Folha – Qual a sua avaliação a respeito do debate sobre o aborto durante as eleições?

João Braz de Aviz Foi um pouco ruim, porque a discussão dos bispos e de pessoas leigas ligadas à igreja apareceu com a exclusão de um partido [o PT]. Ou seja, havia uma definição de posição político-partidária muito clara [a favor do PSDB], e a Igreja Católica não sustenta isso.

Do outro lado, o que está à flor da pele é que uma imensa parte da população brasileira não aceita essa enxurrada de propaganda a favor do aborto que é feita de modo impositivo. Há um movimento de legalizar o aborto e considerá-lo um direito humano, o que é uma coisa muito difícil de a gente compreender.

Portanto, a posição dos bispos até estava correta, mas o que houve de dificuldade foi identificar apenas em um partido essa posição e aproveitar esse fato para uma escolha política.

No geral, o sr. considera que as eleições correram bem?

O que se viu foi sobretudo um processo político muito maduro. O crescimento de um terceiro elemento [o PV, de Marina Silva] que não se identifica com as duas principais forças me parece muito positivo. Há um crescimento da consciência política e do diálogo democrático.

O sr. imagina que a igreja terá alguma dificuldade de diálogo com o governo Dilma?

Claro que a gente sempre espera que o diálogo seja muito bom. Mas a verdade é que não temos uma ideia clara de quem é Dilma do ponto de vista religioso. Ela precisa explicar melhor as suas convicções religiosas para que o diálogo possa progredir.

O que sabemos é que Dilma mostrou flexibilidade com relação a temas importantes para a igreja. Mas também sabemos que políticos fazem isso: durante a campanha é uma coisa, e na prática o caminho às vezes é outro.

O que o sr. espera dela com relação a isso?

Eu espero que as posições dela se aproximem das posições da igreja. Para isso, precisamos conhecer melhor o que pensa a Dilma presidente em relação a certos temas.

Não só o aborto, que teve destaque na disputa eleitoral, mas também quanto ao PNDH-3 [Plano Nacional de Direitos Humanos], que traz posições contudentíssimas para a igreja. Há aspectos muito bonitos com relação à questão social, mas temos aborto, homossexualismo, um monte de coisa que precisamos ver como vai ficar.

Eventuais diferenças não inviabilizariam o diálogo?

Para que exista um bom diálogo, é fundamental que ela diga exatamente o que pensa para podermos avançar a partir daí. O fundamental é dar ao outro a oportunidade de ser ele mesmo, para o diálogo continuar. Se a posição dela for outra, tenho direito a uma atitude diferente.

Até o momento, não sabemos como será, pois ela assumiu a posição do ex-presidente Lula, que é impossível moralmente. Ele diz que tem uma posição pessoal como homem de fé e outra como presidente, como homem de Estado. Ora, a gente tem apenas uma moral, e não duas.

Muitas igrejas têm bancada no Congresso. Qual sua opinião sobre a separação entre religião e política e a possibilidade de mistura entre os dois campos?

A separação entre igreja e Estado foi uma conquista e representa uma grande vantagem democrática em relação ao passado, quando havia a imposição da religião sobre o Estado.

O problema é que muitas vezes não fica claro se estão usando a afirmação do caráter laico do Estado para dizer que ele é ateu e que o cidadão religioso não tem lugar na discussão política. Aí já é complicado, porque é preciso haver liberdade religiosa e respeito a essas posições.

Esse equilíbrio é que ainda não apareceu, e o debate acaba sendo recheado por posições já tomadas de antemão.

Mas não podemos considerar que a experiência religiosa esteja reduzida apenas à dimensão da consciência ou à dimensão pessoal, como se não tivesse nenhuma função social. Por isso é que a Igreja Católica está recuperando a atenção à política.

Como o sr. vê o forte crescimento das igrejas evangélicas, em especial entre as classes mais baixas?

Muitos desses movimentos religiosos mais modernos não exprimem uma fidelidade à doutrina do Evangelho como ela é –escolhem apenas partes e, às vezes, assumem compromissos com coisas que não são corretas. Por exemplo, há igrejas que têm compromisso fortíssimo com a arrecadação de dinheiro.

Por que essas igrejas têm tido mais êxito entre os pobres do que a Igreja Católica?

Não sei dizer uma razão particular. Sei que, hoje, essas igrejas usam os meios de comunicação de maneira muito forte, com motivações psicológicas… Isso tem uma força sobre as pessoas, que têm uma dimensão religiosa grande no coração.

Mas a Igreja Católica não segue essa estrada. Há muito de proselitismo por trás [de outras igrejas], não só de verdade. E nosso caminho [da Igreja Católica] não é o proselitismo, é o testemunho.

O sr. poderia citar alguma em particular?

Prefiro não citar nenhuma. O importante é mencionar o fenômeno. As pessoas sabem que isso existe.

Fonte:

http://www1.folha.uol.com.br/poder/862625-dilma-precisa-explicar-suas-conviccoes-diz-ministro-do-vaticano.shtml

27. abril 2008 · 29 comments · Categories: Clero

 

Alguns leitores têm me perguntado sobre o caso do bispo católico, D. Fernando Lugo, que desobedeceu ao Papa e à Santa Sé e se manteve candidato a Presidente do Paraguai, e eleito. É  um fato novo na Igreja, lamentável; ele está suspenso “a divinis”; quer dizer não pode exercer o ministério sacerdotal e episcopal, mas continua bispo, o Vaticano está estudando o seu caso. Uma vez bispo, bispo para sempre, pois o sacramento da Ordem não pode ser cancelado. 

É a primeira vez em que um bispo é eleito presidente da República, portanto é uma situação inédita.  Em janeiro do ano passado (2007), o Vaticano suspendeu o bispo D. Fernando Lugo “a divinis”, que significa, segundo o Código de Direito Canônico, que o “sacerdote continua obrigado aos deveres a ele inerentes, embora esteja suspenso do ministério sagrado”. D. Lugo pediu ao Papa para retornar ao estado laico, mas o Pontífice rejeitou a solicitação.  

Todo bispo ao ser assim ordenado presta um juramento de obediência ao Papa; e esta obediência foi quebrada, o que sem dúvida é algo grave. O Vaticano anunciou após a eleição do bispo, que avaliará e aprofundará com calma, do ponto de vista canônico, qual pode ser a melhor solução para definir a sua situação na Igreja como bispo católico suspenso “a divinis”. Isto foi informado pelo porta-voz do Vaticano, o padre jesuíta Federico Lombardi, que afirmou que, “em um clima tranqüilo e sereno e sem pressa, as autoridades competentes definirão melhor o status” de D. Lugo.  

O porta-voz do Vaticano afirmou que D. Lugo já não exercia o Ministério episcopal há muito tempo por causa da suspensão “a divinis” e que o fato de ter vencido as eleições não representa que tenha que adotar de forma “urgente” novas medidas sobre seu status em relação à Igreja. “Caso tenham que adotar novas medidas nesta nova etapa, as autoridades competentes – a Congregação para os Bispos – farão uma reflexão tranqüila. O fato do bispo já não exercer o Ministério episcopal permite que agora com calma se avalie melhor a sua situação, declarou o padre Lombardi. Ele disse ainda que é “é necessário se aprofundar do ponto de vista canônico para ver qual pode ser a melhor solução”. E deixou claro que o Vaticano não questiona sua escolha como Presidente do Paraguai e muito menos que a Igreja vá fazer a ele uma “espécie de oposição particular”.  

Esta questão é apenas uma questão jurídica canônica sobre sua função, seu status na Igreja, e não uma questão de relações diplomáticas, explicou o padre Lombardi. Ele disse que é  prematuro falar do que fará a Igreja e disse que agora o Papa, a Congregação para os Bispos e a Conferência Episcopal do Paraguai discutirão com calma e serenidade para buscar a melhor solução do ponto de vista canônico.  

É lamentável esta desobediência do bispo, ligado à “teologia da libertação”. Aqui não se discute se será um bom ou não presidente da República do Paraguai, mas apenas a questão de sua não submissão ao Papa e à Igreja. É uma atitude inédita na Igreja, de grandes repercussões, grave, e que caracteriza um mau exemplo. Se o Papa Bento XVI não autorizou o bispo a ser candidato é certamente porque havia inconvenientes e impedimentos canônicos sérios; por isso o bispo não deveria se colocar acima da autoridade da Igreja.  É grave desobedecer ao Papa. A ele o Senhor disse “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus, tudo o que ligardes na terra será ligado no Céu…” (Mt 16, 17s)

 

Prof. Felipe Aquino – www.cleofas.com.br 

O 12º Encontro Nacional de Presbíteros, terminado em Itaici, município de Indaiatuba (SP), apresentou um documento final que  propõe ao Vaticano algumas medidas.  

O documento foi aprovado pelos representantes dos padres diocesanos, e será enviado à Sagrada Congregação para o Clero, em Roma, atualmente presidida pelo cardeal D. Cláudio Hummes, ex-arcebispo de São Paulo. 

Entre as reivindicações dos presbíteros está a busca de “alternativas para o celibato sacerdotal” – a ordenação de homens casados e a readmissão de padres que deixaram suas funções para se casar. Os padres não sugerem a abolição total do celibato, que continuaria sendo uma opção, mas que haja outras “formas de ministério ordenado”. 

As reivindicações dos participantes do Encontro dos Presbíteros parece-nos inoportunas, uma vez que  contrariam normas em vigor na Igreja e aprovadas recentemente. Conforme o cardeal D. Cláudio Hummes afirmou no plenário do Encontro de Itaici, a Igreja não tem a intenção de alterar essas medidas.  

O último Sínodo dos Bispos sobre a Eucaristia, confirmou o celibato e o Papa Bento XVI expressou isso na Exortação Apostólica pos-sinodal, muito recente,  “Sacramentum Caritatis”, de 22 fev 2007. Disse o Papa:

“24. Os padres sinodais quiseram sublinhar como o sacerdócio ministerial requer, através da ordenação, a plena configuração a Cristo… é necessário reiterar o sentido profundo do celibato sacerdotal, justamente considerado uma riqueza inestimável e confirmado também pela prática oriental de escolher os bispos apenas de entre aqueles que vivem no celibato, indício da grande honra em que ela tem a opção do celibato feita por numerosos presbíteros. Com efeito, nesta opção do sacerdote encontram expressão peculiar a dedicação que o conforma a Cristo e a oferta exclusiva de si mesmo pelo Reino de Deus. O fato de o próprio Cristo, eterno sacerdote, ter vivido a sua missão até ao sacrifício da cruz no estado de virgindade constitui o ponto seguro de referência para perceber o sentido da tradição da Igreja Latina a tal respeito. Assim, não é suficiente compreender o celibato sacerdotal em termos meramente funcionais; na realidade, constitui uma especial conformação ao estilo de vida do próprio Cristo. Antes de mais, semelhante opção é esponsal: a identificação com o coração de Cristo Esposo que dá a vida pela sua Esposa. Em sintonia com a grande tradição eclesial, com o Concílio Vaticano II e com os Sumos Pontífices  meus predecessores, corroboro a beleza e a importância duma vida sacerdotal vivida no celibato como sinal expressivo de dedicação total e exclusiva a Cristo, à Igreja e ao Reino de Deus, e, consequentemente, confirmo a sua obrigatoriedade para a tradição latina. O celibato sacerdotal, vivido com maturidade, alegria e dedicação, é uma bênção enorme para a Igreja e para a própria sociedade.” 

O Papa colocou de maneira contundente a necessidade do celibato para o clero; por isso nos parece de todo inoportuno e inadequado que os representantes dos Presbíteros queiram retomar o assunto há tão pouco tempo debatido e confirmado pelo Pontífice. Não há como não ver nisso uma certa discordância com o Magistério da Igreja; algo que infelizmente fomenta certo mal estar e agitação no povo de Deus.  

Outra reivindicação do documento aprovado refere-se à nomeação de Bispos. Proposta a ser encaminhada à Sagrada Congregação para os Bispos pedirá uma revisão das nomeações “dentro de um espírito mais transparente, democrático e participativo junto dos presbitérios, dioceses e regionais da CNBB” (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). 

A escolha dos bispos, que são nomeados pelo Papa, é feita sob sigilo pelo Núncio Apostólico, representante diplomático da Santa Sé. Ele envia a Roma uma lista tríplice, depois de consultar os titulares de dioceses da região em que o escolhido vai servir.  

Esta é outra reivindicação antiga daqueles que não se conformam e não aceitam os parâmetros que o Papa e a Santa Sé utilizam para escolher os Bispos. Acontece que esta escolha é prerrogativa absoluta do Papa e ele se assessora muito bem com os cardeais e  com o Núncio Apostólico de cada país e com o Congregação dos bispos, e com a  Congregação do Clero, cujo Prefeito é o cardeal brasileiro D. Cláudio Hummes.  

O Papa é bem assessorado e informado, e pode fazer as escolhas dos padres a serem ordenados Bispos, segundo os critérios que acha corretos e convenientes para a Igreja. Não há que se contestar isso. Onde pode haver “falta de transparência” nisso? Esta desconfiança não é boa dentro do clero. Creio que de nossa parte, leigos  e clero, cabe receber com alegria e ação de graças as nomeações dos novos bispos, ainda que não seja segundo as nossas preferências. Agir de maneira diferente me parece faltar com respeito ao Papa e à Santa Sé. A crise da Igreja passa também pelo clero.  

Os representantes dos Presbíteros pedirão também à Santa Sé “orientações mais seguras e definidas sobre o acompanhamento pastoral de casais de segunda união”, os católicos que se divorciaram e tornaram a se casar.  

Mas esta orientação também é muito clara para toda a Igreja; basta ler o que diz a “Familiaris Consortio” em seu n. 84 e o Catecismo da Igreja em seu § 1651:

“São numerosos hoje, em muitos países, os católicos que recorrem ao divórcio segundo as leis civis e que contraem civicamente uma nova união. A Igreja, por fidelidade à palavra de Jesus Cristo (“Todo aquele que repudiar sua mulher e desposar outra comete adultério contra a primeira; e se essa repudiar seu marido e desposar outro comete adultério”: Mc 10,11-12), afirma que não pode reconhecer como válida uma nova união, se o primeiro casamento foi válido. Se os divorciados tornam a casar-se no civil, ficam numa situação que contraria objetivamente a lei de Deus. Portanto, não podem ter acesso à comunhão eucarística enquanto perdurar esta situação. Pela mesma razão não podem exercer certas responsabilidades eclesiais. A reconciliação pelo sacramento da Penitência só pode ser concedida aos que se mostram arrependidos por haver violado o sinal da aliança e da fidelidade a Cristo e se comprometem a viver numa continência completa.” 

Penso que o Magistério já deixou bem claro este assunto, sem que nada haja de difícil de se entender. Basta aplicar o que já foi estabelecido pela autoridade da Igreja.   

 Os representantes dos Presbíteros reivindicam ainda que a Congregação para a Causa dos Santos encaminhe “os processos de beatificação e de canonização de padres e bispos brasileiros que seriam de grande estímulo para a vida e o ministério presbiteral”. Entre outros candidatos a santo, o texto cita Padre Cícero Romão Batista, d. Hélder Câmara e d. Luciano Mendes de Almeida.  

Ora, as normas para os processos de Beatificação são bem claros e foram recentemente atualizados pela Santa Sé; logo, basta cumprir esses trâmites diocesanos e depois no Vaticano. O caminho já está aberto para todos.    Não há como não discordar dos termos desse documento dos representantes dos Presbíteros uma vez que tocam em pontos já  muito debatidos e bem esclarecidos pela autoridade da Igreja. A reincidência no debate desses assuntos mostra uma não aceitação do que está em vigor; e isto não é bom para a Igreja.  

É bom sempre lembrar que a Igreja não é simplesmente uma “democracia” (governo do povo); é muito mais que isso; é uma Instituição divina, o próprio Corpo Místico de Cristo, Sacrametno Universal da Salvação, confiada por Cristo a Pedro e aos Apóstolos (Lc 10,16; Mt 16,18; 18,18). 

Prof. Felipe Aquino – www.cleofas.com.br