Série Apóstolos: Sobre o mistério da relação entre Cristo e a Igreja, Bento XVI

Filed under: Aprofundamento — Leandro at 6:04 pm on Tuesday, September 2, 2008

Nada melhor aprender do próprio papa Bento XVI sobre o que a Palavra de Deus nos ensina sobre os doze apóstolos, aqueles que em nome de Cristo edificaram sua Igreja.

Sobre o mistério da relação entre Cristo e a Igreja
15 de março de 2006

Queridos irmãos e irmãs

Depois das catequeses sobre os salmos e os cânticos das Laudes e Vésperas, quero dedicar os próximos encontros de quarta-feira ao mistério da relação entre Cristo e a Igreja, considerando-o a partir da experiência dos apóstolos, à luz da tarefa que lhes foi confiada. A Igreja foi constituída sobre o alicerce dos apóstolos como comunidade de fé, de esperança e de caridade. Através dos apóstolos, remontamos ao próprio Jesus. A Igreja começou a constituir-se quando alguns pescadores da Galiléia encontrando Jesus, se deixaram conquistar pelo seu olhar e pela sua voz, pelo seu convite cálido e forte: «Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens» (Marcos 1, 17; Mateus 4, 19).

O meu querido predecessor, João Paulo II, propôs à Igreja, no início do terceiro milênio, a contemplação do rosto de Cristo (Cf. «Novo millennio ineunte», 16 seguintes). Seguindo nessa direção, nas catequeses que hoje começo, quero mostrar precisamente que a luz desse Rosto se reflete no rosto da Igreja (Cf. «Lumen gentium», 1), apesar dos limites e das sombras da nossa humanidade frágil e pecadora. Depois de Maria, reflexo puro da luz de Cristo, os apóstolos, com a sua palavra e testemunho, entregam-nos a verdade de Cristo. A sua missão não é isolada, insere-se no mistério de comunhão que envolve todo o Povo de Deus e se realiza por etapas, da antiga à nova Aliança.

Neste sentido, há que notar que se transforma totalmente a mensagem de Jesus se ela é separada do contexto da fé e da esperança do povo eleito: como o Baptista, o seu imediato precursor, Jesus dirige-se antes de tudo a Israel (Cf. Mateus 15, 24), para «reuni-lo» no tempo escatológico que com Ele chegou. E, tal como a pregação de João, também a pregação de Jesus é ao mesmo tempo um chamamento à graça e um sinal de contradição e de julgamento para todo o povo de Deus. Portanto, desde o primeiro momento da sua actividade salvadora, Jesus de Nazaré tende a reunir, a purificar o Povo de Deus. Ainda que a sua pregação seja sempre um chamamento à conversão pessoal, na realidade tende continuamente a constituir o Povo de Deus que Ele veio reunir e a salvar.

Por este motivo, é unilateral e carece de fundamento a interpretação individualista proposta pela teologia liberal do anúncio do Reino feito por Cristo. Esta interpretação foi resumida, no ano de 1900, pelo grande teólogo liberal Adolf von Harnack nas suas conferências sobre «O que é o cristianismo?»: «O reino de Deus chega na medida em que chega a homens concretos, encontra eco nas suas almas e estes O acolhem. O reino de Deus é o senhorio de Deus, ou seja, o senhorio do Deus santo nos diferentes corações» (Terceira Conferência, 100s).
Este individualismo da teologia liberal é acentuado particularmente na modernidade. Na perspectiva da tradição bíblica e no horizonte do judaísmo, no qual a obra de Jesus se situa apesar de toda a sua novidade, fica claro que toda a missão do Filho feito carne tem uma finalidade comunicativa: veio precisamente para unir a humanidade dispersa, veio precisamente para reunir o Povo de Deus.

Um sinal evidente da intenção do Nazareno de reunir a comunidade da Aliança para manifestar nela o cumprimento das promessas feitas aos Padres, que sempre falam de convocação, de unificação, de unidade, é a “escolha” dos Doze. Escutemos o Evangelho da “eleição” dos Doze. Volto a ler agora a passagem central: «Subiu ao monte e chamou os que ele quis; e foram até ele. Escolheu doze, para que estivessem com ele, e para enviá-los a pregar com poder de expulsar os demónios. Escolheu os Doze…» (Marcos 3, 13-16; Cf. Mateus 10, 1-4; Lucas 6, 12-16). No lugar da revelação, o «monte», Jesus, com uma iniciativa que manifesta absoluta consciência e determinação, designa os Doze para que sejam com Ele testemunhas e arautos da chegada do Reino de Deus. Sobre o caráter histórico desta chamada não existem dúvidas, não só pela antiguidade e multiplicidade de testemunhos, mas também pelo simples fato de que aparece o nome de Judas, o apóstolo traidor, apesar das dificuldades que esta presença podia implicar para a comunidade nascente. O número Doze, que evidentemente faz referência às doze tribos de Israel, revela o significado da ação profético-simbólica implícita na nova iniciativa de voltar a fundar o povo santo. Após o ocaso do sistema das doze tribos, Israel tinha esperança na sua reconstituição como sinal da chegada do tempo escatológico (pode ler-se a conclusão do livro de Ezequiel: 37, 15-19; 39, 23-29; 40-48). Elegendo os Doze, introduzindo-os numa comunhão de vida com Ele e fazendo-os partícipes da sua própria missão de anúncio do Reino, com palavras e obras (Cf. Marcos 6, 7-13; Mateus 10, 5-8; Lucas 9, 1-6; Lucas 6, 13), Jesus quer dizer que chegou o tempo definitivo no qual reconstituiu o povo de Deus, o povo das doze tribos, que se converte agora num povo universal, a sua Igreja.

Com a sua própria existência, os Doze - vindos de origens diferentes - convertem-se no chamamento de todo o Israel à conversão, a deixar-se reunir na nova Aliança, cumprimento pleno e perfeito da antiga. Ao ter-lhes confiado a tarefa de celebrar o seu memorial na Ceia, antes da Paixão, Jesus mostrou que queria transferir para toda a comunidade na pessoa dos seus líderes o mandato de ser, na história, sinal e instrumento da reunião escatológica começada por Ele. Em certo sentido, podemos dizer que precisamente a Última Ceia é o ato de fundação da Igreja, pois Ele entrega-se a si mesmo e cria deste modo uma nova comunidade, uma comunidade unida na comunhão com Ele mesmo. Nesta perspectiva, compreende-se que o Ressuscitado lhes tenha conferido - com a efusão do Espírito - o poder de perdoar os pecados (Cf. João 20, 23). Os doze apóstolos são, deste modo, o sinal mais evidente da vontade de Jesus sobre a existência e a missão Igreja, a garantia de que entre Cristo e a Igreja não há contradição: são inseparáveis, apesar dos pecados dos homens que formam a Igreja. E, portanto, não pode conciliar-se com as intenções de Cristo um slogan que há alguns anos estava na moda: «Jesus sim, Igreja não». O Jesus individualista é um Jesus fantasia. Não podemos encontrar Jesus sem a realidade que Ele criou e na qual se comunica.

Entre o Filho de Deus feito carne e sua Igreja existe uma continuidade profunda, inseparável e misteriosa, em virtude da qual Cristo se faz presente, hoje, no seu povo. Cristo é, sempre, nosso contemporâneo; contemporâneo na Igreja constituída sobre o fundamento dos apóstolos, Ele está vivo na sucessão dos apóstolos. E esta Sua presença na comunidade, na qual Ele sempre se nos dá, é o motivo de nossa alegria. Sim, Cristo está conosco, o Reino de Deus vem até nós.

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