[Publicado em Convergência 39 (2004/nº 378) 589-607]
O discipulado cristão segundo Mateus
– A figura de José (Mt 1,18-25) –
Pe. Jaldemir Vitório SJ
A figura de José é pouco aludida nos evangelhos canônicos. Só Mateus e Lucas inserem-no em suas narrativas#. A literatura apócrifa contém alusões a José, em geral, com preocupação apologética centrada na concepção virginal#.
Na interpretação bíblica popular, José é muitas vezes reduzido a um pobre coitado. Vê-se metido num imbroglio, do qual não chega a se dar conta. Com muita freqüência, também se ouvem considerações piedosíssimas em torno da figura de José, como desdobramento do relato evangélico. Nesta vertente, ele é pintado carregando-se as tintas na sua humildade e conformidade. Surge daí uma devoção muito superficial a São José. Muito raramente sua figura faz jus à consistência teológica recebida nos relatos evangélicos da origem e da infância de Jesus, de modo especial em Mateus. Com sua reconhecida capacidade teológico-literária, pouco provavelmente, o evangelista haveria de referir-se a José em tom menor. De fato, o pai de Jesus desempenha no projeto teológico-catequético mateano um papel relevante.
Este artigo propõe-se a explicitar a função narrativa de José no evangelho de Mateus, tomando como referência Mt 1,18-25. O primeiro passo consistirá em relembrar algumas regras mínimas de interpretação bíblica (1o item). Como estas são, com muita freqüência, ignoradas ou desconhecidas, é comum deparar-se com interpretações do texto bíblico feitas à revelia da dinâmica interna do evangelho. Por isso, será preciso também explicitar o objetivo visado por Mateus ao escrever o evangelho (2º item). Sem ter em mente esse objetivo, torna-se impossível captar a mensagem veiculada nas várias cenas do escrito mateano, consideradas individualmente e em conjunto. Estando Mateus interessado em oferecer a sua comunidade pistas para a vivência do seguimento de Jesus, trata-se, então, de esboçar as grandes linhas do discipulado cristão presentes no evangelho (3o item). Estes pressupostos constituem o pano de fundo sobre o qual se situará uma leitura preliminar de Mt 1,18-25, buscando-se evidenciar o sentido de seus vários componentes, tendo como foco a figura de José (4o item)#. Numa tentativa de síntese e de sistematização, serão elencadas as várias dimensões do discipulado de José, decorrentes da interpretação do texto evangélico (5o item). Por fim, visando os cristãos atuais, serão explicitadas as grandes linhas inspiradoras do discipulado, sem olvidar os desafios enfrentados por quem se esforça para, no dia-a-dia, deixar-se nortear pelo exemplo do discípulo José (6o item).
1. A interpretação bíblica e suas regras
Muita gente arvora-se em intérprete do texto bíblico, sem levar em conta a existência de regras precisas de interpretação. Tal ousadia hermenêutica tem sido causa de freqüentes desvirtuações do texto sagrado, bem como de mal-entendidos e conflitos desnecessários. Só se pode dialogar a respeito do texto bíblico, quando as partes se atêm às normas específicas de interpretação. Elencaremos, de forma breve, algumas regras relativas à interpretação dos textos evangélicos, válidas para o texto em questão.
Os evangelhos foram elaborados a partir de um projeto teológico-literário preciso, cujo conhecimento constitui o primeiro passo da interpretação. Nenhum autor bíblico trabalhou de maneira desordenada e aleatória, pondo suas idéias por escrito sem ter um rumo pré-determinado. Pelo contrário, toda a literatura bíblica, em suas partes e no conjunto, foi elaborada a partir de projetos literário-teológicos inteligentemente pensados. Em função destes, os teólogos-catequistas# selecionaram o material disponível, escolheram as formas mais adequadas de transmitir a mensagem (gênero literário), retrabalharam suas fontes, insistiram em certos temas, deram maior ou menor importância aos personagens etc.
O sentido de cada perícope# depende de sua função narrativa, decorrente do projeto literário-teológico do autor. Em textos narrativos, como é o caso dos evangelhos, as perícopes devem ser relacionadas tanto com o contexto imediato quanto com o conjunto do texto. É como se fossem parte de um quebra-cabeça. Sua correta intelecção depende de como foi correlacionada com as demais perícopes, ou seja, do seu lugar na narrativa. Ler um texto desconectado do contexto é sempre arriscado. O leitor acaba por projetar-lhe idéias pré-concebidas, sem escutá-lo. O texto submetido aos caprichos do leitor, nem sempre interessado em assumir a postura de ouvinte, também se recusará a falar. Resultam daí falsas mensagens, tidas na conta de verdadeiras!
Para compreender o sentido dado pelo autor e não forçar o texto a dizer o que não diz, é necessário estar atento às palavras, frases e expressões, com as quais um texto é tecido. Ele consiste num complexo de palavras (lexemas), de frases e expressões (sintagmas) organizadas de forma coerente (sintaxe). Para depreender o sentido nele entranhado, urge mergulhar neste emaranhado em vista de captar-lhe a lógica interna. Esta será o resultado do sentido de cada palavra, de cada expressão, de cada frase que, no caso dos textos bíblicos, escritos há tantos séculos, pode nos escapar. A escolha dos verbos e dos tempos verbais, das preposições e conjunções, da forma de organizar o pensamento é determinante para a produção de sentido.
Em geral, temos à nossa disposição traduções nem sempre confiáveis. A imensa maioria das pessoas não tem acesso aos originais, escritos em hebraico e grego. E mesmo tendo acesso aos textos antigos, muitas vezes, é impossível recuperar o sentido exato (semântica) de determinada palavra ou expressão, pretendido pelo autor#. Em todo caso, é prudente evitar interpretações ingênuas a partir de nossas traduções. Entre a tradução disponível (o sentido dado pelo tradutor) e o sentido cogitado pelo autor bíblico pode haver um abismo. Em tom de brincadeira, diz-se: “Tradutor é traidor!”
Vale a pena recordar a observação encontrada no Prólogo do livro do Eclesiástico (Sirácida). O texto original foi escrito em hebraico por Jesus ben Sirac e traduzido para o grego por um de seus netos. Este se apressou em esclarecer seus leitores: “Vocês estão convidados a ler com atenção e benevolência, perdoando se, apesar do esforço, não consegui traduzir bem algumas expressões. De fato, as coisas expressas originalmente em hebraico não têm a mesma força quando traduzidas para outra língua. Isso acontece também com a Lei, os Profetas e os outros Livros: são muito diferentes na língua original”.
Importa também observar que a correta compreensão de um texto depende de sua correlação com outros textos. Por conseguinte, para interpretar um texto é insuficiente resgatar sua trama interna. O passo seguinte consiste em projetá-lo para além de si mesmo e estabelecer correlações com outras perícopes, no âmbito da obra onde está inserido (intratextualidade), e também com textos de outros livros bíblicos e extrabíblicos (extratextualidade ou intertextualidade). Estas inter-relações oferecem ao leitor-intérprete pistas valiosas, tanto exegéticas quanto hermenêuticas.
Por fim, leve-se em consideração que, ao escrever, o autor bíblico tem em mente um determinado público (leitor pressuposto e subentendido), cuja conduta pretende influenciar (pragmática). Quando um teólogo-catequista bíblico dispõe-se a escrever, é movido por preocupações pastorais bem demarcadas. Nenhum livro bíblico foi escrito de forma despreocupada e desengajada, para deleite do autor. Na sua quase totalidade, os livros bíblicos foram escritos em momentos de crise da comunidade de fé, em distintas circunstâncias de sua história, com o fito de ajudá-la a superar as tribulações, mantendo viva a fé em Deus.
Em outras palavras, os textos bíblicos têm propósitos práticos, ligados à vida de seus leitores originais e primeiros destinatários. Estes buscavam no texto uma luz para a sua caminhada. Era quando se transformava, deveras, em Palavra de Deus e passava a ser reconhecida como tal.
A mensagem do texto bíblico, extraída hoje, deve de alguma forma estar relacionada com a mensagem transmitida nas origens. Só assim é possível fazer uma espécie de “fusão de horizontes” entre os leitores-intérpretes atuais e os primitivos. Quando isto acontece, a leitura do texto bíblico torna-se mais rica e estimulante. No âmbito da fé, entendemos que Deus fala e nos aponta as veredas por onde somos chamados a caminhar.
Estas são regras elementares para a leitura do texto bíblico. Em certos casos, quiçá sejam necessárias outras específicas e particulares. É importante não se arvorar em intérprete do texto bíblico apropriando-se dele de maneira abusiva e irresponsável. A objetividade do texto exige ser respeitada.
Considerando essas regras de interpretação do texto bíblico, faz-se necessário explicitar os objetivos visados pelo evangelho de Mateus.
2. Mateus: uma catequese do discipulado
Qual foi a intenção de Mateus ao escrever o evangelho? Que pontos na vida da comunidade mais o preocupavam? Em função disto, que idéias transmitiu no seu escrito e procurou inculcar nos seus leitores?
O evangelho de Mateus foi escrito por volta do ano 85, partindo de certas inquietações e, por conseqüência, tendo em mente influenciar sua comunidade em pontos específicos. Os cristãos da comunidade mateana estavam às voltas com uma preocupante crise de fé.
Em sua maioria, provinham da tradição judaica. A religião judaica, naquele momento, passava por sérios transtornos. De 66 a 70 d.C., um grupo de guerrilheiros – os zelotas – empreendeu uma revolta independentista para se livrar do jugo do Império Romano, conhecida como Guerra Judaica. Os romanos usaram a força militar para subjugar os rebelados, culminando com a destruição do Templo de Jerusalém e a desarticulação da liderança judaica.
Diante desta situação, por volta de 80 d.C., um grupo de rabinos empreendeu um processo de reabilitação do judaísmo, através da unificação dos grupos remanescentes da destruição. O método escolhido foi o da uniformização das práticas religiosas, fazendo todas as correntes seguirem idêntico padrão de vivência da fé. Buscou-se criar um calendário comum das festas, elaborou-se uma lista (cânon) dos livros bíblicos, as liturgias foram padronizadas.
As comunidades cristãs, nos seus albores, entendiam-se como um dos vários movimentos no âmbito do judaísmo. Eram grupos de judeus, inspirados nos ensinamentos e nas práticas do Messias Jesus. Daí o empenho do movimento restauracionista de fazê-las aderir ao projeto de padronização da prática religiosa judaica.
Entretanto, os cristãos recusaram-se a abrir mão de suas práticas de fé, não se submetendo aos ditames da liderança judaica. Resultou daí uma onda de intolerância e perseguição. Como os cristãos mantinham-se firmes na sua decisão de não aderir ao movimento de restauração, passaram a sofrer um acelerado processo de marginalização. Mateus refere-se a esta situação quando põe na boca de Jesus a bem-aventurança da perseguição: “Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. Bem-aventurados sois, quando vos injuriarem e vos perseguirem e, mentido, disserem todo o mal contra vós por causa de mim” (Mt 5,10-11) #.
A expulsão do judaísmo veio sem demora, mergulhando os cristãos de procedência judaica numa terrível crise#. Os membros da comunidade de Mateus, certamente, se perguntavam: Vale a pena abandonar nossa fé tradicional, baseada na Lei de Moisés, para nos tornar discípulos de Jesus? De fato, somos apóstatas e hereges, renegadores da fé de nossos pais, centrada na figura do Deus libertador? A opção por Jesus possibilita-nos algo de novo e melhor? Quais são as reais exigências da fé em Jesus? O seguimento de Jesus oferece-nos uma identidade consistente, merecedora de crédito?
Mateus tem em mira oferecer à sua comunidade, e àquelas em idêntica situação, uma resposta convincente a suas interrogações. E o faz escrevendo o evangelho como uma espécie de resumo da proposta cristã para quem deseja tornar-se discípulo de Jesus. Por isso, produziu um texto didático, esquemático, conciso, por concebê-lo como uma espécie de catecismo do discipulado.
Mateus descreve Jesus como o Mestre da comunidade, em processo de esclarecer os discípulos, responder-lhes as questões, abrir-lhes as mentes, de forma a reforçar-lhes a fé e prepará-los para o embate gerado pelo contexto de intolerância quase fanática da liderança judaica.
Repassando o texto evangélico, é possível delinear o retrato do discípulo do Reino esboçado por Mateus.
3. Quem é discípulo do Reino?
O discipulado cristão, para Mateus, resume-se em ouvir a Palavra de Deus e colocá-la em prática. Não mais a Palavra mediada pela interpretação dos rabinos, preocupados com as minúcias da Lei Mosaica, e, sim, a Palavra revelada pelo Filho Jesus. Esta revelação atinge o cerne da vontade do Pai – o espírito da Lei – e toca o íntimo do ser humano, a ponto de conformá-lo todo com o querer do Pai, transformando-o em discípulo do Reino. Este se caracteriza por viver sob o senhorio de Deus, buscando sempre e em tudo a sua vontade, pela superação da tentação de idolatria expressa na supervalorização das criaturas. O Reino de Deus concentra-lhe todo o ser e o agir.
O discípulo é confrontado com uma proposta concreta, sintetizada em Mt 5-7 – o Sermão da Montanha. Aí estão formuladas as linhas mestras da conduta cristã. Nada de teorias, nem de abstrações! A proposta mateana consiste num modo de proceder superior ao dos escribas e fariseus (Mt 5,20), contentes com uma religião de aparências (Mt 15,1-9). Esta pauta de ação não supõe a revogação da Lei e dos Profetas (Mt 5,17), os ensinamentos da religião judaica. Pelo contrário, consiste numa forma de radicalização da Lei Mosaica, no sentido de superação da centralidade da letra – o texto escrito da Lei –, como acontecia na prática dos escribas, ou na sua vivência exterior e exibicionista, como era o caso de algumas correntes do farisaísmo (Mt 6,1). A “des-absolutização” dos ditames da Lei acontece na busca da vontade divina expressa em cada mandamento, pois “absoluto” é só o projeto amoroso do Pai (Mt 5,43-48). As palavras escondem um querer radical a ser visado pelo discípulo.
Mt 5,21-48 contém uma série de exemplos de como o discípulo do Reino interpreta a Lei, superando-lhe a materialidade das palavras. Eis um pequeno exemplo, tirado de Mt 5,21-26. A Lei ordena “Não matarás!” Numa interpretação apressada, o mandamento é entendido no sentido material: tirar a vida física do próximo. A interpretação de Jesus vai além e descobre outras formas de eliminar o outro, matando-o dentro do coração. E mais, a ruptura com o próximo provoca a ruptura com Deus. Por isso, se alguém está de relações cortadas com o semelhante, só poderá oferecer um culto agradável a Deus após ter se reconciliado. Caso contrário, o gesto litúrgico-cultual será desprovido de sentido.
Para o discípulo do Reino, a Lei funciona como uma espécie de baliza para a sua conduta. Criatividade e generosidade serão a marca de seu agir. Ele vai muito além do previsto, do estabelecido e do legalizado. E se entrega sem limites à prática do bem em favor do semelhante.
Mt 6,1-18 descreve a vivência religiosa do discípulo do Reino, nas três práticas características: a esmola, a oração e o jejum. Ao realizá-las, o discípulo é movido pela pureza de coração, por isso não age como os hipócritas e ostentadores, preocupados em serem vistos e aplaudidos pelos demais. Antes, sua religião é vivida no escondimento e na simplicidade. Basta-lhe estar sob o olhar bondoso do Pai, seguro de sua recompensa. O parecer alheio, positivo ou negativo, está longe de influenciá-lo.
A continuação do Sermão da Montanha, Mt 6,19-7,28, contém uma série de orientações a serem vividas no dia-a-dia, visando a manter o coração do discípulo integralmente centrado em Deus. Este modo de proceder faz do discípulo um “bem-aventurado”#. Daí a admoestação do Mestre: “Busquem, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça!” (Mt 6,33). O discípulo caracteriza-se por sua disposição e capacidade de viver, sempre e em tudo, sob o senhorio de Deus, jamais permitindo a menor intromissão de outros valores em sua vida. Essa disposição fundamental torna-o livre diante de todas as criaturas, sem se deixar polarizar por elas.
Três pequenos textos ilustram as decisões a serem tomadas por quem está em processo de se tornar discípulo do Reino:
(a) Mt 7,13-14 – confronto com duas portas: a estreita e a larga. A primeira corresponde a abraçar as exigências do Reino assim como se apresentam, embora se deva pagar um alto preço. É a cruz referida em Mt 16,24. A segunda corresponde a um estilo de vida onde as exigências do Reino são adaptadas às conveniências pessoais, excluindo as renúncias e as cruzes características do discipulado. Daí a admoestação: “Entrai pela porta estreita!”
(b) Mt 7,13-20 – confronto com dois tipos de profeta: o verdadeiro e o falso. O profeta verdadeiro corresponde ao líder da comunidade preocupado em transmitir a mensagem do Mestre na sua inteireza, embora reconhecendo o desafio de ser-lhe completamente fiel. O profeta falso prega uma religião “ao gosto do freguês”. Em geral, expurga-lhe os elementos fundamentais, onde o discípulo é exigido a vencer-se a si mesmo, num processo custoso de vivência radical do amor misericordioso. O Mestre alertou os discípulos: “Guardai-vos dos falsos profetas!” E ofereceu uma pista para discernir entre o verdadeiro e o falso líder da comunidade: “Pelos frutos, reconhecê-los-ei!” Cabe ao discípulo estar atento para não ser enganado, aderindo apenas aos ensinamentos de quem, pelo testemunho de vida, dá mostras de autenticidade e veracidade segundo os critérios evangélicos.
(c) Mt 7,21-23 – confronto com duas atitudes: o fazer e o falar. O verdadeiro discípulo do Reino caracteriza-se por sua obediência à Palavra escutada. Sem vacilar, deixa-se guiar por ela, transformando-a em pauta de ação. O falso, por sua vez, contenta-se com palavreados vazios, a ponto de anular a capacidade de a Palavra transformar-lhe a vida. A exortação do Mestre não dava margem para indecisão: “Nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino dos Céus, mas sim, aquele que pratica a vontade de meu Pai que está nos céus”.
O Sermão da Montanha conclui-se com a parábola das duas casas (Mt 7,24-27), ilustração das duas possíveis posturas do discípulo: escutar as orientações do Mestre e deixar-se guiar por elas, ou, pelo contrário, escutá-las, mas não lhes dar ouvido. A sorte de cada um já está embutida na sua opção! No primeiro caso, assemelha-se à casa construída com firmeza sobre a rocha. Mesmo as mais terríveis intempéries jamais a abalarão. Na situação contrária, está a casa construída sobre a areia. Qualquer tempestade será suficiente para arruiná-la.
Mais adiante, a parábola do semeador alude a várias posturas diante da Palavra (Mt 13,4-9.18-23) e passa a impressão de serem poucos os verdadeiros discípulos, dispostos a ouvi-la e a praticá-la. Das quatro possibilidades, só uma corresponde à produção de frutos, mesmo assim em proporções variadas. Trata-se de quem “ouve a Palavra e a entende!” (v. 23). O entendimento, no caso, nada tem a ver com conhecimento racional e abstrato. Trata-se da compreensão prática, feita na vivência cotidiana e fiel da Palavra, com todas as suas exigências. Não é pura contemplação, deleite espiritual e mero saber intelectual.
Embora se tornando discípulos e se dispondo a seguir as orientações do Mestre Jesus, nem todos atingem a excelência no agir. Cem, sessenta e trinta por cento estabelecem a distinção entre os discípulos. Quem é sincero na sua adesão ao Reino, dá o máximo de si e se esforça para produzir sempre mais e melhores frutos de misericórdia e de perdão. Esta é a “justiça superior”, referida em Mt 5,20.
Uma descrição resumida da identidade do discípulo do Reino encontra-se em Mt 12,50: “Quem fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, irmã e mãe”. “Fazer a vontade do Pai” é o resumo da ética do discípulo. Suas aspirações pessoais ficam relativizadas no confronto com o querer divino. Em cada situação, pergunta-se pelo projeto de Deus a ser expresso nas mais pequeninas ações e nos gestos mais simples. Uma vez conhecido este desígnio superior, acolhe-o com a mais total liberdade e disponibilidade e faz dele o próprio projeto de vida.
Esta dinâmica ético-espiritual decorre de uma profunda comunhão com Deus e da capacidade de discernimento da realidade. A união com Deus projeta o discípulo para além de si mesmo, suas aspirações e projetos. Entretanto, o querer divino está longe de ser encontrado com facilidade e de maneira evidente. Daí a urgência do discernimento em vista de reconhecer-lhe, com suficiente certeza, o conteúdo e as exigências. De fato, a vontade do Pai não se apresenta ao ser humano de maneira cristalina e inquestionável. E sim, está rodeada de muitíssimas outras propostas, quiçá fruto de paixões desordenadas.
A parábola do joio e do trigo (Mt 13,24-30 + 36-43) ilustra a experiência humana de ambigüidade entre a vontade divina e as muitas solicitações suspeitas. Deus propõe ao ser humano sua vontade. O Maligno age da mesma forma, com o agravante de sugerir algo muito semelhante à proposta divina. O discípulo é desafiado a suportar esta incerteza, ao longo de toda a sua vida. Só escatologicamente o nó será desfeito e a vontade divina despontará no mais total esplendor. Até lá, é preciso caminhar com muita cautela, para não se deixar enganar pelas aparências.
Na mesma linha, pode ser interpretada a parábola da rede (Mt 13,47-50). Enquanto não concluir a sua caminhada terrena, cabe ao discípulo suportar a equivocidade da existência, procurando não se deixar enganar. Só pelo discernimento continuado terá a possibilidade de evitar as ciladas da maldade e do pecado.
Uma vez discernida e encontrada a vontade do Pai, cabe ao discípulo acolhê-la de todo coração e com alegria. Duas parábolas mateanas – do tesouro escondido no campo e do comerciante de pérolas finas – elucidam este comportamento discipular. A primeira (Mt 13,44) tem como referência a situação dos adeptos do Reino sem prévia intenção. Vivendo o dia-a-dia, deparam-se de maneira fortuita com a proposta de Jesus. São muitas as formas como o Reino interpela o ser humano, sempre numa linha de experiência revolucionadora. Então, torna-se um absoluto, a ponto de relativizar tudo mais, pois carece de valor diante da descoberta inesperada. O discípulo, sem titubear, deixa de lado tudo quanto considerava importante até então e abraça, cheio de júbilo, o apelo de Deus.
A segunda parábola (Mt 13,45-46) difere um pouquinho da anterior. Refere-se aos empenhados na procura do Reino dispostos a qualquer sacrifício para a realização de seu intento. Sua busca tem em vista algo preciso: encontrar projetos de vida deveras merecedores de serem abraçados. São as “pérolas finas”, raras e valiosíssimas. Nesta busca, a pessoa depara-se com o Reino, como um valor excelente e insuperável, tornando secundários todos os demais bens. É a “pérola de valor inestimável”. Por causa do Reino, o discípulo se desfaz de seus projetos pessoais e se integra, de corpo e alma, na dinâmica de Deus.
Com esses dados preliminares, temos uma chave de interpretação da perícope mateana referente a José.
4. Uma leitura de Mt 1,18-25, enfocada na figura de José
A figura de José deve ser considerada, portanto, tendo como horizonte esse esboço de vida discipular. No projeto literário-teológico mateano, José é colocado no frontispício do evangelho como exemplo de discípulo fidedigno, capaz de inspirar os ouvintes-leitores, pois se reveste de todas as virtudes que, na continuação da narrativa, serão atribuídas a um verdadeiro discípulo do Reino. Por conseguinte, tudo quanto se diz no evangelho a respeito de um discípulo é possível exemplificar reportando-se a José. Ele é discípulo do Reino por antecipação!
Um pressuposto importante na leitura de Mt 1,18-25, ao situar José na origem de Jesus, é não tomá-lo como relato biográfico, como se Mateus tivesse a intenção de fazer uma crônica da concepção de Jesus. O texto evangélico consiste, sim, numa catequese narrativa, articulada em forma de drama, com seus impasses e dificuldades#. Como pano de fundo está a fé em Jesus Cristo à luz da experiência pascal. Interessa-nos, aqui, verificar por que José foi inserido na narração. A explicação mais simples e conhecida consiste em apresentá-lo no contexto da tradição da concepção virginal, como quem faz o elo entre Jesus e a linhagem davídica e, portanto, messiânica, garantindo-lhe uma identidade social. Sem negar esta finalidade, insistiremos na apresentação de José como modelo de discípulo, em consonância com o objetivo global do evangelho.
A narração leva o leitor a perguntar-se: por que Deus escolheu um caminho tão complicado para realizar seu plano de salvação? Isto dá vivacidade ao texto evangélico e suscita na mente do ouvinte-leitor uma série de interrogações, a serem respondidas no decorrer da narração. (1) José, como bom judeu, submeterá Maria ao apedrejamento, fazendo valer a Lei? (2) José se recusará a assumir a paternidade de Jesus, com o risco de ser rejeitado pela sociedade da época? (3) Maria aceitará uma proposta avessa a seus esquemas? (4) A idéia de concepção sem a participação de um homem era alheia ao horizonte messiânico daquele tempo, embora fosse possível encontrar no Antigo Testamento a idéia de um salvador nascido de uma virgem#. Daí poder se perguntar: alguém se deixaria convencer pela história da concepção sem a participação de um homem? Em todo caso, no tempo de Jesus, o povo não esperava em Israel um Messias nascido de uma virgem. Em suma, Deus escolheu um caminho dramático para realizar seu projeto. No auge do impasse, a intervenção do Anjo dirimirá as dúvidas e suspeitas e abrirá o caminho para a realização do projeto de Deus. Porém, sem torná-lo de todo inteligível!
Uma leitura de superfície ajuda-nos a detectar outros elementos importantes do texto mateano, considerado na perspectiva de José.
(a) Mt 1,18-25 corresponde a uma espécie de nota explicativa a Mt 1,16, versículo final da genealogia de Jesus (Mt 1,1-17). As gerações sucediam-se pela vertente masculina. Porém, o v. 16 introduz uma novidade, ao referir-se a Jesus: “Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus chamado Cristo”. Importava esclarecer esta ruptura feminina, no fluxo genealógico. O propósito do evangelista ao elaborar Mt 1,18-25, portanto, era de caráter claramente didático, perceptível já na introdução: “A origem de Jesus foi assim:…”. Mateus é sucinto e claro na sua explicação. Nada de detalhes, curiosidades e informações desnecessárias!
(b) O texto narra a origem de Jesus, literalmente, “a gênesis de Jesus” (v.18a)#. É uma forma de indicar a ação de Deus criador, de quem e apenas de quem provém toda “gênese”. Os personagens implicados na ação – o Anjo do Senhor, José e Maria – são todos referidos a este horizonte criacional divino. Portanto, são pensados como servidores de Deus, em função do intento divino de salvar a humanidade. A gênese de Jesus é, por conseguinte, penhor da criação de um ser humano novo, fruto do amor misericordioso de Deus. José será chamado a colaborar nesta obra de criação e salvação.
(c) A gravidez pelo Espírito Santo sem prévia coabitação introduz um elemento enigmático na narração, por não seguir a ordem natural das coisas (v. 18b)#. Atribui-se ao Espírito Santo, e não a José, a causa (origem) da concepção de Jesus#. Ele provém de uma raiz divina, pneumática, espiritual, e não só humana, terrena, histórica. É uma forma de afirmar, já no início do evangelho, a transcendência de Jesus, cuja vida, paixão e morte – sua humanidade – eram conhecidas pelos primeiros destinatários do evangelho.
As pessoas implicadas na narração são desafiadas a abrir mão de seus esquemas e acolher algo cujo sentido, à primeira vista, lhes escapa. Esta é uma exigência da colaboração na obra de Deus: abraçar ideais nem sempre evidentes e plenamente compreensíveis. José será instado a discernir a presença divina na gravidez inexplicável de sua mulher#.
(d) José é referido como “sendo justo” (v. 19a). Este adjetivo evidencia o tipo de relação estabelecida com o Deus de sua fé e, de certo modo, define sua figura. Por conseguinte, é um termo fundamental em se tratando de discipulado.
O vocábulo “justo”, aplicado a José, não coincide com a concepção judaica de justiça, entendida na sua vertente legal, vinculada ao tribunal. Se agisse segundo tal concepção, José deveria ter aplicado, sem delonga, os ditames da Lei.
Alguns estudiosos interpretam “justo” no sentido de bondoso, misericordioso, pois aceita carregar, em segredo, a infâmia da esposa. Esta leitura é problemática, por se fundar na ingenuidade de José, incapaz de medir as conseqüências de sua decisão. No caso, teria sido mais misericordioso se resolvesse ficar junto de Maria, calado, para encobrir-lhe o malfeito#.
Outros estudiosos atribuem a “justo” um sentido diferente, referindo-o à atitude respeitosa e reverencial de José diante de Maria por reconhecer, nela, a presença do mistério divino. Sua atitude assemelha-se à dos justos do Antigo Testamento, diante da manifestação de Deus. Moisés cobriu o rosto, pois temia olhar para Deus manifestando-se na sarça ardente (Ex 3,6). Isaías sente-se perdido por seus olhos terem visto o Rei, o Deus dos Exércitos (Is 6,5). Algo parecido acontece com Simão Pedro ao reconhecer Jesus: lança-se-lhe aos pés, suplicando-o afastar-se, por se reconhecer pecador (Lc 5,8). Em termos narrativos, esta explicação também não se sustenta, apesar de ser interessante. Vivendo numa sociedade rigidamente estruturada, a família de Maria e as autoridades religiosas de Nazaré jamais a aceitariam#.
Propomos outra linha de interpretação, situando o vocábulo “justo” no contexto mais amplo do evangelho de Mateus. Justo é quem se pauta pela vontade divina e encontra nela o rumo de sua vida. O querer e o agir do justo estão sempre voltados para Deus. Desta relação decorre sua existência, e nela encontra a sua explicação. No caso de José, a palavra justo diz respeito ao conjunto de suas atitudes, nos fatos relativos à origem e ao nascimento de Jesus. Tudo quanto faz é expressão de sua fidelidade (justiça) a Deus. Como será explicitado adiante, “justo” tem a ver com a sua condição de discípulo exemplar. Sua descoberta da vontade de Deus acontece em meio a dúvidas e incertezas. Porém, sem abrir mão da disposição de, em tudo, ser fiel a Deus#. Ou seja, escutar-lhe a Palavra e colocá-la em prática. Ser justo, no caso de José, significa ser discípulo exemplar, todo centrado em Deus#.
(e) Envolto em obscuridade, José toma a decisão de repudiar sua esposa em segredo para não difamá-la (v. 19b). A narração deixará claro o equívoco da escolha feita. Neste momento, indica-se apenas que, apesar de o discípulo estar disposto a fazer a vontade divina, esta não se apresenta de maneira patente e inequívoca. Antes, tem lampejos de incerteza e obscuridade, chegando a provocar decisões precipitadas e indevidas a serem, em seguida, corrigidas.
Uma coisa é certa para José: seria injusto submeter sua esposa aos rigores da Lei, pela qual deveria ser apedrejada na condição de adúltera#. Porém, a Lei não previa “o repúdio em segredo”#. Esta é uma forma de sublinhar sua perplexidade inicial.
(f) Em processo de discernimento – “enquanto assim decidia” (v. 20a) – a respeito da conduta conveniente a ser assumida, José toma a posição correta, abrindo-se para Deus. Agora, sim, estava em condição de sintonizar-se, de todo coração, com Deus e captar-lhe a vontade.
(g) A alusão ao “Anjo do Senhor” é um recurso literário para se referir à comunicação de Deus com o ser humano#. É o veículo de comunicação da revelação divina. Sua fala é a fala de Deus, oferecendo a José pistas para o discernimento e a decisão. É a Palavra de Deus assumindo forma sensível#. Este fato funda-se na convicção de que Deus manifesta-se, revelando seu desígnio de salvação. Cabe ao ser humano colocar-se em posição de escuta, na condição de ouvinte da Palavra de Deus. Este dado teológico e antropológico está na base de toda experiência de discipulado, como fundamento insubstituível!
(g) José é abordado pelo Anjo do Senhor#, enquanto está dormindo e sonhando (v. 20b)#. É a forma de se referir à postura adequada do ser humano em processo de escuta dos apelos de Deus. O sono evoca a morte. É quando o indivíduo cessa todas as atividades e fica como morto. Não podendo rebater e justificar-se, dispõe-se todo para acolher o apelo de Deus, aberto no mais íntimo para as realidades supraterrenas. A agitação, o ativismo e a perturbação de espírito são as posturas menos adequadas para quem, deveras, tem a intenção de estar disponível nas mãos de Deus#. Para sintonizar-se com o projeto divino, o ser humano é urgido a se colocar, com toda docilidade e liberdade, à escuta de Deus para, em seguida, aplicar-se em praticar a vontade revelada.
À receptividade (sono – sonho), segue a atividade humilde e eficaz. É o que faz José. Nenhuma outra ação se insere entre a ordem divina e a sua execução, pois passa da escuta da Palavra à sua imediata realização, como acontece com todo verdadeiro discípulo do Reino. Assim, ele se torna prefiguração dos “justos” do Novo Testamento – os “bem-aventurados” – que escutam a Palavra de Deus e, embora devendo seguir na contramão da “justiça dos escribas e fariseus” (Mt 5,17-20), põem-na em prática.
(i) O Anjo do Senhor chama José de “Filho de Davi”, como o evangelista havia denominado Jesus, no cabeçalho do evangelho – “Jesus Cristo, filho de Davi” (Mt 1,1). Esta patente inserção de José no âmbito do povo eleito tem a intenção de apresentá-lo como o primeiro israelita a se tornar discípulo do Messias Jesus, abrindo caminho para as futuras gerações que, como ele, haveriam de acolher a Palavra e praticá-la. Daí nasceria o verdadeiro Israel, formado por quem abraçou o Reino anunciado por Jesus, tema essencial do evangelho mateano.
(j) As palavras do Anjo (v. 20-21) oferecem a José uma chave de compreensão para a sua experiência. Antes de mais nada são palavras de ânimo e conforto: “Não tenhas medo!” Em clima de agitação e perturbação de espírito é impossível perceber a vontade de Deus.
O Anjo explica-lhe o sucedido, sem diminuir o grau de exigência da proposta divina, nem, muito menos, eliminar-lhe a obscuridade. Importa, sobremaneira, reconhecer a vontade divina na sua inteireza, mesmo desconhecendo suas motivações últimas, reservadas apenas para Deus. A José cabe ponderar e dar a sua anuência.
As palavras do Anjo retomam uma informação dada no v. 18, a respeito da presença do Espírito Santo na origem da concepção Jesus. De novo, retorna o tema do Gênesis. A forma passiva “foi gerado” aponta para ação de Deus como agente (passivo teológico#). Ele gerou Jesus pela força do Espírito Santo. Assim devia se entender o sucedido no ventre de Maria.
Esta explicação determinava a forma como José haveria de se relacionar com o filho que vai nascer. No plano social, deveria apresentar-se como seu pai e assumir todas as responsabilidades inerentes a esta condição; porém, a origem teológico-pneumática exigia dele assumir a postura de discípulo diante do filho. Por meio de Jesus, teria acesso ao mistério de Deus, experiência semelhante à feita por todos os discípulos do Reino.
(k) O sentido do novo Gênesis é revelado no v. 21 – “ele salvará o seu povo dos seus pecados”: José estava sendo confrontado com uma iniciativa divina em vista da salvação da humanidade. Doravante, desempenharia um papel importante na dinâmica de oferta de salvação à humanidade. Era imprescindível obter a livre anuência de José, pois Deus não atropela a liberdade humana.
Neste versículo aparece um tema importante a ser retomado no v. 25b, quando se falará do cumprimento da ordem divina. José recebe a missão de, no futuro, “dar nome” ao menino. Entretanto, o nome é-lhe sugerido. Dar nome tem, na mentalidade bíblica, uma conotação particular de assenhoramento, apropriação de algo. Este é o sentido de Gn 2,19-20. O ser humano dá nome a todos os seres criados, como sinal de domínio sobre eles.
No caso de José, não poderá tornar-se senhor de Jesus, cujo Senhor é, única e exclusivamente, o Pai. Este determina o nome a ser dado por José ao filho que haverá de nascer.
Com o gesto de dar-lhe o nome sugerido pelo Anjo, José assumia um papel social em relação a Jesus, e, assim, cumpria a missão reservada para ele como discípulo do Reino. Como se vê, José foi envolvido num largo movimento de paternidade, cuja compreensão cabal lhe escapava#.
(l) O evangelista recorre ao profeta Isaías para oferecer à comunidade, a partir das Escrituras, uma pista de interpretação da pessoa de Jesus (v. 22-23). Em geral, pensa-se que Mateus, referindo-se a Is 7,14, queira fundamentar a concepção virginal. Na verdade, ao projeto literário-teológico do evangelho interessava a referência ao Emanuel, Deus conosco#. Este não era um segundo nome de Jesus e, sim, um indicativo da sua condição na história humana. Estava destinado a ser a presença de Deus na vida da comunidade cristã e, por extensão, na de toda a humanidade. Para os desejosos de encontrar Deus só haveria um caminho: o filho gerado do Espírito Santo no ventre de Maria, cuja paternidade social e “davídica” José era solicitado a assumir.
(m) Sem titubear, José abraça a proposta divina. “José, despertando do sono, fez como lhe ordenou o anjo do Senhor e recebeu sua mulher” (v. 24). É a ação das pessoas movidas pelo querer divino, quando chegam a reconhecê-lo, como o agricultor na parábola do tesouro escondido no campo (Mt 13,44). Em momento algum, o texto denota coação sobre José. Ele age por livre decisão! Sem isto, o gesto de obediência perderia toda a transcendência.
(n) O v. 25 deve ser interpretado no contexto da narração. Interessa ao evangelista eliminar qualquer possibilidade de dúvida em torno da origem divina de Jesus. Por isso, declara que José “não teve relações sexuais com Maria até o dia em que ela deu à luz um filho”. Todas as discussões posteriores em torno da virgindade de Maria – antes, durante e depois do parto – estão fora de seu interesse. O discípulo José foi desafiado de modo radical a acolher uma proposta divina, para a qual estava impossibilitado de oferecer explicações, capazes de minorar-lhe o impacto desafiador.
(o) “E ele o chamou com o nome de Jesus” (= Deus – Javé – salva!#) é o ápice do cumprimento da ordem divina. Uma vez captada e compreendida a vontade de Deus, José age como um discípulo autêntico, praticando-a sem hesitar! No caso, a “compreensão” vai além da mera racionalidade. Nela esta implicada a fé, em contexto de discipulado. A compreensão, portanto, é de outra ordem, sem perder sua consistência e credibilidade. Por isso, José age com prontidão.
5. As grandes linhas do discipulado de José
Como foi dito, o evangelho de Mateus é uma espécie de catecismo do discipulado cristão. Tem por objetivo oferecer pistas para a correta vivência do seguimento de Jesus no âmbito da comunidade mateana e, por extensão, de qualquer comunidade cristã. Mateus apresenta José como encarnação do verdadeiro discípulo na relação com Deus. Por isso, serve de exemplo para os futuros discípulos de Jesus. O foco de interesse não se centrou na defesa da concepção virginal, que fazia parte da tradição recebida e aceita por sua comunidade, mas na explicitação do projeto salvífico de Deus para a humanidade, no qual José foi chamado a participar de maneira especial. Daí ser descrito como discípulo aquele que “obedece” à ordem divina. Mateus introduz, assim, um tema central do seu evangelho.
Partindo das considerações em torno de Mt 1,18-25, é possível esboçar as grandes linhas do discipulado cristão, encarnadas na figura de José.
(a) O discípulo justo
Como foi explicado, Mt 1,19 esteve no centro das disputas entre os exegetas. As controvérsias giraram em torno do exato sentido do adjetivo justo. Um caminho para a sua interpretação consiste em considerar todas as menções a José, em Mt 1-2, sob o prisma da justiça.
Além do texto aqui considerado, José é referido em Mt 2,13-23. São duas cenas da infância de Jesus, onde ele está a serviço do menino Jesus. A primeira refere-se à fuga para o Egito (2,13-18). A segunda narra a volta do Egito para Nazaré, em meio a perigosas peripécias (Mt 2,19-23). Também aqui fica patente sua condição de justo: sua vida está toda centrada em Deus e no serviço divino; Deus pode contar com ele, mesmo em situações arriscadas; o medo e a insegurança não têm lugar em sua vida, uma vez conhecidas as aspirações divinas. Por ser justo, está onde Deus o envia e faz o que Deus lhe ordena, embora pondo em risco sua reputação e sua vida.
(b) O discípulo que crê e discerne
A narrativa evangélica fala de José em processo de discernimento da realidade. A obscuridade parece reinar ao redor. As coisas são demasiado complicadas. Nestas circunstâncias, acaba por se desorientar. Porém, José acredita e se pergunta o que fazer, considerando sua condição de justo. O discernimento tornou-se, por conseguinte, um imperativo. Caso contrário correria o risco de equivocar-se na tomada de decisão.
Porém, o discernimento supõe um clima adequado. Envolvido por confusão mental e inquietação de espírito, José estaria impossibilitado de sintonizar-se com a vontade de Deus. Por isso, a comunicação acontece durante o sono, quando a paz reinava em seu coração. Este era o ambiente propício para perceber, com clareza, para onde Deus apontava.
(c) O discípulo dócil
José tinha o plano de “repudiar Maria em segredo”, intenção bastante irreal no contexto jurídico da época. Porém, esta intenção não se constituía numa espécie de absoluto. Interessava-lhe, apenas, realizar o propósito de Deus, seja qual fosse. Para tanto se exigia uma enorme liberdade de espírito. José faz a sua escolha sem considerá-la fechada e inquestionável. Permanece sempre disposto a se deixar guiar, mesmo devendo abrir mão de decisões já tomadas. De fato, a comunicação do Anjo do Senhor exigir-lhe-á dar uma guinada na sua opção, até o extremo de deixá-la de lado e seguir numa direção imprevista. Esta era – e é – uma exigência do cumprimento da vontade de Deus!#
(d) O discípulo obediente
Uma vez conhecida a vontade de Deus, José submete-se sem discutir. É interessante o fato de em todo o evangelho da infância, apesar das várias referências a José, Mateus não lhe atribuir uma só palavra. Basta-lhe “ouvir” a Palavra de Deus para, com prontidão, praticá-la. A escuta transforma-se em ação. A vontade divina é como um tesouro encontrado no campo pelo lavrador, o qual se torna absoluto em sua vida, relativizando tudo mais.
Esta chave de interpretação evita leituras precipitadas, onde José é considerado uma espécie de marionete na mão de Deus. O recurso literário utilizado por Mateus não priva José de sua liberdade. Pensar numa direção diferente redundaria em reduzir Deus a uma espécie de tirano despótico, sem nenhum respeito pela criatura humana. Esta não é a teologia de Mateus! O recurso às mediações humanas, das quais Deus se serve para concretizar a salvação, só tem sentido se a liberdade do ser humano for garantida e respeitada. Isto se dá com José. Sua abertura para Deus resulta de um total domínio da liberdade, a ponto de acolher algo impossível de ser compreendido e aceito nos limites de uma vontade alienada.
(e) O discípulo generoso e disponível
Bastou a José reconhecer a vontade de Deus para acolhê-la com toda generosidade e disponibilidade. Por isso, “recebeu em casa sua mulher” (v. 24). Supõe-se ter acolhido Maria sem recriminá-la, sem cultivar secretas desconfianças, sem ficar “de orelha em pé” para ver onde haveria de acabar tudo aquilo, sem exigir provas suplementares. Nada disso lhe passa no coração, por ser clara a vontade de Deus, embora nem todos os detalhes fossem evidentes.
(f) O discípulo destemido
A gravidez “desde o Espírito Santo” era algo inusitado e estranho. A tradição de Israel conhecia muitas histórias de mulheres estéreis que deram a luz por intervenção divina, mas não sem a colaboração de seus maridos. Maria não era estéril. Logo, não era necessária a intervenção divina em vista da gravidez. Por outro lado, as esperanças messiânicas do tempo não comportavam concepções por obra do Espírito Santo. Tudo isto exigiu de José muita coragem para acolher Maria, uma vez reconhecida nela a ação divina.
6. O discipulado inspirado em José
Mateus descreveu José em tom maior, um personagem capaz de servir de modelo para os membros de sua comunidade e para os cristãos de todos os tempos. Só quem tiver as virtudes de José, será apto para se tornar discípulo de Jesus. Quem se dispuser a ser como José, estará em condições de ler o Evangelho, pois tudo quanto aí se diz pressupõe atitudes semelhantes à dele. Quem estiver disposto a colaborar com a obra de Deus, nos moldes de José, torna-se digno do nome cristão.
Como José, o discípulo:
(a) abre-se para o querer divino, sem impor condições
Quem se dispõe a se fazer discípulo do Reino, deve colocar-se nas mãos de Deus, sem impor limites ou restrições. A vontade divina torna-se um imperativo, diante do qual nenhum apelo se sobrepõe. É preciso estar disposto “para o que der e vier”. Este pré-requisito possibilita ao discípulo lançar-se de cheio na dinâmica divina e o abre para as novidades e as surpresas, características da ação de Deus.
(b) cria as condições necessárias para um bom discernimento
Além de almejar discernir, urge criar um clima favorável para um correto discernimento. Em José isto é representado pela experiência do sono, onde acontece o sonho revelador. Na experiência dos discípulos atuais, corresponde a fazer calar as muitas vozes desencontradas borbulhando em suas mentes e corações. Mas também todo um ambiente de ansiedade, agitação, nervosismo e insegurança. Na paz e na tranqüilidade de espírito, o discípulo do Reino tem mais possibilidade de encontrar a vontade de Deus.
(c) dispõe-se a receber missões duras e exigentes
A entrega da liberdade nas mãos de Deus, por sua vez, supõe coragem para enfrentar as missões queridas por ele. Tais missões, não poucas vezes, levam o discípulo até os extremos de sua força e suportabilidade. Em situações limites, vê-se desafiado a entregar a vida, como prova de adesão ao Reino. É o testemunho dos mártires, tão freqüente na história da fé cristã.
(d) aceita caminhar na obscuridade, porém, seguro da presença de Deus
A adesão ao Reino e ao respectivo projeto de vida, embora sendo grande a boa vontade e a sinceridade do discípulo, não lhe proporcionará a clarividência e a luminosidade desejadas a respeito dos caminhos a serem trilhados. O discípulo verdadeiro caracteriza-se por sua capacidade de seguir adiante, mesmo às apalpadelas e aos tropeços. Só lhe interessa uma coisa: saber-se fazendo a vontade de Deus. Basta-lhe esta certeza indiscutível para se manter seguro e inabalável na caminhada.
(e) jamais se sente lesado em sua liberdade por causa de Deus
O serviço divino é caminho de realização pessoal para o discípulo. Colocar-se nas mãos de Deus nada tem de renúncia à liberdade. Pelo contrário, consiste em potenciá-la ao máximo, por lhe ser permitido atuar para além de qualquer contaminação do egoísmo e da maldade. Esse é um caminho de superação das paixões desordenadas e da tirania das opções mesquinhas e egoístas. Portanto, o discípulo jamais se sentirá um joguete nas mãos de Deus, nem tampouco uma espécie de fantoche sem vontade própria. Sentir-se e comportar-se assim é indigno de um discípulo. Ao contrário, supõe-se que assuma com toda determinação e garra a proposta divina, empenhando nela toda a sua liberdade.
(f) recusa-se a se arvorar em juiz de Deus, nem tem a pretensão de ensinar-lhe a melhor forma de agir
Aceitando a vontade divina assim como se apresenta, sem lhe fazer reparos, o discípulo do Reino mantém-se na sua condição de discípulo. Nada de querer dar lições a Deus e determinar-lhe como deve agir. A grande tentação, nestas circunstâncias, consiste em atribuir a Deus alguma forma de engano. No caso do evangelho, consistiria em julgar um equívoco divino a concepção “pelo Espírito Santo” e sugerir a Deus um caminho mais compreensível e aceitável para fazer a salvação chegar à humanidade. São os julgamentos precipitados a respeito da obra de Deus, sempre inusitada e imponderável. Só pode ser discípulo, quem se dispuser a fazer a vontade de Deus assim como se apresenta, por saber que, mesmo incompreensível, é a forma mais conveniente de o projeto de Deus se realizar.
(g) ouve a palavra de Deus e, sem pestanejar, coloca-a em prática
O contínuo discernimento mantém o discípulo sempre sintonizado com a vontade de Deus e o motiva a estar disponível para realizá-la. Este movimento de percepção da vontade divina e de submissão a ela marca a cadência da vida do discípulo do Reino, dando-lhe um rumo preciso. Por isso, não corre o risco de caminhar ao léu, sem rumo, vagando por caminhos incompatíveis com a sua opção. Isto lhe dá segurança e lhe permite voltar ao bom caminho, na eventualidade de se perceber infiel.
Conclusão
Para uma comunidade perseguida e passando por sérias dificuldades – como era o caso da comunidade mateana e pode ser o de muitas comunidades cristãs atuais –, o testemunho de José norteia a opção pelo Reino anunciado por Jesus. Só tem condições de perseverar no discipulado cristão, quem, como José, for além de suas dúvidas e inquietações interiores e se lançar, impávido, na execução da vontade de Deus. Em outras palavras, quem se dispuser a entrar pela porta estreita (Mt 7,13-14). O desejo de Deus consiste em que o discípulo crie um vínculo de união tão forte com Jesus a ponto de se dispor a arriscar tudo por sua causa. Em última análise, nisto consistiu a experiência do justo José. O compromisso com Jesus, a pedido de Deus, levou-o a redimensionar o rumo de sua vida. Doravante, sua existência consistiria em pôr-se a serviço exclusivo do Filho de Deus. Este era a aspiração de Mateus em relação aos cristãos de sua comunidade, posta sob o fogo cruzado da liderança judaica. Agindo assim, estariam construindo suas casas sobre a rocha, prontas a desafiar toda e qualquer tempestade, mesmo a mais terrível, sem se deixar abalar (Mt 7,24-25).
De certo modo, todos os discípulos e discípulas de Jesus são desafiados a ser como José. Sem isto, fica impossibilitado o discipulado nos moldes queridos pelo Mestre Jesus. Portanto, qualquer leitura do texto mateano referente a José, feita numa perspectiva de comiseração e diminuição dele, será inconveniente. Mateus inseriu, no início do evangelho, uma figura de alto valor paradigmático, capaz de inspirar os leitores-ouvintes de sua comunidade e os de todos os tempos, como nós!
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