No primeiro aniversário de falecimento de Dom Manoel Pestana Filho (+ 08 de janeiro de 2011), reproduzimos a exclusiva – e, do que é de nosso conhecimento, a última – entrevista concedida por ele ao Fratres in Unum e que foi ao ar em 23 de novembro de 2010.

* * *

Excelência Reverendíssima, primeiramente, obrigado por ter atendido a nosso pedido. O senhor louvou a atitude de certos bispos em falar abertamente contra candidatos que defendem posições contrárias à Lei de Deus. Por que raríssimos membros do episcopado se pronunciaram de maneira enérgica durante as eleições?

Dom Manoel Pestana Filho, bispo emérito de Anápolis (Goiás)

Agradeço-lhes a confiança e as orações. Entretanto devo confessar que não me sinto juiz de meus irmãos. Sei que muitos apelam, com sinceridade ou sem ela, não julgo, que a prudência deve acompanhar todos os nossos passos. Reconheço, no entanto, como dizia o Cardeal Pie, que há uma prudência que nos mata. Não ladramos, quando seria necessário, para defender o rebanho. E, hoje, muito menos, quando é hora de morder, para afastar o inimigo.

Alguns regionais da CNBB publicaram instruções aos fiéis para as eleições passadas, sem, no entanto, condenar de maneira enfática os projetos daquela que o Papa João Paulo II qualificou como “cultura de morte”. Por que tanta tibieza por parte da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil?

Volto a dizer que não sou juiz da consciência dos meus irmãos. Mas sou obrigado a reconhecer, com Leão XIII, que a covardia dos bons, (se é que são bons os covardes) alimenta a audácia dos maus. Não sou ninguém para condenar, pois o mesmo Dante colocou alguns, não dentro, mas às portas do inferno. E observou: não perca tempo com eles: olhe e segue adiante.

Excelência, como o senhor avalia a situação da Igreja com todas as dificuldades do pós-concílio?

Na Revista Italiana Cristianitá (nº 346 – marzo-aprile 2008 pag 3), Massimo Introvigne faz uma recensão de “Roma, due del mattino”, de Mons. Helder Câmara, citando o autor, quando diz que as imprecisões dos textos conciliares serão explicadas depois, abrindo-se assim a porta ao Concílio Vaticano III que aprovará, certamente, entre outras coisas, diz ele, os anticoncepcionais e o sacerdócio das mulheres. É apenas um exemplo para a afirmação de que uma coisa é o que se disse no Concílio e, pior, o que se disse do Concílio, e o que o Concílio disse. Infelizmente, muitos se aproveitaram do “espírito” do Concílio para espalhar o que ele não disse. Graças a Deus e à sua providência que não falha, o Santo Padre Bento XVI vem luminosamente corrigindo os desvios.

A obra de Monsenhor Brunero Gherardini – Concilio Ecumenico Vaticano II, un discorso da fare – levanta questões importantes e julga necessário um debate sobre os textos do Concílio Vaticano II. O senhor considera possível tal discussão nas circunstâncias atuais?

Certamente. E, o Santo Padre, em suas homilias e documentos, de clareza incomparável, deixa o campo aberto, apesar das ruínas lamentáveis nas áreas da Teologia e da Liturgia, a uma renovação do Espírito.

Qual a relação entre a mensagem de Fátima e o Concílio Vaticano II?

Lamentavelmente, o ambiente conturbado não permitiu, explicam, a mínima referência à Rússia e a condenação expressa do comunismo. Ora, isto era, até como condição de tempos melhores, expressamente pedido pela mensagem de Fátima.

Seria possível dizer que o Concílio Vaticano II é responsável pela crise em que vivemos hoje?

Não pelo Concílio, mas pelo que, desgraçadamente, se fez dele.

O então Cardeal Eugenio Pacelli disse, certa vez, que na mensagem de Fátima a Santíssima Virgem alertava para o perigo da mudança no culto da Igreja. A mensagem de Fátima alertava sobre a reforma litúrgica? Que avaliação fazer dela?

Não me consta nenhuma referência clara à Liturgia na mensagem de Fátima. Mas, como se sabe, de tempos imemoriais, que a liturgia expressa a fé e a revela (é só pensar no Arianismo e no abalo da fé na Eucaristia que tantos abusos litúrgicos causaram), e levando-se em conta a confissão de lamentáveis manobras de Mons. Bugnini, em acolhida a sugestões do Grão Mestre da Maçonaria Italiana, não se pode negar que a Liturgia, objeto do primeiro documento solene, foi gravemente comprometida por assessores conciliares.

A consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria já foi realizada?

É ainda assunto de muitas divergências, mas creio que o que se fez até agora não leva em conta as principais exigências do pedido de Maria. Entretanto, continuo confiando na sua promessa: “Por fim, meu Imaculado Coração triunfará”.

A próxima Campanha da Fraternidade tratará do problema do meio ambiente, relegando ao ostracismo as verdades da nossa fé católica para tratar da “mãe terra” e da ideologia ecológica hoje em voga. O que pensar sobre tais campanhas?

Penso que algumas, mais do que às necessidades inadiáveis dos nossos fiéis, curvaram-se às tendências ou até exigências dos chamados meios de comunicação. Em certos casos, é mesmo gritante o desgaste de tempo, comissões, entrevistas e recursos para temas que não trouxeram nada de relevante para a nossa vida eclesial e até cívica, deixando a autêntica evangelização e formação religiosa em quase abandono.

Por fim, Excelência, fique à vontade para dirigir a nossos leitores uma mensagem final.

Dom Manoel Pestana com o fundador dos Franciscanos da Imaculada, Pe. Stefano Manelli; a ordem foi a responsável pela publicação da obra de Mons. Brunero Gherardini.

Que posso dizer, uma voz quase a extinguir-se, no meio da cultura do barulho, que pouco permite o silêncio necessário para ouvir e entender? Nós, católicos, precisaríamos conhecer, de fato, cada vez mais a nossa religião, que não é apenas uma entre tantas. Jesus disse:

“Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja.”

“Os poderes da morte e do inferno não hão de derrubá-la.”

“Eu estarei convosco até a consumação dos séculos.”

Nossas igrejas terão sempre, enquanto permitirmos, Alguém à espera dos abalados na fé, dos que perderam a esperança e o rumo na vida, para confiar-nos, a qualquer momento, sem cansar: “Eu sou o Caminho (para os perdidos), a Verdade (para os enganados), a Vida (para os agonizantes, à falta de Amor e solidariedade).

Enquanto a luz do sacrário estiver acesa, sabemos que Alguém nos espera. Não estamos sozinhos. E podemos ajudar, com a graça do Senhor, a salvar os irmãos!

Fonte:
http://fratresinunum.com/2012/01/08/dom-pestana-8-de-janeiro-de-2011-rip-a-ultima-entrevista-enquanto-a-luz-do-sacrario-estiver-acesa-sabemos-que-alguem-nos-espera/

Entrevista com Dom Mariusz Frukacz, redator do semanário Niedziela

Por Antonio Gaspari

ROMA, sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011 (ZENIT.org) – Em 1º de maio, Bento XVI beatificará em Roma o seu predecessor, Karol Wojtyla.

Para ajudar a entender melhor as virtudes e a santidade de João Paulo II, ZENIT publicará diversos testemunhos de pessoas que o conheceram e conviveram com ele.

Começamos entrevistando Mariusz Frukacz, sacerdote da arquidiocese de Częstochowa, redator do semanário católico Niedziela e correspondente diocesano da Agência Católica de Informação.

ZENIT: A Polônia ficou submetida duramente ao regime soviético. O que significou para o povo a eleição de João Paulo II como papa?

Pe. Frukacz: Em 1978, quando o Card. Wojtyła foi eleito Pontífice com o nome de João Paulo II, a Polônia estava esmagada pelo regime comunista. A eleição de João Paulo II, o primeiro Pontífice eslavo, teve uma grande relevância não só para a Polônia, mas para toda a Europa central e oriental. O povo na Polônia, mas também nos outros países submetidos ao regime soviético, vislumbrou, além da grande alegria, também o espírito da liberdade. João Paulo II trouxe consigo a fidelidade ao Evangelho e a coragem da fé na verdade. Para mim, as palavras “Não tenham medo, escancarem as portas para Cristo” deram vida às mudanças da época na Polônia e em toda a Europa. A eleição de João Paulo II significou o início da primavera da liberdade. A eleição daquele Pontífice deu ao povo polonês a força espiritual e moral para passar da resistência contra a injustiça para a vitória do bem sobre o mal. João Paulo II deu a largada para a revolução espiritual e moral na Polônia e nos outros países da Europa central e oriental.

ZENIT: É verdade que os russos não invadiram a Polônia porque Wojtyla era o Papa?

Pe. Frukacz: Esta pergunta não tem uma resposta simples. Ainda não conhecemos todos os documentos do regime comunista, e pouco se sabe do período em que o general Wojciech Jaruzelski instaurou o estado de guerra, em que foram suspensos os direitos civis, em que os ativistas do Solidarność foram presos. Eu acho que alguns historiadores têm razão quando escrevem que os russos não invadiram a Polônia porque não queriam repetir a situação de 1968, quando invadiram a Tchecoslováquia. O general Wojciech Jaruzelski afirma que no dia 13 de dezembro de 1981 teve que instaurar o estado de guerra na Polônia porque, se não, os russos teriam invadido o país. Hoje sabemos que Jaruzelski não falou a verdade. Do ponto de vista de alguns documentos e com base em testemunhos, os historiadores da Polônia sustentam que o regime comunista, em especial Leonid Brezniev, o primeiro-secretário do partido comunista da União Soviética, queria que o general Jaruzelski e o regime comunista na Polônia resolvessem o problema do Solidarność com suas próprias forças. Sabemos também que, durante o estado de guerra na Polônia, João Paulo II mantinha estreitos contatos diplomáticos com o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, e que escreveu a Leonid Breżniev para convencê-lo a não invadir a Polônia. Apesar disso, não podemos dizer com suficiente certeza que os russos não invadiram a Polônia porque o Card. Wojtyla era Papa.

ZENIT: O nazismo, primeiro, e o comunismo, depois, tentaram arrancar as raízes cristãs e apagar a fé católica do povo polonês. Por que não conseguiram?

Pe. Frukacz: É verdade que o nazismo e o comunismo tentaram arrancar as raízes cristãs e apagar a fé católica do povo polonês. E não conseguiram. Penso que o recurso decisivo que salvou a fé católica foram as famílias polonesas, que respeitaram e transmitiram aos filhos o patrimônio espiritual das gerações precedentes. Nas famílias cristãs polonesas, durante o regime nazista e depois no comunista, era vivo e forte o vínculo da fé com a cultura cristã e a cultura nacional. Para o povo polaco, a fé tem a sua importância também na vida social. Não é uma coisa privada. A fé tem uma dimensão social e nacional. Para os polacos, a fé é vinculada ao patriotismo verdadeiro, que é amor por Deus e pela Pátria.

Acho também que um grande papel para manter fortes as raízes cristãs na sociedade polaca foi desempenhado pelos movimentos e associações cristãs, como o Movimento Luz e Vida, do Servo de Deus Franciszek Blachnicki. Também teve muita importância o Clube da Inteligência Católica, a pastoral acadêmica e as semanas da cultura cristã, quando os artistas apresentavam e transmitiam nas igrejas a cultura e a literatura nacional para os fiéis.

Outro papel-chave foi do Card. Stefan Wyszyński, Primaz do Milênio. Foi ele que organizou os “Votos de Jasna Góra” em 1956, a novena pelos mil anos do cristianismo na Polônia (1957-1966). O Card. Wyszyński aprofundou e difundiu a “Teologia da Nação” para reforçar a identidade católica dos poloneses. João Paulo II também testemunhou a relevância e a grandeza da figura de Wyszyński quando disse: “Não teria havido um Pontífice polaco no trono de Pedro se não fosse pela fé do Card. Wyszyński”.

ZENIT: Primeiro a beatificação de Jerzy Popieluszko, agora a de Karol Wojtyla, dois heróis modernos. Existem muitos elementos comuns na coragem e no testemunho heroico de ambos. Pode ressaltá-los?

Pe. Frukacz: Claro, são muitos elementos comuns. O primeiro, eu considero, é a forte fé. O beato Popiełuszko e João Paulo II são homens de fé no sentido de total obediência a Deus. Os dois são também homens que realizaram na vida a verdadeira fidelidade ao Evangelho e aos valores cristãos. Em nome do Evangelho e do respeito aos valores cristãos na esfera da vida pública, eles defenderam os direitos humanos e a dignidade da pessoa humana. Os dois deram verdadeiro testemunho de Cristo até derramar o sangue. O beato Jerzy Popiełuszko foi morto pelos serviços secretos comunistas. João Paulo II sofreu um atentado na Praça de São Pedro no dia 13 de maio de 1981.

Don Popiełuszko e João Paulo II promoveram os direitos humanos, os direitos dos trabalhadores e a dignidade das pessoas humanas, tudo à luz do Evangelho. Para a Polônia e para o mundo inteiro, eles testemunharam a coragem, a fidelidade a Deus, à Cruz de Cristo e ao Evangelho, o amor por Deus e pela Pátria. Os dois representaram o patriotismo em sentido cristão, como virtude cultural e social. Acho que um elemento comum aos dois é a espiritualidade mariana e a confiança total em Maria. Para don Popiełuszko, o exemplo era São Maximiliano Kolbe, e para João Paulo II era São Luis Maria Grignion de Montfort.

ZENIT: O senhor conheceu e conviveu com Karol Wojtyla. Quais são, do seu ponto de vista, as qualidades singulares de João Paulo II?

Pe. Frukacz: Meu primeiro encontro com João Paulo II foi na viagem apostólica à Polônia, em junho de 1979. Eu tinha 8 anos. Me lembro bem da figura branca com os braços abertos. Me lembro do clima de alegria daqueles dias históricos. Me lembro também das lágrimas dos meus pais, especialmente do meu pai, Marian, que fazia parte do Solidarność. Nos anos seguintes, participei com os meus familiares nos outros encontros com João Paulo II em Jasna Góra e em Częstochowa, durante as viagens de 1983, 1987, 1991, 1997, 1999.

Muito importante também para a minha espiritualidade foi o encontro em agosto de 1991, quando João Paulo II veio abençoar o nosso Seminário Maior em Częstochowa. Eu estava no segundo ano. As palavras do papa me bateram muito quando ele disse: “Com dedicação total, própria da postura de Maria sob a Cruz… proclamar o Evangelho do Seu Filho e testemunhá-lo na vida, com generosidade, sem nenhum compromisso com o espírito deste mundo e sem medo nenhum”.

O Papa polaco foi um homem de oração. Está viva na minha alma a Missa que concelebrei com João Paulo II na capela privada do Palácio Apostólico, em 7 de setembro de 2000. Penso que João Paulo II foi um homem de genuína alegria cristã. Durante os meus estudos em Roma (2000-2007) pude encontrá-lo e falar com ele na época de Natal, e me lembro bem dele entoando conosco os cantos de Natal. Penso que João Paulo II foi um homem de grande amor ao próximo, a Cristo e à Igreja. Ele amava muito Maria, foi um homem do terço. Sempre trago comigo o terço que ele me deu.

ZENIT: Quantos poloneses virão a Roma para a beatificação de João Paulo II?

Don Frukacz: Não dá para dizer a quantidade certa, mas posso dizer que a Polônia toda está em movimento. A mídia polonesa diz que, para a beatificação de João Paulo II, virão a Roma mais de um milhão de peregrinos da Polônia.

Entrevista com o especialista Guillaume Anselin

Por Jesús Colina

ROMA, terça-feira, 1º de fevereiro de 2011 (ZENIT.org) – Verdade e autenticidade são o programa e o manual de instruções que Bento XVI oferece aos cristãos presentes na internet e nas redes sociais, explica Guillaume Anselin, especialista em comunicação de marcas e instituições.

Nesta entrevista, Anselin, que já trabalhou em cargos executivos de alguns dos mais importantes grupos de mídia, como McCann Erickson, Ogilvy e Publicis, comenta com ZENIT a mensagem que o Papa enviou por ocasião do Dia Mundial das Comunicações Sociais.

ZENIT: “As novas tecnologias não mudam apenas a maneira de se comunicar, mas a própria comunicação”, diz Bento XVI. Estamos diante de uma pós-cultura?

Guillaume Anselin: O Santo Padre assinalou que “criou uma nova forma de aprender e de pensar, bem como novas oportunidades para estabelecer relações e criar laços de comunhão”. Isto não só se refere ao canal internet, mas a uma nova “era digital”, sinal de uma nova cultura em que já entramos.

A era digital é uma sociedade de “tudo-comunicação”, permanentemente conectada, que redefine a relação individual com o mundo, com os outros e a maneira de consumir ou produzir informação. Nesta era “digital”, a informação circula principalmente através de “círculos sociais”, com o risco de dar mais crédito ao que está mais estendido (“popularizado” pelos “amigos” reais ou virtuais) que às fontes oficiais. O perigo é, obviamente, uma visão distorcida da realidade.

Implica também a abolição das fronteiras e distâncias, uma cultura da imagem ao invés da escrita, uma sociedade “de conversação”, na qual o conteúdo é o próprio objeto da conversa em grande escala.

É um fenômeno cultural inédito e recente: social, midiático, de informação imediata, que não deixa tempo para respirar, com suas comunidades de interesse e cerca de dois bilhões de pessoas online em todo o mundo. Basta lembrar que, há seis anos, Facebook, YouTube, Twitter, tão presentes em nossa vida diária, não existiam.

No caso de países de cultura midiática intensa, podemos falar efetivamente de pós-cultura, no sentido de uma mudança em direção a uma “sociedade digital”.

ZENIT: “Os jovens estão experimentando essa mudança na comunicação com todas as aspirações, as contradições e a criatividade daqueles que se abrem com entusiasmo e curiosidade às novas experiências de vida”, explica o Papa. Quais são os riscos e desafios disso?

Guillaume Anselin: A era digital implica, obviamente, em um salto geracional. A televisão dos nossos pais já não é a de hoje. Com o advento do “tudo multimídia”, há uma forte migração do público jovem para o mundo digital (internet, celular etc.). Amanhã haverá gerações inteiras que terão conhecido desde sempre o Facebook como o principal canal de proximidade para informar-se, falar ou encontrar-se.

A internet exerce um fascínio: nela temos um meio pessoal no qual eu posso construir a identidade que eu quiser, conter-me com os outros, estar “conectado” e falar sobre o que eu quiser e com quem eu quiser. Um lugar no qual eu posso criar algo, mergulhar em universos pré-existentes, jogar, ouvir música, ver vídeos, ler…

A internet é vista como o “último mundo livre”, democrático, pois permite a expressão de qualquer opinião minoritária, sem obrigações nem consequências… e em aparente segurança para quem a utiliza.

O perigo, como explica o Papa, é o a coexistência de duas identidades, uma digital (um avatar de si próprio) e outra real, assim como duas vidas paralelas: uma real e contingente e outra virtual e fácil, apesar de ser também muito real, pois ocupa uma parte importante da minha vida.

O desafio é a construção da pessoa, sua unidade de vida, e a formação da consciência, graças a uma utilização equilibrada da internet no que ela tem de melhor: um maravilhoso instrumento prático e lúdico, quando sabemos utilizá-lo. Pois encontrar uma informação na internet não significa sempre encontrar uma solução.

ZENIT: “Existe um estilo cristão de presença também no mundo digital”, afirma o Papa, convidando o cristão a “dar testemunho coerente” do Evangelho na era digital. Como responder a este convite do Papa?

Guillaume Anselin: O Papa nos oferece um programa e um manual de instruções muito claro: a verdade e a autenticidade. Em questão de estratégia de comunicação, não poderia fazer uma proposta melhor! É um incentivo a comprometer-se sem ter medo e com lucidez. Podemos ficar com três aspectos importantes para o comunicador cristão:

1. Em primeiro lugar, a verdade antes de tudo, pois, em matéria de fé, nós, nós, cristãos, não temos nada melhor a oferecer em resposta a essa sede inscrita no coração dos homens. Em uma época cada vez mais saturada de informação, isso quer dizer estar presente e dar razões: fontes fiáveis da doutrina (visíveis, com uma linguagem acessível) e testemunhar com simplicidade aquilo em que cremos e a maneira como o vivemos, com os meios à nossa disposição (a informação, a narração, os vídeos, fóruns, blogs etc.).

Implica também em restabelecer um equilíbrio no ecossistema digital e dar aos jovens dois elementos essenciais: o direito de saber e de escolher. Ser cooperatores Veritatis (colaboradores da Verdade, slogan de Bento XVI, N. da R.) para anunciar o Evangelho e favorecer um encontro pessoal com Jesus, que é o Caminho, a Verdade e a Vida.

Em outras palavras: não estar decididamente presente no continente digital é uma contraverdade. É um dever de justiça e um serviço à caridade em um mundo em aceleração, no qual frequentemente se procura apagar a dimensão espiritual e o valor da mensagem cristã.

2. Para conseguir isso, o Santo Padre nos oferece o manual de instruções: é preciso ser autêntico (…), com coerência, constância, para entrar em diálogo com o Outro. Ser o que somos, sem ceder no fundamental, com uma escuta ativa, para ser tudo para todos.

Como Bento XVI nos disse várias vezes, o estilo cristão não procura agradar, correndo o risco de desvirtuar aquilo que recebemos. Nossa comunicação é afirmação alegre, positiva… e delicada. É também coerente e social, pois se integra nas culturas da nossa época. É evangelização, para tocar os corações e as inteligências. É unidade, para apoiar todas as realidades pastorais e eclesiais.

Mas o Santo Padre nos alerta também sobre a tentação do “tudo digital”, pois as tecnologias devem permitir a aproximação de uma prática de fé, vivida em nossas comunidades cristãs, na Igreja.

3. A verdade, por último, merece uma nova atitude. Por este motivo, Bento XVI conclui convidando-nos a uma “criatividade responsável” e a um sentido de “escrupuloso profissionalismo”. São necessárias habilidades particulares, pois a internet exige hoje uma atitude totalmente profissional e meios adequados. Temos de construir as catedrais do saber, os átrios e as ágoras do continente digital… formados por avenidas e praças, mas também por cantos nos quais as pessoas se perdem.

ZENIT: “Manter vivas a questões eternas sobre o homem.” Como diz Bento XVI, a busca de sentido e respostas sobre a fé e a vida é intensa entre os nossos contemporâneos. O que o continente digital oferece, neste sentido?

Guillaume Anselin: A oferta é diversificada, mas também altamente fragmentada. Muitas iniciativas têm dificuldade em encontrar o seu público devido à falta de recursos, à oferta editorial, ou porque é difícil ir além dos públicos tradicionais. Para entrar em um site católico, é preciso sê-lo, pelo menos um pouco…

A força dos grandes projetos na internet é sua dimensão claramente multimedial e uma inteligência conectiva, a partir de uma necessidade claramente identificada. No campo da fé, faltam iniciativas nas quais, muito além de publicar notícias de atualidade, sejam oferecidas respostas simples nos formatos mais variados às questões levantadas pelas pessoas sobre a fé, a vida e a sociedade.

Temos de responder a esta questão eterna do homem, do seu anseio de transcendência, com projetos grandes, interativos, que transmitam o que recebemos.

É preciso responder ao “porquê” e ao “como” com criatividade, modernidade e apoiar o trabalho pastoral das pessoas, como sacerdotes, educadores, religiosos, catequistas e todos aqueles que no mundo investem suas energias na produção de blogs e sites.

No fundo, não é nada novo: assim como os cristãos se comprometeram, há tempos, a favor do progresso das sociedades em nossas cidades e campos, da mesma forma, o continente digital espera também nossa presença visível, serena, à altura dos desafios desta “sociedade digital”.

Caros amigos e amigas,

No dia 1º de julho estarei entrevistando Dom Antonio Augusto Dias Duarte, bispo auxiliar do Rio de Janeiro, no Programa Escola da Fé, pela TV Canção Nova, às 20.30hs, sobre o tema bioética.

Dom Antonio Augusto é médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (1975). É doutor em Teologia Moral pela Universidade de Navarra, Espanha, Professor de Moral Fundamental e Moral da Sexualidade no Seminário São José – Arquidiocese do Rio de Janeiro; Vice-Presidente da Revista Communio, membro da Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família, Vice coordenador da Comissão de Bioética da CNBB, responsável pelo Setor Vida do Departamento Vida e Família do CELAM.

Alguns dos assuntos que serão tratados estão na Humanae vitae, Evangelium vitae, Donum vitae, Dignitas persona e documentos do Magistério. Alguns itens a serem abordados:

- aborto por questão de estupro, eugenia, anencefalia, gravidez tubária, etc.

- eutanásia, ortotanásia, distanásia

- quando inicia a vida, pré embrião.

- congelamento de óvulos,

- fertilização in vitro, redução embrionária, fecundação “post mortem”

- clonagem humana e manipulação de embriões (bebê perfeito, escolha de sexo, bebê sob medida,etc)

- filhos biológicos de casais gays.

- útero artificial, útero de aluguel.

-contraceptivos, pílula do dia seguinte, camisinha, DIU, interrupção do coito, método Billings.

- criação de célula em laboratório, criação artificial da vida;

- implicações do projeto genoma.

- Congelamento de cadáveres, pesquisa com cadáveres, legitimidade da autópsia.

- transplante de órgãos, transplante de cérebro.

- quando se dá a morte? Morte cerebral.

- uso de preservativo por aidético que quer se casar.

Prof. Felipe Aquino

2 de abril de 2010
Dom Orani está completando um ano à frente da arquidiocese do Rio

Além de fazer um balanço sobre a atuação da Igreja na cidade, Dom Orani comenta os casos de pedofilia envolvendo padres católicos pelo mundo. “A Igreja é a única que tem coragem de tentar resolver esta questão, ninguém mais tem. Nenhum outro grupo social ou igreja tem essa coragem. Nunca se disse que todo mundo é santo, todo mundo erra. Vamos ver onde está o erro e tentar consertar”, afirma.

iG: Pesam sobre o Papa Bento 16 acusações de que, quando cardeal, em 1980, teria acobertado casos de padres pedófilos. Como o senhor tem acompanhado esta repercussão?

Dom Orani: Nós dependemos de algumas poucas agências de notícias no mundo. Todos os veículos repercutem o que diz apenas uma fonte, sem se importar em checar os fatos. A Igreja tem posição que contradiz muita gente e instituições poderosas, seja em relação a aspectos da vida ou a situações econômicas. Como não se deixa levar pelas pressões, ela precisa ser desacreditada e combatida, para não ser ouvida no que é falado.

iG: Mas há, pelo mundo, casos de pedofilia confessados pelos próprios padres.

Dom Orani: Não se nega que haja problemas de cá e de lá. Mas o número de pessoas erradas em sacerdócio nas igrejas é bem menor do que em casos de pais, padrastos, professores, educadores, pessoas do dia a dia… Há um número muito maior de pessoas assim do lado de fora do que dentro da Igreja.

iG: O senhor há de convir que não deveria haver nenhum caso de pedófilo.

Dom Orani: Mas o desejo é esse. Que não haja nenhum caso no mundo! Mas encontramos. A Igreja está fazendo suas punições, desde que haja provas. Não podemos cair no erro de queimar em praça pública sem escutar suas razões. Não se pode fazer uma pré-inquisição, sair queimando para depois perguntar ao pó.

Claudia Dantas

“Quando virem a foto da minha mesa, vão ver o quanto sou ocupado”, brinca

iG: Demorou para o Vaticano se pronunciar a respeito dessas denúncias. Houve conivência com o problema?

Dom Orani: A Igreja nao é conivente. Mas não há dúvidas de que há interesses por trás disso tudo, de pessoas que não estão interessadas em resolver os casos, e sim desacreditar o Papa e suas posições. Há uma libertinagem por tudo que é lado. Crianças de 13 anos já podem fazer suas opções sexuais na Holanda. Há um partido de pedófilos e tudo… Com filmes na televisão. A Igreja não concorda com a situação e chama atenção para isso.

iG: Qual é o sentimento que o senhor tem ao acompanhar estes casos?

Dom Orani: A Igreja é a única que tem coragem de tentar resolver esta questão, ninguém mais tem. Nenhum outro grupo social ou igreja tem essa coragem. Nunca se disse que todo mundo é santo, todo mundo erra. Vamos ver onde está o erro e tentar consertar.

iG: Qual é a melhor punição para estes padres?

Dom Orani: A orientação dada nos últimos tempos é a expulsão, ou melhor, a redução do padre ao estado leigo. Ele deixa de ser padre dali para frente. Ele sempre vai ser julgado como cidadão. Nunca vai perder o pré-nome ‘padre’, ou no caso, citado como ‘ex-padre’. Isso não isenta a pessoa de sua responsabilidade.

iG: Quando assumiu a Arquidiocese, o senhor disse que “o primeiro desafio seria conhecer a Igreja e o povo do Rio. Qual é o balanço que faz desse período de quase um ano à frente da Igreja no Rio?

Dom Orani: São mais de mil capelas na cidade. Mesmo que visitasse duas por dia, não teria dado tempo de conhecer tudo. Digamos que já conheço em torno de 60%. Uma das coisas que eu noto, é que o Brasil não conhece as belezas do povo carioca. Conhece o Cristo, as músicas, as praias, as paisagens, o carnaval… Mas não sabe o quanto este povo é acolhedor.

iG: Segundo dados do IBGE, a capital do Estado tem, proporcionalmente, o maior número de ateus do país – 15,5% da população, o dobro da média do Brasil. Saberia explicar o porquê?

Dom Orani: É uma questão de interpretação de estatística. A ideia de que carioca não é religioso é uma visão estereotipada. Só na Jornada Mundial da Juventude, no dia 28, tivemos mais de 15 mil jovens reunidos. Tenho visto exemplos bonitos de jovens estudantes cristãos, trabalhando para necessitados, tendo uma vida correta. Só se divulga o outro lado, mas a cidade não é só tiro e violência.

iG: A violência na cidade afeta a fé do carioca e sua rotina junto às igrejas?

Dom Orani: Creio que este aspecto não afeta a ida à igreja. Acaba o tiroteio e as pessoas saem de casa para irem à missa. Fiz uma missa no Complexo do Alemão e percebi o quanto havia de participação popular.

iG: Pode-se dizer que o profano e o sagrado convivem pacificamente no Rio de Janeiro?

Dom Orani: Essa é uma linguagem que surgiu nos anos 60. A igreja faz parte da história e, por isso, está em todo lugar. Deve dialogar com todas as realidades culturais e sociais. Tem gente da igreja que trabalha de forma social em áreas de prostituição, em escolas de samba, em vários setores. A igreja precisa dialogar com todos.

iG: Neste ano, pela primeira vez, a Arquidiocese liberou o uso de imagens sacras nos desfiles das escolas de samba. Por que tomou esta decisão, que sempre foi alvo de polêmicas?

Dom Orani: Escola de samba é uma ópera popular. Há um tema, roupas de acordo com o enredo escolhido, música composta para a ocasião. O que se divulga é o lado do nu, que é uma minoria. Cada vez as pessoas estão até mais vestidas, apesar do calorzão. O samba é parte da cultura carioca. E a igreja precisa valorizar o que o povo vive, precisamos conhecer melhor isso tudo.

iG: De que forma a Igreja deve se posicionar quanto à próxima eleição presidencial?

Dom Orani: A Igreja não é partidária. É, sim, preocupada com o povo para eleger pessoas honestas. Trabalhamos na campanha “Ficha Limpa”, para que votem com base e conhecimento. Pedimos que examinem a vida dos candidatos, se informando de que forma eles já usaram os cargos públicos anteriormente.

iG: O senhor se preocupa com a possibilidade de candidatos à presidência terem visão favorável ao aborto?

Dom Orani: O mundo de hoje é muito plural. Não sei se tem um candidato que não tenha esta visão, devido à pressão que existe em torno do assunto. Se alguém falar que é contra o aborto, vai perder muitos votos. Isso porque há uma pressão mundial pela legalização.

iG: Os católicos são então minoria condenando o aborto?

Dom Orani: Não, somos maioria. Basta ver as pesquisas, a maioria dos brasileiros condena. A minoria grita forte e faz pressão, mas não é a vontade da maioria. É como a questão das pesquisas com células-tronco. A Igreja não tem conflito com a ciência, é a favor do progresso humano.

iG: Impedir pesquisas com células-tronco não é ir contra o “progresso humano”?

Dom Orani: O que se tem de resultado concreto são as pesquisas com células adultas e não as que são tiradas de embriões. Você destrói embriões e não capta resultados positivos. Não dá para utilizar um ser vivo como cobaia ou pedaço de experimento.

iG: De que forma a Semana Santa deve ser comemorada?

Dom Orani: A Semana Santa é sempre nova, sempre renova a Igreja. Não precisa de novidades para ser celebrada. Cada ano temos a Quaresma, o período de 40 dias, como tempo de renovação interior. A Páscoa é para celebrar esta nova vida. Precisamos celebrar que Cristo ressuscitou, é uma experiência que cada cristão precisa viver. Cristo deu a vida a nós na cruz. Cada ano é novo, porque é um recomeço de vida.