Braço a braço com Deus

Arquivado em: D. Estevão — Prof. Felipe Aquino at 3:05 pm on Sexta-feira, Outubro 19, 2007

Dom Estevão Bettencourt, OSB

Revista Pergunte e Responderemos – Ano XLVII – Outubro 2007 – nº 544

Em síntese: A revista VEJA de 27/6/07 apresenta quatro livros de ateus estrangeiros que têm sido amplamente difundidos, ridicularizando a Religião. O presente artigo procura demonstrar a inconsistência dos argumentos em prol do ateísmo.

O episódio de 11 de setembro 2002 e o surto religioso que o acompa­nhou sob diversas modalidades, têm provocado a réplica de ateus, que vêm publicando obras que combatem a fé como grande ilusão ou maluqui­ce infantil ou ainda fator alienante ultrapassado, diz-nos a revista VEJA de 27/6/07: são citados quatro autores de escritos ateus: o biólogo inglês Richard Dawkins, o filósofo americano Dennett, o jornalista inglês Christopher Hitchens e o filósofo francês Michel Onfray. Vamos, a seguir, transmitir as principais sentenças desses pensadores e propor-Ihes uma resposta.

1. Que dizem os ateus?

Eis algumas das afirmações mais características de tais pensadores:

“O mundo seria melhor sem Deus” (Dawkins, Onfraye Hitchens). “Mesmo um ateu pode e deve cultivar valores sagrados como a verdade, o amor, a democracia”.

“Uma vida sem Deus tampouco precisa ser vazia de sentido, como bem demonstrou o filósofo inglês Bertrand Russe: “Acredito que, quando eu morrer, irei apodrecer e nada do meu ego sobrevivera. Mas me recuso a tremer de terror diante da minha aniquilação. A felicidade não é menos feliz porque deve devem chegar a um fim, nem o pensamento e o amor perdem seu valor porque não são eternos’” (Dennett).

“A existência de Deus não pode ser comprovada nem tampouco há como a negar…

Dawkins admite que é impossível negar Deus, mas nem por isso ateísmo e teísmo são hipóteses equivalentes. A evolução parte de elementos simples para chegar a formas complexas como o olho ou o cérebro humano. A hipótese teísta seria uma inversão dessa lógica: colo­ca uma inteligência complexa como origem de todo o universo. Não se trata, portanto, de dizer que Deus não existe; ele seria apenas muito, muito improvável”.

Em relação ao Catolicismo a agressão é muito violenta:

“Santíssima Trindade é acompanhada pela Virgem Maria, uma deusa de fato, embora não seja chamada assim. O panteão católico é inflado ainda pelos santos, que, se não são semideuses, têm poderes de intercessão em áreas especializadas que incluem dores abdominais, anorexia, desordens intestinais. O que me impressiona na mitologia cató­lica é não só a sua qualidade kitsch, mas também a falta de vergonha com que essa gente fabrica as coisas no andar da carruagem. É tudo despu­doradamente inventado”.

Richard Dawkins, biólogo inglês, em The God Delusion Frente ao Antigo Testamento:

“Nem é preciso dizer que nenhum dos eventos repulsivos e desordenados que o Êxodo narra aconteceu. Não houve fuga do Egito, nem peregrinação pelo deserto, e nem a conquista dramática da Terra Prometida - (. . .) os horrores e crueldades e loucuras do Velho Testamen­to. E quem - a não ser por sacerdotes antigos que exercem o poder atra­vés do método consagrado da imposição do terror - poderia desejar que esse novelo emaranhado de fábulas seja verdadeiro?”

Christopher Hitchens, jornalista americano em God Is Not Great

2. Que respondem os cristãos?

1. O mundo seria melhor sem Deus .. ,”

Os ateus talvez digam isto impressionados pelas guerras de Religião ocorrentes na história da humanidade.

A respeito observamos:

Para os antigos, era, muitas vezes, dever de consciência empreen­der uma guerra para salvaguardar valores religiosos. Tal era a importância que atribuíam à fé. - Hoje em dia já não se pensa assim. Mas não se podem julgar os antepassados segundo categorias de pensamento que eles não tinham nem podiam ter. Ao cristão é necessário defender as verdades da fé, sem, porém, chegar ao recurso das armas.

Feita esta ponderação, devemos dizer que a religião, além de ser culto a Deus, é um fator morigerante ou educativo de alto valor. Muitos são aqueles e aquelas que, após uma vida devassa e desesperadora, se voltam para a Religião e se tornam novas criaturas. Nada há de mais poderoso do que a Religião para motivar feitos heróicos. Por isto o mundo não seria melhor sem religião.

O ateu pode ser uma pessoa moralmente honesta e digna, porque em seu íntimo existe a lei natural com seus ditames: “Não matar, não roubar, não caluniar”. Mas é bem difícil sustentar essa bondade natural, tal é a força das paixões que habitam no coração humano ou que o atraem no seu ambiente de vida. Sartre dizia: “Se Deus não existe, tudo é permitido; sou carrasco ou açougueiro”. Na verdade, se Deus não existe, nada há acima do homem que o obrigue a determinado procedimento ou lho proíba; cada qual fará seu código de Ética, de acordo com suas conveniências. “Cada um na sua’, como proclamam os existencialistas. O cidadão será carrasco ou açougueiro, de acordo com os referenciais do momento. Acontece, porém, que o homem foi feito para o Absoluto e não consegue viver plenamente sem tal parâmetro transcendental.

2. “Quando eu morrer, apodrecerei e nada ficará de mim”

Estas são palavras que contrariam a aspiração natural do ser humano à Vida, à Verdade, ao Amor… Bem dizia S. Agostinho: “Senhor, Tu nos fizeste para Ti, e inquieto é o nosso coração enquanto não repousa em Ti”. A morte é um corte, se não há continuidade no além, deixa o homem frustrado no que ele tem de mais autêntico e legítimo: o anseio de viver, de conhecer a Verdade, de experimentar o Amor, a Bondade, a Justiça …

Bertrand Russell afirma que a felicidade, por ser finita, não deixa de ser felicidade … Sim, ainda é felicidade, mas chorosa em seu íntimo, pois todo ser humano tem sede de Bem (aventurança) sem limites. Quem teria coragem para dizer “Não” a uma alegria sadia e reconfortante? Por que será necessário dar-lhe um fim?

3. Prova-se ou não a existência de Deus?

A sã filosofia (não só a Teologia) prova que Deus existe, pois todo relógio supõe um relojoeiro ou, em linguagem mais erudita: todo ser contin­gente (que existe, mas poderia não existir) requer uma causa que tenha feito passar do não-existir para o existir. O mundo, complexo como é, desde a bactéria até o olho e o cérebro humanos, não pode ser produto do acaso.

Se não tem causa, o mundo é eterno, é o próprio Deus - o que não condiz com a volubilidade das criaturas passageiras deste mundo. É preciso que exista um Ser Supremo, sumamente inteligente e poderoso, que tenha dado origem à matéria que evoluiu após o bíg bang. Não é lógico admitir que Deus seja muito, muito improvável, como diz o ateu.

Em geral os ateus não tocam na questão da origem da matéria primordial, pois essa temática leva a descobrir Deus, limitam-se a explicar a origem da vida sem Deus - o que é aceitável para os graus da vida vegetativa e da sensitiva, não para a vida intelectiva, que supõe uma alma espiritual, especialmente criada por Deus.

Ocorre porém que um cientista não pode furtar-se a uma questão atinente à sua área de trabalho, como é a questão da origem da matéria inicial: A verdadeira ciência não tem medo da verdade.

4. O “panteão católico”

Richard Darkins caricatura a mensagem católica para zombar da mesma.

o Catolicismo está longe de considerar Maria Santíssima “a mais bendita de todas as mulheres”, como uma deusa. Atribui-se-lhe profunda estima e veneração, por ter concebido Deus Filho em seu seio, jamais, porém adoração.

Os Santos não são semideuses, mas criaturas que correram o pá­reo com grande êxito, e hoje junto a Deus continuam a interceder por nós, como nós intercedemos por nossos irmãos necessitados aqui neste mun­do. A morte não rompe a comunhão ou solidariedade existente entre os filhos de Deus. A piedade popular pode ter exagerado o papel dos Santos na vida católica; assim fazendo, não é representativa do pensamento ca­tólico. Este professa que há um só Mediador entre Deus e os homens, Mediador que quer comunicar sua obra mediadora aos justos para que pela oração colaborem com Cristo na salvação dos seus semelhantes.

Acusam a Igreja de se envolver em assuntos de ordem temporal ou material, como casamento, sexo, experiências científicas … , quando ela deveria ficar no plano meramente espiritual sem interferência na vida pú­blica dos homens. - Em resposta, notamos que o ser humano é psicossomático; tem uma alma espiritual que vive num corpo e num mun­do materiais, de modo que as questões de índole material importam à Igreja na medida em que são ou não são conformes à lei de Deus. É somente o ponto de vista ético que a Igreja atinge.

5. O Antigo Testamento

Michel Onfray zombeteia acerca da história do Antigo Testamento como nenhum cientista faria. Revela não ter estudado o assunto, de modo que fala levianamente, em contraste com sua veia filosófica.

Fazendo contraparte a todo o ceticismo ateu, que extingue o senso místico de todo ser humano, publicamos, a seguir, bela página de Santo Agostinho, que escreve em nome do que há de mais íntimo dentro de cada um de nós.

6. Em contraste: Santo Agostinho

“Ninguém vem a Mim, senão aquele que é atraído por meu Pai. Não julgues que és atraído contra a tua vontade: a alma também é atraída pelo amor. Não devemos temer a censura que, por causa destas palavras evan­gélicas da Sagrada Escritura, poderiam dirigir-nos alguns homens, que pesam materialmente as palavras, mas estão muito longe de compreender o verdadeiro sentido das coisas divinas. Poderiam dizer-nos “Como posso acreditar livremente, se sou atraído?”. E eu respondo: “Parece-me pouco dizer que somos atraídos livremente: é com prazer que sentimos a força dessa atração”.

Que significa ser atraído com prazer Põe as tuas delícias no Se­nhor e Ele satisfará os anseias do teu coração. Trata-se de um certo ape­tite da alma que nos torna saboroso pão do céu. Se o poeta pôde dizer:

“Cada um é atraído pelo próprio apetite”, não pela necessidade, mas pelo prazer, não pela obrigação, mas pelo gosto, não poderíamos dizer nós com maior razão, que o homem é atraído para Cristo, porque põe as suas delicias na verdade, na bem-aventurança, na justiça, na vida eterna, e sabe que Cristo é tudo isto?

Acaso terão os sentidos corporais os seus prazeres, sem que o es­pírito tenha também os seus? Se o espírito não pode experimentar as suas delícias, por que se diz no salmo: À sombra das vossas asas se refugiam os homens? Podem saciar-se da abundância da vossa casa e vós os inebriais com a torrente das vossas delícias. Em Vós está a fonte da vida e é na vossa luz que veremos a luz.

Apresenta-me alguém que ame e compreenderá o que afirmo. Apre­senta-me alguém que deseje, que tenha fome, que se sinta peregrino e exilado neste deserto, que tenha sede e suspire pela fonte da pátria eterna; apresenta-me um destes homens e compreenderá o que digo. Mas se falo a um coração frio, esse não pode compreender nada do que estou a dizer.

Se as delícias e os gostos terrenos, quando se oferecem a quem os ama, exercem tão forte atração, porque “cada um é atraído pelo próprio apetite”, como não há de atrair-nos o amor de Cristo, que é a revelação do Pai? Que pode a alma desejar mais ardentemente que a verdade? De que outra coisa pode sentir-se o homem mais faminto? Para que deseja ele ter são o paladar interior senão para discernir a verdade, para comer e beber a sabedoria, a justiça, a verdade, a eternidade?

Diz o Senhor: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, cá na terra, porque serão saciados, lá no céu”. Dou-Ihes o que amam; dou-Ihes o que esperam; verão aquilo em que acreditaram sem ver; comerão e serão saciados com aqueles bens de que tiveram fome e sede. Onde? Na ressurreição dos mortos, porque Eu os ressuscitarei no último dia”.

Sem dúvida, a volúpia de que fala S. Agostinho é mais valiosa do que o vazio apregoado pelo ateísmo.

“Todo homem tem dentro de si um vazio do tamanho de Deus”. (Dostoievski)

O caso Jon Sobrino

Arquivado em: D. Estevão, Teologia — Prof. Felipe Aquino at 2:15 pm on Terça-feira, Julho 24, 2007

D. Estevão Bettencourt, OSB

Revista “Pergunte e Responderemos”

Ano XLVII - Julho 2007 – nº 541

Em síntese: As obras teológicas do Pe. Jon Sobrino contêm afirma­ções que não se coadunam com a fé professada pela Igreja. Daí uma Notificação da Congregação para a Doutrina da Fé, que aponta seis mo­mentos em que se dá a dissonância: 1) Pressupostos metodológicos; 2) A Divindade de Jesus Cristo; 3) A Encarnação do Filho de Deus; 4) A rela­ção entre Jesus Cristo e o Reino de Deus; 5) A autoconsciência de Jesus; 6) O valor salvífico da morte de Jesus.

Jon Sobrino é um jesuíta, teólogo espanhol, que mora em EI Salva­dor (América Central). É um dos mais exponenciais autores da Teologia da Libertação. Escreveu várias obras, cujo conteúdo contraria a doutrina católica. Em conseqüência, em outubro de 2001 começou um processo da Congregação para a Doutrina da Fé a fim de averiguar os pontos dis­cutíveis e ouvir a respeito o autor. Visto que este, repetidamente interro­gado, manteve suas concepções, a mesma Congregação houve por bem publicar uma Notificação, que explica ao público o que é inaceitável nas obras do teólogo. O povo de Deus tem o direito de saber exatamente o que a fé católica professa, e à Igreja toca o dever de lho indicar com exatidão.

Vamos, a seguir, expor os seis pontos de Jon Sobrino censurados pela Igreja, que é Mãe e Mestra.

1. Pressupostos metodológicos

“A Cristologia latino-americana determina que o seu lugar são os pobres deste mundo” (Jesu Cristo libertador). Isto quer dizer que a Cristologia tem que ser cultivada na ótica dos pobres ou tomando como referencial permanente a categoria dos pobres - o que traz conotações políticas. O teólogo professa aprofundar a fé que a Igreja ensina a todos os fiéis, sejam ricos, sejam pobres. Toca à Doutrina Social da Igreja enca­rar os problemas de ordem social.

Sobrino, além disto, julga que os grandes Concílios da Igreja antiga se afastaram progressivamente do conteúdo do Novo Testamento. - A propósito deve-se notar que os quatro primeiros Concílios da Igreja (Nicéia I 325; Constantinopla I 381; Efeso 431 e Calcedônia 451) utilizaram con­ceitos e vocábulos da cultura do seu tempo, não para se conformar a essa cultura; não foi uma helenização do Cristianismo, mas precisamente o contrário. O progresso da mensagem cristã fez que a cultura grega sofresse, e uma transformação, tornando-se instrumento para a defesa dq ver­dade bíblica.

2. A Divindade de Jesus Cristo

Sobrino afirma que nos primeiros tempos não se falava de Jesus como Deus. Esta concepção provavelmente só apareceu após a queda de Jerusalém em 70.

A propósito, porém, podem-se citar passagens do Novo Testamento que professam a Divindade de Jesus; assim Jo 1, 1; 20, 28; 1 Ts 1, 10; FI 2, 5­11; 1 Cor 12, 3; Rm 1, 3s; 10,9; CI 2, 9 … 1. Os escritores e Concílios da Igreja continuaram a professar esta mesma fé. Sobrino porém replica que no Novo Testamento se tratava de uma fé em gérmen e não explícita, A réplica não resiste à evidência dos textos citados do Novo Testamento. A confissão da Divindade de Jesus Cristo é um ponto essencial da fé da Igreja desde as suas origens, ponto este que o Novo Testamento professa claramente.

3. A Encarnação do Filho de Deus

“O Filho faz a experiência da humanidade, da vida, do destino e da morte de Jesus”, escreve Sobrino em Jesucristo, p. 308.

O autor assim estabelece uma distinção entre o Filho e Jesus, que leva a pensar na existência de dois sujeitos em Cristo: o Filho e a realida­de de Jesus; o Filho faz a experiência do humano existente em Jesus. Não se saberia dizer com firmeza que o Filho é Jesus e Jesus é o Filho. Isto renova a heresia antiga do homo assumptus (homem assumido).

Outra é a fé da Igreja formulada pelo Concílio de Calcedônia nos seguintes termos: “Ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho Senhor nosso Jesus Cristo, perfeito na divindade e perfeito na hu­manidade; verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, de alma racional e corpo, consubstancial ao Pai segundo a Divindade e consubstancial a nós conforme a humanidade”.

Dessa noção de Encarnação resulta o que se chama “communicatio idiomatum” (comunicação de propriedades), ou seja, a possibilidade de atribuir as propriedades da humanidade à Divindade, e vice-versa. Pode-se dizer: “Jesus, como Deus, ressuscitou Lázaro” e “Jesus, como homem, mor­reu na Cruz”. Há um só sujeito de tudo que Jesus faz; tal sujeito é Deus Filho que age ora através do poder divino, ora através da fragilidade humana.

Ora Sobrino destoa desta concepção ao dizer: “A compreensão adequada da comunicação de propriedades é a seguinte: o humano, limi­tado como é, pode ser atribuído a Deus, mas o Divino, ilimitado como é, não pode ser atribuído a Jesus” (La fe, p. 408).

Em Cristo há uma só Pessoa, um só sujeito e duas naturezas (a divina e a humana). Tal é a fé da Igreja.

4. Jesus Cristo é o Reino de Deus

Jon Sobrino considera o Reino de Deus como algo distinto do pró­prio Jesus.

O autor distingue entre mediador e mediação com certa sutileza. - Ora a fé da Igreja ensina que Jesus é o próprio Reino de Deus inaugurado na terra. Não basta atribuir a Jesus uma certa intimidade com o Reino. Jesus Cristo e o Reino se identificam na pessoa de Jesus: nele o Reino já se faz presente. O Reino de Deus não é um conceito, uma dou­trina, um programa, mas é, acima de tudo, uma Pessoa que tem o nome e o rosto de Jesus de Nazaré, imagem de Deus Invisível.

Pode e deve dizer-se que Jesus Cristo tem, para o gênero humano e para a sua história, um significado e um valor singulares e únicos, só a Ele próprios, exclusivos, universais e absolutos. Jesus é de fato o Verbo de Deus feito homem para a salvação de todos.

5. A autoconsciência de Jesus Cristo

Segundo Sobrino, Jesus foi um crente extraordinário, a fé foi a artéria central de toda a vida de Jesus; Ele teve fé como qualquer outro ser humano.

A estas afirmações respondemos, citando textos do Novo Testa­mento, como Mt 11,25-27, em que se lê:

“Tudo me foi dado por meu Pai, e ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai a não ser o Filho e aquele a quem o Filho O quiser revelar” (cf. Lc 10, 21s).

Os Evangelhos manifestam a única e singular intimidade de Jesus com o Pai.

Jesus, Filho de Deus feito carne, tem um conhecimento oriundo e imediato do seu Pai, ou seja, uma visão que vai além dos parâmetros da

fé. A união hipostática e a sua missão de Mestre e Redentor requerem a visão do Pai e o conhecimento do seu plano de salvação. É o que indicam os textos do Evangelho.

Se Jesus fosse um crente como nós, não poderia introduzir os ho­mens no mistério do amor divino. Para cumprir sua missão, ele necessita­va da intimidade com o Pai, que decorria do conhecimento direto e imedi­ato do Pai.

6. O valor salvífico da morte de Jesus

Segundo Sobrino, Jesus não atribuiu à sua morte um valor salvífico.

Foram os escritores do Novo Testamento que lhe deram o valor de sacri­fício expiatório, satisfação vigária (em favor dos homens). A morte de Jesus tem apenas um valor moral, isto é, vem a ser um exemplo de cora­gem e coerência para todos os homens. Esse exemplo eloqüente deve atrair os homens à entrega total ao Pai.

Ora quem assim escreve, não está levando em conta os textos do Novo Testamento em que o próprio Jesus atribui à sua morte um valor redentor e expiatório. Tenha-se em vista, por exemplo, Mc 10, 45:

“O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”.

Nas fórmulas de instituição da S. Eucaristia ressoa o mesmo moti­vo da expiação salvífica. Assim em Lc 22, 19s:

“Isto é o meu corpo, que é dado por vós … Este cálice é a nova Aliança em meu sangue, que é derramado em favor de vós”; Ct. Mt 26,26­28; Mc 14, 23s; 1Cor 11, 23-25.

Com outras palavras: Jesus não foi somente causa exemplar, mas foi também causa eficiente da nossa salvação. O Concílio de Trento (séc. XVI), retomando palavras de São Paulo, declara: “A Ele (Cristo) propôs Deus como Propiciador pela fé no seu sangue (Rm 3, 25) pelos nossos pecados, e não só pelos nossos, mas pelos do mundo inteiro (1 Jo 2, 2)”.

O Catecismo da Igreja Católica diz por sua vez:

“Este plano divino de salvação pela entrega à morte do Servo, o Justo, tinha sido de antemão anunciado nas Escrituras como um mistério de redenção universal, ou seja, de resgate que liberta os homens da es­cravidão do pecado” (nQ 60i).

Conclusão

A Conclusão da Notificação propõe em síntese o papel do teólogo católico.

A Teologia é a fé que procura compreender. Por conseguinte o teó­logo parte da fé da Igreja e procura aprofundá-Ia. Essa fé da Igreja leva em conta os dados da Revelação, que valem igualmente para ricos e pobres de maneira objetiva e imparcial. Portanto não é determinada por alguma categoria social que oriente o trabalho do teólogo:

A investigação teológica dará frutos tanto mais abundantes, para o bem de todo o povo de Deus e de toda a humanidade quanto mais se inserir na corrente viva que, graças à ação do Espírito Santo, procede dos Apósto­los e foi enriquecida pela reflexão das gerações que nos precederam.

Até aqui vai o texto da Notificação. Deus julgará a consciência de Jon Sobrino. O que interessa à Igreja no seu pronunciamento sobre as obras dele, é esclarecer o povo de Deus, a fim de que este não tome o erro por verdade e guarde a pureza da fé. Referindo-se às heresias, São Paulo utiliza eloqüente comparação: “A palavra deles (hereges) é como uma gangrena que corrói” (2Tm 2, 17). A heresia é gangrena!

Tal Notificação foi assinada aos 13 de outubro de 2006 pelo Cardeal Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé William Levada, com a aprovação do Papa Bento XVI.

 

1 Eis alguns textos mais significativos:

Jo 1, 1: “No princípio era o Lagos e o Lagos era Deus … O Lagos se fez carne e habitou entre nós”.

Jo 20, 28: Tomé exclama: “Meu Senhor e meu Deus!”.

FI 2, 65: “Ele (Jesus Cristo) tinha a condição divina e não considerou o ser igual a Deus como algo a que se apegar ciosamente. Mas esvaziou-se a si mesmo e assu­miu a condição de servo, tomando a condição humana”,

C12, 9: “Em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da Divindade”. Mt 16, 16: ‘Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!”.