“A SS (Polícia Nazista) enforcou dois homens judeus e um jovem diante de todos os internos do Campo de Concentração. Os homens morreram rapidamente; a agonia do jovem durou meia hora.

‘Onde está Deus? Onde está?’, perguntou alguém por detrás de mim.

Quando, depois de longo tempo, o jovem continuava sofrendo, dependurado pelo laço, ouvi outra vez o homem dizer: ‘Onde está Deus, agora?’

E em mim escutei a resposta: ‘Onde está? – Aqui… Está ali, dependurado no patíbulo (laço)…’” (MOLTMANN, apud QUEIRUGA, 1995, p. 137).

Reveladora e profundamente intrigante se revela a descrição acima citada, a qual ratifica que o Deus do sofrimento e da Cruz não está distante do emblema humano da dor, mas, está ao lado do homem que padece diante de sua cruz e agonias existenciais.

Entretanto, fruto talvez de influências antepassadas, e certamente não corrigidas como se deveria pela reflexão teológica tradicional, existe uma espécie de representação, profundamente cravada no subconsciente coletivo, que faz com que se atribua a Deus a culpa por toda espécie de mal, dor ou desgraça de que padeça o ser humano. Desde o piedoso “Deus faz sofrer àqueles que ama”, até o perigoso “tudo é vontade de Deus, até a morte e o mal”, o pressuposto acaba tornando-se sempre o mesmo: que o mal vem mandado ou, falando de maneira mais suave, permitido por Deus.

Como conseqüência imediata, aquele que sofre pergunta-se: por que este sofrimento coube a mim? Por que Deus, neste caso de conseqüências tão ruins, não quis evitá-lo? Isto pode gerar uma profunda crise de compreensão a respeito do sentido do amor e cuidado de Deus para com a sua padecente criatura.

Ainda, existe a clássica argumentação de que o sofrimento “é uma prova”, e ao que sofre, quase sempre é oferecido o refrão: “você será recompensado por isso”. Percebemos que tais argumentações portam um sério problema de linguagem e, consequentemente de compreensão, acerca do mistério do sofrer do homem e do papel que Deus ocupa diante de tal realidade.

A linguagem a respeito do sofrimento – assim propomos – anseia/necessita ser re-significada, na qual os seus conceitos e a sua percepção deverão colocar Deus/Cristo em seu verdadeiro lugar diante da dor: como parceiro do ser humano, crucificado com ele, e não como a causa fontal de seu mal e de seu sofrimento.

O Deus revelado em Cristo sofre com o homem, Ele está pregado com este na cruz de seus sofrimentos e de sua finitude. A dor do homem se torna também a dor de Deus. Não é justo culpá-Lo por nossas fragilidades criaturais e por nossas desventuras precisamente humanas.

Assim, a pergunta correta não é: por que Deus me manda esta enfermidade? ou, por que permite que morra o meu marido, minha mulher, meu filho ou meu amigo?, mas sim: “nesta circunstancia terrível de minha vida, fruto inevitável das circunstâncias em que se realiza a minha finitude, eu sei que Deus está ao meu lado, e que conto com a sua compreensão, amor, e ajuda” (QUEIRUGA, 1995, p. 138).

Isto, não para suprir os auxílios da medicina, a ajuda do terapeuta psiquiátrico ou a coragem de enfrentar a vida de forma realista, mas, para percebermos que não estamos sós em meio às lutas que travamos frente ao mistério de nossa dor e de nosso sofrimento/finitude. E também, para estarmos seguros de que, aconteça o que acontecer, nossa luta tem sentido e tudo acaba sendo integrável, porque tudo está envolvido no amor salvador de Deus, fraco na aparência e não dispensado de carregar sua cruz, mas, que no final, sempre tem a última palavra.

Deus (em Jesus) entra na história única e exclusivamente para ajudar o ser humano a suportar, superar e integrar o peso inevitável de sua existência. Ele sofre a dor do homem e com o homem, ensinando a este – que se encontra imerso no mistério de sua dor – a concreta possibilidade de tornar o sofrimento redentor, transmutando-o em uma fonte esplendorosa de vida e de amor, em favor de seus semelhantes.

Deus não deseja o sofrimento do homem, ao contrário, em Jesus de Nazaré Deus se nos aparece como o “protetor antimal que unicamente quer o bem” (SCHILLEBEECKX apud QUEIRUGA, 1995, p. 139) e, por desejá-lo, está ao nosso lado, sofre conosco e assegura-nos, com seu amor poderoso, o triunfo final.

Longe de ser causa ou cúmplice de nosso sofrimento, Deus se mostra para nós, através da Cruz, como aquele que pensa em somente nos ajudar, e que, para fazê-lo, está disposto a até mesmo entregar seu próprio Filho (cf. Rm 8,32) em nosso favor. O mistério oculto nas trevas da Cruz é o mistério da dor de Deus e de seu Amor.

O Deus cristão sofre porque ama, e ama enquanto sofre. Ele é o Deus compassivo, porque é o Deus por nós, que se dá a ponto de sair totalmente de si, na alienação da morte, para acolher-nos plenamente em si, na doação da vida.

Pe Adriano Zandoná

3 Comentários

  1. Paz e Bem, Adriano!

    Adorei teu blog!

    Bendito seja Deus pelo dom da sua vida,
    pelo dom da sua vocação =D
    Que Ele te abençoe sempre!

    Ser Canção Nova é bom demais!
    Ser de Deus é bom demais!

    Abraço!

  2. Fernando Pancaldi

    Bom dia Adriano

    Lendo suas matérias, comecei a recordar o inicio dos anos 2000, quando você aqui em Londrina dava seus primeiros passos nessa caminhada de fé.

    Sua vocação de pregador é evidente em seus textos. Deus o abençoe.

    Fernando Pancaldi
    Grupo de oração Principe da Paz – Cambé

  3. Gostei demais da reflexão meu irmão! Sempre leio seus textos na “formação” no site da CN mas só hoje conheci seu blog.Obrigada por compartilhar conosco seu TCC.Continuarei acompanhando.Fraternalmente. Vanessa Gatti (Vitória-ES)

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