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GABRIEL CHALITA
Nascido em 30 de abril de 1969, em Cachoeira Paulista (SP), é doutor em Direito e em Comunicação e Semiótica. Foi secretário da Educação do Estado de São Paulo, presidente do Conselho Nacional dos Secretários de Educação (Consed) e vereador da capital paulista. Eleito com 560.022 votos, é deputado federal.

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Aristóteles dizia que “a coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras”. A coragem também foi tema de Platão, seu mestre. No “Mito da Caverna”, o filósofo ensina que sair da caverna e enfrentar a vida não é simples. É, inclusive, incômodo, para quem nunca viu a luz, deparar-se com ela. A vida na caverna parece mais confortável, sem grandes mudanças de temperatura, sem feras que possam devorar, sem novidades. Entretanto, na caverna, vive-se das sombras. Quem quer viver, de fato, tem de enfrentar os riscos que a vida real oferece.

A política é um espaço propício para correr riscos. Tenho incentivado meus alunos e meus amigos a participarem mais ativamente da política. Há aqueles que oferecem como resposta os riscos da exposição pública, das injustiças, dos adversários imundos que atuam no subsolo. Há outros que fazem o discurso da desconfiança desse espaço para qualquer transformação real da sociedade. São descrentes da política porque consideram que “o poder corrompe o homem”.

Evidentemente, é mais fácil ficar em “casa”. O conforto é ainda maior do que o da “caverna”. E é preciso respeitar quem, assim, decide. Mas não custa insistir. Se fazemos coro àqueles que acreditam na política como “arte e ciência do bem comum” (também de Aristóteles), se somos capazes de ver que uma parcela dos políticos opta pela corrupção, pelo egóico exercício do poder, precisamos trazer novas vozes.

Conheço muitos políticos corretos. A mídia divulga mais os que nos envergonham. E isso não é uma crítica. Não se fala dos aviões que não caem. Anuncia-se o que caiu. Um político honesto é um avião que voa e chega ao seu destino. E há muitos que são assim. Há prefeitos por este Brasil afora que conseguiram mudar a história da sua cidade sem negligenciar os valores preconizados na lei e na ética. Há governos capazes de unir competência e sensibilidade. Há parlamentares que, imbuídos dos melhores sentimentos, trabalham com entusiasmo, honrando o voto e a confiança que receberam.

Os corretos, muitas vezes, são vítimas de injustiça, são misturados com os que não têm as mesmas intenções. Mas, com o exercício da coragem, prosseguem. É melhor isso a permanecer na caverna.

Que novas lideranças saiam da caverna. O exercício da crítica torna-se mais eficaz quando os que criticam resolvem participar e, participando, dão esperanças à política, ou melhor, à Política.

As formas de manifestação popular têm se ampliado em tempos de informação rápida. Jovens se unem para derrubar ditadores, unem-se para protestar diante de mazelas políticas, de corrupção, de demagogia, de gestão ineficiente. E isso é bom! A juventude tem esse necessário ímpeto. Tem inquietude e potência acumulada para não se acomodar aos fatos que considera ruins. E há jovens de todas as idades. O medo da mudança é coisa de gente cansada, acomodada. Gente desanimada. Jovem luta por aquilo em que acredita. Do contrário, não é jovem, mesmo que tenha pouca idade.

Recentemente, jovens manifestaram-se contra uma curiosa e descabida expressão: “gente diferenciada”. Foram às ruas e aos veículos de comunicação protestar contra o aumento abusivo de tarifas de ônibus. Protestaram pela liberdade. Liberdade, esse é o caminho.

Liberdade requer conhecimento. Liberdade exige autonomia. Além da liberdade, os jovens fazem tremular a bandeira da verdade. Preferem os que expressam opiniões, mesmo aquelas que contrariam as suas, à dissimulação dos que tomam decisões solitárias, mascaradas. A imagem é muito mais interessante do que a maquiagem. A maquiagem aos poucos cai, como na cena final do clássico Morte em Veneza. A maquiagem é um desserviço à política. É preciso ver a imagem. Concordar ou discordar dela. Mas a imagem. Bonecos ganham eleições, mas são frágeis para administrar cidades.

A recente marcha da maconha gerou polêmica. A juventude buscou outra alternativa. Alguma que não ferisse a legislação. E isso é fundamental. Quem defende a democracia defende as leis, mesmo que não concorde com algumas delas. Se não há concordância, luta-se para mudá-la, nunca para negligenciá-la. A marcha da maconha foi proibida pela Justiça. A da liberdade, permitida. Se houve excessos na proibição, que sejam aparados. A da liberdade foi pacífica. E é de paz que precisamos.

Há outras formas de manifestação popular igualmente nobres, desde que verdadeiras. As redes sociais estão cheias de possibilidades. Manifestemos, então. Com verdade, com respeito, com educação. Assim, damos o exemplo e determinamos o tom do diálogo necessário.

A participação melhora a democracia e ensina governantes e governados a conviverem pacífica e democraticamente, fundamentados na veridicidade e na justiça, em busca do bem comum.

Lygia Fagundes Telles é uma grande amiga. Lygia Fagundes Telles, como ela mesma costuma brincar – com a simpatia e a alegria que lhe são peculiares –, é minha “noiva”. Mas Lygia Fagundes Telles é muito mais do que isso: é inspiração, deleitosa inspiração.

Quando adolescente, ao ler Ciranda de Pedra, encantei-me. Foi um amor imediato, puro, real. Dali para a frente, mais de suas narrativas passou, pouco a pouco, a morar em mim. Posso ir além e dizer, como leitor e escritor apaixonado, que a importância de sua obra transcende as letras nacionais; universal, atemporal, primordial, não poupa sequer o mais cético dos leitores.

Na data de aniversário dessa figura essencial em minha vida – e na de tantos outros apaixonados que têm o prazer de sua convivência, seja pessoalmente, seja por meio do universo de suas histórias –, sinto-me motivado a reler e divulgar um dos trechos de sua autoria, que faz transbordar aquele mesmo sentimento infante, raro e, de tão completo, inexplicável. Trata-se do início do conto As cerejas:

“Aquela gente teria mesmo existido? Madrinha tecendo a cortina de crochê com um anjinho a esvoaçar por entre rosas, a pobre Madrinha sempre afobada, piscando os olhinhos estrábicos, ‘vocês não viram onde deixei meus óculos?’ A preta Dionísia a bater as claras de ovos em ponto de neve, a voz ácida contrastando com a doçura dos cremes, ‘esta receita é nova…’ Tia Olívia enfastiada e lânguida, abanando-se com uma ventarola chinesa, a voz pesada indo e vindo ao embalo da rede, ‘fico exausta no calor…’ (…) O relâmpago apagou-se. E, no escuro que se fez, veio como resposta o ruído das cerejas se despencando no chão.”

Poderia, aqui, estender-me por horas, em nome da amizade e do encantamento que Lygia Fagundes Telles desperta em mim, com abençoada constância. Mas, em vez disso, despeço-me, para que você possa vasculhar bibliotecas, livrarias ou a própria internet e permitir-se guiar pela grandiosidade das criações lygianas.

Encerro, assim, com palavras de Manuel Bandeira – primoroso autor, também nascido em 19 de abril, que, infelizmente, deixou-nos há mais de 40 anos –, as quais a escritora, em certa ocasião, dedicou a mim:

“Oh, minha linda alegria/Trégua dos cuidados meus/Por que não vens todo dia/Se és toda vinda de Deus?”

Parabéns, amada Lygia.

Texto de Rubem Alves, publicado na Folha de S.Paulo, em 5/4/2011.

Os olhos são órgãos marotos. Mesmo perfeitos, não são dignos de confiança. “Não vemos o que vemos; vemos o que somos”, escreveu Bernardo Soares. A gente pensa que os olhos põem dentro o que está longe, lá fora, quando o que os olhos fazem é por lá longe o que está dentro.

É o caso dos olhos do pai e os olhos do apaixonado por sua filha… Olho de pai é olho que se educou com a vida. Conhece a menina, viu-a nascer, crescer, voar, cair… Alegrou-se nos dias de sol, entristeceu-se nos dias de sombras e escuridão.

Os olhos do apaixonado são diferentes. Neles mora uma pitada da loucura que se chama fantasia. O apaixonado vê como realidade aquilo que existe dentro dele como sonho. Versinho enorme de Fernando Pessoa: “Quando te vi, amei-te já muito antes”. Traduzindo: vejo no seu rosto o rosto que já morava dentro de mim, adormecido… O apaixonado é um porta-sonhos.

Vocês, meu leitores, não devem estar percebendo a propósito de que é essa meditação sobre os olhares. É que eu escrevo por meio de parábolas, e o que está em jogo é um pai de olhar claro, uma donzela linda, sua filha, e um apaixonado que vê com olhos de poeta. Respectivamente, o professor José Pacheco, a Escola da Ponte e eu, Rubem Alves.

Visitei Portugal, acho que no ano 2000, e lá conheci uma escola diferente: a Escola da Ponte. Para mim, foi um espanto. Fiquei apaixonado e escrevi um livrinho sobre ela: “A Escola com que Sempre Sonhei Sem Imaginar que Pudesse Existir”. Amei a Escola da Ponte, amor à primeira vista.

Sou um educador. Escrevi muitas coisas sobre a educação no transcorrer da minha vida. Mas, de tudo o que escrevi, acho que minha contribuição mais significativa para a educação foi esse relato espantado e apaixonado.

A Folha publicou uma entrevista com o título “O lado escuro da Escola da Ponte” (7 de março de 2011). Nessa entrevista, o professor José Pacheco manifestou a sua preocupação com esse livro, exatamente por ele ter saído de um olhar apaixonado. A paixão obscurece os olhos que se põem então a construir mitos. E os mitos podem ser enganadores. O meu livrinho poderia levar os leitores a fantasiar coisas maravilhosas sobre a escola que não correspondem à realidade.

O que são mitos? Mitos são sonhos transformados em poesia. E a poesia tem poderes mágicos de transformar e dar vida. Quem explica o mito é Fernando Pessoa:

“O mytho é o nada que é tudo;/ Sem existir, bastou./ Por não ter vindo foi vindo e nos creou./ Assim a lenda se escorre a entrar na realidade/ E a fecundá-la decorre”.

A visão mítica, que não é intencional, acendeu sonhos que dormiam em mim. Aí me vieram ao pensamento estes três textos que dizem o que penso.

Primeiro, Miguel de Unamuno: “Recuerda, pues, o sueña tú, alma mia -la fantasia es tu sustancia eterna lo que no fué; com tus figuraciones hazte fuerte, que eso es vivir, y lo demás es muerte”.

Depois, as palavras de Tolstói, que Guimarães Rosa cita com aprovação: “Se descreves o mundo tal como é, não haverá em tuas palavras senão muitas mentiras e nenhuma verdade”.

Finalmente, esse delicioso poeminha de Mário Quintana sobre as utopias: “Se as coisas são inatingíveis, ora… não é motivo para não querê-las. Que tristes os caminhos se não fora a presença distantes das estrelas”.

Continuarei a apontar para as estrelas…

Quando a força de vontade e a solidariedade se tornam práticas comuns, um longo e constante caminho de vitórias é possível.

Em 4 de abril de 1961 (há 50 anos, completados ontem), 12 pais decidiram unir-se e garantir a seus filhos, assim como a outras crianças portadoras de deficiência intelectual, o direito ao bem-estar e à inclusão social.

A Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de São Paulo teve início em um pequeno sobrado na Vila Clementino (zona sul da capital). Hoje, é composta por duas unidades, que contam com 600 colaboradores/funcionários e atendem, mensalmente, 3.500 pessoas, de bebês a idosos.

Conheço bem o trabalho da Apae de São Paulo e sei da diferença que ele faz no dia a dia de muitos de nossos concidadãos. Iniciativas como essa edificam uma vastidão de possibilidades, traduzidas na realidade de uma cidade mais acolhedora, plural, humana.

Meu desejo é o de que a bela trajetória da Apae inspire milhares de vidas, despertando, País afora, a vontade, o amor e tantos outros valores por vezes esquecidos na efemeridade dos novos tempos. Como bem poetizou Cora Coralina, “se temos de esperar, que seja para colher a semente boa que lançamos hoje no solo da vida; se for para semear, então que seja para produzir milhões de sorrisos, de solidariedade e amizade”.

Há um belíssimo conto de Lygia Fagundes Telles, “Venha ver o pôr do sol”, que traz uma reflexão sempre atual sobre o significado do amor e da relação entre os amantes.

Numerosas pesquisas apontam a covardia dos homens como um importante indicador dos atos de violência contra as mulheres. Recentemente, a imprensa alardeou um dado assustador: o de que, a cada 2 minutos, 5 mulheres são espancadas no Brasil. Na maioria dos casos, os espancamentos e as mortes ocorrem depois de algum tempo de convivência. São cometidos, com maior frequência, pelos namorados, pelos maridos, pelos amantes – pelos companheiros, enfim. Depois, aparecem os padrastos, os pais, os irmãos e afins como responsáveis. O lar, que deveria ser um espaço de harmonia e de convivência, transforma-se em um palco de guerra.

Na semana passada, emissoras de televisão mostraram imagens de um casal de jovens, ex-namorados, em um elevador. O rapaz tentava matar a moça por não concordar com o fim do namoro. A cena é de uma crueldade chocante. Chutes, socos e um cinto utilizado para enforcá-la. O “valentão” usou o amor para justificar a ação. Não poderia viver sem a ex-namorada. Seu amor era grande demais.

Será isso o amor? O rapaz não poderia viver sem ela ou não poderia tolerar o fato de ser “abandonado”?

No conto de Lygia, a mulher também resolve terminar o relacionamento. E o homem a convida para acompanharem, juntos, um último pôr do sol. Ela aceita, até porque teve uma história com ele e não gostaria de que as coisas acabassem de uma forma desagradável. Ele, estranhamente, marca o encontro em um cemitério, onde seria possível contemplar melhor o pôr do sol. E, lá, os dois caminham, conversando, entre as sepulturas.

O conto é recheado de metáforas. Os personagens estão entre mortos. E, assim, nesse clima, o homem convida a mulher a entrar sozinha em um mausoléu. Ela concorda. Não quer magoá-lo. Vale a pena ler o conto para acompanhar o desfecho da história.

Quem ama não agride e não aceita a agressão. As mulheres vitimadas pela violência têm muita dificuldade, infelizmente, em denunciar seus companheiros. Ficam imaginando quão complicado é ver preso o pai dos próprios filhos, criam desculpas para as ações agressivas; não em poucos casos, assiste-se a um final trágico. Como no conto.

É preciso que as mulheres assumam uma posição firme diante de qualquer tipo de violência praticado por seus companheiros. E denunciem. A violência física pode ser antecedida por uma violência simbólica, moral, que também é dolorosa. O aperitivo do espancamento pode ser um empurrão, um tapa leve. Na origem de tudo, está a ausência de um valor essencial para a convivência humana: o respeito.

O amor, definitivamente, não é um caminho para a sepultura. Pode até contemplar um pôr do sol, mas com esperanças…

Recentemente, deparei-me com o livro “As Brasas”, do húngaro Sándor Márai. Nele, os jovens Konrad e Henrik constroem uma relação de amizade inestimável. De origem e de temperamento completamente distintos, os garotos reconhecem, um no outro, as virtudes e a coragem que desejam para si, o que só faz aumentar o aprendizado, a admiração e o companheirismo entre eles.

A narrativa se dá no Império Austro-Húngaro, e os personagens são envoltos pela educação militar. Por conta desse e de outros fatores, as diferenças entre os dois tornam-se cada vez mais evidentes. Konrad, ligado às artes (em especial, à música), encara a vida de um modo mais leve e frugal, atitude vista por Henrik como irresponsável e descompromissada. Henrik tem dentro de si toda a retidão e a rigidez de valores que o outro também possui, mas externa-as como as concebe, tal qual o general que se tornou.

Com a aparição de Kriztina, desejada por ambos, a inabalável amizade começa a ser permeada pelo ciúme, pela inveja e pelo rancor. A partir desse ponto, ela é misteriosamente interrompida, restando apenas as razões para tanto, escondidas no coração de cada um. Finalmente, após 41 anos (41 anos e 43 dias exatos, contados por Henrik), elas são reveladas, durante um reencontro amargo entre os dois – quase um duelo, cujas armas são as palavras.

Assim como nesse enredo, muitos de nós carregamos mágoas por mais tempo do que elas realmente valem, quando, na verdade, não valem nada. O coração tem o direito de se sentir contrariado, mas deve ouvir as razões do próximo. O amor à vida, à amizade e à paixão não cabe em uma pessoa só. É um sentimento muito mais valioso se realmente compartido, se compartidas as escolhas e os resultados.

É preciso saber dividir com o outro os assuntos que nos afligem e nos incomodam, dando voz e ouvido aos corações também nas horas mais difíceis. Com isso, o diálogo e os gestos tornam-se, em vez de armas, a expressão verdadeira e pura do que realmente queremos, da constante busca pela alegria e da infindável esperança – que eu deixo traduzida neste trecho do poema “Continuidades”, de Walt Whitman:

“Nada está perdido, ou pode ser perdido. As brasas deixadas por fogos antigos (…) arderão novamente.”

Moacyr Scliar foi sempre uma experiência feliz em minhas leituras. Sua perspicácia, sua sensibilidade ao traduzir em palavras as capturas cotidianas da realidade alimentavam a minha curiosidade de buscar nas entrelinhas os detalhes que ele, cuidadosamente, ocultava. Gaúcho, filho de um imigrante judeu, cronista, médico, homem…imortal. Apaixonou-se pelas letras por meio do encantamento das histórias contadas pelo pai inculto…..pelas mãos da mãe professora que o conduziram ao encontro de Monteiro Lobato, Érico Veríssimo, Clarice Lispector e muitos outros. O amor pelos pais e o medo de que ficassem doentes levaram-no à Medicina. Um misto de medo e fascínio pelo desconhecido, conforme afirmava. Mas as letras eram a sua paixão. Com humor, seu olhar apurado sobre a sociedade revela-se, com exatidão, em seu trabalho com a palavra escrita.

Certamente, perdemos um pouco do Brasil com essa partida. Moacyr se foi, mas permanece. Uma vez, ao ser perguntado sobre como gostaria de ser lembrado, com simplicidade e ternura respondeu:

Como alguém que amou as pessoas, amou seu país e sua cultura, amou a literatura, amou a medicina.

Foi modesto. Para sempre, nosso grande escritor. Para sempre, imortal!

 

Você conhece alguém que fala mais do que deve? Você fala mais do que deve?  Já se arrependeu de ter dito alguma coisa? Pois é, sofremos de incontinência verbal.

É antigo o ditado que nos lembra de que temos uma boca e dois ouvidos. Que devemos ouvir mais e falar menos. Mas isso não é fácil.

 Dia desses, uma amiga da minha mãe ligou para ela e, ao ouvir as reclamações de que a mão estava formigando e avermelhada, disse que era urgente que fosse ao hospital, que poderia ser algo  muito grave, que o pai teve que amputar a mão em situação semelhante. A mesma amiga, em outra ocasião, ao perceber que minha mãe estava esquecida, não se conteve em dizer que provavelmente ela estava com Alzheimer. A amiga não é médica. Errou nos dois diagnósticos,  mas conseguiu deixar minha mãe profundamente preocupada. Fez por mal? Certamente não. Incontinência verbal.

 Tenho um amigo que não perde o costume de estragar surpresas. “Estão preparando uma festa de aniversário para você”. E prossegue: “Finja que não sabe de nada, só falei para não te deixar preocupado”. Preocupado? Com o quê?

 Há aqueles que fazem “fofocas cristãs”. “Eu preciso lhe contar uma coisa muita séria (e aí vem a fofoca), só contei para que você reze por ela”.

 Em momentos de briga, fala-se muita coisa desnecessariamente. Lembranças ruins do passado. Acusações bobas. “Nunca me esqueço! Faz 40 anos, mas eu nunca me esqueço de quando você me chamou de burra. Estávamos casados há um ano”. Ou ainda: “Eu o avisei, mais uma namorada que abandona você. Eu disse que as mulheres que o conhecem acabam indo embora. Só falo isso porque sou seu amigo”.

 Em uma mesa de conversa, sempre há aquele que ouviu alguma história e sem a menor preocupação com a verdade fala: “Eu ouvi dizer que fulano é caloteiro. Não quero ser injusto, não gosto de fofoca, mas me parece que ele não paga ninguém”.

 É atribuído a Sócrates um diálogo em que os seus discípulos vieram falar sobre a vida dos outros e ele perguntou, ensinando: “Vocês já passaram pelos três crivos antes de me contar?”  Os crivos são verdade, bondade e necessidade. “É verdade? Vocês têm provas? É bom? Não vão magoar ninguém?  É necessário? Tem alguma coisa a ver com a vida de vocês ou com o bem público? E os discípulos se calaram, e Sócrates voltou a falar de filosofia.

 A palavra tem poder. Que esse poder seja usado para fazer o bem. Palavras ditas sem amor podem ferir.

 Que tal pensarmos antes de falar? Que tal fazermos a experiência do ouvir mais, para aprender, e falar apenas o necessário, para ensinar?

 Gabriel Chalita ( Revista Canção Nova – março de 2011)

 

Hoje, 14 de fevereiro, comemora-se o Dia de São Valentim. Diferentes versões narram a trajetória desse sacerdote cristão que ousou desafiar as regras do imperador, em nome do Amor. Conta-se que, nesse mesmo dia, no ano de 270, na Roma Antiga, Valentim, bispo romano do Império de Cláudio II, foi decapitado por desobediência às ordens do imperador. Era uma época em que os jovens deveriam se alistar ao exército, em profusão. Sendo assim, o imperador decretou que os casamentos estavam proibidos, pois acreditava que, se os jovens não tivessem família, não ofereceriam resistência ao alistamento militar. Por crer no Amor e por considerar a proibição descabida, o bispo Valentim continuou celebrando casamentos, secretamente,  e unindo jovens apaixonados. Consequentemente, foi preso e condenado à morte.  

Valentim, no entanto, tão respeitado e cúmplice dos amantes, passou a receber, na prisão, flores e inúmeros bilhetes de jovens apaixonados que diziam “ainda acreditar no poder do amor”.  Encantou-se com uma mensagem em especial, a de uma jovem cega,  Asterias, que era filha de um carcereiro. Quando se encontraram pessoalmente, a paixão invadiu seus corações. Conta-se que a jovem teve a visão milagrosamente recuperada.

Em 496, o papa Gelásio reservou o dia 14 de fevereiro para o culto de São Valentim. Por esse motivo, alguns países da Europa e os Estados Unidos comemoram, nessa data, o Dia dos Namorados, conhecido, também, como o Dia da Amizade. Diferentemente da data comemorada em 12 de junho aqui, no Brasil, no Dia de São Valentim (ou Valentine’s Day),  amigos e não apenas namorados trocam presentes e cartões celebrando o amor, a amizade e o querer bem.

A belíssima história desse mártir carece de mais dados históricos que comprovem sua real existência. Por isso, a Igreja Católica deixou de celebrar a data, em 1969.

O fato é que, real ou não, a trajetória de Valentim consegue tocar nossos corações e nos realimenta a alma, com a certeza de que o Amor é o mais sublime dos sentimentos a unir os homens.