JESUS VAI AO TEMPLO Jo 2,13-22

Postado por: Padre Bantu Mendonça K. Sayla

novembro 9th, 2008

Esta é outra história de novidade ou transformação. O próprio Templo será substituído. Destruído em 70 d.C. pelos soldados do exército romano de Tito, seu lugar como centro de culto e sacrifício, o local da presença de Deus e o símbolo de sua fidelidade, será ocupado pelo corpo ressuscitado de Cristo. A destruição do material do Templo foi um desastre acabrunhador para Israel. Para os cristãos judeus, a perda foi suavizada pela teologia joanina do Cristo-templo, que Paulo já ampliara para uma doutrina do cristão-templo (1Cor 6,19).

Essa purificação do material do Templo lembra-nos o tipo de atos simbólicos representados pelos profetas; de fato, a maneira de Jesus tratar o Templo, nessa ocasião, assemelha-se à de Jeremias (Jr 7). A ação, embora não seja um milagre, é um sinal, sinal duplo. O Templo, que logo seria destruído, precisava de purificação. E sua função seria substituída pelo corpo ressuscitado de Cristo.

Jesus vai a Jerusalém no tempo da Páscoa (v. 13) no inicio de seu ministério. Isso contrasta com os outros Evangelhos, nos quais Jesus vai a Jerusalém apenas uma vez e, então, bem no fim de seu ministério. Com respeito a múltiplas visitas, é provável que, historicamente, João esteja mais correto. Nosso autor tem muito mais interesse em Jerusalém que os outros evangelistas, indicação de que suas raízes estão mais voltadas para Jerusalém do que para a Galiléia. Entretanto, é provável que a purificação do Templo tenha ocorrido quase no fim da vida de Jesus, como os sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) indicam, sendo a última gota que levou é condenação de Jesus. João pode ter transferido a história para a fase inicial da vida de Jesus porque ela se adapta tão bem a seu tema de “novidade” e porque pretende que a ressurreição de Lázaro seja o incidente que leve à crucifixão.

A menção de “quarenta e seis anos” no versículo 20 é uma das mais claras indicações cronológicas dadas nos evangelhos (cf. Lc 3,1 para outra). A atual construção, terminada no início dos anos 60, foi iniciada por Herodes em 20-19 a.C. A adição dos 46 anos de João data a cena em mais ou menos 28 d.C. Finalmente, há quatro peculiaridades joaninas que aparecem pela primeira vez nesse incidente:

a) “Os judeus” aparecem como os principais adversários de Jesus. Com certeza, o judeu Jesus e seus discípulos judeus tinham sua cota-parte de dificuldades com seus contemporâneos judeus, mas distinção marcante entre Jesus e os judeus deve ecoar o antagonismo mais tardio e mais intenso entre judeus e cristãos, na época da comunidade de João.

b) Encontramos nos versículos de 19 a 21 a primeira apresentação de uma técnica dramática pela qual o autor diz o que quer progredindo da ambiguidade para mal-entendido e dai para a compreensão. A ambiguidade do versículo 19 leva ao mal-entendido do versículo 20 ao esclarecimento final do versículo 21. A tócnica ocorre com frequência no Evangelho.

c) O versículo 22 conta-nos que muitas das palavras e ações de Jesus não foram entendidas durante si vida e se tornaram inteligíveis somente � luz de si ressurreição. É dessa perspectiva que nosso evangelista escreve.

d) Por fim, no versículo 23, João fala dos muitos que creram porque viram os sinais que Jesus operei. Aqui devemos ser cautelosos. Nesse e nos versículos seguintes, João não está falando de uma fé profunda e vivível; está falando da fé inicial dos que simplesmente vêem os sinais. Não são os que vêem que tornam verdadeiros discípulos, mas os que entendem. No incidente que se segue, veremos um homem atraído por sinais (3,2), mas que não compreende que eles significam.

Com Jesus a presença de Deus não está no Templo, mas sim no próprio Jesus e em cada membro da comunidade (segunda leitura) que vive o serviço e a partilha, com amor e misericórdia.