Espalha-se a Eutanásia na Europa

Filed under: Eutanásia — Prof. Felipe Aquino at 3:49 pm on Friday, February 22, 2008

Depois de Bélgica e da Holanda, o Luxemburgo deixou de penalizar os médicos que ponham fim à vida de um doente terminal que o solicite.  É o terceiro pais da Europa a legalizar a eutanásia. A proposta passou no parlamento por uma apertada maioria de 30 deputados em 59. Socialistas, Liberais e Verdes votaram a favor, tendo quase todos os deputados do partido do primeiro-ministro votado contra.  (http://www.esquerda.net -21 fev 08) 

Todos os representantes do Partido Cristão-Social (CSV) do primeiro-ministro Jean-Claude Juncker, com exceção de um deputado, votaram contra a proposta. Assim, o texto só pôde passar graças à mobilização dos deputados socialistas da maioria governamental, dos membros da oposição liberal e dos Verdes.  

Mais uma vez ficou claro que os socialistas não têm compromisso com a vida e com a moral católica; os exemplos de outros paises como a Espanha, Chile, Venezuela, Cuba, etc. reforça isso. A deputada socialista Lydie Err, defendeu a proposta da eutanásia dizendo que: “Esta proposta de lei não é uma permissão para matar. Não é uma lei para os familiares ou para os médicos, mas sim para o paciente e apenas ele decide se põe fim ao seu sofrimento”. 

Como não é uma permissão para matar, se o paciente será morto? Trata-se do suicídio assistido, mas certamente ultrapassará esta categoria. E quando o doente estiver em coma? Certamente não faltará alguém para autorizar a sua morte…   

O número de eutanásias na Bélgica cresceu em 500 casos de 2006 a 2007, mais de 14%, conforme a cadeia de televisão VRT em 14 fev 08. A comissão de controle da eutanásia assegura que só a metade dos casos são registrados e que, portanto, o número de eutanásias dobrou.  Declarou que um terço dos pacientes têm menos de 60 anos e que a maioria de pessoas que procuram o serviço padece de câncer terminal. (Bruxelas, 18 fev 2008 – acidigital.com) 

Na Bélgica a eutanásia foi legalizada em 2002, com o requisito de que o adulto que padeça uma enfermidade “incurável e insuportável a nível físico e espiritual”, com pleno uso de razão manifeste “livremente” seu desejo de morrer. Segundo o síte Web aerzteblatt.de o diretor da comissão de controle de eutanásia, Wim Distelmans, pronunciou-se a favor da eutanásia para jovens na edição da quinta-feira do jornal “Het Belang van Limburg”.  Os Asilos na Alemanha convertem-se em abrigo para idosos que fogem da Holanda com medo de serem vítimas de eutanásia a pedido da família. São quatro mil casos de eutanásia por ano, sendo um quarto sem aprovação do paciente. (Fonte: http://www.dw-world.de/dw/article/0,2144,1050812,00.html) O pior de tudo é que cresce a mentalidade pagã de convencer o velho doente, ou mesmo o jovem, que “vale a pena morrer”.  Os jornais europeus trazem artigos sobre isso continuamente; é um verdadeiro terrorismo. Este processo foi descrito, em 24 de abril 2007, pelo Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, do Vaticano, quando declarou que: 

 “O aborto e a eutanásia tornaram-se uma nova forma de terrorismo com rosto humano, um terrorismo quotidiano e repugnante, instrumentalizado pelos meios de comunicação de massa que manipulam artisticamente a linguagem tradicional para esconder a trágica realidade dos fatos, pelos Parlamentos das nações civilizadas em que são aprovadas leis contrárias ao ser humano, um terrorismo que não é mais ação de indivíduos ou de grupos facilmente identificados, mas que procede de centrais ocultas, de laboratórios de opiniões falsas, de potências anônimas que martelam nossas mentes com mensagens falsas, transformando em ridículo e retrógrado o comportamento conforme o Evangelho”. (http://www.zenit.org/italian/visualizza.php?sid=11439 

O paganismo se alastra no mundo, mas a fé católica contesta o absurdo do suicídio; pois só Deus é o autor da vida e só Ele pode determinar o seu fim; muitas vezes é no último instante de vida que uma pessoa se converte e salva a sua alma. Desaparece a transcendência do homem; e ele começa a se assemelhar ao animal irracional. O Catecismo da Igreja ensina:  

§2280 – “Cada um é responsável por sua vida diante de Deus que lha deu e que dela é sempre o único e soberano Senhor. Devemos receber a vida com conhecimento e preservá-la para sua honra e a salvação de nossas almas. Somos os administradores e não os proprietários da vida que Deus nos confiou. Não podemos dispor dela.” 

§2281 – “O suicídio contradiz a inclinação natural do ser humano a conservar e perpetuar a própria vida. É gravemente contrário ao justo amor de si mesmo. Ofende igualmente o amor do próximo porque rompe injustamente os vínculos de solidariedade com as sociedades familiar, nacional e humana, às quais nos ligam muitas obrigações. O suicídio é contrário ao amor do Deus vivo.” 

§2282 – “Se for cometido com a intenção de servir de exemplo, principalmente para os jovens, o suicídio adquire ainda a gravidade de um escândalo. A cooperação voluntária ao suicídio é contrário à lei moral. Distúrbios psíquicos graves, a angústia ou o medo grave da provação, do sofrimento ou da tortura podem diminuir a responsabilidade do suicida.” §2283 – “Não se deve desesperar da salvação das pessoas que se mataram. Deus pode, por caminhos que só ele conhece, dar-lhes ocasião de um arrependimento salutar. A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida.”  

Cada vez mais o homem vai expulsando Deus do mundo; e voltando à barbárie dos tempos romanos; orgulhosamente vai  ocupando o lugar de Deus. Mas não pode se esquecer do que disse um dia S. Tomás de Aquino: “Quanto mais o homem se afasta de Deus, mais se aproxima do seu nada, e do desespero”. 

Prof. Felipe Aquino – www.cleofas.com.br  

Uma resposta a Rubem Alves

Filed under: Eutanásia — Prof. Felipe Aquino at 5:16 pm on Tuesday, January 8, 2008

 SOU CONTRA A EUTANÁSIA POR PRINCÍPIOS RELIGIOSOS E HUMANOS

 

 

O jornal “Folha de São Paulo” publicou (08 jan 08) um artigo do escritor Rubem Alves, onde ele defende a prática da eutanásia “por motivos éticos”.  

Diz ele, entre outras coisas: “Deus é amor. O amor, segundo os textos sagrados, é fazer aos outros aquilo que desejaríamos que fosse feito conosco, numa situação semelhante. Amo os cães e já tive dezenas. Muitos deles eu mesmo levei ao veterinário para que lhes fosse dado o alívio para o seu sofrimento… a vida não será como a música? Uma música sem fim seria insuportável. Toda música quer morrer. A morte é parte da beleza da música… A vida, esgotada a alegria, deseja morrer. O que eu desejo para mim é que as pessoas que me amam me amem do jeito como eu amo os meus cachorros.” 

O escritor citado comete um grande erro básico ao comparar a vida de um cão com a de um homem, e mostra não entender o valor transcendente da vida humana e do sofrimento. Um cão não tem alma; não tem vida eterna; foi criado para estar a serviço do homem, com uma vida finita. O ser humano, por outro lado, foi criado à imagem do Criador (Gn 1, 26), com um destino eterno junto a seu Deus. E este destino eterno muitas vezes pode ser decidido no leito de morte. 

A vida terrena é semente da eternidade; muitas vezes os dias e as horas de sofrimento de uma pessoa são decisivas para a definição de sua eternidade com Deus ou longe Dele. A morte de um homem não é a morte de um cão. Quem faz esta semelhança nivela o homem ao ser irracional e o esvazia e desvaloriza radicalmente. Por isso me assusta o que escreveu Rubem Alves. 

Deus é amor, sim, mas também é a verdade. Não existe verdadeiro amor sem respeito à verdade. O mesmo Deus que mandou amar mandou “não matar”. E Deus não viola as suas próprias leis. O escritor citado interpreta a Palavra de Deus a seu bel prazer, e a corrompe na essência. É exatamente para que não acontecesse esses absurdos que Jesus confiou somente ao Magistério sagrado da Igreja o ofício de interpretar a Sua Palavra. Disse a “Dei Verbum”: “O ofício de interpretar autenticamente a palavra de Deus escrita ou transmitida foi confiado unicamente ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade se exerce em nome de Jesus Cristo.” (DV, 10) 

Absurdos como o que vemos acima acontecem exatamente porque alguém, segundo o “livre exame” das sagradas Escrituras, pretende ser seu legitimo intérprete, rejeitando o que quis o Senhor.    

A vida é o dom de Deus para o homem por excelência; e deve ser preservada, defendida, cuidada da concepção até a morte. Rubem Alves usa de um argumento insustentável para defender a eutanásia; ele diz: “se Deus é o senhor da vida e também o senhor da morte, qualquer coisa que se faça para impedir a morte, que aconteceria inevitavelmente, se o corpo fosse entregue à vontade de Deus, sem os artifícios humanos para prolongá-la, seriam também uma transgressão da vontade divina. Tirar a vida artificialmente seria tão pecaminoso quanto impedir a morte artificialmente, porque se trata de intromissões dos homens na ordem natural das coisas determinada por Deus.”  

Esse raciocínio e essa lógica são tão absurdas que nos levam ao limiar da mentalidade que trata o ser humano simplesmente como um objeto. Querer negar os recursos da tecnologia e da medicina para melhorar, preservar e defender a vida humana da morte, seria menosprezar o grande dom da inteligência que Deus deu ao homem, e negar a régia missão que lhe concedeu de construir esse mundo. Salvar a vida e defende-la é vontade de Deus, mas precipitar a morte é voltar-se contra o Criador.   

De acordo com o Papa João Paulo II, na Encíclica “O Evangelho da Vida”,  a eutanásia deve ser considerada como uma falsa piedade, mais ainda, como uma preocupante «perversão» da mesma. A verdadeira compaixão nos torna solidário com a dor de outros, e não a eliminar a pessoa que sofre.  

A eutanásia coloca a vida do mais fraco e indefeso nas mãos do mais forte; perde-se o sentido da justiça na sociedade e se mina em sua própria raiz a confiança recíproca, fundamento de toda relação autêntica entre as pessoas.  

É interessante considerar o que disse a “Conferência Episcopal Espanhola” em um documento difundido em 19 de fevereiro de 1998, com motivo de uma campanha realizada naquele país para legalizar a  eutanásia:  

“Hoje a eutanásia é novamente aceitável para alguns por causa do estendido individualismo e da conseguinte má compreensão da liberdade como uma mera capacidade de decidir algo com tal de que o indivíduo a julgue necessária ou conveniente. “Minha vida é minha: ninguém pode me dizer o que tenho que fazer com ela.” “Tenho direito a viver, mas não me pode obrigar a viver.”  

Afirmações como estas são as que se repetem para justificar o que se chama “o direito à morte digna”, eufemismo para dizer, em realidade, o “direito de se matar”. Mas este modo de falar denota um egocentrismo que se torna literalmente mortal e que põe em perigo a convivência justa entre os homens. Os indivíduos se erigem, deste modo, em falsos “deuses” dispostos a decidir sobre sua vida e sobre a de outros.  

Ao mesmo tempo, a existência humana tende a ser concebida como uma mera ocasião para “desfrutar”. Não são poucos os falsos profetas da vida “indolor” que exortam a não agüentar nada absolutamente e a que nos rebelemos contra o menor contratempo. Segundo eles, o sofrimento, a resistência e o sacrifício, são coisas do passado, quinquilharias que a vida moderna teria superado já totalmente. Uma vida “de qualidade” seria hoje uma vida sem sofrimento algum.  

Quem pensa que resta ainda algum lugar para a dor e o sacrifício, é tachado de “antigo” e de cultivador de uma moral para escravos. Não é estranho que desde atitudes hedonistas deste tipo, unidas ao individualismo, se ouça supostas justificações da eutanásia como estas: “eu decido quando minha vida já não vale a pena” ou “ninguém pode ser obrigado a viver uma vida sem qualidade”. (II, b), 7.e 8. www.arvo.net ) 

Algumas perguntas precisam ser feitas: Merece viver uma pessoa idosa, que não pode valer-se já se por si mesma, depois de ter trabalhado em benefício da sociedade, e em muitas ocasiões, por aqueles que vão decidir sobre sua morte? Vale a pena prestar assistência aos doentes e deficientes, já que sua produtividade é menor, mínima ou nula? O que fazemos se faltarem leitos nos hospitais? Vamos eliminar os doentes irrecuperáveis para economizar nos gastos de saúde? 

Uma sociedade que legitima a eutanásia suicida, é uma sociedade que está proclamando seu descaso com a solidariedade, afeto, carinho a seus doentes terminais. 

Não é mediante a eutanásia ou o suicídio assistido que vamos ajudar nossos entes querido a morrer dignamente. A morte verdadeiramente digna é promovida quando nos aproximamos do idoso ou doente  terminal dispostos a padecer com ele, e oferecer-lhe os cuidados e a atenção que aliviem as suas dores físicas e morais. 

A Igreja não quer que se chegue ao exagero da “obstinação terapêutica” para adiar a morte inevitável, mas não aceita apressá-la quando a vida pode continuar  por processos e meios ordinários.  

O Catecismo da Igreja nos ensina:         §2276 – “Aqueles cuja vida está diminuída ou enfraquecida necessitam de um respeito especial. As pessoas doentes ou deficientes devem ser amparadas para levarem uma vida tão normal quanto possível.” 

         §2277 – “Sejam quais forem os motivos e os meios, a eutanásia direta consiste em pôr fim à vida de pessoas deficientes, doentes ou moribundas. É moralmente inadmissível. Assim, uma ação ou uma omissão que, em si ou na intenção, gera a morte a fim de suprimir a dor, constitui um assassinato gravemente contrário a dignidade da pessoa humana e ao respeito pelo Deus vivo, seu Criador. O erro de juízo no qual se pode ter caído de boa-fé não muda a natureza deste ato assassino, que sempre deve ser proscrito e excluído (SDF, decl. Iura et bona, 1980).” 

         §2278 – “A interrupção de procedimentos médicos onerosos, perigosos, extraordinários ou desproporcionais aos resultados esperados pode ser legítima. É a rejeição da “obstinação terapêutica”. Não se quer dessa maneira provocar a morte; aceita-se não poder impedi-la. As decisões devem ser tomadas pelo paciente, se tiver a competência e a capacidade para isso; caso contrário, pelos que  têm direitos legais, respeitando sempre a vontade razoável e os interesses legítimos do paciente.”  

         §2279 – “Mesmo quando a morte é considerada iminente, os cuidados comumente devidos a uma pessoa doente não podem ser legitimamente interrompidos. O emprego de analgésicos para aliviar  os sofrimentos do moribundo, ainda que o risco de abreviar seus dias, pode ser moralmente conforme à dignidade humana se a morte não é desejada, nem como fim nem como meio, mas somente prevista e tolerada como inevitável. Os cuidados paliativos constituem uma forma privilegiada de caridade desinteressada. Por esta razão devem ser encorajados.” 

Prof. Felipe Aquino – www.cleofas.com.br