Sábado da 4ª Semana da Quaresma
“Assim houve divisão no meio do povo por causa de Jesus”. As palavras de Jesus levam naturalmente a uma tomada de decisão. Trata-se, de fato, de uma revelação que o Cristo faz de si, como em todo o Evangelho de João, e ordem à salvação de cada um de nós. Quem tem a pretensão de ser mestre, certamente não esta disposto a fazer-se discípulo e aceitar uma revelação que subverte toda a teoria ou sistema preconcebido. É a situação dos fariseus, dos estudiosos do nosso tempo, incapazes, entretanto, de receber a mensagem de vida nela contida e que é o próprio Cristo. Na verdade não somos nós que o descobrimos, mas ele é que se apresenta como doador de luz e de vida.
Em Jeremias, na primeira leitura, como em Cristo, há um aspecto trágico: o conhecimento do destino que lhe preparam os inimigos, sem possibilidade de evitá-lo. Não pode fazer outra coisa senão pôr-se nas mãos de Deus e esperar que este venha salva-lo no cumprimento deste destino. O drama de sua vocação como o é em toda autentica vocação, é a necessária repercussão do mistério de Deus na vida do homem.
Quem de Deus tem apenas uma idéia ou uma definição provavelmente nunca provará o drama do seu encontro e nunca terá de se despojar de si e perder-se para identificar-se com a vontade de Deus. As discussões que surgem da diversidade de opiniões a respeito de Cristo não resolvem se não houver, da parte de todos sinceros e profundos desejo de esclarecimento, o que raramente se dá, pois cada um costuma querer que prevaleça sua opinião. Deus mesmo em seu mistério fulgurante não esmaga a liberdade do homem; dar-se-á somente àquele que tiver direito de cativá-lo. Aqui está a razão de ser da obediência de Cristo na cruz, que a eucaristia nos convida a alcançar.
Meditação de hoje: quem é Jesus para mim?
O Espírito Santo principio de santificação
O gesto de Jesus, que na noite da Páscoa “soprou” sobre os Apóstolos comunicando-lhes o Espírito Santo (cf. Jo 20, 21´22), evoca a criação do homem, descrito pelo Gênesis como a comunicação de “um sopro de vida” (2,7). O Espírito Santo é como o “respiro” do Ressuscitado, que infunde a nova vida na Igreja representada pelos primeiros discípulos. O sinal mais evidente desta nova vida é o poder de perdoar os pecados. Efetivamente, Jesus diz: “Recebei o Espírito Santo. Os pecados daqueles que perdoardes, serão perdoados. Os pecados daqueles que não perdoardes, não serão perdoados”. (Jo 20, 22´23). Quando se efunde “o Espírito de Santificação” (Rm 1,4), destrói-se o que se opõe à santidade, ou seja, o pecado. Segundo a palavra de Cristo, o Espírito Santo é aquele que “convence o mundo do pecado” (Jo 16,8). Ele faz com que se tome consciência do pecado, mas ao mesmo tempo é Ele mesmo que perdoa os pecados. A este propósito, S. Tomás observa: “Dado que é o Espírito Santo que funda a nossa amizade com Deus, é normal que por meio d’Ele Deus perdoem os nossos pecados” (Contr. Gent. 4,21,11).
O Espírito do Senhor não só destrói o pecado, mas realiza também uma santificação e divinização do homem. Deus “escolheu-nos – diz São Paulo – desde o princípio, para a salvação pela ação santificadora do Espírito e pela fé que vem da verdade” (cf. 2 Ts 2,13). Vejamos mais de perto em que consiste esta “santificação-divinização”. O Espírito Santo é “Pessoa-Amor. É Pessoa-Dom” (Dominum et vivificantem, 10). Este amor concedido pelo Pai, recebido e retribuído pelo Filho, é comunicado ao homem remido, que assim se torna “homem novo” (Ef 4,24), “nova criação” (Gl 6,15). Nós, cristãos, somos não só purificados do pecado, mas também regenerados e santificados. Recebemos uma nova vida, porque nos tornamos “participantes da natureza divina” (2 Pd 1,4): somos “chamados filhos de Deus. E somo-lo de fato!” (1 Jo 3,1). É a vida da graça: o dom gratuito com que Deus nos faz partícipes da sua vida trinitária. As três Pessoas divinas, na sua relação com os batizados, não devem ser separadas – porque cada um age sempre em comunhão com as outras – nem confundidas, pois cada Pessoa se comunica enquanto Pessoa. Na reflexão sobre a graça, é importante evitar concebê-la como uma “coisa”. Ela é, “antes de tudo e principalmente o dom do Espírito que nos justifica e nos santifica” (Catecismo da Igreja Católica, nº. 2003). É a dádiva do Espírito Santo que nos assimila ao Filho e nos coloca em relação filial com o Pai: no único Espírito, através de Cristo, temos acesso ao Pai (cf. Ef. 2,18).
A presença do Espírito Santo realiza uma transformação que atinge o homem verdadeira e intimamente: é a graça santificadora ou deificadora que eleva o nosso ser e o nosso agir, tornando-nos capazes de viver em relação com a Santíssima Trindade. Isto acontece mediante as virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade, que “adaptam as faculdades do homem à participação da natureza divina” (Catecismo da Igreja Católica, 1812). Assim, mediante a fé o crente considera Deus, os irmãos e a história não simplesmente segundo a perspectiva da razão, mas sob o ponto de vista da revelação divina. Com a esperança, o homem olha para o futuro com certeza confiante e ativa, esperando contra toda a esperança (cf. Rm 4, 18), com o olhar fixo na meta da bem-aventurança eterna e da plena realização do Reino de Deus. Com a caridade, o discípulo compromete-se em amar a Deus com todo o coração e o próximo como o Senhor Jesus nos amou, ou seja, até ao Dom total de si mesmo.
A santificação de cada fiel verifica-se sempre através da incorporação na Igreja. “A vida de cada filho de Deus em Cristo e mediante Cristo está vinculada com laços maravilhosos à vida de todos os outros irmãos cristãos, na unidade sobrenatural do Corpo místico de Cristo, até quase a formar uma única pessoa mística” (Paulo VI, Const. Apost. Indulgentiarum doctrina, 5). Este é o mistério da comunhão dos Santos. Um vínculo perene de caridade une todos os “santos”, tanto àqueles que já alcançaram a pátria celeste ou que ainda se estão a purificar no Purgatório, como aqueles que ainda são peregrinos na terra. Entre estes, existe também abundante intercâmbio de bens, a tal ponto que a santidade de um beneficia todos. S. Tomás afirma: “quem vive na caridade, participa em todo o bem que se faz no mundo” (In Symb, Apost.), e ainda: “O ato de um realiza-se mediante a caridade do outro, daquela caridade por meio da qual todos nós somos um só em Cristo” (In IV Sent. d. 20, ª2; q. 3 ad 1).
O Concílio recordou que “todos os fiéis, seja qual for o seu estado ou classe, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade” (Lúmen gentium, 40). Concretamente, para cada fiel o caminho para se tornar santo é o da fidelidade à vontade de Deus, como no-lo exprimem a sua Palavra, os mandamentos e as inspirações do Espírito Santo. Assim como para Maria e para todos os santos, também para nós a perfeição da caridade consiste no abandono confiante nas mãos do Pai, segundo o exemplo de Jesus. Isto se torna mais uma vez possível graças ao Espírito Santo, que também nos momentos mais difíceis nos faz repetir com Jesus: “Eis-me aqui para fazer a tua vontade” (cf. Hb 10,7).
Esta santidade reflete-se de forma própria na vida religiosa, na qual a consagração batismal é vivida no compromisso de um seguimento radical do Senhor, através dos conselhos evangélicos de castidade, pobreza e obediência. “Assim como toda a existência cristã, também a vocação à vida consagrada está intimamente relacionada com a obra do Espírito Santo. É Ele que, pelos milênios fora, sempre induz novas pessoas a sentirem a atração por uma opção tão comprometedora (…). É o Espírito que suscita o desejo de uma resposta cabal; é Ele que guia o crescimento deste anseio, fazendo amadurecer a resposta positiva e sustentando depois a sua fiel realização; é Ele que forma e plasma o espírito dos que são chamados, configurando-os a Cristo casto, pobre e obediente, impelindo-os a assumirem a sua missão”. (Exortação Apostólica Vita Consecrata, 19). Uma eminente expressão de santidade, que se torna possível mediante a força do Espírito Santo, é o martírio, supremo testemunho do Senhor Jesus, dado com o sangue. Mas uma significativa e fecunda forma de testemunho é já o compromisso cristão, vivido nas várias condições de vida, dia a dia numa radical fidelidade ao mandamento do amor.