4:48 pm on Saturday, February 3, 2007

  

D. Estevão Bettencourt, OSB 

 

Apontaremos duas grandes causas de tal fenômeno. 

1 - Preconceito contra a Metafísica 

A Metafísica é a reflexão que se estende para além das coisas físicas ou naturais; é o estudo que procura não somente as causas próximas, mas as causas remotas ou as causas das causas, e assim vai penetrando dentro do recôndito do que é ou do Ser; atinge o Invisível através do visível. Se, por exemplo, vejo  um raio, sinto a necessidade de explicá-lo; pesquisando cientificamente, chego à conclusão de que é o efeito de um choque elétrico; mas minha mente pode não se dar por totalmente satisfeita com esta resposta e, por conseguinte, indago ulteriormente: donde vem a eletricidade?… Porque existe ela? Quem lhe deu a existência? Assim aos poucos vou cultivando a metafísica (meta = além; physiká = as coisas naturais). 

A Metafísica foi muito estimada pelos pensadores até a época moderna. Immanuel Kant († 1804) quis dar-lhe um golpe mortal, afirmando que só conhecemos fenômenos sem poder penetrar nas suas causas; não atingimos a realidade em si mesma ou como tal. Augusto Comte (†1857) tomou posição semelhante, recusando todo conhecimento que ultrapasse o das ciências empíricas. Friederich Nietzche (†1900), Sigmund Freud († 1939) e seus discípulos também proclamaram a morta da metafísica. – Tal negativa influenciou não somente os materialistas, mas também os cristãos; vários destes, embora reconheçam a existência de Deus e dos valores transcendentais, julgam que estes não podem ser atingidos pela razão, mas unicamente pela fé. A crença em Deus e nas verdades religiosas seria algo alheio ao setor da razão; seria uma espécie de convicção que não se poderia justificar ou explicar racionalmente. Assim há pensadores cristãos que são kantianos e nos dizem que a análise metafísica do mundo e da natureza é impossível; a afirmação da existência de Deus nada teria que ver com o estudo da natureza e do universo; não seria possível uma filosofia da natureza. Tais pensadores cristãos se encontram assim com os marxistas e os freudianos, e esse encontro é geralmente fatal para eles, isto é, implica muitas vezes a perda mesma da crença
em Deus. Com efeito; sem fundamento na lógica e nas categorias da razão, qualquer opção é meramente subjetiva e arbitrária, carente de solidez e incapaz de se transmitir de maneira convincente.
 

A recusa da filosofia da natureza leva ao velho materialismo do século passado, o qual afirmava que, destruído o cérebro a consciência humana e se tem a morte absoluta, ou ainda… que a destruição do corpo humano é a destruição da própria pessoa. 

Na verdade, o que é impossível é destruir a Metafísica ou não cultivar a Metafísica. Com efeito; já Aristóteles (­†322 a.C.) dizia: “Se é preciso filosofar, filosofemos. Se não é preciso filosofar, filosofemos ainda para provar que não é preciso filosofar”. O que significa: negar a Metafísica ainda é fazer Metafísica. Negar a finalidade do universo ou negar Deus é afirmar que o mundo é regido por mecanismos e, em última análise, pelo acaso. Ora quem postula tais mecanismos, de certo modo está praticando a Metafísica ou está admitindo algo que a ciência não prova. Quanto ao recurso ao acaso, é a capitulação da razão; o acaso é o nome “ilustrado” ou “bonito” que o homem dá à sua ignorância, pois não existe acaso como sujeito ou não existe o “Sr. Acaso”; este é apenas o cruzamento, para nós imprevisto, de causas que têm sua finalidade e sua razão de ser vem especificadas (pelo fato de não termos previsto essas causas se encontrariam, surpreendemo-nos e dizemos que isto se deu por acaso). 

2       - Preconceitos contra a fé cristã 

Numa atitude antiintelectualista, muitos se fecham em preconceitos contra a fé; deixam-se guiar não pela razão, mas por sentimentos, “opções” ou displicência. Julgando que a análise objetiva e racional do fato religioso é impossível ou não merece ser feita, assumem atitudes arbitrárias, que tais pensadores não saberiam justificar aos seus próprios olhos. 

É certo que, da parte das pessoas de fé – digamos: … dos cristãos -, tem havido motivo para certa aversão à fé; assim as falsas interpretações da Bíblia, a piedade adocicada ou sentimental, os contra-testemunhos decorrentes da fragilidade humana… Muitos confundem o Cristianismo com aberrações teóricas ou práticas que são apresentadas ao público; julgam que, para ser cristão, é preciso renunciar à inteligência ou à cultura. Grande número desses pensadores que se dizem ateus, na verdade não desdizem à fé no verdadeiro Deus (que eles não conhecem), mas rejeitam as distorções da autêntica noção de Deus. 

Tal situação requer, do lado dos cristãos, uma revisão do testemunho que dão ao mundo a fim de o expurgar de deformações e, do lado dos ditos “ateus”, o uso da razão, a fim de que possam ter conceito mais claro da mensagem da fé e saibam distinguir do acidental  o essencial ou das facetas contingentes a verdade perene professada pela fé. 

Conclusão 

Ao invés do que muitos pensam, a mensagem cristã se prende estritamente ao uso da razão e ao estudo das ciências experimentais. É preciso banir a suspeita de divórcio entre aquela e estas. Verdade é que o estudo não prova a verdade intrínseca das proposições de fé, mas serve para alicerçar a crença. A onda de antiintelectualismo vigente nos últimos decênios prejudica a vida cristã; esta se torna, em conseqüência, algo de subjetivo, sentimental, inconsistente e sujeito a perder sua identidade. As proposições de fé se dirigem à inteligência humana e não apenas ao coração. – A inteligência foi dada por Deus ao homem para que este não somente descubra as verdades acerca do mundo contingente e material, mas também chegue ao conhecimento de Deus como Princípio e Fim de todas as coisas.Especialmente os resultados das ciências naturais – e da própria astronomia – interessam grandemente aos cristãos. A Bíblia não ensina proposições de ordem científica sobre a constituição e a origem do mundo e do homem, a sua doutrina é de índole sapiencial ou teológica, de modo que nunca se poderá dizer que há antagonismo entre a mensagem bíblica e as ciências naturais. 

 

Dom e Coragem

Filed under: Ateísmo — Prof. Felipe Aquino at 8:49 am on Sunday, January 21, 2007

 

D. Orani João Tempesta, O. Cist.Arcebispo de Belém do Pará 

Atualmente temos tido uma certa orquestração para tentar discutir a questão da fé, da razão e do ateísmo.É interessante ver os vários tipos de revistas e mesmo jornais e livros que vêm levantando a questão.Os que se dizem “ateus” estão reclamando como se estivessem sem o direito de liberdade para se expressar. Lendo algumas reportagens sobre essa “nova onda” que ora aumenta, fico a pensar o que realmente existe com relação à questão da “não crença”.De um lado não podemos negar que a questão dos fundamentalismos e fanatismos nos conduzem a um certo questionamento sobre o papel da pessoa religiosa no mundo hodierno. Infelizmente, muitas vezes a confissão de uma religião leva pessoas a ódios, rancores, discriminações.Porém, não é essa a regra. Na realidade, a verdadeira religião leva a pessoa a amar o seu semelhante que vê porque ama, e é amado por Deus que não vê. Os benefícios pessoais e sociais da fé estão espalhados a olhos vistos por todos os cantos do mundo. Os testemunhos de situações que foram transformados por causa da fé são inúmeros e levaram pessoas a viverem verdadeiramente a sua vida e a construir a paz ao seu redor.Se fizéssemos um levantamento sobre o pensamento humano iluminado pela fé e as atividades sociais das pessoas religiosas no decorrer da história, até mesmo antes da existência do Estado, e agora para suprir as suas deficiências, iríamos ver que as conseqüências do crer se concretizam em atividades que ajudam a pessoa a viver melhor.Aquilo que as pessoas que dizem que não crêem reclamam é o que na realidade acontece com aqueles que professam uma fé. Quantas vezes os que crêem são perseguidos e torturados! Quantas situações de exclusão com relação aos próprios direitos civis que não são concedidos a quem tem uma religião!Basta ver as leis em nosso país que, para que alguém possa fazer o bem, trabalhar tanto no social ou na educação, nem sempre pode ser em nome de uma entidade religiosa e, muitas vezes, tem que constituir uma associação ou sociedade para que assuma tal responsabilidade. Os preconceitos que existem com relação às pessoas de fé, mesmo em países como o nosso, onde aparentemente existe a liberdade religiosa, estão nas entrelinhas das dificuldades em se conseguir algo que mesmo sem nenhum óbice acabam não acontecendo por ser uma entidade religiosa.Quando os cientistas reclamam da falta de liberdade de dizer-se “ateu”, vejo que a questão é exatamente ao contrário. Aqui no Ocidente não existe essa questão. Aliás, quando querem discutir a “questão” de Deus nas ciências, basta lembrar a Aula Magna do Papa Bento XVI na Alemanha, que foi justamente esse o seu pedido. Infelizmente, esse belo momento foi explorado por uma frase que chamou mais a atenção do que toda a sólida argumentação papal.Parece que todos nós lutamos pela possibilidade e liberdade de nos expressarmos, e não queremos ser cerceados em nossos direitos civis pelo fato de professarmos ou não uma religião.Tempos interessantes esses que vivemos! Seria muito importante descobrir para onde os caminhos da verdadeira fé nos têm conduzido enquanto humanidade, pois a Revelação do Plano de Deus coincide exatamente com os anseios mais profundos do ser humano, porque fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Quer creiamos ou não, os nossos anseios por felicidade, paz, amor, harmonia estão presentes no coração da pessoa, embora nem sempre elas conseguem discernir os caminhos corretos para conquistar tudo isso.Também é tempo de todos os que cremos refletirmos sobre a importância do respeito mútuo à liberdade de cada pessoa, procurando testemunhar em que e em quem cremos, sem fazer proselitismos e nem conduzir às separações e ódios por causa da fé.Nós cremos na vida eterna, mas, enquanto vida humana, só temos este planeta para viver e somos chamados a conservá-lo bem não só com relação à ecologia, mas principalmente no relacionamento entre as pessoas, tornando possível a convivência entre os diferentes.Neste tempo de tantas críticas às religiões e tantas necessidades de tentar provar a não existência de Deus, a nossa alegria de poder crer deve nos levar a testemunhar sem preconceitos a nossa vida iluminada pela fé, assim como as razões de nossa fé. Será do respeito mútuo com a colaboração intensa de todos os cidadãos, em suas diversas circunstâncias, que iremos construindo a “civilização do amor”. 

 

 

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