UMA PARÁBOLA BLASFEMA

Filed under: Heresia — Prof. Felipe Aquino at 10:25 pm on Wednesday, February 14, 2007

  

 

Um exemplo do perigoso relativismo religioso, condenado pelos Papas João Paulo II e Bento XVI,  é visto na “Parábola” de frei Carlos Mesters, “Quando Deus andou pelo mundo, a São Pedro disse assim…”,  escrita para o 9º Encontro das Comunidades Eclesiais de Base,
em São Luís do Maranhão (julho de 1997),  destinada a mostrar as boas relações entre católicos e os adeptos das religiões afro-brasileiras.  O texto, que vai abaixo transcrito, é blasfemo; faz de Jesus em seguidor da Umbanda, guiado por um bom orixá, pulando e dançando alegre num terreiro, comendo pipoca, batata assada e cocada.  Isto é insustentável aos olhos da fé católica.  O autor da “parábola” infelizmente confunde diálogo religioso com sincretismo religioso.  

 

“Quando Deus andou no mundo, a São Pedro disse assim…”                                                                      Frei Carlos Mesters 

Certa vez Jesus reuniu os discípulos e as discípulas e disse:“Quando vocês forem anunciar o REINO, não devem levar dinheiro nem comida, mas devem confiar no povo. Chegando num lugar, se vocês foram acolhidos e o povo partilhar comida e casa com vocês, e se vocês participarem da vida deles trabalhando, tratando dos doentes e do pessoal marginalizado, sem voz e sem vez, então podem dizer ao povo com toda certeza: “Gente, olha aqui! O REINO chegou! Está chegando”.  E eles foram.  Jesus também foi. Andou, andou. Já era quase noite.  Estava começando a anoitecer quando chegou num terreiro.  O pessoal que entrava, saudava e dizia: “Boa noite, Jesus! Entre e sinta-se
em casa.  Participe com a gente”.  Jesus entrou. Viu o pessoal reunido. A maioria era pobre.  Alguns, não muitos, da classe média.  Todo mundo dançando alegre.  Havia muitas crianças no meio. Viu como todos se abraçavam entre si.  Viu como os brancos eram acolhidos pelos negros – como irmãos.  Jesus ele também foi sendo acolhido e abraçado.  Estranhou, pois conheciam o nome dele.  Eles o chamavam de Jesus, como se fosse amigo e irmão de longa data.  Gostou de ser acolhido assim.Viu também como a Mãe-de-Santo recebia o abraço de todos. Viu como invocavam os orixás e como alguns vinham distribuindo passes para ajudar os aflitos, os doentes e os necessitados.  Jesus também entrou na filha e foi até a Mãe-de-santo.  Quando chegou a vez dele, abraçou-a e ela disse: ”A paz esteja com você, Jesus”. Jesus respondeu: “Com a senhora também”.  E acrescentou: “Posso fazer uma pergunta?” E ela disse: “Pois não Jesus!” E ele disse : “Como é que a senhora me conhece? Como é que eles sabem meu nome?” E ela disse: “Mas, Jesus, todo mundo conhece você.  Você é muito amigo da gente.  Sinta-se em casa, aqui no meio de nós!”Jesus olhou para ela e disse: “Muito obrigado!” e continuou: “Mãe, estou gostando, pois o Reino de Deus está aqui no meio de vocês”!  Ela olhou para ele e disse: “Muito obrigada, Jesus! Mas isto a gente já sabia. Ou melhor, já adivinhava. Obrigada por confirmar pra gente. Você deve ter um orixá muito bom. Vamos dançar, para que ele venha nos ajudar!” E Jesus entrou na dança.  Dentro dele o coração pulava de alegria; sentia uma felicidade imensa e dizia baixinho: “Pai, eu te agradeço porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste ao povo humilde aqui do terreiro. Sim, Pai, assim foi do teu agrado”.  Dançou um tempão.  No fim, comeu pipoca, cocada e batata assada, com óleo de dendê, que o pessoal partilhava com ele. E, dentro dele o coração repetia sem cessar: “Sim, o REINO DE DEUS chegou” Pai, eu te agradeço! Assim foi do teu agrado!”.Ao comentar esta “parábola” D. Estevão Bettencourt, osb,  assim se manifestou (Revista PR, Nº 423 – Ano : 1997 – pág. 376): 

“Proporemos quatro observações à margem da “parábola”:1 – Blasfêmia - “O texto é evidentemente blasfemo.  Com efeito, apresenta Jesus como um devoto de terreiro de religião afro-brasileira: entra na fila dos que vão abraçar a Mãe-de-Santo, como se fosse a sacerdotisa que distribui bênçãos.  Ele a trata como “a senhora” e “Mãe” (“Mãe, estou gostando …”); ela trata Jesus por você; diz a Jesus que ele deve Ter um bom orixá. Jesus, convidado a dançar em honra do orixá, pula de alegria, senti imensa felicidade.  Dança “um tempão”, como pipoca, cocada, batata assada com óleo de dendê.  E exclama: “O Reino de Deus já chegou”.         “Quem lê tais textos, tem a impressão de que Jesus é menos categorizado do que a Mã-de-Santo e seus orixás, o que é insustentável à fé católica, visto que esta reconhece
em Jesus Deus feito homem, o Rei dos Reis e o Senhor dos Senhores, não subordinado a criatura alguma.  Não se pode conceber que tal texto tenha sido proposto à meditação de fiéis católicos, à guisa de aprofundamento da fé.  O senso crítico repudia tais enfoques.”2 - Diálogo Religioso - “A intenção do autor da “parábola” foi aproximar católicos e religiosos afro-brasileiros. A Igreja de fato deseja isto, mas através do que se chama “o diálogo religioso”.  Este ocasiona o encontro de pessoas de Credos diferentes, desejosas de manter um colóquio que dissipe mal-entendidos e favoreça a aproximação religiosa.  Condição para o êxito de tais encontros é a franqueza segundo a qual cada interlocutor professa a sua fé sem a diminuir ou esvaziar; somente em tal clima pode haver autêntica prudência humana.  O católico não deve mascarar a sua fé, nem insinuar que os outros Credos são superiores ao seu, pois na verdade não o são.  De modo especial, as religiões afro-brasileiras, com seu mundo de entidades superiores, ofendem a lógica ou a são razão, pois não pode haver semideuses.Com outras palavras: ao católico não é lícito querer conquistar a simpatia dos irmãos de outros Credos atenuando as verdades essenciais da sua fé.  O Espírito de Deus não pode fecundar tais encontros em que se utilizam critérios meramente humanos para cativar os interlocutores.3 – Secularismo - Merece especial atenção a exclamação freqüente: “O Reino de Deus já chegou!” - Pergunta-se: por que diz a parábola que o Reino de Deus já chegou?  Ela o diz por que há partilha de comida e casa, porque homens e mulheres compartilham o trabalho, porque tratam dos doentes e marginalizados… Nesse Reino de Deus, porém, não se fala uma só vez de Deus; só se trata do homem (de comida, casa, trabalho e saúde …).  Ora isto ainda não é o Reino de Deus.  Um ateu, que sinta filantropia, pode interessar-se por seus semelhantes necessitados sem que pense
em Deus.  Não há dúvida de que é importante zelar pelo bem-estar material dos que sofrem, mas isto não é suficiente para se dizer que o Reino de Deus já está acontecendo.  O Reino de Deus é, antes do mais, culto a Deus (adoração, louvor, ação de graças…); é a celebração do sacrifício redentor de Cristo.  Em função deste núcleo central, o cidadão do Reino de Deus se volta para os interesses temporais, e se volta… religiosamente ou com o afinco que nenhuma motivação secular lhe poderia comunicar.Nenhum ser humano, nem o mais pobre no plano material, foi feito para se contentar apenas com a comida, casa, trabalho e saúde; o animal irracional, sim, se acalma quando se lhe dá a ração e o abrigo; ele então dorme; ao contrário, a pessoa humana tem aspirações mais elevadas, às quais aludia S. Agostinho ao dizer: “Senhor, Tu nos fizeste para Ti, e inquieto é o nosso coração enquanto não repousa em Ti”. (Confissões  1).Assim se evita todo tipo de secularismo ou laicismo, que aliás é enfatizado pouco depois da “parábola” onde se lê:         “LEITOR(A) 2 : Toda vez que encontramos uma comunidade de fé que reúna pobres e discriminados, que lutam por justiça e por melhores condições de vida, mesmo que o faça de maneira muito diferente de nós e celebre isso de modo diferente também, encontramos parceiros na caminhada para a construção do Reino”.Este texto sugere o relativismo religioso.  O que importaria, seria construir uma sociedade igualitária; pouco peso teria a questão da crença religiosa dos respectivos construtores: católicos, protestantes, espíritas, umbandistas… todos seriam equipados entre si pelo fato de construírem o “reino do homem” independentemente desse aspecto que seria a fé religiosa.  Aliás, é esta a tese que Clodovis Boff defende no seu livro “Teologia e Prática. Teologia do Político e suas Mediações”, Ed. Vozes, Petrópolis 1978.O Pensamento da Igreja - O genuíno pensamento da Igreja tem sido formulado pelo Santo Padre João Paulo II em vários escritos seus, dos quais destacamos os seguintes trechos :         “Hoje, o apelo à conversão, que os missionários dirigem aos não-cristãos, é posto em discussão ou facilmente deixado no silêncio.  Vê-se nele um ato de proselitismo; diz-se que basta ajudar os homens a tornarem-se mais homens ou mais fiéis à própria religião, que basta construir comunidades capazes de trabalharem pela justiça, pela liberdade, pela paz e pela solidariedade.  Esquecem, porém, que toda pessoa tem o direito de ouvir a Boa Nova de Deus que se revela e se dá em Cristo, para realizar, em plenitude, sua própria vocação.  A grandeza deste evento ressoa nas palavras de Jesus à samaritana: “Se tu conhecesses o Dom de Deus”, e no desejo inconsciente, mas intenso, da mulher: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede” (Jo 4, 10-15) Enc. Redemptoris Missio nº 46).“No mundo moderno, há tendência para reduzir o homem unicamente à dimensão horizontal.  Mas o que acontece ao homem que não se abre ao Absoluto?  A resposta está na experiência de cada homem, mas está também inscrita a história da humanidade, com o sangue derramado em nome de ideologias e regimes políticos que quiseram construir uma humanidade nova, sem Deus” (ibid. nº 8).Não há, pois, como duvidar de que a parábola em foco contraria a Doutrina da Igreja.