“FAZ OS SURDOS OUVIREM E OS MUDOS FALAREM”

Filed under: Artigo — Osvaldo Luiz at 3:56 pm on quinta-feira, maio 17, 2007

            Domingo começa mais uma Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Este ano o tema escolhido e preparado por irmãos africanos se baseia no relato do evangelista Marcos: “Faz os surdos ouvirem e os mudos falarem”. É uma exclamação, uma admiração sobre a bela atuação de Jesus que fazia tudo muito bem.

        “Naquele tempo”, mais do que hoje, essas limitações físicas implicavam em isolamento social. Eram excluídos não só pela falta de comunicação como também pela crença de que quem assim nascia – ou se tornava – era um castigado por Deus, merecedor de seus sofrimentos.

        Jesus ao restituir os sentidos para tantos, inclusive cegos, não só tratava do físico, mas ia além, devolvendo os direitos, a dignidade, o respeito a estes sofredores. Podiam depois voltar ao convívio familiar, ao trabalho, à religião, sem o peso das limitações e da culpa.

        A partir da África assolada pela Aids, pela pobreza, a Semana deste ano nos convida a repetir a misericórdia perfeita do mestre de Nazaré. De não se furtar de responder amorosamente e concretamente frente a tantos que sofrem. Como outros “Cristos”, cristãos, alcançar os que sofrem com limites físicos, psicológicos e sociais. Estender uma mão misericordiosa para que tantos possam se beneficiar de uma comunicação integral, podendo receber (escutar) e gozar (falar) a dignidade de filho de Deus.

        Unidos podemos apresentar melhor esse Jesus extraordinário, que faz tudo “esplendidamente bem”. Separados, dificultamos a credibilidade de nossos atos. A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, portanto, nada mais é do que participar da prece de Jesus ao Pai: “Que todos sejam um para que o mundo creia”. Creia em Deus! Creia na misericórdia! Creia no ser humano e não lhe prive seus direitos! Que não exclua o que Deus integrou…

O “HÁLITO” DIVINO

Filed under: Artigo — Osvaldo Luiz at 4:56 pm on quarta-feira, maio 16, 2007

        Já estamos perto da festa de Pentecostes que fecha com “chave de ouro” o período litúrgico da Páscoa. A celebração da descida do Espírito Santo sobre os apóstolos e a Virgem Maria está intimamente ligada à morte e ressurreição de Jesus. Foi Ele mesmo quem considerou que sem deixar este mundo não poderia ser enviado o “Defensor”.

        Pentecostes é considerado o nascimento da Igreja. É, portanto, o Espírito Santo quem determina sua essencial marca. Sem a sua presença seríamos uma agremiação, uma associação, um clube ou coisa parecida. Mas não! As paredes de nossos templos ganham vida graças ao sopro, ao hálito divino, que nos envolve com Sua essência.

        Não há maneira melhor de celebrar esta festa do que a atualizando em nossas comunidades. Por isso são muito úteis os grupos de oração, as vigílias, a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos e a Novena de Pentecostes. A primeira e mãe de todas as novenas se espelha nos apóstolos que aguardaram no cenáculo o envio do prometido. Normalmente se baseiam nos dons do Espírito Santo de SABEDORIA, ENTENDIMENTO ou INTELIGÊNCIA, CONSELHO, FORTALEZA, CIÊNCIA, PIEDADE e TEMOR DE DEUS, conforme o início do capítulo 11 de Isaias.

         Vivemos dias especiais com a realização da Conferência de Aparecida. A Igreja da América Latina e do Caribe que se debruça sobre a realidade atual e sobre a Palavra de Deus em busca de soluções para desafios como a cultura de morte, a violência, a corrupção. Problemas de uma sociedade que não sabe mais o que é errado ou certo, que se perdeu num relativismo que abandona Deus para ficar com o ídolo da riqueza, do poder ou do prazer. Mais do que nunca precisamos implorar que Deus envie seu Espírito. Que os homens se deixem envolver por sua força que não anula nossas consciências. Antes as fecunda, despertando nelas o melhor. Ativando-as para viver o ágape: a caridade, a doação.

OS DESAFIOS DA CONFERÊNCIA DE APARECIDA

Filed under: Artigo — Osvaldo Luiz at 5:00 pm on terça-feira, maio 15, 2007

        A Conferência de Aparecida vive nesta terça seu segundo dia de trabalhos ainda fortemente influenciada pelo discurso de abertura do Papa Bento 16. Foram abordados vários assuntos que deverão representar um norte para as discussões dos representantes das comunidades americanas: nova evangelização, globalização, governos autoritários, críticas às ideologias, queda do número de católicos, reafirmação da opção preferencial pelos pobres, maior conhecimento da palavra de Deus, catequese utilizando os Meios de Comunicação, novos movimentos eclesiais, fortalecimento das ações dos leigos, centralidade da Eucaristia, importância do domingo. Tem ainda campos prioritários para o Bispo de Roma como a defesa à vida e à família, a abertura aos jovens e a valorização dos religiosos e consagrados.

        Pela amplitude dos temas abordados, ressentiu-se a ausência de alguns. Não se falou, por exemplo, das CEBs. Mas bispos alegam que as Comunidades Eclesiais de Base estão incluídas na realidade dos novos movimentos eclesiais. Notei a ausência também do tema ecumênico.

        No início de sua fala aos conferencistas do V CELAM o Papa afirmou: “o anúncio de Jesus e do seu Evangelho não supôs, em nenhum momento, uma alienação das culturas pré-colombianas, nem foi uma imposição de uma cultura estranha…” Analistas viram aí uma diferença em relação às posturas de João Paulo II que, por várias vezes, pediu perdão por erros praticados pela igreja no passado.

         Cabe agora à Conferência de Aparecida, até o final de maio, ampliar a discussão, aprofundando temas e, quem sabe, eliminando dúvidas quanto à posição da Igreja. Dúvidas que não existem quanto aos objetivos: “os Pastores querem dar agora um novo impulso à evangelização, a fim de que estes povos continuem crescendo e amadurecendo em sua fé, para ser luz do mundo e testemunhas de Jesus Cristo com a própria vida”, declarou o Santo Padre.

CONTINENTE DO AMOR

Filed under: Artigo — Osvaldo Luiz at 4:50 pm on segunda-feira, maio 14, 2007

        Com o término da visita do Papa Bento 16, assume o lugar de destaque a Conferência de Aparecida. Os espetáculos de fé e o forte sentimento de Igreja dão lugar (introduziram) a um esforço em encontrar respostas para uma vivência religiosa mais autêntica neste chão.

         No discurso de abertura do encontro latino-americano, Bento 16 deixou claro suas expectativas: “dar agora um novo impulso à evangelização”. O Santo Padre põe muita confiança em Aparecida, vendo-a como um “divisor de águas”, uma nova etapa da Igreja missionária.

        Essa nova fase não se fará a partir de mudanças de conceitos. O Papa Ratzinger reafirmou praticamente todos. Pretende-se sim alcançá-los a partir de uma nova postura. De fiéis que aprofundem sua fé e, desta experiência, partam para um testemunho concreto e eficaz.

         Como teólogo renomado, deu destaque neste momento crucial de nosso Continente à Bíblia: “é condição indispensável o conhecimento profundo da Palavra de Deus”! Certamente não se chegará a uma Igreja mais viva, mais forte, com fiéis não praticantes, que só se fortalecem espiritualmente com mamadeira, sem contato com alimentos sólidos. Eternas crianças na fé! Formando um contingente de esperança que infelizmente caminha pouco para a uma esperada e concreta Civilização do amor.       

        Não foi negada a opção preferencial pelos pobres de Puebla. Para o bispo de Roma, essa opção está “implícita na fé cristológica; naquele Deus que se fez pobre por nós para nos enriquecer com a sua pobreza”. E “convida a todos a suprimir as graves desigualdades sociais e as enormes diferenças no acesso aos bens”. Sem abreviar, para isso, riquezas espirituais, mas justamente através delas irradiar uma justiça livre de erros.

        A expectativa é, como se vê, enorme, assim como os desafios. Desafios que interessam a todos. Pois católicos mais praticantes farão uma diferença sensível nas nossas relações sociais. No Brasil são ainda 73% da população. Comprometidos de verdade com o evangelho não teríamos  tantos problemas e esse país já seria mais que uma eterna promessa.

  

“RETALHOS” DO DISCURSO DO PAPA AOS JOVENS

Filed under: Informação — Osvaldo Luiz at 3:56 pm on sexta-feira, maio 11, 2007

        Foi um discurso rico. Com muitos pontos importantes, o que torna difícil excluir partes. Se o faço agora, é no sentido de chamar a atenção ao todo, como incentivo a uma leitura integral e atenta das palavras de Bento 16 à juventude Latino-Americana.

        O Santo padre começa nos cativando, querendo dar um “abraço bem brasileiro” e relembrando um discurso do querido João Paulo II no Mato Grosso: os “jovens são os primeiros protagonistas do terceiro milênio [...] são vocês que vão traçar os rumos desta nova etapa da humanidade”.

        A partir de toda energia e entusiasmo juvenil propõe logo o máximo: “nunca podemos dizer basta, pois a caridade de Deus é infinita e o Senhor nos pede, ou melhor, nos exige dilatar nossos corações para que neles caiba sempre mais amor, mais bondade, mais compreensão pelos nossos semelhantes e pelos problemas que envolvem não só a convivência humana, mas também a efetiva preservação e conservação da natureza, da qual todos fazem parte”. E justifica tanta expectativa: “a vida em vós é exuberante e bela”.

        Como bom professor, Joseph Ratzinger ensina: “diante dos olhos, meus queridos jovens, tendes uma vida que desejamos seja longa; mas é uma só, é única: não a deixeis passar em vão, não a desperdiceis. Vivei com entusiasmo, com alegria, mas, sobretudo, com senso de responsabilidade”.

        Depois, ressalta suas preocupações: “muitas vezes sentimos trepidar nossos corações de pastores… Ouvimos falar dos medos da juventude de hoje. Revelam-nos um enorme déficit de esperança: medo de morrer, num momento em que a vida está desabrochando e procura encontrar o próprio caminho da realização; medo de sobrar, por não descobrir o sentido da vida; e medo de ficar desconectado diante da estonteante rapidez dos acontecimentos e das comunicações. Registramos o alto índice de mortes entre os jovens, a ameaça da violência, a deplorável proliferação das drogas que sacode até a raiz mais profunda a juventude de hoje”.

        Mas, diante das dificuldades, não perde a esperança neles. Pelo contrário, propõe-lhes que assumam a tarefa de ser os apóstolos dos jovens: “convidai-os para que venham convosco, façam a mesma experiência de fé, de esperança e de amor; encontrem-se com Jesus, para se sentirem realmente amados, acolhidos, com plena possibilidade de realizar-se…”

        Reforça os apelos da Igreja pela vida e pela família: “sede homens e mulheres livres e responsáveis; fazei da família um foco irradiador de paz e de alegria; sede promotores da vida, do início ao seu natural declínio”… “O Papa espera que saibam ser protagonistas de uma sociedade mais justa e mais fraterna, cumprindo as obrigações… Não se deixando levar pelo ódio e pela violência; sendo exemplo de conduta cristã no ambiente profissional e social, distinguindo-se pela honestidade… Tenham em conta que a ambição desmedida de riqueza e de poder leva à corrupção pessoal e alheia…”

        E, antes de terminar, falou também de sexualidade: “tende, sobretudo, um grande respeito pela instituição do Sacramento do Matrimônio… Procurai resistir com fortaleza às insídias do mal existente em muitos ambientes, que vos leva a uma vida dissoluta, paradoxalmente vazia, ao fazer perder o bem precioso da vossa liberdade e da vossa verdadeira felicidade…” 

        Depois o Papa Bento 16 concluiu: “não desperdiceis vossa juventude. Não tenteis fugir dela. Vivei-a intensamente. Consagrai-a aos elevados ideais da fé e da solidariedade humana… A Igreja precisa de vós, como jovens, para manifestar ao mundo o rosto de Jesus Cristo, que se desenha na comunidade cristã. Sem o rosto jovem a Igreja se apresentaria desfigurada… Queridos jovens, Cristo vos chama a serem santos. Ele mesmo vos convoca e quer andar convosco, para animar com Seu espírito os passos do Brasil neste início do terceiro milênio da era cristã”.

SANTO “MADE IN BRAZIL”

Filed under: Artigo — Osvaldo Luiz at 2:24 pm on sexta-feira, maio 11, 2007

        O que era viável e até provável agora se concretiza. Na viagem do Papa Bento 16 ao Brasil é canonizado Frei Galvão. O primeiro santo genuinamente brasileiro, nascido aqui em Guaratinguetá, interior de São Paulo. A lógica era essa mesma: tendo coincidido o fim de seu processo com a viagem para cá do Bispo de Roma, realizar aqui e não no Vaticano a cerimônia que colocará o Frei como modelo de virtudes cristãs.

        “Há males que vem para o bem” – diz o ditado. A documentação pedindo que o frade franciscano fosse santo ficou esquecida numa gaveta na arquidiocese de São Paulo por décadas. Dizem que a correspondência até selada estava, mas por algum motivo oculto não foi enviada. Quando dom Paulo Evaristo Arns, também franciscano, foi transferido para São Paulo encontrou a “relíquia”. Estava desatualizada; havia mudado a forma de se fazer esses processos. Teve-se que partir do zero. O que quero dizer: era para que Frei Galvão já tivesse sido canonizado há muito tempo, pois sua vida foi de fato um belo testemunho cristão. Mas, pelo menos, teremos agora a felicidade de aqui, em nosso solo, poder celebrar um brasileiro, como nós, elevado às honras dos altares…

        Frei Galvão viveu num já longínquo século 18. Ainda em vida teve fama sua santidade. Atendia com primor a todos. Aliás, foi assim que surgiram suas famosas pílulas: incapacitado de estar em todos os lugares solicitados, escrevia uma oração num pedacinho de papel e enviava para o necessitado. Que fé magnífica! Semelhante à sombra dos apóstolos que curava os enfermos ou a veste de Jesus que, ao ser tocada, estancou o sangramento de uma mulher…

        Frei Galvão não é assunto que se esgote em poucas linhas: tem tanto que se falar… Suas pregações, sua firmeza junto aos poderosos, sua devoção mariana, seus dons extraordinários como o de estar em dois lugares ao mesmo tempo! Mas agora com a canonização os brasileiros poderão conhecê-lo melhor e ter mais um estímulo a seguir Cristo. Viver à Sua maneira é possível ainda hoje e também aqui no Brasil. Que Frei Galvão rogue por nosso querido país!

(Artigo escrito em fevereiro sobre a canonização de Frei Galvão.) 

MOBILIDADE RELIGIOSA

Filed under: Artigo — Osvaldo Luiz at 5:07 pm on quinta-feira, maio 10, 2007

        No início da década de 80 as chamadas seitas ainda estavam engatinhando. O Brasil possuía quase 90% de católicos. Era eu um seminarista e ensinavam-me que seitas se diferenciavam das igrejas por suas mobilidades. Em outras palavras: as tradicionais acolhiam, recebiam os fiéis enquanto as novas iam atrás das pessoas. Ouvia isso já com reservas, pois me parecia arrogância, excesso de confiança ou até comodismo.

        Hoje os católicos são aqui aproximadamente 74% e, ecumenicamente, se propõe referir às igrejas que surgiram recentemente como novos movimentos eclesiais ou novas formas eclesiais. Evidentemente o assunto é visto com maior preocupação, seriedade. Estados como Rio de Janeiro e Rondônia apresentam apenas 57% de católicos. O Espírito Santo 60%.

        O Brasil tem ainda o maior número de católicos do mundo, mas se transformar em porcentagem da população ficará nas últimas posições na América Latina. Com tudo isso, o discurso agora é bastante diferente. Reforça-se o aspecto missionário da Igreja. A necessidade do batizado ser discípulo de Cristo, de ir ao encontro dos necessitados.

        Ao falar do assunto no avião que o trazia ao Brasil, Bento 16 falou da sede de Deus na região. Ao invés de falar mal destas novas formas eclesiais – de fato parte delas apresenta um evangelho bem descaracterizado – o Papa preferiu olhar para dentro e deu luz ao caminho que deverá ser traçado em Aparecida. A Igreja precisa responder aos anseios espirituais do povo. Precisa irradiar fé, oferecer refrigério para a alma de tantos sedentos.

         Ouvi hoje um bispo numa emissora de televisão dar a metodologia para se chegar aos jovens: propor uma experiência pessoal deles com Jesus e a partir daí, em comunidades, levar essa fé a outros. Décadas atrás seria difícil ouvir isso. Uma riqueza espiritual católica começa a emergir. Estava o tempo todo ali, mas de difícil acesso, restrito a poucos, mais aos religiosos. Uma água límpida, protegida por séculos de experiências; abundante, sem necessidade de racionamentos. Acessível a todos. Basta ter sede. 

GENTE DE FÉ!

Filed under: Artigo — Osvaldo Luiz at 8:28 am on quinta-feira, maio 10, 2007

        O Papa chegou, falou, acenou, se encantou, sorriu! Como não admirar a fé brasileira que enfrenta frio, chuva, seguranças para um simples olhar, por uma breve saudação.

        Bento 16 vem confirmar os católicos na fé, mas quanto não será atingido pelo nosso entusiasmo? Quanto não levará para sua Europa, fria espiritualmente, do calor humano latino que se empolga com o evangelho como os primeiros cristãos. Que se abre ao Divino, às vezes, com tanta sede, que nem analisa bem a qualidade do que bebe.

        Sua Santidade quer neste continente uma Igreja capaz de oferecer respostas aos fiéis. Que esteja atenta às suas necessidades e que testemunhe, a partir de sua própria experiência, um Jesus vivo e ressuscitado.

        O Papa, profundo e entusiasta, acredita que um anúncio adequado, integral de Cristo, consiga reanimar quem há muito se “esqueceu” de rezar. Espera que os fiéis deixem seus receios e se tornem discípulos e missionários.

        Vem, enfim, apoiar nosso povo bom a insistir na esperança – tão abalada ultimamente pela violência e corrupção. Incentivar a se guardar os bons costumes de se valorizar a família, defender a vida e ser solidário aos outros.

        E ao voltar para Roma perceberá que não deu mais do que recebeu. Que seu coração que se abriu ao Brasil foi dilatado por sua gente: simples, humilde e amiga. Gente de fé!

O PAPA E A DISCUSSÃO DO ABORTO

Filed under: Artigo — Osvaldo Luiz at 10:12 am on quarta-feira, maio 9, 2007

        A defesa da vida é parte importante da visita do Papa Bento 16 ao Brasil. No entanto, penso que não seria positivo reduzi-la à questão do aborto. Os meios de comunicação buscam ansiosamente por polêmicas. Temo que esta discussão faça sombra a outras importantes questões. Especialmente sobre o objetivo central da viagem do Santo Padre: a quinta Conferência Geral do Episcopado da América Latina e Caribe. 

        O tema central da Conferência, “Discípulos e Missionários de Jesus Cristo para que nele nossos povos tenham vida”, quer antes de tudo renovar a adesão dos católicos a sua fé. Renovar seus compromissos batismais de serem novos Cristos para nossa sociedade atual. A partir daí, então, oferecer ao povo latino-americano um testemunho de vida, de partilha; da possibilidade de uma civilização do amor.

        Outros temas também são urgentes como a corrupção, as desigualdades sociais, o respeito à democracia. Tem também a tão esperada canonização de Frei Galvão, primeiro santo brasileiro, que pode renovar o apelo de João Paulo II: “o Brasil precisa de santos, de muitos santos”…

        Enfim, será importante o apoio de Bento 16 na luta contra a permissão do aborto no Brasil. Mas limitar sua visita a esta “cruzada” seria um triste reducionismo. Espera-se que ao voltar ao Vaticano, o Bispo de Roma tenha direcionado os olhares das Américas ao lema da Conferência de Aparecida: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”.

UM PAPA À NOSSA FRENTE

Filed under: Artigo — Osvaldo Luiz at 4:36 pm on terça-feira, maio 8, 2007

        O Papa Bento 16 não deve trazer novidades ao Brasil. Seus discursos deverão reforçar conhecidas posturas da Igreja em defesa da família, da vida e contra as injustiças sociais. Mesmo assim mobiliza a atenção de milhões. Não só porque os meios de comunicação criaram um positivo ambiente de expectativa, mas principalmente porque os fiéis sentem necessidade de serem confirmados na fé.

           Numa época em que quase tudo é permitido, onde o errado “veste marca famosa” e o certo parece, tem hora, “cafona”, cresce a importância da missão de um pastor. De alguém que, sem receios de desagradar o povão, reforce valores, caminhos e denuncie o que faz mal. De alguém que assuma o pedido de Jesus a Pedro: você me ama mais do que tudo? Apascenta minhas ovelhas…

        Curiosa a insistente comparação que Cristo faz dos fiéis com as ovelhas. Trata-se de um animal com sentidos pouco apurados, que necessita de um cuidado intensivo, quase como de uma babá. O pastor vai à sua frente, conduzindo-a com sua voz, com seu cheiro, com uma relação de muita confiança.

        Naturalmente Jesus não propõe uma manipulação dos crentes, como um brincar com fantoches. Jesus defende a liberdade humana e quer pessoas fortes e com iniciativas. No entanto, reconhece a fragilidade de tantos, especialmente dos seus prediletos: os fracos, os doentes, os necessitados.

         A visita do pai espiritual dos católicos irá produzir um efeito natural de confiança. De se sentir parte de um grupo grande, portanto não desamparado. Aumentará a auto-estima de um povo que, tanto questionado, fica tem hora desorientado. Estimulará a alegria e não a vergonha de ter Cristo como modelo. Bento 16 fala de Jesus como de um conhecido antigo, com entusiasmo, e com certeza irá reanimar a muitos. Ouçamos suas palavras!     

SAUDADE DO AMIGO COSME

Filed under: Artigo — Osvaldo Luiz at 3:44 pm on segunda-feira, maio 7, 2007

        Com tristeza recebemos a morte do nosso colega de trabalho, o telefonista Cosme. Por 12 anos convivemos com sua responsabilidade, empenho e ternura. Um ser humano especial que, com sua ida prematura, deixa uma lacuna incapaz de ser preenchida.

        Esposo atencioso, pai carinhoso, Cosme será lembrado sempre por sua maneira simples e amiga. Por seu sorriso fácil. Os ouvintes e telespectadores o lembrarão pelo interesse que dispensava a cada ligação. Atendia sem pressa, de uma maneira que cativava a todos. Procurava uma maneira de satisfazer quem com a Canção Nova se comunicava. De forma que hoje perdemos um missionário! Alguém que na sua profissão servia a Deus, atendendo aos irmãos. Um exemplo de que para evangelizar não se precisa de muitas coisas. Numa empresa de comunicação com TV, rádio e internet, Cosme testemunhou Jesus com um fone e com o melhor de si: era um “AMOR de pessoa”.

        Saudade, amigo! Tenho certeza que já agora olha por todos nós, pela Canção Nova e especialmente pela sua casa. Descanse em paz!

SEM ANDERSOM, CAROLINE, PAMELA, RAFAEL…

Filed under: Artigo — Osvaldo Luiz at 11:40 am on segunda-feira, maio 7, 2007

       Rodolfo, Caroline, Anderson, Flávio, Paulo Henrique, Rafael e Pamela. Só pelos nomes já se percebe que eram jovens. De fato, entre 18 e 26 anos. Mais dois feridos:Fernanda e Cassiano.

        Tudo acontece numa praça de São Paulo, às 11 e meia da noite de um domingo. O programa comum ao de tantos meninos termina inexplicavelmente em chacina. Por quê? Ninguém sabe ainda. Nenhum dos assassinados tem ficha na polícia.

        Difícil se colocar no lugar das famílias… Vidas promissoras jogadas fora. Pais esperaram inutilmente a volta de seus filhos. De certo tinham “pensão” com toda esta violência. Mas o que fazer? Como segurá-los em casa num fim de semana? Como impedi-los de se divertir? Ah, se soubessem… Agora resta só a dor, que se mistura com uma indignação. Até quando viveremos sem segurança?

        Dor que já pressente a possibilidade de que os culpados por essa barbaridade não sejam conhecidos e muito menos punidos. A insegurança de sequer saber o motivo. Se a violência veio de traficantes ou de grupo de policiais…

        Que Deus alcance com sua misericórdia essas famílias. Que lhes dê consolo, humanamente impossível. Que os ajude a superar o rancor pelos assassinos, confiar na justiça divina e não desistir deste país.

SEM PERTUBAÇÕES

Filed under: Artigo — Osvaldo Luiz at 11:29 am on sexta-feira, maio 4, 2007

        “Não se perturbe o vosso coração”. As palavras de Jesus atravessam séculos como um desafio: como viver em paz de espírito em meio a um mundo cada vez mais angustiante, ansioso, “eletrizante”? Somos muito vulneráveis. Um comentário ou um olhar “torto” muitas vezes já nos arremessa num pessimismo. Nossa sensibilidade age rápido em interpretar fatos como agressões à nossa pessoa. Uma discussão ou até mesmo uma simples discordância, não raro, derruba um bem-estar, um bom humor. Quantas vezes não acordamos bem, animados, e antes do almoço já nos transformamos em pessoas amarguradas, tristes, porque nos deixamos contagiar por circunstâncias ou críticas. Alguém deixou de nos cumprimentar e já ficamos amargos. Se o mal educado é nosso chefe aí já alimentamos pesadelos: ele estará insatisfeito comigo?

        O querido padre salesiano, Mário Bonatti (que nesta sexta lança um novo livro: “Maria, mãe dos Cristãos”), escreveu já há algum tempo que “a vida tem a cor que você pinta”. Então, um interior tão oscilante, tão ao sabor dos ventos, pode apagar nosso brilho natural, externando aos que estão perto, cores opacas, não definidas, sem expressão.

            “Tendes fé em Deus”, disse Jesus. O apóstolo Paulo dizia: “nada pode nos separar do amor de Cristo”. Vamos então ajustar nossa visão, usando filtros que impeçam que nossa sensibilidade ande tão desgovernada e entenda tudo errado. Uma história me vem agora à mente: a de um convento budista, que a beira de uma estrada, servia de hospedaria para viajantes que vencessem um de seus monges em um debate. Chega um visitante ao local num dia em que só dois religiosos estão presentes: um sábio, extremamente ocupado, e um tolo caolho, que acabou sendo incumbido do debate. Para se evitar equívocos, o confronto deveria acontecer sem palavras. Após algum tempo, o viajante veio se despedir do sábio monge. Tinha perdido o debate. O sábio ficou curioso:

- O que aconteceu?

- Levantei um dedo representando Buda. Seu inteligente irmão levantou dois dedos, significando Buda e seus ensinamentos. Então repliquei mostrando três dedos, lembrando Buda, seus ensinamentos e seus discípulos. Aí seu sábio colega me venceu ao mostrar a mão fechada, querendo dizer que os três são uma coisa só.

Mais tarde o monge tolo chega dizendo:

- Que rude aquele viajante! Foi logo mostrando um dedo, dizendo que eu só tinha um olho. Quis ser gentil e levantei dois dedos, respondendo que ele tinha os dois olhos. Aí o estúpido mostrou três dedos, representando os olhos de nós dois juntos!

- E aí, o que aconteceu, perguntou o outro monge?

- Aí eu ameacei lhe dar um murro e ele fugiu!

        “A vida tem a cor que você pinta”. “Não perturbe o seu coração”!

EPIDEMIA DE ÁLCOOL

Filed under: Artigo — Osvaldo Luiz at 10:01 am on sexta-feira, maio 4, 2007

        A sociedade vem discutindo a necessidade de restrição das propagandas de bebidas alcoólicas nos meios de comunicação. Algo mais rigoroso, como o que aconteceu com os cigarros. Talvez não se chegue a uma proibição completa, mas se restrinja mais os horários de veiculação, deixando estas propagandas para um horário mais tarde.

        Agora o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, propôs uma lei que proíba a venda destas bebidas ao lado de estradas, postos de gasolina e próximo de escolas e hospitais. O ministro justifica esta medida dizendo que o país vive uma “epidemia de mortes causada pelo álcool”. O álcool, mesmo que indiretamente, está presente em estatísticas de mortes de trânsito, de vítimas da violência e em inúmeras doenças fatais. Causa, portanto, gastos elevadíssimos para a Saúde pública.

        Proibir a venda em determinados locais me parece menos eficaz do que o controle da sua propaganda. O consumo de álcool começa, geralmente, dentro da própria casa, com crianças e jovens experimentando no copo dos pais. A tolerância extrema a estas bebidas acaba dificultando seu combate. Os malefícios do álcool só são reconhecidos, na maioria das vezes, quando o hábito se torna doentio, fora de controle. Mas o seu consumo deve ser limitado até por servir de uma espécie de porta para drogas mais fortes.

         Então, só se pode reverter este quadro a partir da educação; da consciência de que bebidas alcoólicas só devem ser consumidas por adultos e, mesmo assim, em doses “terapêuticas”: um cálice de vinho junto a uma refeição ou uma cervejinha num churrasco. Mais pode significar problemas. Necessário reduzir a pressão de consumo destas bebidas sobre a população e ampliar campanhas educativas sobre seus malefícios. Acompanhada disso, pode ter efeito a proibição de vendas em determinados locais. Antes, trará, infelizmente, poucos resultados.

CRISTÃO DEVE SE ESPECIALIZAR NO SER HUMANO

Filed under: Artigo — Osvaldo Luiz at 11:25 am on quinta-feira, maio 3, 2007

        O cristão deve se especializar no ser humano da mesma forma que tem intimidade com as “coisas” de Deus. Isso para cumprir bem sua missão sacerdotal, assumida no batismo, de defender os homens junto a Deus e interceder pelo divino junto à humanidade.

        O problema é que nem sempre há um equilíbrio nesta função. Há quem se aprofunda nas coisas espirituais, se aproxima bastante de Deus, mas perde o contato com a realidade. Aí, na hora de espalhar essa fé adquirida fala em “grego”, num dialeto incompreensível para a maioria. Também nos momentos de oração deixa a desejar porque, sem poder compreender as fraquezas dos outros, não pede misericórdia. Como Jonas em relação a Nínive,  gostaria de vê-los castigados…

        Por outro lado, existem os que estão focados nos seus próximos, sensíveis com seus sofrimentos. Atentos com as injustiças que lhes alcançam. São profundos conhecedores das suas necessidades, mas quando o assunto é espiritualidade estão distantes. Não “acham tempo” para rezar… Seriam ouvidos se testemunhassem seu Deus, mas estão mudos a esse respeito. Também frente ao altar não encontram intimidade para defender suas causas.

        Esse dilema, inclusive Latino-Americano, explica a necessidade assumida pelo Papa Bento 16 na intenção confiada ao Apostolado da Oração neste mês de maio: “que os cristãos valorizem mais a literatura, a arte e os meios de comunicação, para favorecer uma cultura que defenda e promova os valores da pessoa humana”. Os cristãos precisam amar profundamente o ser humano e não se apaixona assim por alguém sem conhecê-lo. Tudo começa com um olhar (arte). Passa por um esforço de aproximação, investigação (literatura). Até que se chega e se apresenta (meios de comunicação).

         No fundo, no fundo, ao se aprofundar em Deus, deveríamos encontrar o ser humano e vice-versa. São imagens e semelhanças. Impossível amar de verdade um sem se encantar com outro.

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