A Renovação nasceu como que clandestinamente. Sua maneira de orar, seus cantos com gestos e danças, a leitura da Bíblia sob a perspectiva da própria vida, chocaram muitos religiosos. E o que dizer dos dons? Revelações, curas e as línguas estranhas… Não raro, seus integrantes, majoritariamente leigos, foram tidos como desequilibrados, fundamentalistas ou fanáticos.
Em salões, casas e escolas os carismáticos se encontravam e novas pessoas eram tocadas. Poucos padres. Às vezes era difícil conseguir um para celebrar uma missa. Um isolamento que fortalecia a identidade do movimento, mas que expunha riscos de rupturas com a hierarquia da Igreja. Alguns acabaram indo para outras denominações.
Aos poucos o movimento foi demonstrando fidelidade eclesial, derrubando preconceitos, principalmente através dos inúmeros frutos de conversão e aproximação aos sacramentos. Hoje a identidade carismática é fortemente católica. Seus membros freqüentam assiduamente os templos, estão nas pastorais, guardam uma forte devoção mariana e são propagadores de inúmeras devoções. O risco maior agora, parece ser outro, de se perder aspectos originais. Ao se tornar midiática, foi se empobrecendo. Líderes foram se equivalendo a animadores de palco, sem espaço para outros dons.
No alto dos seus 40 anos, penso que um desafio se levanta à Renovação Carismática: manter seu dinamismo de fé, sua abertura aos dons, seu entusiasmo pelas coisas de Deus. Se o sal perder o seu sabor para que serve? O pêndulo que já foi muito à esquerda, também já alcançou o máximo à direita. Agora o tempo precisa ser de uma sadia maturidade: um equilíbrio tranqüilo, que preserve a tradição sem perder a criatividade. Que brinde o futuro sem esquecer o passado. Como dizia dom Hélder Câmara, como um carro: com acelerador e freio. Um carro que só acelere causa acidente. Um que só freia não sai do lugar.