PodCast Papo Aberto

Dia 22/06/2010


Dia 21/06/2010


Dia 18/06/2010


Dia 17/06/2010


Veja os programas anteriores
Agenda
03/08 - Sessão Ordinária da CMSP, 15h
03/08 - Missa com Pe. Reginaldo Manzotti, em Rio das Pedras/SP. Local: Paróquia Senhor Bom Jesus - Praça Floriano Peixoto, s/nº - Rio das Pedras (Região - Piracicaba II, 19h
04/08 - Reunião da Comissão de Constituição e Justiça, na CMSP, 14h
04/08 - Sessão Ordinária da CMSP, 15h
04/08 - Show do Pe. Fábio de Melo. Local: local: Teatro Bradesco - Shopping Bourbon, 20h
05/08 - Sessão Ordinária da CMSP, 15h
05/08 - Sessão da APL - Academia Paulista de Letras, 18h
05/08 - Show do Pe. Fábio de Melo, em Sertãozinho/SP, 21h30h
06/08 - Show Pe. Fábio de Melo, em Rio das Pedras/SP, 21h30
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Quem sou eu
Nascido em 30 de abril de 1969, em Cachoeira Paulista - SP, doutor em Direito e doutor em Comunicação e Semiótica. Foi secretário de Educação do Estado de São Paulo e presidente do Conselho Nacional dos Secretários de Educação. É vereador da capital paulista.

Biografia
Fale comigo
E-mail: gabrielchalita@camara.sp.gov.br Telefone: 11 3396-4267

Estante Virtual

Um poema de Drummond para refletirmos e reverenciarmos a vida…

Falar é completamente fácil, quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião.

Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer, o quanto queremos dizer, antes que a pessoa se vá.

 Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias.

Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros, ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado.

 Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir.

Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso. E com confiança no que diz.

 Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação.

Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer. Ou ter coragem pra fazer.

 Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado.

Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece, te respeita e te entende. E é assim que perdemos pessoas especiais.

 Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar.

Difícil é mentir para o nosso coração.

 Fácil é ver o que queremos enxergar.

Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto. Admitir que nos deixamos levar, mais uma vez, isso é difícil.

 Fácil é dizer “oi” ou “como vai?”

Difícil é dizer “adeus”. Principalmente quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas…

 Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados.

Difícil é sentir a energia que é transmitida. Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa.

 Fácil é querer ser amado.

Difícil é amar completamente só. Amar de verdade, sem ter medo de viver, sem ter medo do depois. Amar e se entregar. E aprender a dar valor somente a quem te ama.

 Fácil é ouvir a música que toca.

Difícil é ouvir a sua consciência. Acenando o tempo todo, mostrando nossas escolhas erradas.

 Fácil é ditar regras.

Difícil é seguí-las. Ter a noção exata de nossas próprias vidas, ao invés de ter noção das vidas dos outros.

 Fácil é perguntar o que deseja saber.

Difícil é estar preparado para escutar esta resposta. Ou querer entender a resposta.

Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade.

Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir, de alegria.

 Fácil é dar um beijo.

Difícil é entregar a alma. Sinceramente, por inteiro.

 Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida.

Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro.

 Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica.

Difícil é ocupar o coração de alguém. Saber que se é realmente amado.

Fácil é sonhar todas as noites.

Difícil é lutar por um sonho…

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Gosto muito de ler poemas. Gosto mais de lê-los do que ouvir um poema declamado. Quando você lê um poema, ele se torna seu. Você é o condutor das palavras, ritmando-as e enfatizando-as na cadência do seu sentimento e das lembranças que cada palavra tem o poder de fazer revelar. No entanto, jamais esquecerei a emoção que vivi ao ver o querido Paulo Autran, pouco antes de nos deixar, no centro de um palco, iluminado mais por sua presença do que pela tênue luz que o focalizava.  Com a alma descoberta, declamava:

” Ah! Que saudade que eu tenho

Da aurora da minha vida

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais.” ( Casimiro de Abreu)

E repetia….como um poeta fingidor, a dor que deveras sentia, no seu entardecer: “Ah! Que saudade que eu tenho…”

Os tempos que não voltam mais. Igual emoção encontrei nas palavras de Cony, na Ilustrada de hoje, do jornal Folha de São Paulo.  Divido a intensidade , a turbação desses sentimentos:

Composição escolar

( Carlos Heitor Cony)

“ERA UMA noite solitária do mês de abril dos anos mais antigos do passado. Eu estava na janela olhando a rua, e entre a janela e a rua havia um jardim.

O pai costumava, tão logo a noite caía, regar os nossos canteiros de tinhorões e avencas, os pés de roseira que ficavam do outro lado, costeando o muro que dividia a nossa casa de um palacete -o único palacete da rua e do bairro.

Verdade: o palacete era enorme, tinha uma escadaria de mármore que subia pela fachada principal -mas não havia jardins, nem sequer um tinhorão aveludado, nem sequer um pé de manacá como o nosso, que ali estava cheirando, molhado pelo anoitecer daquele solitário abril dos anos mais antigos do passado.
Eu olhava a noite e sentia o perfume que vinha do jardim umedecido. A rua não tinha cheiros, era apenas um espaço cor de cimento e pedra, naquele tempo quase não havia movimento, o bonde passava pontualmente de 15 em 15 minutos, era um bonde verde como um bicho de seda comprido, à noite ele vinha iluminado, vazio e inútil, levando ninguém para lugar nenhum.

Além do bonde, um ou outro carro deslizava pela rua vazia. Todas as noites, lembro que, pelas nove horas, passava um carro branco, último modelo na época; se a noite era quente, a capota estava arriada e dentro dele um homem vestido de branco, todo de branco, e houve noite em que, ao lado do homem vestido de branco, havia uma mulher também vestida de branco, um chapéu branco e enorme com enormes fitas brancas.

Anos depois, quando assisti pela primeira vez a “La Traviata”, no segundo ato, cheirando a jardim e a flor, lá estava a mesma mulher vestida de branco, com seu chapéu e suas fitas brancas.
Não entendi nada, mas guardei para sempre aquele encontro mágico que era tão meu. Na ópera, o pai se emocionava com a despedida da mulher que abandonava o amante, e eu tinha a certeza de que aquela mulher ali estava só para mim e para sempre. E passava pela minha rua num carro branco e nupcial.
Mas isso foi há muito tempo. Há tanto tempo que já não gosto mais daquele segundo ato, nem da ópera em si e, mesmo que gostasse, de nada me adiantaria: a rua foi asfaltada, perdeu a cor de cimento e pedra, ficou escura como uma enorme tira de fita isolante, os bondes foram arquivados e o palacete foi demolido, em seu lugar subiu um espigão sem forma nem cor.

E o jardim de nossa casa não mais existe, nem os tinhorões nem as avencas, o menino que ficava ali, olhando a noite e o jardim molhado, também ele não existe mais.

De tudo, o que restou foi o silêncio do menino olhando a noite e sentindo o perfume do jardim, esperando o carro branco e nupcial, a mulher com seu chapéu de fitas brancas que parecia ter saído do segundo ato de uma ópera. Além da noite e do jardim estava o mundo, a vida que se desdobrou para o menino, uma vida nem boa nem má, apenas vida -e bastante.

E onde está o carro branco que passava lentamente pelo meio da noite, aquele casal vestido de branco que vinha não sei de onde e se perdia naquela noite silenciosa do mundo?

Ficaram na memória do menino, com os cheiros e os tinhorões aveludados, o pé de manacá molhado, o bonde iluminado e vazio, o garoto olhando a solitária noite dos anos mais antigos do passado.

Mais tarde, o menino precisou fazer aquilo que os outros chamavam de “ganhar a vida”. Ele não sabia direito o que era aquilo, já tinha uma vida que lhe fora dada de graça, não precisava de outra, de ganhar outra.

Quando as coisas se complicavam para o lado dele, recorria àquela imagem distante, a rua deserta e perfumada pelo manacá, de repente o carro branco e silencioso passando devagar, a mulher com seu enorme chapéu de tiras brancas deslizando na noite do passado.

Os anos mais antigos também passaram, parece que nem tinham acontecido. O que acontecia agora era muito colorido, berrantemente colorido, o mundo é em cores e faz muito barulho, som e fúria que nada significam.

Mas o menino gosta de pensar neles, embora o homem tenha um pouco de vergonha em falar neles. “

Carpe Diem…

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A falta de amizade entre crianças na fase escolar é considerada a maior causadora do bullying – o crime do desamor. É urgente a necessidade de pôr fim às cenas de desrespeito e humilhações no ambiente escolar. Quem foi vítima de tal agressividade não a esquece jamais. Guarda-a, calada no peito, por toda a vida. Outros, um dia, corajosamente, revelam-na.  O bullying magoa, martiriza, muitas vezes até traumatiza.  O maior antídoto para essa prática de violência  é a valorização do sentimento de amizade entre os alunos, pais, professores e educadores. A amizade é uma atitude que protege, que acolhe, que humaniza.

 

Respeito é palavra que significa, na sua origem latina (respectus), a ação de olhar para trás. A palavra demonstra, claramente, que a pessoa dotada de respeito é aquela que não esquece o que passou, não se esquece de quem ficou para trás porque envelheceu, amadureceu ou simplesmente porque o tempo passou. Todo ser humano é digno de respeito. Mas nem todos ousam olhar para trás e remexer em suas feridas, revelando-nos a dor de tantos anos que, escondida, insiste em permanecer doída, segredada. A esta revelação, nosso respeito:

 

 

Um segredo…
… que nunca revelei

 

 

Rubem Alves

Tenho uma ternura especial pelas coisas fracas, que não sabem ou não conseguem se defender. E não só a fraqueza física: são as humilhações silenciosas que dilaceram a alma dos fracos.

Costumava caminhar num jardim que terminava em frente a uma escola. Observava meninos e meninas que iam juntos, bonitos, esbanjando alegria. Mas havia uma menina muito gorda que caminhava sempre só. Nunca vi um gesto dos alegres e bonitos convidando-a a juntar-se ao grupo. E ela nem tentava. Havia outra, magra, alta, sem seios, rosto coberto de espinhas, encurvada como se quisesse esconder-se dentro de si.

Ficava pensando que havia nelas uma mocinha que desejava ser amada. O que pensavam quando iam para a cama? Certamente choravam. Mas essas percepções não passavam pela cabeça dos outros.

No Ginásio era assim também. Os bonitos se juntavam. Os feios eram deixados de lado. Um incidente ocorrido há 60 anos continua vívido na minha cabeça. Era uma moça  feia, desengonçada, magra. Jamais a vi conversando com um menino ou sorrindo. Entrava na sala e ia para sua carteira, encostada na parede. Um dia, chegou atrasada, a turma já assentada. Não havia jeito de se esconder, desfilou diante de todos. E foi então que um colega deu um daqueles assobios… A classe estourou na gargalhada. Ela continuou a caminhar, as lágrimas escorrendo.

Tive vontade de berrar, um grito de ódio, mas nada fiz. Porque também era fraco e feio e ridículo. Ela é a única colega cujo nome não me esqueci. Suas iniciais eram I.K. Eu era novo no Rio de Janeiro, vindo do interior de Minas, onde ir à escola de sapato era um luxo. Fui ao colégio no primeiro dia de aula com sapato sem meia. Todos riram. No dia seguinte, fui de meia. Não adiantou. Riram-se do meu sotaque caipira. Tornei-me vítima dos valentões. Apanhei muito em silêncio porque não sabia me defender. Não tinha a quem apelar. Acontecia na rua, fora do olhar dos professores. Meus pais não saberiam o que fazer. Minha mãe me daria o único conselho que sabia dar: “Quando um não quer dois não brigam”. É verdade, quando um não quer, um bate e o outro apanha.

Uma pessoa querida me disse que tenho raiva das mulheres. Fico a pensar se essa raiva não tem raízes na minha mãe, que só me ensinava a não reagir, que desejava que eu fosse fraco e não enfrentasse a luta. A pancada que mais doeu foi dada por um colega que se dizia filho de governador, rico, arrogante, ouro nos dentes. Sem motivo, na hora do recreio veio até mim e disse: “Você é ridículo…”

Essas experiências não podem ser esquecidas. A gente faz força para não as revelar, por vergonha. Durante toda a vida, foram um segredo só meu. Nunca as contei nem para os amigos mais íntimos. É a primeira vez que as revelo.

Fui me enchendo de vergonha e de humilhação. Daí nasce o ódio. À medida que crescia e me tornava adulto, esses sentimentos criaram em mim um lado que não suporta a injustiça dos fortes contra os fracos. O que me leva, por vezes, a fazer coisas imprudentes a favor dos fracos, mesmo com risco de ser agredido.

Mas há algo que me magoa. É como se a minha pele de ternura, de voz baixa, de poesia, que deseja proteger as coisas fracas, morasse no mesmo quarto onde mora esse jeito bravo. E, de vez em quando, sem me dar conta, fico irônico, impaciente, a voz se encrespa. Imagino que isso aconteça quando, lá no meu inconsciente, onde mora o menino ridículo que apanhava, o sentimento de humilhação aparece. Magoei muitas pessoas com esse meu jeito, algumas de forma irremediável. Por isso estou triste. Mais triste porque sei que hoje, no mundo todo, os fracos são humilhados e apanham…


Rubem Alves Educador e escritor
rubem_alves@uol.com.br

Fonte: Revista Educação 05/2010

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O exemplo é um forte elemento na educação das crianças. A família , os professores, os personagens das histórias a eles narradas e até mesmo os apresentadores  dos programas infantis de televisão têm enorme responsabilidade sobre seus gestos e atitudes, cujas características são cuidadosamente apreendidas pelos pequenos. As crianças são como esponjas. Se colocadas em água suja, absorverão água suja. Quando colocadas em água limpa, absorverão água limpa. As crianças tendem a repetir aquilo que os adultos fazem.  Muitas histórias servem de pretexto para que reflitamos sobre nossas atitudes diante de nossos filhos, alunos, pequenos aprendizes. É o caso desta pequena mensagem, cujo autor é desconhecido:

A tigela de madeira

 

Um senhor de idade foi morar com seu filho, nora e o netinho de quatro anos de idade. As mãos do velho eram trêmulas, sua visão embaçada e seus passos vacilantes. A família comia reunida à mesa. Mas as mãos trêmulas e a visão falha do avô o atrapalhavam na hora de comer. Ervilhas rolavam de sua colher e caíam no chão. Quando pegava o copo, leite era derramado na toalha da mesa.

 

O filho e a nora irritaram-se com a bagunça. - “Precisamos tomar uma providência com respeito ao papai”, disse o filho. - “Já tivemos suficiente leite derramado, barulho de gente comendo com a boca aberta e comida pelo chão.”

 

Então, eles decidiram colocar uma pequena mesa num cantinho da cozinha. Ali, o avô comia sozinho enquanto o restante da família fazia as refeições à mesa, com satisfação. Desde que o velho quebrara um ou dois pratos, sua comida agora era servida numa tigela de madeira.

 

Quando a família olhava para o avô sentado ali sozinho, às vezes ele tinha lágrimas em seus olhos. Mesmo assim, as únicas palavras que lhe diziam eram admoestações ásperas quando ele deixava um talher ou comida cair ao chão.

 

O menino de 4 anos de idade assistia a tudo em silêncio

 

Uma noite, antes do jantar, o pai percebeu que o filho pequeno estava no chão, manuseando pedaços de madeira. Ele perguntou delicadamente à criança:

 

- “O que você está fazendo?”

O menino respondeu docemente:

- “Oh, estou fazendo uma tigela para você e mamãe comerem, quando eu crescer”.

 

O garoto de quatro anos de idade sorriu e voltou ao trabalho. Aquelas palavras tiveram um impacto tão grande nos pais que eles ficaram mudos. Então lágrimas começaram a escorrer de seus olhos.

 

Embora ninguém tivesse falado nada, ambos sabiam o que precisava ser feito. Naquela noite o pai tomou o avô pelas mãos e gentilmente conduziu-o à mesa da família.

 

Dali para frente e até o final de seus dias ele comeu todas as refeições com a família. E por alguma razão, o marido e a esposa não se importavam mais quando um garfo caía, leite era derramado ou a toalha da mesa sujava.

 

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Rubem Alves, em coluna veiculada no jornal Folha de São Paulo, traz à tona uma questão bastante singular do ofício do escritor: as múltiplas vidas criadas, os inúmeros olhares assumidos, as inusitadas leituras de um mesmo mundo. De início, lembra Fernando Pessoa, poeta que se destacou na revelação das diversas faces do  mesmo homem. O fenômeno da heteronímia marcou sua trajetória poética. Tantos poetas em um só.

O ato de escrever é solitário, a criação é solitária. Movido por afetos, amores, tristezas, angústias , o escritor vai dando vida às palavras, em uma tessitura repleta de significados.

Em sua Profissão de Fé, desabafa Olavo Bilac:

E horas sem conto passo, mudo,
O olhar atento,
A trabalhar, longe de tudo
O pensamento.

Porque o escrever - tanta perícia,
Tanta requer,
Que oficio tal… nem há notícia
De outro qualquer.

O escritor doa um pouco de si a cada obra produzida. Parte do seu eu repousa ali, muitas vezes, uma parte sua esquecida. E se assombra a cada nova leitura, percebendo-se novo no já distante pelo tempo. Mas na redescoberta de si,  no resgate de sua essência, reafirma seu pensamento. É a sua vida, a sua trajetória.

Vive! que eu viverei servindo
Teu culto, e, obscuro,
Tuas custódias esculpindo
No ouro mais puro.

Celebrarei o teu oficio
No altar: porém,
Se inda é pequeno o sacrifício,
Morra eu também!

Duas Caixas - Rubem Alves

Alguém me mostra um texto e diz que fui eu quem o escreveu. Leio-o, mas é como se tivesse sido escrito por outra pessoa

FERNANDO Pessoa escrevia, lia o que escrevera e se assombrava. “Por que escrevi isto? Onde fui buscar isto? Isto é melhor do que eu…”

Coisa parecida acontece comigo. Alguém me mostra um texto e diz que fui eu quem o escreveu. Leio-o, mas não o reconheço. É como se tivesse sido escrito por uma outra pessoa. Mas, à medida em que vou lendo, vou ficando alegre. É um texto bom, melhor do que eu! Faço então as mesmas perguntas que fazia Fernando Pessoa ao ler o texto que acabara de escrever.

Sinto, então, vontade de publicar aquele texto de novo. Se ele surpreendeu a mim, é de se esperar que o mesmo aconteça com os leitores. E por que não?
Sei que Freud achava que a compulsão à repetição é um sintoma neurótico. Mas essa não é toda a verdade. Digo que o desejo da repetição pode ser a reação da alma diante da beleza. Quero ouvir de novo a “Valsinha”, quero ver de novo as telas de Carl Larsson, quero comer de novo um frango com quiabo mi neiro, quero ver de novo os ipês floridos…

Eu gostaria de publicar inteiros dois artigos que escrevi faz muito tempo. Eu os reli e gostei. Para que meus leitores saibam o que penso da educação. Como não posso publicá-los inteiros, vou publicar o essencial. E foi isso que escrevi:

“Explicações conceituais são difíceis de se aprender e fáceis de se esquecer. Por isso, caminho sempre pelo caminho dos poetas, que é o caminho das imagens. Em vez de explicar por meio de conceitos abstratos, vou mostrar o que digo por meio de imagens. Quem aprender as imagens terá aprendido o essencial da minha filosofia de educação.”

“O corpo carrega duas caixas. Na mão direita, mão da destreza e do poder, ele leva uma caixa de ferramentas. E na mão esquerda, mão do coração e do prazer, ele leva uma caixa de brinquedos.”

“Os animais não precisam de ferramentas. Seus corpos são as ferramentas de que necessitam para viver. Diferentes dos animais, nossos co rpos são fracos e incompetentes. Se fôssemos depender deles para sobreviver, como os animais, há muito teríamos desaparecido da Terra. A fraqueza e a incompetência obrigaram o corpo a pensar e a criar. E foi assim que inventamos porretes, pilões, facas, flechas, redes, barcos, casas, como extensões do corpo.”

“A primeira tarefa de cada geração, dos pais e das escolas, é passar aos filhos, como herança, a caixa de ferramentas. Para que eles sobrevivam e não tenham de começar da estaca zero.”

“Diante da caixa de ferramentas, a primeira pergunta que um professor tem de fazer é: “Isso que estou ensinando é ferramenta para quê? De que forma esse conhecimento aumenta a competência dos meus alunos para viver a sua vida?”

Mas há uma outra caixa, na mão esquerda, a mão do coração e do prazer. Essa caixa está cheia de coisas inúteis que não servem para nada. Lá estão um livro de poemas da Cecília Meireles, a estória de “Alice no País das Ma ravilhas”, um pé de jasmim, um quadro do Monet, uma sonata de Mozart, um banho de cachoeira, um beijo… Coisas inúteis. E, no entanto, elas são parte da vida e nos fazem sorrir. E não é para isso que se educa? Para que saibamos, além de viver, sorrir e ter prazer?

Resumo da minha filosofia de educação:
Primeiro, aprender ferramentas, para ter poder.
Segundo: aprender os brinquedos, para ter prazer…

 

Fonte: Folha de São Paulo - 27/04/2010

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Devota de Nossa Senhora e São Judas Tadeu, Dona Laura, imortalizada na música Lady Laura, composta por seu filho Roberto Carlos , em parceria com Erasmo Carlos, foi a maior incentivadora da carreira de cantor, precocemente iniciada aos nove anos.  Sua sempre companheira, foi bálsamo na dor e cúmplice na alegria. As mães são tão necessárias, imprescindíveis, insubstituíveis que não deveriam partir jamais. No peito de um filho, a aflição da ausência,  a angústia do vazio, a triste sensação de estar só no mundo. Sem referências, sem proteção, sem consolo.  Parafraseando Mia Couto, escritor africano, que tão bem resume o sofrer de um filho, no momento da morte:  por mais que cavemos a terra, nunca uma cova será demasiado grande  para enterrarmos  as mães.

Para Roberto  Carlos, nosso Rei,  sua  Lady Laura  era :


Um porto seguro:

Tenho às vezes vontade de ser
Novamente um menino
E na hora do meu desespero
Gritar por você

Acolhedora:

Te pedir que me abrace
E me leve de volta pra casa

Mãe:

E me conte uma história bonita
E me faça dormir

Quando eu era criança
Podia chorar nos seus braços
E ouvir tanta coisa bonita
Na minha aflição
Nos momentos alegres
Sentado ao seu lado, eu sorria
E, nas horas difíceis
Podia apertar sua mão

Alentadora:

Só queria ouvir sua voz
Me dizendo sorrindo
Aproveite o seu tempo
Você ainda é um menino

Protetora:

Quantas vezes me sinto perdido
No meio da noite
Com problemas e angústias
Que só gente grande é que tem
Me afagando os cabelos
Você certamente diria
Amanhã de manhã você vai se sair muito bem

Presença amiga nas horas incertas:

Apesar da distância e do tempo
Eu não posso esconder
Tudo isso eu às vezes preciso escutar de você

Mãe, sempre  mãe:

Tenho às vezes vontade de ser
Novamente um menino
Muito embora você sempre acha que eu ainda sou
Toda vez que eu te abraço e te beijo
Sem nada dizer
Você diz tudo que eu preciso
Escutar de você…. 

Lady Laura , me faça domir….

Lady Laura…..saudades.

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Ontem, dia 15/04,  a escritora Tatiana Belinky encantou a todos, durante a sua posse na Academia Paulista de Letras.  Com doçura na voz e meninice no olhar, surpreendeu os acadêmicos e a atenta platéia, ao declamar um pequeno poema -  segunda ela, a poesia que mudou a sua trajetória - , versos em forma de acróstico:

Trazes no peito um sonho de ventura

Amável sonho que te embala a vida

Tornando-a suave e menos sofrida

Irmã do teu sequioso de ternura

Arde outro sonho dentro do meu peito

Não te parece assim bela medida

Amarmos os dois num só proveito

 

O poeta: Júlio Gouveia. A revelação: seu namorado e, depois, marido.

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Lendo os jornais de hoje, deparei-me com este belíssimo texto de Dom Luiz Soares Vieira, arcebispo de Manaus. Em suas palavras, uma lição. A lição que a  Páscoa nos traz, em nossos tempos, “A Páscoa é um grito em favor da esperança numa época em que desapareceram as utopias, deixou-se de sonhar e o mundo ficou pequeno “, afirma Dom Luiz. Compartilho com vocês estes ensinamentos. Um domingo de paz, reflexão e renovação a todos!

Lições de Páscoa

EXISTEM acontecimentos que marcam a vida dum povo e determinam-lhe o caminho. São principalmente fatos que despertaram em grupos, clãs ou tribos a consciência de serem todos membros de uma única nação. Poderíamos rotular esses episódios como “fundantes” de nacionalidades.

Temos um belo exemplo na história do povo de Israel, como vem narrada na Bíblia. Devido a secas em Canaã, região onde morava, uma família se transferiu para o delta do Nilo, onde cada filho de Jacó organizou seus descendentes como tribo.

Reduzidos a escravos e condenados a desaparecer devido a leis que os obrigavam a matar os recém-nascidos do sexo masculino, gritaram por socorro ao Deus de seus antepassados.
Foram ouvidos por Javé e libertados por Moisés, que os conduziu através do leito seco do mar e do areal do deserto até a terra prometida.

Foi aí que Israel se percebeu como um povo, mais ainda, um povo escolhido por Deus, um povo de pessoas livres e aliadas do Altíssimo.

A força de Israel consistiu em viver intensa e eternamente a saída do Egito, a aliança feita no Sinai e a entrada na terra das promessas. Para isso, a cada ano, na lua cheia de Abib, o primeiro mês do calendário judaico, a celebração da Páscoa foi, mais do que a lembrança do acontecimento “fundante”, o compromisso de viver a liberdade, a aliança com o Senhor e o amor à “terra do povo de Deus”. “Este será para vós uma festa memorável em honra do Senhor, que haveis de celebrar por todas as gerações como instituição perpétua” (Ex 12,14).

Antes da destruição do templo de Jerusalém, os cordeiros sacrificados, a reunião da família para a ceia, o ritual entremeado de leituras, de cantos e de orações tornavam presentes os fatos do êxodo. Israel nunca deveria esquecer seus inícios como povo.

Do contrário, sucederia o que sucedeu na do reino em dois e em seus desaparecimentos.
A igreja é o povo da nova aliança.

Seu acontecimento “fundante” é a Páscoa de Jesus, sua passagem da morte para a vida. Os discípulos eram uma multidão sem rosto que acompanhava ora com entusiasmo, ora desanimada, os passos do nazareno. A expectativa de que ele seria o desejado chefe político os acompanhou até a entrada do domingo de Ramos.
Após sua prisão, debandaram e só se reagruparam após a certeza da ressurreição. O espírito de Deus lhes deu a alegria de se deixarem apossar pela força da experiência de Jesus. Foi aí que nasceu um povo, o povo dos seguidores do Senhor.

Se a Páscoa de Israel foi a libertação de escravos políticos e econômicos para transformá-los em pessoas livres, aliados de Deus e possuidores de esperanças, a Páscoa de Jesus é a libertação da causa de todas as escravidões, a elevação dos homens e mulheres à dignidade de filhos e filhas do pai celeste e herdeiros da vida eterna.

A força da igreja, povo da nova aliança, está em centralizar no ressuscitado a fonte de seu ser, de seu agir e de seu fazer. Quando os cristãos relegam a Páscoa a mero apêndice das muitas preocupações, tornam-se fracos e protagonizam escândalos que abalam ou afastam quem sente atração pelo Cristo.

Celebrar a Páscoa tanto em festa anual quanto nos domingos e nas missas diárias é uma necessidade para que o acontecimento “fundante”, a morte e a ressurreição de Jesus, nos torne uma presença alegre e esperançosa dentro de uma sociedade cada vez mais marcada pela morte.

A Páscoa é um grito forte em favor da vida a ressoar neste ano que apareceu, em seus primeiros meses, marcado pela tragédia em Angra dos Reis, pelos terremotos de Haiti, Chile e Turquia, pelas enchentes ou secas em várias regiões do planeta, pelas guerras em curso, por atos de terrorismo.

A Páscoa é um grito forte em favor da liberdade a ressoar em tempos que manipulam a opinião pública, restringem direitos universalmente aceitos, distorcem valores e nos violentam o direito de expressão de pensamento. Por meio de campanhas bem urdidas, roubam-nos os espaços interiores, não nos deixam tempos e espaços para pensar. Os jovens são as grandes vítimas da falsa sensação de liberdade de pássaros presos em gaiola de ouro. O ressuscitado arrebentou as prisões quando arrebentou o sepulcro onde o colocaram morto.

A Páscoa é um grito forte em favor da esperança numa época em que desapareceram as utopias, se deixou de sonhar e o mundo ficou pequeno. “O Cristo, ressuscitado dos mortos, já não morre; a morte não tem mais poder sobre ele” (Rom 6,9).


DOM LUIZ SOARES VIEIRA, 72, arcebispo de Manaus, é vice-presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).

Fonte: Folha de São Paulo - 05/04/2010

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Monteiro Lobato foi um homem notável. Inteligente, perspicaz, advogado, editor, escritor, desenhista, crítico e nacionalista. Um nacionalismo ferrenho, que chegou a lhe custar a prisão. Preso por patriotismo! Um eterno inconformado. Não do tipo que apenas reclama, mas que luta, indignado, pela transformação. Um amante dos livros, um sabedor do universo infantil, um desbravador de nossa literatura para crianças. “Um país se faz de homens e livros”, por isso escrevia, em especial,  para as crianças, alimentando de fantasia, aventura e liberdade as inteligências espertas desses homens do amanhã.

 

É sempre motivo de prazer o resgate do olhar infantil que a releitura de suas obras nos provoca. Das suas fantásticas personagens que povoavam o universo utópico do Sítio do Picapau Amarelo,  não há como se esquecer da boneca Emília. Irreverente, teimosa, sabichona, inconformada a exemplo de seu criador. Por meio de suas tiradas, vamos nos apropriando das ideias de Lobato:” O segredo, meu filho, é um só: liberdade. Aqui não há coleiras. A maior desgraça do mundo é a coleira. E como há coleiras espalhadas no mundo.”, dizia a boneca com seu tom sempre professoral. Os livros libertam os homens, defendia o escritor.

 

Vale a pena reler a obra de Monteiro Lobato. Quantos ensinamentos e reflexões trazem as aventuras da Turma do Sítio. Memórias da Emília é um verdadeiro tratado de Filosofia. Com senso de humor sutil, mas afiado, suas palavras nos provocam, cutucam , incomodam. Deliciosamente. Conta que certo dia, Emília resolve escrever suas memórias. Convoca, mandona, o Visconde de Sabugosa para auxiliá-la.  A boneca decide explicar o significado da vida, palestrando ao Visconde, já impaciente com a demora.   Emília defende-se:

 

- Sei dizer coisas engraçadas e até filosóficas. (…) Sabe o que é um filósofo, Visconde?

O Visconde sabia, mas fingiu não saber. A boneca explicou:

- É um bichinho sujinho, caspento, que diz coisas elevadas que os outros julgam que entendem e ficam de olho parado, pensando, pensando, Cada vez que digo uma coisa filosófica, o olho de Dona Benta fica parado e ela pensa, pensa…

- Ficam pensando o quê, Emília?

- Pensando que entenderam.

O Visconde enrugou a testinha e quedou-se uns instantes de olho parado, pensando, pensando. Aquela explicação era positivamente filosófica.

- E como sou filósofa – continuou Emília – quero que minhas Memórias comecem com a minha filosofia de vida.

- Cuidado, Marquesa! Mil sábios já tentaram explicar a vida e se estreparam.

- Pois eu não me estreparei. A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem  para de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais.(…)

O Visconde ficou novamente pensativo, de olhos no teto.

Emília riu-se.

- Está vendo como é filosófica a minha idéia? O Senhor Visconde já está de olhos parados, erguidos para o forro.(…) A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca;pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela última vez e morre.

- E depois que morre? – perguntou o Visconde.

- Depois que morre vira hipótese. É ou não é?”

 

 

Temos que concordar com Emília. E se há vida, não fechemos , então, nossos olhos.

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Gabriel Chalita 

Experimentamos, na vida, todos os tipos de sensações e provações. Trilhamos caminhos que ora são acolhedores, ora são profundamente dolorosos. Ritualizamos momentos. Celebramos aniversário, formatura, novo emprego, prêmios, aprovações em concursos, defesas de teses, casamento. De outro lado, separações, mortes, demissões, injustiças, inveja, mentiras. O riso ou as lágrimas convivem conosco. A euforia e o desânimo também. E, assim, vamos nos construindo, nos educando.

No processo de crescimento, os exemplos de vida nos ajudam a melhorar a nossa disposição para a própria vida. A vida que passa muito rapidamente, ou não, nos dizeres de Cora Coralina:

Não sei… Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.

A educação depende da capacidade que temos de tocar o coração das pessoas. E isso se dá de muitas maneiras. Uma delas ocorre quando apresentamos modelos de vida. Não modelos perfeitos, mas pessoas que se notabilizaram por vencer os obstáculos e perseguir a meta.

A biografia de Gabrielle Chanel ou Coco Chanel mostra a saga de uma menina que tendo a mãe morta é deixada no orfanato pelo pai. Quando este parte, ela olha pela porta semiaberta desejosa de que ele olhe pelo menos mais uma vez para trás. Ele não olha e nunca volta para buscá-la. E ela, ritualmente, se arrumava todos os domingos para a tão esperada visita. Sofreu muito a menina. Sofreu muito a mulher. Sofreu muito a madura Chanel para reerguer-se depois da guerra. Certa vez, ela confessou: “a força se constrói com fracassos, não com sucessos”.

A vida de Nelson Mandela é um tesouro para a educação. Sua fé na justiça, apesar das injustiças. Sua perseverança na liberdade, apesar da prisão. Seu sonho de construir uma nação em que a cor da pele não desse o tom do respeito. Usou de todas as forças possíveis para que o seu povo celebrasse o sonho antevisto por Luther King, outro referencial.

Eu tenho um sonho que um dia minhas quatro crianças viverão em uma nação onde não serão julgadas pela cor de sua pele, mas sim pelo conteúdo de seu caráter.

Quando apresentamos biografias aos nossos alunos, permitimos que percebam, com mais cuidado, a riqueza da vida talhada em momentos mais fáceis e em momentos mais difíceis. Mostrar o sucesso apenas é desconsiderar os muitos fracassos que haverão de viver os nossos aprendizes. Preparar para o fracasso parece um paradoxo para quem prepara para a vida. Mas não é. Quantos fracassos viveram Chanel ou Mandela? Mas persistiram porque foram talhados para a luta. Em um mundo cheio de competições, em que as pessoas acabam sendo descartadas sem muita cerimônia, em que os empregos não são definitivos, educar para a adversidade faz parte do escopo essencial da relação de ensino e aprendizagem.

Sempre defendi que humanizássemos os autores para que a literatura fosse mais sedutora. Quem conhece a biografia de Machado de Assis contempla sua obra com mais entusiasmo. Quem sofre com Castro Alves as dores da ausência da liberdade contempla como o mesmo olhar de pássaro a nau composta de escravos e a dor com que o poeta clama aos céus.

A literatura dialoga com a história que dialoga com a vida. As ciências também tratam da vida como a geografia. As novas línguas que aprendemos abrem janelas para outras possibilidades. É tudo real. O conhecimento e a aprendizagem acontecem como a vida acontece. E libertam com o poder de tirar dos porões o oprimido, era esse o sonho de Paulo Freire.

Os educadores têm de ter em mente esse desafio, apresentar vidas para que as vidas dos aprendizes tenham ainda mais significado. Há um filme, recentemente lançado, “Sempre ao seu lado” que começa em uma sala de aula em que os alunos têm de contar a história de um grande herói. E um menino começa a falar do cachorro do seu avô.   E o relato vai emocionando a sala porque há algo de fascinante na fidelidade do cachorro. Sua espera. O dono, um professor de música, nunca mais haveria de voltar. Mas o seu oficio era o de esperar. E as pessoas iam aprendendo com a “sabedoria” canina. E compreendendo o seu desejo de liberdade e de ternura a quem ele escolheu para servir.

Há heróis anônimos. E certamente os alunos conhecem alguns deles. Essa é uma experiência que vale a pena. Misturar biografias conhecidas com histórias do quarteirão. Vidas sempre têm importância. Algumas conseguem notoriedade outras mudam mundos em um cantinho qualquer do mundo.

Esse é o antídoto que temos contra a destruição dos valores humanos. É nadando contra a correnteza que fortalecemos os nossos músculos morais e temperamos nosso caráter com dignidade e ternura. Nós, educadores, podemos fazer a diferença. Vale a pena experimentar…

 

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