ARQUIVOS
GABRIEL CHALITA
Nascido em 30 de abril de 1969, em Cachoeira Paulista (SP), é doutor em Direito e em Comunicação e Semiótica. Foi secretário da Educação do Estado de São Paulo, presidente do Conselho Nacional dos Secretários de Educação (Consed) e vereador da capital paulista. Eleito com 560.022 votos, é deputado federal.

Biografia
FALE COMIGO
E-mail: dep.gabrielchalita@camara.gov.br Telefone: (61) 3215-5817
ESTANTE VIRTUAL

 

 

Monteiro Lobato foi um homem notável. Inteligente, perspicaz, advogado, editor, escritor, desenhista, crítico e nacionalista. Um nacionalismo ferrenho, que chegou a lhe custar a prisão. Preso por patriotismo! Um eterno inconformado. Não do tipo que apenas reclama, mas que luta, indignado, pela transformação. Um amante dos livros, um sabedor do universo infantil, um desbravador de nossa literatura para crianças. “Um país se faz de homens e livros”, por isso escrevia, em especial,  para as crianças, alimentando de fantasia, aventura e liberdade as inteligências espertas desses homens do amanhã.

 

É sempre motivo de prazer o resgate do olhar infantil que a releitura de suas obras nos provoca. Das suas fantásticas personagens que povoavam o universo utópico do Sítio do Picapau Amarelo,  não há como se esquecer da boneca Emília. Irreverente, teimosa, sabichona, inconformada a exemplo de seu criador. Por meio de suas tiradas, vamos nos apropriando das ideias de Lobato:” O segredo, meu filho, é um só: liberdade. Aqui não há coleiras. A maior desgraça do mundo é a coleira. E como há coleiras espalhadas no mundo.”, dizia a boneca com seu tom sempre professoral. Os livros libertam os homens, defendia o escritor.

 

Vale a pena reler a obra de Monteiro Lobato. Quantos ensinamentos e reflexões trazem as aventuras da Turma do Sítio. Memórias da Emília é um verdadeiro tratado de Filosofia. Com senso de humor sutil, mas afiado, suas palavras nos provocam, cutucam , incomodam. Deliciosamente. Conta que certo dia, Emília resolve escrever suas memórias. Convoca, mandona, o Visconde de Sabugosa para auxiliá-la.  A boneca decide explicar o significado da vida, palestrando ao Visconde, já impaciente com a demora.   Emília defende-se:

 

- Sei dizer coisas engraçadas e até filosóficas. (…) Sabe o que é um filósofo, Visconde?

O Visconde sabia, mas fingiu não saber. A boneca explicou:

- É um bichinho sujinho, caspento, que diz coisas elevadas que os outros julgam que entendem e ficam de olho parado, pensando, pensando, Cada vez que digo uma coisa filosófica, o olho de Dona Benta fica parado e ela pensa, pensa…

- Ficam pensando o quê, Emília?

- Pensando que entenderam.

O Visconde enrugou a testinha e quedou-se uns instantes de olho parado, pensando, pensando. Aquela explicação era positivamente filosófica.

- E como sou filósofa – continuou Emília – quero que minhas Memórias comecem com a minha filosofia de vida.

- Cuidado, Marquesa! Mil sábios já tentaram explicar a vida e se estreparam.

- Pois eu não me estreparei. A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem  para de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais.(…)

O Visconde ficou novamente pensativo, de olhos no teto.

Emília riu-se.

- Está vendo como é filosófica a minha idéia? O Senhor Visconde já está de olhos parados, erguidos para o forro.(…) A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca;pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela última vez e morre.

- E depois que morre? – perguntou o Visconde.

- Depois que morre vira hipótese. É ou não é?”

 

 

Temos que concordar com Emília. E se há vida, não fechemos , então, nossos olhos.

32 Responses to “Filosofia da boneca Emília : “A vida é um pisca-pisca””

  • João Artur disse:

    excelente abordagem Chalita! é interessante ver como o amadurecimento nos conduz a diferentes interpretações. Quando criança, não gostava da personagem Emília, era muito mandona! Preferia Pedrinho, brincalhão… Mas, hoje, percebo que mestre Lobato usou Emília para difundir idéias que todos temos vontade de expressar, mas não o fazemos. Vc nos dá uma boa dica… Ainda tenho os livros do “Sítio”, acho que vou considerar dá uma relida… Vai que começo a “dizer coisas engraçadas e filosóficas” também?!

  • Thatiane Pettinari disse:

    Me apaixonei pelo Monteiro Lobato quando ouvi essa passagem na Praça da Paz, no Museu de Língua Portuguesa. Ótimo post.

  • Gabriel, estou com a Emília, aliás, estou relendo meu livro todo cacarecado de criança de capa dura dos contos do Sítio e lembrei das cenas adaptadas da TV desse diálogo, fiquei arrepiada, pq era tão criança e me lembrei.
    Mas engraçado… Eu sempre me identifiquei com a Emília, ela é bem humorada, perspicaz, simples e cheia de metáforas.
    Mais filósofa, impossível… Mas ela tem um problema: eloquente demais, risos, fala pelos cotuvelos! kkkk
    Pois é, nem sempre quem é linguarudo fala demais, pode ser que pense demais e fale nem 1/3 que pensa, pq pensa MUITO mais ainda, risos…
    Boa noite, gostei da lembrança e do texto!
    Obrigada!

  • Mariazinha disse:

    Que gostoso (re) ler isso.

    Emília é minha musa eterna!
    Amo! Semana passada falei dela.

    ps- Qria te perguntar sobre “Meu Pé de Laranja-Lima”, é tão lindo, vc gosta? Ainda ñ pude ler o conto do Machado de Assis, vou ler e depois te falo.

    Bjos alvinegros, Deus te ilumine sempre.

  • Gabriel Chalita

    Não poderia deixar de comentar sobre o ´Sítio do Picapau Amarelo`, mas de uma forma muito especial: a boneca Emília.
    Lembrar a Emília, personagem de Monteiro Lobato é voltar à minha infância. Eu sou completamente apaixonada pelas histórias do Sítio do Picapau Amarelo.
    Lembro-me quando criança, voltava da escola apressadamente para não perder nenhum capítulo que passava na TV e eu sonhava em ser a Emília… às vezes sonhava que a encontrava nos meus sonhos de criança.
    De uma certa forma, eu me identificava muito com a Emília, porque sempre queria saber de tudo e tinha respostas para tudo, ou melhor, para quase tudo. As travessuras que ela fazia eram muito engraçadas, mas precisamos concordar que a vida é mesmo um `pisca-pisca`. E suas discussões filosóficas com o `Visconde de Sabugosa`, simplesmente fantásticas. Temos de concordar mesmo com Emília: `Se piscamos é porque estamos vivos`.

    Gabriel, coloquei o link da música de abertura do Sítio, ouça:
    http://videos.sapo.pt/h2Ae55hlF4syZILH5zD2

    Um Beijo.

    Lilia Medeiros – Porto Alegre – RS

  • ELAINE disse:

    Que lindo ver a vida nessa simplisidade, vivendo em um pisca pisca até o fim

  • Maria Emília Leal disse:

    Oi, Gabriel adorei a lembrança desta boneca sapeca, minha xará, conheci recentemente o sítio do Picapau Amarelo em Taubaté. Fiquei encantada e amei os personagens.
    bjsssssss

  • Sonia Sanches disse:

    Lendo esse pequeno trecho da boneca Emília, me faz notar a grandeza de suas palavras, de sua forma de observar a vida, e engraçado, O Sítio sempre fez parte da minha vida desde que me entendo por gente até passar para meus filhos…mas nunca parei pra pensar ou sequer me aprofundei nas mensagens que passava…
    Isso nos faz refletir melhor sobre coisas que julgamos sem importância, que não valorizamos e que tem tanto significado, tem muito a nos ensinar.È isso, a vida é um písca-pisca…

  • Bela Filosofia Gabriel, gosto muito de ler seus textos, o poeta sempre tem uma sensibilidade a mais. Escrevo poesias e reflexões, minha página é:
    http://www.recantodasletras.com.br/autores/camilagoncalves,

    Que Deus continue o abençoando,

    Camila.

Leave a Reply