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Arquivo de maio, 2007

Às vezes, parece que tudo se volta contra você?

18, maio, 2007

                   “O homem contemplava em silêncio, curioso por saber se o Senhor tinha ou não tornado feliz a sua viagem” (Gn 24,21). 

silenceiii.jpg      Certamente,você sabe que muita gente estragou parte de sua vida e perdeu oportunidades brilhantes por falar demais. Poderia ter sido diferente… mas, quem revela os seus planos a qualquer um corre o risco de ser passado para trás. Quem revela seus sonhos a um inimigo acaba por ser humilhado. Um aproveitador não hesitará em usar o que você disse contra você mesmo. Por isso, os anos ensinam que há uma sabedoria escondida no silêncio – as grandes mulheres e os grandes homens da humanidade sabem disso. Se você guardar silêncio, será tomado por sábio, já dizia o velho Jó (cf. Jó 13,5).

      Existem situações em que a coisa mais inteligente a fazer é calar e esperar. Contudo, para alguns, isso é difícil e, para outros, impossível. Conheço pessoas boas que acreditam não haver mal algum em falar demais, em abrir o seu coração para todos e expor seus pensamentos a qualquer criatura que cruze o seu caminho. Pensam inclusive que isso é uma das boas qualidades que têm, e dizem com certo orgulho: “É… eu sou assim mesmo. Sou um livro aberto. Falo o que penso doa a quem doer”. E a coisa vai muito bem até que começam a experimentar as conseqüências… No exato momento em que a situação vira e tudo começa a dar errado vem a tentação de gritar: “Parece que tudo está contra mim”, “Nada do que faço dá certo” ou ainda “Onde é que está Deus?. O medo, então, não perde tempo e bate à porta com sua habilidosa capacidade de convencer que tudo está contra nós e que já não existe saída – como um vampiro vai sugando as poucas forças que ainda temos.

      A questão é que muito mal seria evitado se houvesse um pouco mais de cuidado no falar – cuidado em não colocar, em mãos adversárias, armas (conhecimento e palavras) que serão usadas contra nós. É não sair falando ao vento de tudo o que se passa no nosso íntimo. Em minha casa, a gente sempre ouvia que “prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém”.

      Ser prudente é ter pudor não só com o corpo, mas também com a alma. A pessoa que tem pudor sexual sabe que seu corpo é sagrado e por isso secreto. Quem não pensa no que fala deixa exposto não o corpo, mas a própria alma toda nua. Não sabe guardar em segredo o que é sagrado. E se não guarda o próprio segredo, quem garante que vai guardar o dos outros? “Quem despreza seu próximo demonstra falta de senso; o homem sábio guarda silêncio” (Pr 11,12).

      As pessoas mais interessantes, as mais charmosas, trazem um “quê” de mistério. Mesmo quando se mostram não deixam ninguém invadir sua alma. Só aos poucos, amparadas por um silêncio zeloso, é que se dão a conhecer.Nesse mundo do “fica-fica”, a gente precisa aprender de novo a arte de se aproximar, de fazer amizade, de ser romântico e namorar… sobretudo, é preciso aprender a namorar “bonito”, a escolher as palavras, a não se declarar de imediato, a não vulgarizar o que temos de mais belo: nós mesmos.

      A pessoa prudente evita tantos sofrimentos! Pode não escapar de todos os males, mas dribla uma boa parte deles. É que a prudência é a sabedoria que revela os erros e os perigos, ao mesmo tempo, é a força que permite evitá-los. E, veja bem: É no silêncio prudente que a sabedoria muitas vezes se esconde.

      As pessoas fogem de quem fala demais, mas se aproximam dos que têm sabedoria. Se você quer a atenção e o carinho das pessoas faça como Deus: saiba o momento certo de calar e de falar. Nem mesmo diante da morte Jesus joga palavras fora: “Entrou novamente no pretório e perguntou a Jesus: De onde és tu? Mas Jesus não lhe respondeu” (Jo 19, 9). Jesus sabia que há momentos em que a melhor defesa é o silêncio, pois até o inocente parece culpado quando fica se justificando – os nossos amigos não precisam de nossas justificativas para acreditar em nós e os nossos inimigos não irão aceitá-las por melhores que sejam.

    Contudo, a melhor coisa de quando nos silenciamos é que podemos escutar a Deus e receber a sua graça: “Ouve em silêncio, e tua modéstia provocará a benevolência (Eclo 32, 9)”. Só quem contempla no silêncio do coração pode perceber onde reside a felicidade.

saber para saborear

O que é a fé?

16, maio, 2007

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Quando se pergunta o que é a fé, é necessário considerar a existência de seus vários tipos, por exemplo, a fé-assentimento da inteligência, a fé-confiança, a fé-estabilidade. Mas, no nosso caso, podemos nos ater àquela que nos possibilita aceitar a salvação que Jesus nos deu. Antes de mais nada é importante dizer que a fé é um dom de Deus, um presente para aqueles que lhe abrem o coração.

A fé é a coisa mais simples e evidente do Novo Testamento – é uma pena que muitos só a descobrem no fim de sua vida – no fundo, trata-se simplesmente de dizer um “sim” a Deus. Deus criou o homem livre para que pudesse aceitar livremente a vida e todo o dom que vem d’Ele. Deus esperava que o homem se aceitasse como uma criatura e respondesse com um “sim” ao seu plano de amor, mas ao invés disso, recebeu um “não”, que configura todo pecado – pois, na verdade, o pecado nada mais é do que o “não” da criatura ao criador, um rompimento com o seu Senhor. Porém, Deus, que não encontra limites em seu amor e sua bondade, oferece ao homem uma nova oportunidade, uma nova chance de ser feliz e de se realizar, perguntando-lhe: “Você aceita a salvação que o meu Filho trouxe, aceita ser curado de todos os seus males e libertado de tudo o que o oprime para viver uma vida nova em Jesus?” Ter fé significa dizer-lhe “sim, aceito!”. Quando isso é dito do fundo da alma, com toda sinceridade, nasce uma nova criatura. O homem nasce de novo no exato momento em que Jesus dá a sua vida por ele, e Jesus morre por ele, naquele momento em que ele reconhece a salvação e se torna consciente da vida nova que lhe foi proporcionada pelo sacrifício de Jesus.

A fé se manifesta pelo “sim” livre e consciente que o ser humano dá a Deus como resposta à sua proposta de salvação.

espiritualidade

Quem reza não se decepciona

13, maio, 2007

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O grupo de oração nasce de uma ordem de Jesus: “Permanecei na cidade até que sejais revestidos da força do alto (Lc 24, 49). Deus se compadece ao ver a fragilidade de seu povo e toma a iniciativa em socorrê-lo. Sua ordem é um ato de misericórdia, um socorro prestado ao que desfalece em suas forças.

       No momento em que se sentem fracos e abandonados, Jesus os consola com a sua palavra, aquela mesma palavra que ele jamais havia traído, e lhe faz uma promessa acompanhada de uma condição: “virá a força do alto e revestirá a cada um de vocês, mas, para que isso aconteça, permaneçam na cidade, permaneçam ‘juntos/unidos’”. A força do alto não é outra senão o Espírito e assim como o Pai havia ungido Jesus com o “Espírito Santo e com poder” (At 10, 38), dessa mesma forma queria Jesus agora revestir os seus. Em verdade, o Espírito Santo é a única força verdadeira, o único poder real que sustenta o homem de fé.

      O cristão, o carismático, aquele que crê, não vive da própria força, não vive de seus recursos naturais. A sua força não está na carne e no sangue, ela também não está nas obras de suas mãos, porque ele sabe que “não é pelo poder nem pela força, mas sim pelo Espírito do Senhor!”(cf Zc 4,6) que as coisas se realizam. São Paulo sabia disso e dizia: “Nosso Evangelho vos foi pregado não somente por palavra, mas também com o poder , com o Espírito Santo e com plena convicção”(1Ts 1,5) – não só com palavra, isso é, não só com a inteligência, com o estudo, com estratégias e esquemas. O poder que convence e que converte, que destrói os corações de pedra, que aniquila toda força que se organiza contra o conhecimento de Deus e é capaz de fazer brotar a Vida Nova, é e sempre será o Espírito Santo – sem Ele, toda palavra é vazia, e a evangelização ineficaz.

      Ao prometer a força do alto, Jesus desvela um segredo: é do Espírito Santo que o homem de fé recebe  o poder e a eficácia de evangelizar; n’Ele, todo medo pode ser vencido, porque Ele vem em auxílio da nossa fraqueza; aliás, Ele vem atraído pela nossa fraqueza, quando a reconhecemos. O lugar onde o Espírito Santo mais gosta de se derramar é sobre a comunidade reunida. É de Deus a iniciativa de revestir da “força do alto” o seu povo, mas nada teria acontecido se os discípulos não tivessem colaborado, se não obedecessem à ordem do Senhor. Eles cumpriram esta ordem, indo para o Cenáculo e, lá, perseveraram em oração (cf At 1, 12-14).

      Todo aquele que quer ser cheio do Espírito Santo, precisa seguir pelo mesmo caminho; e rezar insistentemente ao Pai do céu, para que em nome de Jesus, conceda o Espírito Santo, e então, esperar com uma fé de expectativa que o Espírito Santo venha. Quando alguém, cheio de amor a Deus, chama, invoca, clama, suplica o Espírito Santo e por Ele espera, jamais se decepciona, pois não deixa de ser atendido. Mas é preciso querer realmente que Ele venha e tome parte na vida, que não seja só uma oração da boca para fora. É preciso empenhar o coração.

 

espiritualidade

Second Life: Perigo ou oportunidade?

10, maio, 2007

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Atraente e revolucionário, o Second Life chegou pegando pesado, e já está revirando a vida de muita gente.

Quem não ouviu falar, pode ficar descansado porque ainda vai ouvir… e muito. O Second Life era para ser um jogo na internet mas acabou se tornando um mundo paralelo extremamente frequentado e cheio de possibilidades que escapam ao universo real. Nele, você pode ter um carro, uma moto ou mesmo um skate para se deslocar – não que seja necessário, já que lá é possível voar. E mais… no tempo que dura um “clic”, você pode saltar da ensolarada praia de Copacabana para as movimentadas ruas de Paris. Ali, as pessoas se encontram, se relacionam, namoram, até mesmo se casam e, acredite se quiser, vivem lá, no mundo virtual, relacionamentos “aparentemente” estáveis.

Como é que isso acontece? A pessoa ao entrar na dimensão do “Second Life” cria uma personagem, espécie de bonequinho, como num jogo de vídeo game, que irá representá-la – esse outro “eu” fala, dança, anda, viaja, namora, casa e até pode ter filhos com uma outra personagem criada por alguém que também esteja frequentando o mundo da “segunda vida”.

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Há muita coisa interessante. Um dos maiores atrativos é a chance que você tem de construir a vida que sempre sonhou, mesmo que seja num mundo virtual. Outra forte atração desse segundo universo é que as pessoas podem ganhar dinheiro de verdade através dele. Há quem compre, venda, produza e desfrute dos produtos ou serviços ali oferecidos. E, pra falar a verdade, criatividade é o que não falta. Quando se trata de ganhar dinheiro, tem gente que tira água da pedra. Apenas, que o second life está longe de ser “pedra dura de tirar água” – a coisa tem sido uma verdadeira fonte de possibilidades rentáveis.

O negócio tem sido tão atraente que há gente passando mais tempo em ares virtuais do que no mundo real. Isso porque quanto mais você se dedica, mais você constrói o seu mundo paralelo: casa, carro, relacionamentos, conhecimentos etc. Há quem vegete diante da “telinha” do computador horas e horas a fio.

Vantagens inegáveis

As vantagens são inegáveis. Você pode participar de aulas, reuniões, discussões ou mesmo tomar um cafezinho com um monte de gente sem sair da frente do seu micro. Basta mandar o seu representante virtual no lugar. Este mundo paralelo tem moeda própria que pode ser convertida em dinheiro verdadeiro e depositado numa conta real. Daí nem preciso dizer que comprar e vender é uma das atividades mais valorizadas nesse espaço alternativo.

Para comprar, alguém vem atender você, ensina a testar o produto, você pode inclusive fazer test-drive e coisas do tipo, apenas que depois de pagar você recebe um similar verdadeiro do produto aonde você mandar entregar. Legal, não é? aerte031.jpgAs possibilidades são ilimitadas. Você pode conhecer pessoas, encontrar amigos, fazer uma reunião virtual da família, montar uma empresa, realizar negócios, confeccionar objetos, conhecer o mundo… e pense: dá até para dançar!

Os perigos

O multiplicar das possibilidades, no entanto, descortina também um mundo de perigos: os mesmos perigos que a internet já oferecia só que com uma overdose a mais de atração. A gente diz “perigo” pela seguinte razão, por mais que o Second Life se aproxime da realidade, ele é e sempre será um mundo virtual. Um mundo que está além das inúmeras exigências e conseqüências de uma vida real. Você poderia dizer: “Bem… mas isso todo mundo sabe”. Certo! Você tem razão. Todo mundo sabe na teoria, mas na prática e pra muita gente a coisa se dá de maneira diferente. Por exemplo, como o relacionamento virtual é um dos fortes componentes deste mundo online, o risco de fugir de relações reais com suas exigências e conseqüências não é pouco. Corrobora essa idéia as incontáveis matérias de televisão, rádio e jornais que expuseram a situação de pessoas que passavam mais tempo navegando na net do que no trabalho, na família ou no tradicional convívio social.

Outra coisa incontestável é que através dos vários conteúdos continuamente dispostos na rede são apresentados como naturais e normais as situações em que o amor é posto de lado para dar espaço a relacionamentos que tratam a pessoa como um objeto de prazer sexual usado conforme a conveniência, a forma mais evidente disso é a pornografia e a prostituição.

Qualquer um, num breve tour pela net, poderá constatar por si próprio inumeráveis situações em que os interesses comerciais e a gana de domínio põem em segundo lugar valores como a ética e a dignidade das pessoas. E é claro que isso tem um impacto sobre a vida, pois os instrumentos da comunicação social, com seu poder de penetração e sugestão, realizam sobre a vida das pessoas, sobretudo em matéria de abordagem sexual, uma contínua e condicionante atividade de informação e de ensino muito mais forte que a família.

À parte os desequilíbrios, é importante ter em conta o número de pessoas que já gasta uma parcela considerável de seu tempo diante de um computador… e façamos isso sem cair na ingenuidade de supor que este novo conceito de relacionamentos proposto pelo Second Life não irá influenciar a vida social concreta, porque vai. Aliás, já está fazendo isso há algum tempo.

O fato é que o virtual já se tornou realidade; e, para desespero dos preocupados e temerosos, não há como voltar atrás. Existe uma indústria global de interesses superdiversificados alimentando e expandindo o chamado “metaverso” (em contraposição a universo) da “segunda vida”, e fortes interesses econômicos garantem vida longa ao Second Life.

E então?

A questão que se impõe aos cristãos é se vamos ou não lançar mão deste meio para levar o Evangelho. Pois a evangelização acontece através do relacionamento entre pessoas – campo que o Second Life privilegia. Além disso, é com as pessoas que nos cercam que aprendemos a ser gente, é por meio delas que tomamos conhecimento de nós mesmos e nos encontramos. Abrir mão de utilizar um meio tão expressivo de relações e comunicação é certamente alienar-se.

A posição da Igreja é muito clara nessa matéria, basta recordar a Carta Encíclica Miranda prorsus (1957), do Papa Pio XII, a Instrução Pastoral sobre os meios de comunicação social Communio et progressio, publicada em 1971, onde se afirma: « A Igreja encara estes meios de comunicação social como “dons de Deus” na medida em que, segundo a intenção providencial, criam laços de solidariedade entre os homens, pondo-se assim ao serviço da Sua vontade salvífica». Este continua a ser o ponto de vista da Igreja acerca dos meios de Comunicação Social e da Internet.

O papa João Paulo II entendia essas oportunidades como uma riqueza de nossa época, encarava o desafio e consciente dos perigos afirmava que uma má abordagem de temas que tocam a vida das pessoas como o são a moral, a religião, a cultura e a família têm a capacidade de causar enormes prejuízos.

Essa é a razão pela qual os comunicadores não podem renunciar a meios tão expressivos para a formação das consciências, bem como não devem jamais desprover a sua mensagem de dois componentes fundamentais: a verdade e o zelo pela dignidade da pessoa humana.

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Este é o desafio que não podemos perder de vista quando, como cristãos, nos defrontamos com a vertiginosa proposta do Second Life. É uma ferramenta magnífica, mas apenas uma ferramenta. E uma ferramenta pode ser boa ou má segundo o uso que fazemos dela.

E é justamente ali, onde muitas pessoas estão em busca de uma novidade que as renove, de um relacionamento que lhes faça a diferença e de um sentido para as suas vidas que a Canção Nova precisa estar presente – e já estamos – para proclamar ao mundo que Jesus é o Senhor, e que é nele que está guardada não a “vida segunda”, mas a verdadeira vida e aquela felicidade que não se extingue no log off.

As vantagens existem, os perigos também. Os desafios são inúmeros e passam inevitavelmente pela educação. Pais e responsáveis precisam primeiramente se educar a fim de ensinar aos filhos a usar correta e moderadamente esses meios de informação e relacionamentos, equilibrando-os com outras atividades comunitárias também importantes para a saúde e desenvolvimento sobretudo da criança, do adolescente e do jovem. É preciso se educar primeiro, porque dar o exemplo não é a melhor maneira de influenciar os outros. É a única. Já dizia Albert Schweitzer.

Bom… quem sabe essa “segunda vida” não se torne uma oportunidade de conhecer e entrar naquela vida verdadeira e definitiva que não se desliga mais: Jesus.

assuntos polêmicos

Entre a cruz e a espada ……………………ou entre a cruz e a estrela?

8, maio, 2007

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Imagine que você se encontra diante de uma decisão importante que pode mudar toda a sua vida. Alguém se aproxima e lhe diz: “Não há como fugir. Você precisa escolher. Terá que fazer sua opção”. Você se sente, então, entre a cruz e a espada. E as circunstâncias se agravam ainda mais se a sua decisão envolver outras pessoas. 

Em momentos assim escolher pode tornar-se muito difícil, uma verdadeira arte. Seria muito bom se essas escolhas não comportassem uma certa carga de angústia. Mas escolher dói, causa inquietação, medo, insônia, porque escolher significa também abrir mão de algo.  

Toda escolha implica também uma renúncia. Ao escolher uma estrada, você desiste de caminhar por todas as outras. Ao escolher uma esposa ou um marido você dispensa todos os outros possíveis candidatos. É a encruzilhada da vida. Mas é isso que torna linda a história, e que a faz única, irrepetível e merecedora do nosso amor.  

Porque a gente ama não é uma vida sem erros, mas uma vida de possibilidades e de escolhas. A gente ama ser livres. E, por piores que as opções pareçam, mesmo que a gente se veja sem saída, ainda nos resta escolher o que vamos fazer na situação difícil. Se vamos lutar ou nos entregar. É justamente aqui que jorra uma força, uma energia, um poder – um milagre acontece cada vez que alguém se supera e tira o bem de onde os outros só viam maldades ou não viam nada. O céu faz uma festa quando a gente se recusa a ser escravo da tristeza e da depressão. Deus salta de alegria quando a gente escolhe se levantar mesmo contra as expectativas de todos à nossa volta.

Se alguém diz a uma pessoa de fé que não existem mais saídas, ela dobra os seus joelhos até que uma porta nova se abra. Não faz por pirraça, faz por amor; porque a fé faz brotar o amor. E o amor nos faz enfrentar os problemas – ele mesmo nos dá a vitória sobre os males. Viver assim é perigoso, é subversivo. Viver assim é comprometer-se, é abraçar a cruz de uma vida levada a sério, vivida sem medo até às últimas consequências.   

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E a morte não tem poder sobre uma vida assim. A dor e o sofrimento jamais terão vitória sobre o amor, porque quando o amor se torna a medida de cada decisão, toda morte termina em ressurreição. 

Ao terceiro dia, o corpo de Jesus, qual uma estrela, pulsou no sepulcro; e a morte explodiu na primavera de uma nova vida – se a cruz é sinal de morte e sacrifício, a estrela é sinal de vida e ressurreição. Tudo o que fazemos está compreendido entre “uma estrela e uma cruz” ou se preferir entre “uma cruz e uma estrela”, que é o tempo que passamos sobre essa terra. Que marca a duração da nossa vida.  

Por isso se a gente se sentir apertado, constrangido, encurralado pelas escolhas da vida, precisamos lembrar que mais do que entre a “cruz e a espada”, tudo se dá entre a “cruz e a estrela”. Cruz de uma vida sofrida. Estrela da ressurreição prometida. Porque o amor é imortal. Quando a gente tem certeza disso…e pode ter certeza porque é verdade – aí sim…os sacrifícios valem a pena e os sofrimentos já não são insuportáveis.

Mário Quintana entendia que os sofrimentos abraçados com amor fazem parte do caminho e são a cruz que levam à ressurreição, por isso escreveu:  

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Conta a tradição oriental que, quando três cruzes foram descobertas nas escavações em Jerusalém, Helena, mãe do imperador Constantino, para distinguir a de Jesus Cristo das dos ladrões, mandou buscar o cadáver de um homem e, ao simples contato com o madeiro que sustentou o Salvador do mundo, ele foi milagrosamente ressuscitado. Neste mesmo lugar foi dedicada a basílica da Ressurreição em razão da descoberta. 

Por isso agora a estrela brilha sobre a própria cruz: “Fulge o mistério da Cruz” – bradavam os antigos. Tudo isso para dizer que o sofrimento superado no amor é fonte de transformação e de vida, por que o amor tem esse poder de tornar fáceis e leves as coisas mais difíceis: Quem ama – diz um autor medieval -, corre, voa; vive alegre e nada o embaraça. O amor muitas vezes não sabe ter medida, mas vai além de todos os limites. Nada lhe pesa, nada lhe custa; empreende mais do que pode; não se desculpa com a impossibilidade, pois crê que tudo lhe é possível e permitido. Aos que escolheram abraçar a cruz no princípio, certamente, a luz da Estrela os espera no fim. 

saber para saborear

Poder de Deus e Força dos corações

4, maio, 2007

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O Espírito Santo é a força do alto que toma nos braços o homem sem entusiasmo, sem coragem, e o leva a agir. Ele é a força dos fracos, a força de quem não tem força. É Deus que vem ao encontro da pessoa que já não tinha planos nem projetos para o futuro, apenas sonhos frustrados, e inverte a situação. Levanta a pessoa, e a faz agir. Antes, ela desistia de antemão, não acreditava em si mesma, e a vida a arrastava, mas agora, tudo mudou – é a experiência de um nascer de novo.

Quando Jesus falava de nascer de novo e de uma vida nova, fazia questão de enfatizar que ela não poderia ser vivida sem um coração novo. E essa mudança é notável. As pessoas percebem quando alguém foi renovado em seu coração, porque a sua maneira de ver a vida muda, seus pensamentos, seus valores, seus critérios todos mudam. Pois, foi-lhe dada uma nova capacidade para amar e uma liberdade sem medidas. Essa liberdade surge da força que estava guardada no fundo do coração da pessoa desde o dia de seu batismo.

Essa também foi a minha experiência. Na minha família, somos todos muito tímidos, e sempre tivemos grande receio de falar
em público. As pessoas que antes me conheciam se admiravam quando me viam à frente de um grupo a testemunhar a minha experiência com Deus. Quanto mais me conheciam mais admirados ficavam. Também eu estava impressionado pelo que se passava comigo. Só que, eu não conseguia resistir; sentia-me “impulsionado sem cessar pelo Espírito de Deus”(GS 41,1), sentia-me impelido, empurrado a falar publicamente o que Jesus estava realizando em minha vida. É obra do Espírito fazer-nos passar de simples ouvintes a testemunhas da Palavra de Deus e, para mim, não restava dúvida de que era Ele quem agia. Eu havia passado a vida inteira calado, sem me expressar diante das pessoas, e agora, em poucas semanas, uma coragem me invadia para proclamar o evangelho abertamente aonde quer que eu fosse, sem nenhum medo nem vergonha.

Mas o Espírito Santo não confere apenas coragem e força, Ele simplesmente abastece todo o coração em suas aspirações mais profundas. É uma experiência de amor que faz a gente amar – que faz a gente entender que há mais alegria em dar do que em receber. Santo Afonso dizia que “quando o amor de Deus se apossa totalmente de alguém – essa mesma pessoa ajudada pela graça – procura por si mesma desfazer-se de todas as coisas que lhe dificultam ser inteiramente de Deus”. A pessoa, então, conhece a Deus e pode, por isso, dizer: “Meus ouvidos tinham escutado falar de ti, mas agora meus olhos te viram” (Jó 42, 5). Jesus se torna o centro de sua vida, porque ela mesma o experimentou e não porque lhe disseram.

espiritualidade

A coisa mais importante da vida

2, maio, 2007

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A coisa mais importante da vida?

Descobri muito cedo que a coisa mais importante da vida é o amor… e que tudo o que as pessoas desejam é alguém que as ame de uma maneira forte e constante. Com aquele tipo de carinho que dispensa palavras. Que não fica criticando o tempo todo, mas que é um braço estendido na hora em que a gente mais precisa. Encontrar alguém que ama assim é uma alegria e põe a gente feliz, sorrindo pra vida.  Há pessoas que têm o dom de levar a beleza por onde elas passam… parece que carregam na boca um pedaço de céu e os seus rostos têm a clareza e o frescor de uma manhã de sol. São frascos de perfume que mesmo quebrados exalam a mais encantadora fragrância: o amor. 

Acho bonito quando os sábios dizem que é pela inteligência e o caráter que a pessoa resplandece as qualidades que tem. Só não consigo concordar inteiramente. Não por oposição mas por insuficiência. Porque o caráter e a inteligência podem impressionar, mas é o amor que damos a alguém que nos faz brilhantes e inesquecíveis em sua vida.Não basta ser inteligente… ter caráter não chega; é preciso amar. Porque o amor torna as pessoas indispensáveis. Se eu amo, eu preciso de você… e isso me faz melhor. Se eu amo, passo a gostar mais da sua voz do que da minha… então, calo para você falar, e ao escutar estarei amando.  Por isso, se você quiser acender um sorriso, iluminar um coração ou acordar a esperança em alguém, precisa lembrar de uma coisa: as pessoas se alegram com sua inteligência, apreciam o seu caráter, mas precisam de seu amor. O amor tem o poder de transformar todas as coisas e destrancar todas as portas. Só ele faz luzir nossos talentos e resplandecer quem a gente é.  

Então, se você calar, cale com amor; se gritar, grite com amor; se corrigir alguém, corrija com amor; se perdoar, perdoe com amor. Se você tiver o amor enraizado em você, diz um antigo profeta, nenhuma coisa senão o amor serão os seus frutos… e todos se aproximarão. E, aos que perguntarem porque nessa ou naquela circunstância agimos assim, como será gostoso responder: É que o amor luzia em mim! 

Prefiro me apresentar a partir dos valores em que acredito do que das coisas que faço. Tenho tentado pautar minha vida no amor e isso, certamente fala de quem eu sou mais do que qualquer outra coisa. 

saber para saborear