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GABRIEL CHALITA
Nascido em 30 de abril de 1969, em Cachoeira Paulista (SP), é doutor em Direito e em Comunicação e Semiótica. Foi secretário da Educação do Estado de São Paulo, presidente do Conselho Nacional dos Secretários de Educação (Consed) e vereador da capital paulista. Eleito com 560.022 votos, é deputado federal.

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Rubem Alves, em coluna veiculada no jornal Folha de São Paulo, traz à tona uma questão bastante singular do ofício do escritor: as múltiplas vidas criadas, os inúmeros olhares assumidos, as inusitadas leituras de um mesmo mundo. De início, lembra Fernando Pessoa, poeta que se destacou na revelação das diversas faces do  mesmo homem. O fenômeno da heteronímia marcou sua trajetória poética. Tantos poetas em um só.

O ato de escrever é solitário, a criação é solitária. Movido por afetos, amores, tristezas, angústias , o escritor vai dando vida às palavras, em uma tessitura repleta de significados.

Em sua Profissão de Fé, desabafa Olavo Bilac:

E horas sem conto passo, mudo,
O olhar atento,
A trabalhar, longe de tudo
O pensamento.

Porque o escrever – tanta perícia,
Tanta requer,
Que oficio tal… nem há notícia
De outro qualquer.

O escritor doa um pouco de si a cada obra produzida. Parte do seu eu repousa ali, muitas vezes, uma parte sua esquecida. E se assombra a cada nova leitura, percebendo-se novo no já distante pelo tempo. Mas na redescoberta de si,  no resgate de sua essência, reafirma seu pensamento. É a sua vida, a sua trajetória.

Vive! que eu viverei servindo
Teu culto, e, obscuro,
Tuas custódias esculpindo
No ouro mais puro.

Celebrarei o teu oficio
No altar: porém,
Se inda é pequeno o sacrifício,
Morra eu também!

Duas Caixas – Rubem Alves

Alguém me mostra um texto e diz que fui eu quem o escreveu. Leio-o, mas é como se tivesse sido escrito por outra pessoa

FERNANDO Pessoa escrevia, lia o que escrevera e se assombrava. “Por que escrevi isto? Onde fui buscar isto? Isto é melhor do que eu…”

Coisa parecida acontece comigo. Alguém me mostra um texto e diz que fui eu quem o escreveu. Leio-o, mas não o reconheço. É como se tivesse sido escrito por uma outra pessoa. Mas, à medida em que vou lendo, vou ficando alegre. É um texto bom, melhor do que eu! Faço então as mesmas perguntas que fazia Fernando Pessoa ao ler o texto que acabara de escrever.

Sinto, então, vontade de publicar aquele texto de novo. Se ele surpreendeu a mim, é de se esperar que o mesmo aconteça com os leitores. E por que não?
Sei que Freud achava que a compulsão à repetição é um sintoma neurótico. Mas essa não é toda a verdade. Digo que o desejo da repetição pode ser a reação da alma diante da beleza. Quero ouvir de novo a “Valsinha”, quero ver de novo as telas de Carl Larsson, quero comer de novo um frango com quiabo mi neiro, quero ver de novo os ipês floridos…

Eu gostaria de publicar inteiros dois artigos que escrevi faz muito tempo. Eu os reli e gostei. Para que meus leitores saibam o que penso da educação. Como não posso publicá-los inteiros, vou publicar o essencial. E foi isso que escrevi:

“Explicações conceituais são difíceis de se aprender e fáceis de se esquecer. Por isso, caminho sempre pelo caminho dos poetas, que é o caminho das imagens. Em vez de explicar por meio de conceitos abstratos, vou mostrar o que digo por meio de imagens. Quem aprender as imagens terá aprendido o essencial da minha filosofia de educação.”

“O corpo carrega duas caixas. Na mão direita, mão da destreza e do poder, ele leva uma caixa de ferramentas. E na mão esquerda, mão do coração e do prazer, ele leva uma caixa de brinquedos.”

“Os animais não precisam de ferramentas. Seus corpos são as ferramentas de que necessitam para viver. Diferentes dos animais, nossos co rpos são fracos e incompetentes. Se fôssemos depender deles para sobreviver, como os animais, há muito teríamos desaparecido da Terra. A fraqueza e a incompetência obrigaram o corpo a pensar e a criar. E foi assim que inventamos porretes, pilões, facas, flechas, redes, barcos, casas, como extensões do corpo.”

“A primeira tarefa de cada geração, dos pais e das escolas, é passar aos filhos, como herança, a caixa de ferramentas. Para que eles sobrevivam e não tenham de começar da estaca zero.”

“Diante da caixa de ferramentas, a primeira pergunta que um professor tem de fazer é: “Isso que estou ensinando é ferramenta para quê? De que forma esse conhecimento aumenta a competência dos meus alunos para viver a sua vida?”

Mas há uma outra caixa, na mão esquerda, a mão do coração e do prazer. Essa caixa está cheia de coisas inúteis que não servem para nada. Lá estão um livro de poemas da Cecília Meireles, a estória de “Alice no País das Ma ravilhas”, um pé de jasmim, um quadro do Monet, uma sonata de Mozart, um banho de cachoeira, um beijo… Coisas inúteis. E, no entanto, elas são parte da vida e nos fazem sorrir. E não é para isso que se educa? Para que saibamos, além de viver, sorrir e ter prazer?

Resumo da minha filosofia de educação:
Primeiro, aprender ferramentas, para ter poder.
Segundo: aprender os brinquedos, para ter prazer…

 

Fonte: Folha de São Paulo – 27/04/2010

18 Responses to “O ofício do escritor: uma profissão de fé”

  • Alessandra Fukui disse:

    Querido Gabriel,

    Muito obrigado por compartilhar conosco este belo texto de Rubem Alves. Escrever é uma arte solitária, algumas vezes complexa, outras fascinante. É muito bom ler as obras de grandes autores e sentir a sua vida pulsando em cada personagem, histórias de pessoas que por instantes passaram por suas vidas e hoje se encontram imortalizadas em seus livros.

    A inspiração vem não se sabe de onde e eis que surge uma história, um livro, que surpreende o próprio autor que, algumas vezes, não reconhece como sua a autoria da obra.

    Eu tenho aprendido muito lendo os seus livros e de outros grandes autores. Eu amo ler e talvez por esse motivo adoro também escrever. Estou escrevendo o meu primeiro livro, exercitando um pouco dessa arte que fascina e encanta as pessoas desde o primórdios da história.

    Que Deus ilumine a sua vida e o inspire a sempre escrever boas história e compartilhá-las conosco através de seus livros.

    Felicidades,
    Alessandra Fukui

  • Oi, caro Gabriel Chalita,
    seus textos são lindos, gosto da “reação da alma diante da beleza”, dos ipês e do frango com quiabo mineiro. Assisti ao programa do Amaury Junior que mostrava a sua casa em festa para Beth Lagardere. Achei-a linda, bem como um certo comentário de Nélida. Escrevi um texto no meu blog, samanthatoledo.blogspot.com, intitulado “Pronta para a vida” (post de Abril).
    Obrigada por seu texto correto e belo.
    Até breve,
    Samantha Toledo

  • ESTOU OUVINDO O POST DO DIA 11 DE MAIO DE 2010… GOSTO TANTO DE LER AQUILO QUE VOCÊ ESCREVE E DE OUVI-LO, QUE ATÉ MESMO OUVIR O MESMO PROGRAMA DIVERSAS VEZES SE TORNA UM PRAZER SEM MEDIDA! ABRAÇO.

  • Luciana disse:

    Tenha uma semana iluminada e repleta de alegrias , conquistas,
    obstáculos superados…
    Um abraço sincero…
    Fique com Deus e na paz……..

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