A MINHA ALMA GLORIFICA O SENHOR Lc 1,39-56

Postado por: Padre Bantu Mendonça K. Sayla

agosto 17th, 2008

E disse Maria: Enaltece minha alma ao Senhor. E meu espírito encheu-se de gozo no Deus meu Salvado. O Magnificat constitui um louvor em alta voz. Louvor de agradecimento a Deus, que é Senhor e a Deus que é seu Salvador. Exalta minha alma ao Senhor. Este é, um grito de ação de graças por um benefício recebido. Neste hino de louvor Maria vê antecipadamente a ação salvífica divina. A razão é: Porque fixou seu olhar na insignificância de sua escrava. Eis pois que a partir de agora chamar-me-ão ditosa, todas as gerações. Fixou seu olhar significa observar, prestar atenção.

A primeira razão da ação de graças é pois, a natureza transcendental ou divina de quem provém a eleição traduzida em benevolência: Deus. A segunda, é a pequenez da qual ele se deixou conquistar, pois escolheu um ser insignificante como é uma escrava. É por isso que todas as gerações a chamarão bendita ou sejaprivilegiada de Deus.

Porque fez para mim grandes coisas o Poderoso já que é sagrado seu nome . O Poderoso era um dos títulos com os quais os judeus substituíam o nome santo. É com esse nome, o Poderoso que Jesus responde à conjura de Caifás (Mt 26, 64). Só que nesta última circunstância, usa-se o substantivo poder. Sem especificar quais eram essas coisas, Maria termina com louvor dedicado a esse nome que era sagrado: já que seu nome é sagrado. Isto pode significar que não pode ser pronunciado e que poderíamos traduzir por seu nome é único como divino. Sem dúvida que a base das grandes coisas feitas pelo poder divino era a maternidade especial de Maria da qual Isabel era testemunha através do espírito de profecia.

Pois a misericórdia dele até geração de gerações para os que o temem. Vemos aqui a misericórdia divina que é infinita, perdura de geração de gerações. O amor com que se ama a um desvalido ou necessitado para ajudá-lo, transpassa os limites de uma geração.

Maria oferece uma definição da atuação divina que merece a pena considerar: Deus é misericórdia para os que o respeitam. Respeito e reverência que se traduz em obediência às leis de modo escrupuloso. A misericórdia é um ato de amor correspondente a quem se inclina ao mais fraco para ajudá-lo e consolá-lo. Esta é a linha geral que Maria descobriu em Deus, através da escolha particular de sua insignificante pessoa.

Fez força no seu braço: desbaratou os arrogantes de pensamento no íntimo de seus corações. Para melhor entender o versículo poderíamos traduzir: Seu braço mostrou-se poderoso ao desbaratar os arrogantes de pensamento no íntimo de seus corações. O arco dos poderosos é quebrado; os debilitados são cingidos de força (1 Sm 2, 4), pois aos poderosos Ele rebaixou dos tronos e exaltou os de humilde condição. Aos famintos cumulou de bens e aos ricos despediu vazios.

Neste ponto Maria segue o Sl 107, 9 e o cântico de Ana: Os que viviam na fartura se empregam por comida. Os que tinham fome não precisam trabalhar (1 Sm 2, 4-5). Maria acompanha a política de Jesus nas bem-aventuranças, de modo especial a redação de Lucas :Benditos os famintos…Ai de vós os saciados agora (Lc 6).

Deus olhou e abraçou Israel, seu filho, para se recordar da misericórdia como falou aos nossos pais, Abraão e à sua  prole pelos séculos Gn 17, 7

Maria permaneceu com ela Isabel como três meses e voltou a sua casa [a Nazaré] Sem dúvida que era o tempo que faltava para que Isabel desse à luz seu filho e Maria consequentemente ficou com a anciã parente até o momento do nascimento de João. Assim se explicam os detalhes do mesmo  de que Lucas é narrador e Maria, sem dúvida, a testemunha.

Os evangelhos deveriam ser relatos de salvação, referidos a fatos e ditos de Jesus. Mas este relato de hoje tem como protagonista Maria. Ela é a figura central já que o Filho ainda era um feto que carregava no seio e dependia totalmente da Mãe. Isso nos indica que Maria está unida intrinsicamente a seu filho na história da salvação. A devoção especial que a Igreja dedica a Maria tem como base este relato de Lucas. Ela forma parte de nossa salvação como Mãe do Senhor.

Maria é mais do que a arca do Senhor que Davi humildemente recebeu maravilhado (2 Sm 6, 9). Ela é a Mãe do Senhor. Recebê-la como visita é um favor que nos iguala a Isabel. E escutar o Magnificat é entrar dentro dos planos da providência divina para encontrarmos um alívio a nossa pequenez e insignificância. Não em nossos méritos mas nessas circunstâncias, aparentemente desfavoráveis, encontraremos a bondade divina expressa em misericórdia.

No nosso mundo em que a maternidade parece estar fora de moda, o encontro entre as duas futuras mães, é um toque de gozo e esperança, como a renovação da vida que sempre é acompanhada de penalidades mas que indubitavelmente termina em feliz regeneração.

Isabel, como profeta de Deus, dá a Maria o título máximo que a representa ao povo de Deus: Quem sou eu para que a mãe do meu Senhor venha me visitar? Mãe do Senhor, que o concílio de Éfeso expressou em termos mais filosóficos como Theótokos, que o povo aclama como Mãe de Deus. Venerá-la e recorrer a sua intercessão é seguir as linhas mestras que Lucas nos propõe no seu evangelho.

Isabel a proclama como modelo entre as mulheres. Não é querendo tronos que estaremos na mira da misericórdia divina, mas sentindo nossa insignificância que veremos sua bondade refletida como favor e benevolência em nossas vidas.