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GABRIEL CHALITA
Nascido em 30 de abril de 1969, em Cachoeira Paulista (SP), é doutor em Direito e em Comunicação e Semiótica. Foi secretário da Educação do Estado de São Paulo, presidente do Conselho Nacional dos Secretários de Educação (Consed) e vereador da capital paulista. Eleito com 560.022 votos, é deputado federal.

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Estamos acostumados aos rituais, às comemorações, às celebrações. Quando um ano se encerra e outro se inicia, celebramos o dia da paz, a confraternização entre os povos. Quando um novo ciclo se inicia, somos convidados a renovar algo em nós. Quem sabe, neste novo ano, possamos ter um coração novo.

O coração é a metáfora dos sentimentos, das intenções. Um coração envelhecido é aquele que desistiu de amar, que não acredita na humanidade e que, consequentemente, se fecha. E é, por isso, solitário. A solidão pela ausência do amor envelhece o coração.

As desculpas para um coração envelhecido recaem nas decepções com as pessoas que amamos. Reclamamos dos erros dos outros, lamentamos as atitudes incorretas dos nossos irmãos e, assim, optamos pelo fechamento. Vivemos condenando nossa triste situação. Pais, filhos, amigos, parece que não há ninguém de valor ao nosso lado. Pensamos como seria bom se eles mudassem, se eles melhorassem.

No ano que passou, vivi momentos de muita emoção. Um deles ao lado do meu querido irmão Dunga. Eu fazia uma pregação em um grupo de oração em Presidente Prudente. Enquanto isso, ele compunha o refrão de uma música. A reflexão era sobre as mudanças que temos de fazer para que nosso irmão seja mais feliz.

E o refrão diz exatamente isso: Quem tem que mudar sou eu para que você seja mais feliz.

Eu escrevi o restante da música que fala em aprendizado, em perdão, em saber ouvir, em lembrar que não há ninguém perfeito. E que, talvez, precisemos do tempo da boa ingenuidade de volta, do sorriso leve, dos sonhos dos primeiros encontros.

O tempo pode ser uma boa escola. A tolerância, o respeito às limitações do outro e às nossas próprias limitações, a bondade no julgar. É uma lição de vida a reflexão de Madre Teresa de Calcutá:

Quem julga as pessoas não tem tempo para amá-las.

Às vezes, os pais exigem dos filhos algo que não podem dar. O inverso

é verdadeiro. E na relação entre o casal também. Cada ser é único. E talvez grande parte dos erros, dos equívocos, não sejam intencionais.

Meu irmão, não espere que o outro mude. Mude você. Diga à pessoa que você ama:

Quem tem que mudar sou eu para que você seja mais feliz.

E se precisar, complete com Madre Teresa: não vou perder tempo te julgando, quero gastar esse tempo te amando.

E é esse o convite para o novo ano. A consciência de que a sua família será melhor se você for melhor. Que o seu trabalho será melhor se você for melhor. Que o mundo, esse grande coração que pulsa, será renovado se o seu coração for renovado.

Feliz ano novo, feliz coração novo.

Gabriel Chalita

(Revista Canção Nova, jan.2011)

“Estando eles ali, completaram-se os dias dela. E deu à luz seu filho primogênito, e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria.” (Lc. 2, 6-7).

 

Neste ano que termina, gostaria de agradecer pelo seu carinho e apoio.

É tempo de Natal, ocasião em que fazemos um balanço de nossas ações, reassumimos os nossos compromissos, desejamos ainda mais os nossos sonhos e, em especial,  renovamos a nossa esperança no Amor. 

Espero que o seu coração, com todas as suas alegrias e sofrimentos, seja como aquele carinhoso estábulo em Belém, que há mais de dois mil anos acolheu José, Maria e o Menino Jesus, que com ternura vem ensinar o bem à humanidade.

Feliz Natal e que no próximo ano você viva bem e intensamente a cada dia, pois a felicidade está na simplicidade das pequenas coisas do cotidiano.

Um forte abraço,

Gabriel Chalita

Dias desses, fui ao velório da mãe de um amigo. Ela morreu apos meses de internação. Tinha mais de 90 anos. Meu amigo abraçou-me demoradamente e chorou em meu ombro a saudade. Disse, entre prantos: “Meu pai já foi, meus dois irmãos morreram e, agora minha mãe”.

Ouvi seu lamento sem praticamente nada dizer. Apenas a linguagem do abraço e do olhar. “Nos momentos mais difíceis da minha vida, era no colo dela que eu deitava. E ela calmamente brincava com os meus poucos cabelos.” E prosseguiu: “Será difícil voltar para casa e arrumar as suas coisas”. Meu amigo é padre. Logo depois chegou o bispo e mais alguns padres. E rezaram juntos. E cantaram. E, cheios de fé, entregaram aquela mulher aos braços do Pai.

Meu amigo padre tem muita fé. E tem saudade também. A fé e a saudade convivem. A experiência da despedida é sempre dolorosa. A riste consciência de que os abraços, os olhares, as conversas, a convivência, enfim, acabaram.

Vivi isso nas tantas despedidas de minha vida. Meu pai, meus irmãos, meus avos, tios, amigos. Chorei com os meus. Consolei os meus e, por eles, fui consolado. Muitas vezes, ofereci o colo para que minha mãe chorasse. E depois revezamos. E depois levantamos. E, apesar da dor prosseguimos.

A dor é uma experiência humana. É necessária. Ela tem um poder impressionante de melhorar algo em nós se nos abrirmos para esse aprendizado.

Quando saí do velório, liguei para minha mãe e renovei todo carinho e amor que tenho por ela. Fiquei imaginando que as palavras não ditas se perdem em algum lugar difícil de encontrar.

Quantas historias de remorso, arrependimento tardio das despedidas que não aconteceram! Brigas tolas. Problemas acidentais. Emoções travadas. E desperdiçamos o tempo de delicadezas.

Faço um convite a você que tem pai e mãe, que tem irmãos e amigos, que tem filhos. Não economize nos sentimentos de afeto. Convide o perdão a morar em sua casa. Peça à vingança, ao egoísmo e a raiva que se retirem. Aproveite o tempo precioso para dizer “eu te amo” a quem você realmente ama.

Meu amigo padre voltou para sua casa. Com certeza, rezou para que Deus acolhesse sua mãe. Talvez tenha sentado no sofá em que tantas vezes ela o acolheu e chorou a saudade incômoda. É assim mesmo! Até a eternidade.

Todos os dias aprendemos e ensinamos. Estamos todos matriculados na escola da vida. E nessa escola, com humildade, amadurecemos. Basta que prestemos atenção no outro, na sua dor e na sua capacidade de superação. E que prestemos atenção em nós mesmos e na necessidade de sermos justos.

Certa vez ouvi um depoimento de uma cozinheira acusada de ter furtado uma pulseira de ouro. Entre lágrimas, ela tentava convencer a patroa de que jamais em sua vida havia cometido esse delito. A patroa dizia que as lágrimas eram uma forma de esconder o furto. A funcionária, em prantos, dizia que era uma mulher de fé, religiosa. E a patroa, aos gritos, exigia que Deus fizesse, então, a pulseira aparecer na frente dela, se é que Ele existia.

A funcionária não mais insistiu. Na solidão da injustiça, entrou no quarto para arrumar as suas coisas. Lamentou a situação. Chorou a sua história de dor e necessidade.Enquanto ouvia explicações da patroa de que não a denunciaria desde que ela não a atormentasse na justiça, entrou a filha pedindo um sanduíche. Na mão esquerda, estava a reluzente pulseira. Foi neste momento que a funcionária chorou ainda mais. Como dói a injustiça! A patroa, rispidamente, disse a ela que parasse com o choro e voltasse ao trabalho. E, com autoridade, decidiu que fora apenas um mal entendido.      Recomposta, a cozinheira agradeceu a confiança e disse que nada mais tinha a fazer naquela casa. A patroa insistiu que o melhor era esquecer tudo. E a funcionária sorridente agradeceu a Deus e lembrou a patroa de que Ele não desampara quem O ama.

Sem muito alarde, a cozinheira saiu e no dia seguinte arrumou emprego em um restaurante. Tudo aconteceu em uma missa. Muito triste, ela foi à Igreja como sempre e, na acolhida, o padre pediu que as pessoas se cumprimentassem e se apresentassem. A senhora ao lado disse que tinha um restaurante e ela disse que era cozinheira. A partir daí, uma nova vida começou.

Ela não foi à missa em busca do emprego nem querendo que Deus desse a ela a recompensa dos que são humilhados. Foi rezar. Foi chorar. Foi agradecer. Foi viver o mistério do Amor que é a Eucaristia. E, nesse mistério, encontrou Amor. Coincidência estar precisando de um emprego e a outra ter um emprego para oferecer? Pode ser. Como pode ser também providência. Deus cuida de nós, como diz em canção nossa irmã Salete Ferreira

Assim como ouvi esse testemunho em meu programa de rádio na Canção Nova, ouço tantos  outros que servem de inspiração para que aprenda a ser justo e experimente a presença de Deus.

A história dessa mulher nos ensina a termos mais delicadeza em nossas relações. É triste sofrer a dor da injustiça, da incompreensão.

Todos nós erramos, mas se tomarmos um pouco de cuidado, nosso erro não será tão doloroso ao nosso irmão nem a nós mesmos.  Ninguém faz mal ao outro impunemente.

Dia do professor. Hoje é dia do professor. Mas todos os dias são dias de professoras e professores que encantam na arte de gerenciar sonhos. Porque alimentam, a cada dia, na magia da sala de aula, a esperança. Porque a cada dia ensinam crianças e jovens a fantasiar e a realizar. A fantasia aparece como componente pedagógico fundamental das brincadeiras infantis, desde as parlendas, cantigas, histórias, pinturas, modelagens, até as teatrais construções de personagens.

A fantasia aparece no âmago do adolescente. E se reflete nas lágrimas em salas de cinema, na emoção do primeiro encontro, do primeiro namoro. E não morre na maturidade, ou melhor idade. É a fascinante capacidade de sonhar. De se lançar a novos projetos. De recomeçar. Quantos professores começaram a faculdade ou o curso de mestrado com anos de profissão? Quantos mestres se lançaram ao novo, aprimorando a forma de ensinar e não temendo o conceito de aprender sempre?

A realização também é componente da educação. E pode ser percebida na emoção do mestre que vê as letras sem significado ganhando forma. Nos números fazendo sentido. Nos conceitos sendo enraizados. Na observação do aluno a percorrer firmemente as sendas fascinantes do saber. E como os nossos mestres são competentes!

O professor é um referencial que fica para a vida inteira. Na lembrança de cada aluno está o exemplo, o cuidado, os detalhes que embalaram fantasias e realidades. Lembro-me das minhas primeiras professoras – até do penteado, do jeito de andar, e da arte de contar histórias, herdada de milenares tradições. Uma dessas mestras, em todas as sextas-feiras, contava histórias de amor. Talvez ela tenha aprendido com Goethe que só se ensina uma criança a amar, amando, e que no mundo nada nos torna necessários, a não ser o amor. Quem planta amor não poderá ver florescer outra coisa no jardim da vida.

Feliz dia dos professores.

Cachoeira Paulista, 05 de outubro de 2010

Aos queridos membros da Comunidade Canção Nova

Apresento a todos minha reflexão para este tempo de eleições 2010.

A Canção Nova mantém-se alinhada à catequese da Igreja Católica e à sua doutrina
comprometida com o direito à vida e à dignidade humana.

O meu convite é que todos sejamos homens e mulheres de fé e oração. E por que lhes digo
isto? Porque estamos em tempo de eleições no Brasil. Precisamos ser fiéis aos valores da
Igreja. Nosso chamado é evangelizar.

É preciso ver nos irmãos o que nos une.

A Canção Nova não vê cada candidato por suas bandeiras, mas os acolhe como filhos amados
de Deus. Cada fiel deve votar de acordo com suas convicções e com a doutrina social da Igreja.

Para este tempo, peço a cada um oração e silêncio. Acolhamos a todos. Rezemos para que eles
possam conhecer a verdade. A Canção Nova não apoia candidatos ou partidos. Acolhe a todos.

Por fim, peço em nome da Canção Nova, perdão por qualquer excesso. Nosso objetivo é
promover o amor, nosso carisma maior.

Rezemos pelo nosso país, pela Santa Igreja e pelos candidatos, para que sigam a Verdade que é
Cristo Jesus e permaneçam n’Ele.

Com a minha benção,

Monsenhor Jonas Abib
Fundador da Comunidade Canção Nova

Um poema de Drummond para refletirmos e reverenciarmos a vida…

Falar é completamente fácil, quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião.

Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer, o quanto queremos dizer, antes que a pessoa se vá.

 Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias.

Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros, ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado.

 Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir.

Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso. E com confiança no que diz.

 Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação.

Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer. Ou ter coragem pra fazer.

 Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado.

Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece, te respeita e te entende. E é assim que perdemos pessoas especiais.

 Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar.

Difícil é mentir para o nosso coração.

 Fácil é ver o que queremos enxergar.

Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto. Admitir que nos deixamos levar, mais uma vez, isso é difícil.

 Fácil é dizer “oi” ou “como vai?”

Difícil é dizer “adeus”. Principalmente quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas…

 Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados.

Difícil é sentir a energia que é transmitida. Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa.

 Fácil é querer ser amado.

Difícil é amar completamente só. Amar de verdade, sem ter medo de viver, sem ter medo do depois. Amar e se entregar. E aprender a dar valor somente a quem te ama.

 Fácil é ouvir a música que toca.

Difícil é ouvir a sua consciência. Acenando o tempo todo, mostrando nossas escolhas erradas.

 Fácil é ditar regras.

Difícil é seguí-las. Ter a noção exata de nossas próprias vidas, ao invés de ter noção das vidas dos outros.

 Fácil é perguntar o que deseja saber.

Difícil é estar preparado para escutar esta resposta. Ou querer entender a resposta.

Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade.

Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir, de alegria.

 Fácil é dar um beijo.

Difícil é entregar a alma. Sinceramente, por inteiro.

 Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida.

Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro.

 Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica.

Difícil é ocupar o coração de alguém. Saber que se é realmente amado.

Fácil é sonhar todas as noites.

Difícil é lutar por um sonho…

 

Gosto muito de ler poemas. Gosto mais de lê-los do que ouvir um poema declamado. Quando você lê um poema, ele se torna seu. Você é o condutor das palavras, ritmando-as e enfatizando-as na cadência do seu sentimento e das lembranças que cada palavra tem o poder de fazer revelar. No entanto, jamais esquecerei a emoção que vivi ao ver o querido Paulo Autran, pouco antes de nos deixar, no centro de um palco, iluminado mais por sua presença do que pela tênue luz que o focalizava.  Com a alma descoberta, declamava:

” Ah! Que saudade que eu tenho

Da aurora da minha vida

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais.” ( Casimiro de Abreu)

E repetia….como um poeta fingidor, a dor que deveras sentia, no seu entardecer: “Ah! Que saudade que eu tenho…”

Os tempos que não voltam mais. Igual emoção encontrei nas palavras de Cony, na Ilustrada de hoje, do jornal Folha de São Paulo.  Divido a intensidade , a turbação desses sentimentos:

Composição escolar

( Carlos Heitor Cony)

“ERA UMA noite solitária do mês de abril dos anos mais antigos do passado. Eu estava na janela olhando a rua, e entre a janela e a rua havia um jardim.

O pai costumava, tão logo a noite caía, regar os nossos canteiros de tinhorões e avencas, os pés de roseira que ficavam do outro lado, costeando o muro que dividia a nossa casa de um palacete -o único palacete da rua e do bairro.

Verdade: o palacete era enorme, tinha uma escadaria de mármore que subia pela fachada principal -mas não havia jardins, nem sequer um tinhorão aveludado, nem sequer um pé de manacá como o nosso, que ali estava cheirando, molhado pelo anoitecer daquele solitário abril dos anos mais antigos do passado.
Eu olhava a noite e sentia o perfume que vinha do jardim umedecido. A rua não tinha cheiros, era apenas um espaço cor de cimento e pedra, naquele tempo quase não havia movimento, o bonde passava pontualmente de 15 em 15 minutos, era um bonde verde como um bicho de seda comprido, à noite ele vinha iluminado, vazio e inútil, levando ninguém para lugar nenhum.

Além do bonde, um ou outro carro deslizava pela rua vazia. Todas as noites, lembro que, pelas nove horas, passava um carro branco, último modelo na época; se a noite era quente, a capota estava arriada e dentro dele um homem vestido de branco, todo de branco, e houve noite em que, ao lado do homem vestido de branco, havia uma mulher também vestida de branco, um chapéu branco e enorme com enormes fitas brancas.

Anos depois, quando assisti pela primeira vez a “La Traviata”, no segundo ato, cheirando a jardim e a flor, lá estava a mesma mulher vestida de branco, com seu chapéu e suas fitas brancas.
Não entendi nada, mas guardei para sempre aquele encontro mágico que era tão meu. Na ópera, o pai se emocionava com a despedida da mulher que abandonava o amante, e eu tinha a certeza de que aquela mulher ali estava só para mim e para sempre. E passava pela minha rua num carro branco e nupcial.
Mas isso foi há muito tempo. Há tanto tempo que já não gosto mais daquele segundo ato, nem da ópera em si e, mesmo que gostasse, de nada me adiantaria: a rua foi asfaltada, perdeu a cor de cimento e pedra, ficou escura como uma enorme tira de fita isolante, os bondes foram arquivados e o palacete foi demolido, em seu lugar subiu um espigão sem forma nem cor.

E o jardim de nossa casa não mais existe, nem os tinhorões nem as avencas, o menino que ficava ali, olhando a noite e o jardim molhado, também ele não existe mais.

De tudo, o que restou foi o silêncio do menino olhando a noite e sentindo o perfume do jardim, esperando o carro branco e nupcial, a mulher com seu chapéu de fitas brancas que parecia ter saído do segundo ato de uma ópera. Além da noite e do jardim estava o mundo, a vida que se desdobrou para o menino, uma vida nem boa nem má, apenas vida -e bastante.

E onde está o carro branco que passava lentamente pelo meio da noite, aquele casal vestido de branco que vinha não sei de onde e se perdia naquela noite silenciosa do mundo?

Ficaram na memória do menino, com os cheiros e os tinhorões aveludados, o pé de manacá molhado, o bonde iluminado e vazio, o garoto olhando a solitária noite dos anos mais antigos do passado.

Mais tarde, o menino precisou fazer aquilo que os outros chamavam de “ganhar a vida”. Ele não sabia direito o que era aquilo, já tinha uma vida que lhe fora dada de graça, não precisava de outra, de ganhar outra.

Quando as coisas se complicavam para o lado dele, recorria àquela imagem distante, a rua deserta e perfumada pelo manacá, de repente o carro branco e silencioso passando devagar, a mulher com seu enorme chapéu de tiras brancas deslizando na noite do passado.

Os anos mais antigos também passaram, parece que nem tinham acontecido. O que acontecia agora era muito colorido, berrantemente colorido, o mundo é em cores e faz muito barulho, som e fúria que nada significam.

Mas o menino gosta de pensar neles, embora o homem tenha um pouco de vergonha em falar neles. “

Carpe Diem…

  

A falta de amizade entre crianças na fase escolar é considerada a maior causadora do bullying – o crime do desamor. É urgente a necessidade de pôr fim às cenas de desrespeito e humilhações no ambiente escolar. Quem foi vítima de tal agressividade não a esquece jamais. Guarda-a, calada no peito, por toda a vida. Outros, um dia, corajosamente, revelam-na.  O bullying magoa, martiriza, muitas vezes até traumatiza.  O maior antídoto para essa prática de violência  é a valorização do sentimento de amizade entre os alunos, pais, professores e educadores. A amizade é uma atitude que protege, que acolhe, que humaniza.

 

Respeito é palavra que significa, na sua origem latina (respectus), a ação de olhar para trás. A palavra demonstra, claramente, que a pessoa dotada de respeito é aquela que não esquece o que passou, não se esquece de quem ficou para trás porque envelheceu, amadureceu ou simplesmente porque o tempo passou. Todo ser humano é digno de respeito. Mas nem todos ousam olhar para trás e remexer em suas feridas, revelando-nos a dor de tantos anos que, escondida, insiste em permanecer doída, segredada. A esta revelação, nosso respeito:

 

 

Um segredo…
… que nunca revelei

 

 

Rubem Alves

Tenho uma ternura especial pelas coisas fracas, que não sabem ou não conseguem se defender. E não só a fraqueza física: são as humilhações silenciosas que dilaceram a alma dos fracos.

Costumava caminhar num jardim que terminava em frente a uma escola. Observava meninos e meninas que iam juntos, bonitos, esbanjando alegria. Mas havia uma menina muito gorda que caminhava sempre só. Nunca vi um gesto dos alegres e bonitos convidando-a a juntar-se ao grupo. E ela nem tentava. Havia outra, magra, alta, sem seios, rosto coberto de espinhas, encurvada como se quisesse esconder-se dentro de si.

Ficava pensando que havia nelas uma mocinha que desejava ser amada. O que pensavam quando iam para a cama? Certamente choravam. Mas essas percepções não passavam pela cabeça dos outros.

No Ginásio era assim também. Os bonitos se juntavam. Os feios eram deixados de lado. Um incidente ocorrido há 60 anos continua vívido na minha cabeça. Era uma moça  feia, desengonçada, magra. Jamais a vi conversando com um menino ou sorrindo. Entrava na sala e ia para sua carteira, encostada na parede. Um dia, chegou atrasada, a turma já assentada. Não havia jeito de se esconder, desfilou diante de todos. E foi então que um colega deu um daqueles assobios… A classe estourou na gargalhada. Ela continuou a caminhar, as lágrimas escorrendo.

Tive vontade de berrar, um grito de ódio, mas nada fiz. Porque também era fraco e feio e ridículo. Ela é a única colega cujo nome não me esqueci. Suas iniciais eram I.K. Eu era novo no Rio de Janeiro, vindo do interior de Minas, onde ir à escola de sapato era um luxo. Fui ao colégio no primeiro dia de aula com sapato sem meia. Todos riram. No dia seguinte, fui de meia. Não adiantou. Riram-se do meu sotaque caipira. Tornei-me vítima dos valentões. Apanhei muito em silêncio porque não sabia me defender. Não tinha a quem apelar. Acontecia na rua, fora do olhar dos professores. Meus pais não saberiam o que fazer. Minha mãe me daria o único conselho que sabia dar: “Quando um não quer dois não brigam”. É verdade, quando um não quer, um bate e o outro apanha.

Uma pessoa querida me disse que tenho raiva das mulheres. Fico a pensar se essa raiva não tem raízes na minha mãe, que só me ensinava a não reagir, que desejava que eu fosse fraco e não enfrentasse a luta. A pancada que mais doeu foi dada por um colega que se dizia filho de governador, rico, arrogante, ouro nos dentes. Sem motivo, na hora do recreio veio até mim e disse: “Você é ridículo…”

Essas experiências não podem ser esquecidas. A gente faz força para não as revelar, por vergonha. Durante toda a vida, foram um segredo só meu. Nunca as contei nem para os amigos mais íntimos. É a primeira vez que as revelo.

Fui me enchendo de vergonha e de humilhação. Daí nasce o ódio. À medida que crescia e me tornava adulto, esses sentimentos criaram em mim um lado que não suporta a injustiça dos fortes contra os fracos. O que me leva, por vezes, a fazer coisas imprudentes a favor dos fracos, mesmo com risco de ser agredido.

Mas há algo que me magoa. É como se a minha pele de ternura, de voz baixa, de poesia, que deseja proteger as coisas fracas, morasse no mesmo quarto onde mora esse jeito bravo. E, de vez em quando, sem me dar conta, fico irônico, impaciente, a voz se encrespa. Imagino que isso aconteça quando, lá no meu inconsciente, onde mora o menino ridículo que apanhava, o sentimento de humilhação aparece. Magoei muitas pessoas com esse meu jeito, algumas de forma irremediável. Por isso estou triste. Mais triste porque sei que hoje, no mundo todo, os fracos são humilhados e apanham…


Rubem Alves Educador e escritor
rubem_alves@uol.com.br

Fonte: Revista Educação 05/2010

O exemplo é um forte elemento na educação das crianças. A família , os professores, os personagens das histórias a eles narradas e até mesmo os apresentadores  dos programas infantis de televisão têm enorme responsabilidade sobre seus gestos e atitudes, cujas características são cuidadosamente apreendidas pelos pequenos. As crianças são como esponjas. Se colocadas em água suja, absorverão água suja. Quando colocadas em água limpa, absorverão água limpa. As crianças tendem a repetir aquilo que os adultos fazem.  Muitas histórias servem de pretexto para que reflitamos sobre nossas atitudes diante de nossos filhos, alunos, pequenos aprendizes. É o caso desta pequena mensagem, cujo autor é desconhecido:

A tigela de madeira

 

Um senhor de idade foi morar com seu filho, nora e o netinho de quatro anos de idade. As mãos do velho eram trêmulas, sua visão embaçada e seus passos vacilantes. A família comia reunida à mesa. Mas as mãos trêmulas e a visão falha do avô o atrapalhavam na hora de comer. Ervilhas rolavam de sua colher e caíam no chão. Quando pegava o copo, leite era derramado na toalha da mesa.

 

O filho e a nora irritaram-se com a bagunça. – “Precisamos tomar uma providência com respeito ao papai”, disse o filho. – “Já tivemos suficiente leite derramado, barulho de gente comendo com a boca aberta e comida pelo chão.”

 

Então, eles decidiram colocar uma pequena mesa num cantinho da cozinha. Ali, o avô comia sozinho enquanto o restante da família fazia as refeições à mesa, com satisfação. Desde que o velho quebrara um ou dois pratos, sua comida agora era servida numa tigela de madeira.

 

Quando a família olhava para o avô sentado ali sozinho, às vezes ele tinha lágrimas em seus olhos. Mesmo assim, as únicas palavras que lhe diziam eram admoestações ásperas quando ele deixava um talher ou comida cair ao chão.

 

O menino de 4 anos de idade assistia a tudo em silêncio

 

Uma noite, antes do jantar, o pai percebeu que o filho pequeno estava no chão, manuseando pedaços de madeira. Ele perguntou delicadamente à criança:

 

- “O que você está fazendo?”

O menino respondeu docemente:

- “Oh, estou fazendo uma tigela para você e mamãe comerem, quando eu crescer”.

 

O garoto de quatro anos de idade sorriu e voltou ao trabalho. Aquelas palavras tiveram um impacto tão grande nos pais que eles ficaram mudos. Então lágrimas começaram a escorrer de seus olhos.

 

Embora ninguém tivesse falado nada, ambos sabiam o que precisava ser feito. Naquela noite o pai tomou o avô pelas mãos e gentilmente conduziu-o à mesa da família.

 

Dali para frente e até o final de seus dias ele comeu todas as refeições com a família. E por alguma razão, o marido e a esposa não se importavam mais quando um garfo caía, leite era derramado ou a toalha da mesa sujava.