Diante das Filosofias do Pluralismo Religioso e do Pragmatismo Religioso, quais as ameaças e desafios à doutrina do Espírito Santo?
Um outro desafio de imensas proporções vem de dessas filosofias características do período pós-moderno em que vivemos.
A primeira delas é o pluralismo. Como o nome já indica, essa filosofia defende a pluralidade da verdade, ou seja, que não existe uma verdade absoluta, mas sim verdades diferentes para cada pessoa. Esse conceito é ambíguo, mas definitivamente já faz parte integrante da nossa cultura presente. Ele defende o relacionamento de pessoas com ideologias diferentes, sem que uma tenha de sujeitar suas convicções ao domínio da outra. A idéia de converter alguém às suas próprias convicções é politicamente incorreta. A chave está na valorização da negociação e da cooperação em lugar de se tentar provar que se está certo ou errado.
O pluralismo religioso, por sua vez, prega o abandono da “arrogância” teológica do cristianismo, nega que exista verdade religiosa absoluta, e exalta a experiência religiosa individual como critério último para cada um. O pluralismo religioso defende uma nova teoria missiológica, onde não mais se prega a necessidade de conversão de outras religiões ao cristianismo, e sim a cooperação entre todas as religiões, naquilo que têm em comum. O pressuposto é que o cristianismo não é o único caminho para Deus, embora seja o melhor, e que Deus está agindo salvadoramente no âmbito de outras religiões, como as religiões orientais.
A outra filosofia é o pragmatismo. Seu popularizador, o psicólogo americano William James, afirmou que idéias humanas eram verdadeiras se funcionassem ou fossem úteis para resolver problemas. Já que o funcionamento e utilidade das idéias variam de contexto para contexto, segue-se que a verdade é relativa. O pragmatismo dominou rapidamente a cultura americana e estendeu-se para além das suas fronteiras. Adotar as coisas que realmente preservam a paz individual e uma situação financeira confortável, sem qualquer preocupação com princípios fixos de certo ou errado é evidentemente a idéia que controla procedimentos internacionais, domésticos e individuais. Princípios absolutos têm pouco ou nenhum lugar no pensamento ocidental moderno.
Não devemos, portanto, pensar que o pragmatismo é um fenômeno ocidental. Seu princípio fundamental é inerente ao coração humano. Uma das quatro premissas básicas do substrato filosófico e religioso da Ásia, por exemplo, pode ser resumida neste parágrafo: “É direito de cada pessoa religiosa aceitar e praticar qualquer maneira de viver que achar útil ao seu modo de pensar e às suas circunstâncias sociais peculiares”.
O pluralismo e o pragmatismo andam geralmente de mãos dadas. Onde o conceito de verdade absoluta deixa de existir (pluralismo), as pessoas e as organizações passam a orientar as suas decisões em termos daquilo que mais satisfaz as suas necessidades (pragmatismo). A combinação destas duas filosofias aparece claramente em vários movimentos presentes nas igrejas cristãs, e representam um novo desafio ao cristianismo em geral. A pergunta que as pessoas fazem com relação ao cristianismo não é se ele é a verdade ou não, mas simplesmente se funciona. Elas querem saber se vai mudar a vida delas para melhor, se Cristo realmente é poderoso para transformá-las, e pode dar-lhes paz, alegria, esperança e propósito às suas existências.
Qual a relação do Espírito Santo no mistério pascal de Cristo?
Toda a vida de Cristo se desenvolveu no Espírito Santo. São Basílio afirma que o Espírito Lhe foi “companheiro inseparável em tudo” (De Spir. S. 16) e oferece-nos esta admirável síntese da história de Cristo: “Vinda de Cristo: o Espírito Santo precede; encarnação: o Espírito Santo está presente; ações milagrosas, graças e curas; através do Espírito; os demônios expulsos, o diabo aprisionado: mediante o Espírito Santo; remissão dos pecados, união com Deus: mediante o Espírito Santo; ressurreição dos mortos: por virtude do Espírito Santo” (Ibid. 19). Depois de meditarmos sobre o batismo de Jesus e a Sua missão realizada no poder do Espírito, queremos agora refletir acerca da revelação do Espírito na “hora” suprema de Jesus, a hora da Sua morte e ressurreição.
A presença do Espírito Santo no momento da morte de Jesus deve-se supor já pelo simples fato que na cruz morre, na sua natureza humana, o Filho de Deus. Se “unus de Trinitate passus est” (DS, 401), isto é “se aquele que sofreu é uma Pessoa da Trindade”, na Sua paixão torna-se presente toda a Trindade, portanto também o Pai e o Espírito Santo. Devemos, porém, perguntar-nos: qual foi precisamente a participação do Espírito na hora suprema de Jesus? A esta pergunta só é possível responder se compreende o mistério da redenção como mistério de amor. O pecado, que é rebelião da criatura contra o Criador, interrompera o diálogo de amor entre Deus e os Seus filhos. Com a Encarnação do Filho Unigênito, Deus exprime à humanidade pecadora o Seu amor fiel e apaixonado, a ponto de Se tornar vulnerável em Jesus. O pecado, por sua parte, manifesta no Gólgota a sua natureza de “atentado contra Deus”, de maneira que todas as vezes que os homens voltam a pecar gravemente, como diz a carta aos Hebreus, “crucificam o Filho de Deus em si mesmos, expondo-O à ignomínia” (cf. 6,6). Ao entregar o seu Filho pelos nossos pecados, Deus revela-nos que o Seu desígnio de amor precede qualquer mérito nosso e supera abundantemente todas as nossas infidelidades. “Nisto consiste o [Seu] amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou e enviou o Seu Filho como propiciação pelos nossos pecados”. (1 Jo 4,10).
A paixão e morte de Jesus é um inefável mistério de amor, no qual estão envolvidas as três Pessoas divinas. O Pai tem a iniciativa absoluta e gratuita: Ele é o primeiro a amar e, ao entregar o Filho às nossas mãos homicidas, expõe o Seu bem mais querido. Como diz Paulo, Ele “não poupou o próprio Filho”, isto é, não O conservou para Si como um tesouro cioso, mas “entregou-O por todos nós” (Rm 8,32). O Filho compartilha plenamente o amor do Pai e o Seu projeto de salvação: “Entregou-Se a Si mesmo pelos nossos pecados… segundo a vontade de Deus, nosso Pai” (Gl 1,4). E o Espírito Santo? Assim como no íntimo da vida trinitária, também nesta circulação de amor, que se realiza entre o Pai e o Filho no mistério do Gólgota, o Espírito Santo é a Pessoa-Amor, para a qual converge o amor do Pai e do Filho. A carta aos Hebreus, desenvolvendo a imagem do sacrifício, declara de forma específica que Jesus Se ofereceu “com um Espírito eterno” (9,14). Na Encíclica Dominum et vivificantem mostrei que neste trecho “Espírito eterno” indica precisamente o Espírito Santo: assim como o fogo consumia as vítimas sacrificais dos antigos sacrifícios rituais, assim também “o Espírito Santo agiu de modo especial nesta auto-doação absoluta do Filho do homem, para transformar o sofrimento em amor redentor” (n. 40). “O Espírito Santo como Amor e Dom desce, em certo sentido, ao próprio coração do sacrifício que é oferecido na Cruz. Referindo-nos à tradição bíblica, podemos dizer: Ele consuma este sacrifício com o fogo do Amor, que une o Filho ao Pai na comunhão trinitária. E dado que o sacrifício da Cruz é um ato próprio de Cristo, também neste sacrifício Ele “recebe” o Espírito Santo” (Ibid.n. 41). Justamente na liturgia romana, o sacerdote reza antes da comunhão com estas significativas expressões: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus vivo, que por vontade do Pai e por obra do Espírito Santo, morrendo deu a vida ao mundo…”.
A história de Jesus não termina com a morte, mas abre´se à vida gloriosa da Páscoa. “Mediante a ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, Nosso Senhor” foi “constituído Filho de Deus com poder, segundo o Espírito de santificação” (cf. Rm. 1,4). A ressurreição é o complemento da Encarnação e acontece também ela, como a geração do Filho no mundo, “por obra do Espírito Santo”, “Nós – afirma Paulo em Antioquia da Pisídia – estamos aqui para vos anunciar a Boa Nova de que a promessa feita a nossos pais, Deus a cumpriu em nosso benefício, para nós Seus filhos, ressuscitando Jesus, como está escrito no salmo segundo: “Tu és Meu Filho, Eu gerei-Te hoje” (At. 13,32). O Dom do Espírito que o Filho recebe em plenitude na manhã de Páscoa é por Ele efundido em superabundância na Igreja. Aos Seus discípulos reunidos no cenáculo, Jesus diz: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22) e comunica-O “como que através das feridas da Sua crucifixão: “mostrou-lhes as mãos e o lado”“. (Dom. et viv., 24). A missão salvífica de Jesus sintetiza-se e cumpre-se na comunicação do Espírito Santo aos homens, para os reconduzir ao Pai.
Se a “obra-prima” do Espírito Santo é a Páscoa do Senhor Jesus, mistério de sofrimento e de glória, através do dom do Espírito é possível também aos discípulos de Cristo sofrer com amor e fazer da cruz a via para a luz: “per crucem ad lucem”. O Espírito do Filho dá-nos a graça de termos os mesmos sentimentos de Cristo e de amarmos como Ele amou, a ponto de oferecer a vida pelos irmãos: ”Ele deu a Sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos nossos irmãos” (1 Jo 3,16). Ao comunicar-nos o seu Espírito, Cristo entra na nossa vida, para que cada um de nós possa dizer como Paulo: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). Assim, toda a vida se torna uma Páscoa contínua, uma incessante passagem da morte para a vida, até à Páscoa derradeira, quando passaremos também nós, com Jesus e como Jesus, “deste mundo para o Pai” (Jo 13,1). Com efeito – afirma Santo Ireneu de Lião – “aqueles que receberam e trazem o Espírito de Deus são conduzidos ao Verbo, isto é, ao Filho, e o Filho acolhe-os e apresenta-os ao Pai, e o Pai dá-lhes a incorruptibilidade”. (Demonstr. Ap., 7).
A pneumatologia no Antigo Testamento
Precisamos partir da palavra hebraica de gênero feminino ruah, que foi traduzida para o grego (pneuma) e para o latim (spiritus) com duas palavras que ainda acusam o sentido sensível de “vento”, “vento que sopra”, e que também no significado de espírito acentuam a dimensão de dinamismo de maneira muito mais forte do que as dimensões do insensível ou da reflexão. Equivocações são quase inevitável o que se pode constatar também com relação ao discurso da dogmática tradicional sobre o Espírito Santo. O significado básico de ruah e simultaneamente vento e respiração, mas ambos não como essencialmente presentes, mas como força que se encontra no golpe do sopro do vento cujo de onde e aonde permanece enigmático.
Com referencia a Gn 1, 2, no sentido fundamental dinâmico da palavra e bafejar, soprar, bramar. Segundo a experiência do homem bíblico, a criação, em todos os seus elementos, e de fato, algo que possui e comunica vida. Isso e expresso pela antropologia bíblica sob varias imagens. E tudo isso porque o sopro de vida passa sobre a face da terra inteira.
O próprio Espírito e a ação geradora de Deus através de quem todas as criaturas são chamadas à vida: e ainda o Espírito o ek-stasis de Deus, isto e, o Deus-fora-de-si, o Deus que, por própria escolha e liberdade, comunica-se aos homens saindo de si e criando; a Trindade econômica vem nos manifestar o abissal mistério de Amor contido na Trindade imanente, amor este comunicado e partilhado na criação.
Por ruah/pneuma em imediata associação com vento e respiração e ademais com vida, não constitui, na verdade, nenhum acaso. Acha-se ai em jogo também experiência mítica, sem duvida também elementar; respirar ou não respirar distinguem o homem vivo do morto, e, de mais a mais o respirar associa o homem com o vento, ou seja, com a força vital cósmica.
Pelo epirito/respiracao-vento, o homem sabe-se ligado com Deus. E com a respiração liga-se também a palavra, a linguagem, e com a linguagem o pensamento, que, para os hebreus, não se origina na cabeça, mas no coração. O Espírito é o principio da vida e da atividade vital; o espírito da vida é o hálito (Gn 6,17; 7,15-22; Eclo 38,23; Sb 15,11. 16). A respiração é o hálito de Deus, o sopro comunicado ao homem por insuflação divina. Iahweh forma o espírito, e volta a ele na morte. Esta concepção do espírito está na base de Ecl 3,19-21, onde o espírito do homem e a respiração dos animais são identificados; o espírito deixa o homem como deixa o animal e não há diferença para onde vai. Esta não é uma concepção do espírito como alma e, de fato, semelhante concepção não ocorre em parte alguma no Antigo Testamento. O espírito como principio de vida é quase sempre considerado como um elemento estranho ao homem, dado por Deus e tirado por ele.
Na época primitiva, o Espírito de Deus teve em dois contextos lugar firme: na liderança carismática e na profecia extática. Em ambos os casos, ruah e forca dinamico-explosiva que sobrevêm ao homem e o capacita para ações especiais.
Quando, pois, na profecia exílica e pós-exilica se fala de concessão do Espírito de Deus a todo o povo de Israel, este fato associa-se com a radical reflexão sobre si feita por Israel, que, depois da destruição do templo no ano de 587 a.C. considerou necessária uma renovação profunda de todo o povo de Deus, o que só era possível pela doação com “novo coração e novo espírito”.
O espírito no AT, originalmente o vento e o sopro são concebidos como uma entidade divina dinâmica, pela qual Iahweh realiza seus objetivos: ele salva, é uma força criadora e carismática, e como agente da sua ira é um poder demoníaco. Todavia, é impessoal. Como o vento, do qual não se pode descobrir de onde vem nem para onde vai, e, portanto a ele são atribuídos os efeitos que aos homens parecem misteriosos. Ele é colocado em contraste com a carne; o espírito é diverso da carne como o homem da divindade. Isso não significa espiritual no sentido de imaterial; não é evidente que um conceito do imaterial existisse no Antigo Testamento. O espírito não é oposto ao material, mas à carne: as partes mortais, corruptíveis, fracas e pecadoras do homem. O espírito não é carne; e o AT não pôde dizer mais nada a esse respeito. Só o Novo Testamento, principalmente os escritos paulinos pôde tratar mais a fundo esta questão.
O neo-pentecostalismo é uma realidade no catolicismo e no protestantismo. Quais os riscos para a doutrina do Espírito Santo?
Por neo-pentecostalismo pode-se dizer daqueles movimentos surgidos em décadas recentes, que são desdobramentos do pentecostalismo clássico do início do século, mesmo que abandonaram algumas de suas ênfases características e adquiriram marcas próprias, como ênfase em revelações diretas, curas, batalha espiritual, e particularmente uma maneira sobrenaturalista de encarar a realidade espiritual. A hermenêutica destes movimentos é caracterizada por uma leitura das Escrituras e da realidade sempre em termos da ação sobrenatural de Deus. Deus é percebido somente em termos de sua ação extraordinária. Para o neo-pentecostal típico, Deus o guia na vida diária através de impulsos, sonhos, visões, palavras proféticas, e dá soluções aos seus problemas sempre de forma miraculosa, como libertações, livramentos, exorcismos e curas. A doutrina que define mais que qualquer outra, as igrejas cristãs no Brasil hoje, é a crença em milagres. É claro que não se está dizendo que crer em milagres seja errado. O que se está dizendo é que, na hora que a crença em milagres contemporâneos e diários passa a ser a característica maior da Igreja, algo está errado.
A hermenêutica sobrenaturalista do neo-pentecostalismo representa um desafio para a identidade do Espírito Santo, pois tende a menosprezar uma das doutrinas típicas do cristianismo, que é a providência de Deus. Partindo das Escrituras, os cristãos usam o termo providência para se referir à ação de Deus, pelo seu Espírito, agindo no mundo através de pessoas e circunstâncias da vida para atingir seus propósitos. Esses meios não são intervenções miraculosas ou extraordinárias de Deus na vida humana, mas simplesmente meios naturais secundários.
O neo-pentecostalismo, por enfatizar a ação sobrenatural e miraculosa de Deus no mundo (a qual não negamos, diga-se), acaba por negligenciar a importância da operação do Espírito Santo através de meios secundários e naturais. Essa negligência torna-se mais séria quando nos conscientizamos que o Espírito normalmente trabalha através de meios secundários e naturais para salvar os pecadores. Acredita-se não ser difícil de provar que a maioria dos cristãos foram salvos através de meios naturais – como o testemunho de alguém, a leitura da Bíblia, a pregação da Palavra – e não através de intervenções miraculosas e extraordinárias, como foi a conversão de Paulo.
Como resultado do sobrenaturalismo neo-pentecostal, as igrejas cristãs por ele afetadas tendem a considerar os meios naturais como sendo espiritualmente inferiores. Um bom exemplo é a tendência de não se tomar remédios, como sendo falta de fé. Um outro resultado é a diminuição da pregação do Evangelho como meio de salvação dos pecadores, e a ênfase nos milagres como meio evangelístico. Assim, a obra do Espírito na Igreja e no mundo através dos meios naturais secundários é negligenciada, com graves e perniciosos efeitos nas vidas dos que abraçam a cosmo-visão neo-pentecostal.
O Espírito Santo no mistério pascal de Cristo
Toda a vida de Cristo se desenvolveu no Espírito Santo. São Basílio afirma que o Espírito Lhe foi “companheiro inseparável em tudo” (De Spir. S. 16) e oferece-nos esta admirável síntese da história de Cristo: “Vinda de Cristo: o Espírito Santo precede; encarnação: o Espírito Santo está presente; ações milagrosas, graças e curas; através do Espírito; os demônios expulsos, o diabo aprisionado: mediante o Espírito Santo; remissão dos pecados, união com Deus: mediante o Espírito Santo; ressurreição dos mortos: por virtude do Espírito Santo” (Ibid. 19). Depois de meditarmos sobre o batismo de Jesus e a Sua missão realizada no poder do Espírito, queremos agora refletir acerca da revelação do Espírito na “hora” suprema de Jesus, a hora da Sua morte e ressurreição.
A presença do Espírito Santo no momento da morte de Jesus deve-se supor já pelo simples fato que na cruz morre, na sua natureza humana, o Filho de Deus. Se “unus de Trinitate passus est” (DS, 401), isto é “se aquele que sofreu é uma Pessoa da Trindade”, na Sua paixão torna-se presente toda a Trindade, portanto também o Pai e o Espírito Santo. Devemos, porém, perguntar-nos: qual foi precisamente a participação do Espírito na hora suprema de Jesus? A esta pergunta só é possível responder se compreende o mistério da redenção como mistério de amor. O pecado, que é rebelião da criatura contra o Criador, interrompera o diálogo de amor entre Deus e os Seus filhos. Com a Encarnação do Filho Unigênito, Deus exprime à humanidade pecadora o Seu amor fiel e apaixonado, a ponto de Se tornar vulnerável em Jesus. O pecado, por sua parte, manifesta no Gólgota a sua natureza de “atentado contra Deus”, de maneira que todas as vezes que os homens voltam a pecar gravemente, como diz a carta aos Hebreus, “crucificam o Filho de Deus em si mesmos, expondo-O à ignomínia” (cf. 6,6). Ao entregar o seu Filho pelos nossos pecados, Deus revela-nos que o Seu desígnio de amor precede qualquer mérito nosso e supera abundantemente todas as nossas infidelidades. “Nisto consiste o [Seu] amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou e enviou o Seu Filho como propiciação pelos nossos pecados”. (1 Jo 4,10).
A paixão e morte de Jesus é um inefável mistério de amor, no qual estão envolvidas as três Pessoas divinas. O Pai tem a iniciativa absoluta e gratuita: Ele é o primeiro a amar e, ao entregar o Filho às nossas mãos homicidas, expõe o Seu bem mais querido. Como diz Paulo, Ele “não poupou o próprio Filho”, isto é, não O conservou para Si como um tesouro cioso, mas “entregou-O por todos nós” (Rm 8,32). O Filho compartilha plenamente o amor do Pai e o Seu projeto de salvação: “Entregou-Se a Si mesmo pelos nossos pecados… segundo a vontade de Deus, nosso Pai” (Gl 1,4). E o Espírito Santo? Assim como no íntimo da vida trinitária, também nesta circulação de amor, que se realiza entre o Pai e o Filho no mistério do Gólgota, o Espírito Santo é a Pessoa-Amor, para a qual converge o amor do Pai e do Filho. A carta aos Hebreus, desenvolvendo a imagem do sacrifício, declara de forma específica que Jesus Se ofereceu “com um Espírito eterno” (9,14). Na Encíclica Dominum et vivificantem mostrei que neste trecho “Espírito eterno” indica precisamente o Espírito Santo: assim como o fogo consumia as vítimas sacrificais dos antigos sacrifícios rituais, assim também “o Espírito Santo agiu de modo especial nesta auto-doação absoluta do Filho do homem, para transformar o sofrimento em amor redentor” (n. 40). “O Espírito Santo como Amor e Dom desce, em certo sentido, ao próprio coração do sacrifício que é oferecido na Cruz. Referindo-nos à tradição bíblica, podemos dizer: Ele consuma este sacrifício com o fogo do Amor, que une o Filho ao Pai na comunhão trinitária. E dado que o sacrifício da Cruz é um ato próprio de Cristo, também neste sacrifício Ele “recebe” o Espírito Santo” (Ibid.n. 41). Justamente na liturgia romana, o sacerdote reza antes da comunhão com estas significativas expressões: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus vivo, que por vontade do Pai e por obra do Espírito Santo, morrendo deu a vida ao mundo…”.
A história de Jesus não termina com a morte, mas abre´se à vida gloriosa da Páscoa. “Mediante a ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, Nosso Senhor” foi “constituído Filho de Deus com poder, segundo o Espírito de santificação” (cf. Rm. 1,4). A ressurreição é o complemento da Encarnação e acontece também ela, como a geração do Filho no mundo, “por obra do Espírito Santo”, “Nós – afirma Paulo em Antioquia da Pisídia – estamos aqui para vos anunciar a Boa Nova de que a promessa feita a nossos pais, Deus a cumpriu em nosso benefício, para nós Seus filhos, ressuscitando Jesus, como está escrito no salmo segundo: “Tu és Meu Filho, Eu gerei-Te hoje” (At. 13,32). O Dom do Espírito que o Filho recebe em plenitude na manhã de Páscoa é por Ele efundido em superabundância na Igreja. Aos Seus discípulos reunidos no cenáculo, Jesus diz: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22) e comunica-O “como que através das feridas da Sua crucifixão: “mostrou-lhes as mãos e o lado”“. (Dom. et viv., 24). A missão salvífica de Jesus sintetiza-se e cumpre-se na comunicação do Espírito Santo aos homens, para os reconduzir ao Pai.
Se a “obra-prima” do Espírito Santo é a Páscoa do Senhor Jesus, mistério de sofrimento e de glória, através do dom do Espírito é possível também aos discípulos de Cristo sofrer com amor e fazer da cruz a via para a luz: “per crucem ad lucem”. O Espírito do Filho dá-nos a graça de termos os mesmos sentimentos de Cristo e de amarmos como Ele amou, a ponto de oferecer a vida pelos irmãos: ”Ele deu a Sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos nossos irmãos” (1 Jo 3,16). Ao comunicar-nos o seu Espírito, Cristo entra na nossa vida, para que cada um de nós possa dizer como Paulo: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). Assim, toda a vida se torna uma Páscoa contínua, uma incessante passagem da morte para a vida, até à Páscoa derradeira, quando passaremos também nós, com Jesus e como Jesus, “deste mundo para o Pai” (Jo 13,1). Com efeito – afirma Santo Ireneu de Lião – “aqueles que receberam e trazem o Espírito de Deus são conduzidos ao Verbo, isto é, ao Filho, e o Filho acolhe-os e apresenta-os ao Pai, e o Pai dá-lhes a incorruptibilidade”. (Demonstr. Ap., 7).
O Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza
O ser humano tem a consciência de que não é criador de soluções para causas impossíveis da sua vida. Também temos a consciência do bem e do mal e que muitas vezes nos vemos fazendo o mal que não quereríamos e não fazendo o bem que quereríamos como nos diz o apostolo Paulo .
Não somos criadores, então somos criaturas, ou seja, algo nos criou e esse algo só pode ser o Criador de todas as coisas. De uma forma ou de outra, somos criaturas do Criador e, por isso, somos dependentes dele. Então se pode dizer que a nossa maior fraqueza é justamente a nossa maior riqueza: o ser dependente de Deus.
A pessoa humana foi criada pouco abaixo de Deus ; somos chamados filhos de Deus, somos amados por Deus, nosso Pai e Criador; em Jesus Cristo, o Filho de Deus, somos salvos para a vida eterna, mas, somos criaturas que, como todas as outras criaturas, dependem de Deus. A diferença entre nós e as outras criaturas é que fomos criados à imagem e semelhança de Deus, com liberdade, vontade e inteligência até de dizer sim ou não a Deus.
É justamente aqui que entra a ação do Espírito de Deus na nossa vida. Mas o que significa este “Espírito que vem em auxílio à nossa fraqueza”?
Em primeiro lugar, vejamos o Espírito como um mistério de poder e transcendência. O Espírito representa o “numinoso” em estado puro. Justamente, a Seqüência de Pentecostes aplica ao Espírito Santo este conceito, quando esta o invoca dizendo: “Sem o teu poder divino (numen) nada há no homem, nada de inocente” .
A descida do Espírito Santo, no dia de Pentecostes, é intencionalmente descrita com os mesmos traços da teofania do Sinai ; modo, aqui, indireto de afirmar que o mistério do Espírito não é inferior, nem de natureza diferente, do mistério do próprio Deus. Idêntico mistério, idênticos efeitos: os presentes ficam “atônitos”, “estupefatos”, “cheios de espanto”. Antes de atribuir, explicitamente, ao Espírito as mesmas honras e a mesma absoluta soberania de Deus, a Escritura o fez deste modo indireto, mas talvez justamente por isso mais eficaz ainda.
O Espírito Santo é a força dos profetas, dos apóstolos e dos mártires. Falando dos cristãos que tinham que lutar com os leões nas arenas, Tertuliano chama o Espírito Santo de o treinador dos mártires . Cirilo de Alexandria por sua vez escreve: Os mártires dão o seu testemunho graças à força do Espírito Santo .
Não é, portanto, verdade que “coragem, ninguém pode se dar a si mesmo” . Ao menos no plano espiritual é possível “ter coragem”, porque “o Espírito nos auxilia em nossa fraqueza” (Rm 8,26). E a própria fraqueza pode, aliás, ser ocasião privilegiada para fazer a experiência do poder do Espírito Santo. Todas as coisas na Igreja e no fiel cristão individual, ou ganham a força do Espírito Santo ou são impotentes.
Uma determinação fundamental do ser humano, que nunca o abandona, é a sua criaturalidade. Esta é uma dimensão de nossa relação com Deus que nos abrange completamente, o que não significa que seja a única. O mundo que nos circunda é também criatura de Deus e o homem acha-se inserido neste mundo, é parte integrante do cosmos, não está nele como um hóspede em casa estranha. O homem é uma criatura entre as criaturas, mesmo se neste mundo criado ele tenha uma evidente centralidade. É uma criatura particular, sem dúvida, mas a particularidade, embora a determine, de modo algum limita a condição de criatura.
O Espírito Santo na busca de um diálogo ecumênico
Os Padres do Concílio Vaticano II realçaram que a teologia do Espírito Santo estava pouco presente na vida e no pensamento da Igreja. É aqui que a contribuição da Ortodoxia, o testemunho da sua espiritualidade é importante. O Oriente não conheceu a Reforma nem a Contra-Reforma e ele conserva até hoje a Tradição da Igreja indivisa. A teologia bizantina do século XIV põe em realce de modo surpreendente o mistério fulgurante da Transfiguração do Senhor e revela o Espírito Santo repousando no Cristo. Jesus, cheio do Espírito Santo, envia-os aos homens, mas, numa relação inversa, o Espírito age sobre o Cristo, transfigura-o, ressuscita-o e manifesta-o plenamente no momento da Parusia. A epíclese situa-se no seio da vida litúrgica e sacramental. A antropologia da deificação está centrada sobre a pneumatização do ser humano e a sua penetração pelas energias deificantes do Espírito Santo. É o estilo pneumatóforo da santidade, do qual o testemunho mais brilhante é São Serafim de Sarov ensinando a aquisição do Espírito Santo como a finalidade da vida cristã.
A aspiração ecumênica à unidade faz-nos descobrir antes de tudo a desintegração de um só tronco, antes comum, e convida-nos a reatar os laços com a parentela original, quebrando as economias confessionais fechadas. A convergência que se procura da Verdade e da Vida não se pode fazer senão através da redescoberta da Tradição dos Padres. Mas não se trata de uma simples erudição; trata-se, para os teólogos, de uma conversão ao estilo patrístico. O retorno aos Padres significa ir em frente, não os imitando, mas criando com eles, em continuidade fiel com a sua Tradição. Testemunho, segundo São Gregório Nazianzeno, “à maneira dos pescadores (apóstolos), não à maneira de Aristóteles”, nem de Platão, nem de Heidegger. É um apelo a ultrapassar qualquer “fundamentalismo”, seja bíblico ou patrístico ou filosófico, rumo ao jorrar da Água viva do Espírito Santo. Este testemunho só é eficaz através do “vivido” de Deus na experiência da liturgia, testemunho da Igreja orante e por isso mesmo mestra. Já constatamos que os lugares ecumênicos por excelência são as comunidades monásticas.
São Basílio insiste sobre o Espírito Santo como Espírito de comunhão. A epíclese sobre os dons é inseparável da epíclese sobre os fiéis, da conversão dos comungantes. A epíclese ensina assim que a caridade vertical, o amor de Deus, é constitutiva do ser humano ao mesmo título que a caridade horizontal designada pelos Padres como o “sacramento do irmão”. É o equilíbrio perfeito entre “o adorador em espírito e em verdade” e “o servidor dos seus irmãos”. O Espírito Santo clama em nós: “Abba, Pai” e revela em todo homem o rosto humano de Deus.
A integração da história ao Presente eterno, à economia da salvação, atrai a vinda do Reino e inaugura a Parusia já a caminho. À sua luz, os valores da cultura humana passam por um teste apocalíptico, por um ultrapassar dos valores penúltimos pelos valores últimos da existência humana. A escatologia bíblica é qualitativa, ela qualifica a história pelo eschaton e rompe qualquer concepção fechada e estática. A Igreja “em situação histórica” é sempre a Igreja da diáspora, comunidade escatológica a caminho do Reino, mas justamente por isso a caminho através da cidade terrestre; é o sentido da palavra: “Vós não sois do mundo, mas estais no mundo”. Uma falta de presença no mundo é igualmente uma falta de fé evangélica. Deus nunca é uma compensação às fraquezas do homem. Deus surpreende o homem lá onde ele é forte e poderoso, e eis por que o Evangelho deve estar presente em todos os riscos e decisões da condição humana.
A Igreja dos últimos tempos oferecerá àquele que tem fome não as “pedras ideológicas” dos sistemas, nem as “pedras teológicas” dos manuais de escola, mas o “pão dos anjos” e, segundo a bela palavra de Orígenes, “o coração do irmão humano oferecido como puro alimento”. Enviada ao mundo, a Igreja sacerdotal e profética inaugura o diálogo com todos os homens, diálogo que, segundo a expressão de São Gregório Nazianzeno, realiza-se à luz da “metástase” da existência e do “sismo escatológico de conclusão”.
A Igreja se mostrará fiel ao Espírito Santo se ela também for fiel aos homens. Sua estrutura messiânica e carismática tem primazia sobre seu estatuto institucional e mostra-a Pentecostes perpétuo.
Com efeito, na sua realidade última, a Igreja é o sacramento da verdade, ela é como um concílio convocado em permanência na sua vida mística e litúrgica. Elevado à direita do Pai, o Cristo Sumo Sacerdote realizou a sua intercessão sacerdotal. É a sua epíclese permanente junto ao Pai que justamente faz da Igreja um Pentecostes perpétuo. “O Espírito Santo é o grande Doutor da Igreja”, diz São Cirilo de Jerusalém. Doutor, pois é ele que mantém o charisma veritatis certum da Igreja. Assim quando um concílio é proclamado “ecumênico”, ele o é porque o Espírito de Verdade, pela recepção e a própria vida do Povo da Igreja, identificou o Concílio ao Cristo-Verdade.
No dia de Pentecostes, a Igreja nasce e se manifesta na pregação apostólica seguida da primeira eucaristia, celebrada certamente por São Pedro. É da Eucaristia que procede e se institui o sacerdócio como sua condição; o bispo é antes de tudo testemunha da autenticidade da Ceia do Senhor e o bispo é aquele que a preside; ele integra todos os fiéis ao Corpo do Senhor, os constituem todos em Igreja, em sinaxe (união) dos imortais e formula a epíclese da parte de todos. Para a tradição oriental, é esse poder eucarístico, exercido pela primeira vez por São Pedro, que é a “pedra” sobre a qual a Igreja está fundada e que se transmite no poder de qualquer bispo, cada Sé episcopal sendo assim a cathedra Petri na qual cada um e todos os bispos preside em conjunto. São Cipriano em Cartago, porque bispo, considera-se como sucessor direto da cathedra Petri, da qual a função essencial é justamente o poder de presidir a eucaristia.
Segundo São João Damasceno, “as três Pessoas divinas estão unidas, não para se confundirem, mas para se conterem reciprocamente”. Cada Pessoa é uma maneira única de ter a mesma essência, de recebê-la dos Outros, de dá-la aos Outros e assim de estabelecer os Outros na eterna circulação do Amor divino. O Pai assegura a unidade sem destruir a igualdade perfeita dos Três, o que exclui qualquer submissão subordinacionista e mostra magnificamente no Pai Aquele que preside no Amor trinitário.
A esta “imagem condutora”, segundo Santo Inácio de Antioquia, na comunhão das Igrejas perfeitamente iguais em função da plenitude da eucaristia episcopal, na qual cada uma é “Igreja de Deus”, uma preside no amor. É o carisma particular da autoridade de honra cuja finalidade é assegurar a unidade de todas as Igrejas, carisma de amor à imagem da Paternidade celeste. Antes da separação, a Igreja de Roma gozava desse carisma e o papa era o Pai à imagem do Pai celeste e, por isso justamente, despojado de qualquer poder jurisdicional sobre os outros. Tal é a fé da Igreja ortodoxa, a fé dos seus Padres.
À sua luz, o objetivo procurado pelo ecumenismo seria o acordo da fé das três Igrejas (romana, ortodoxa, protestante), do qual a unidade e a perfeita igualdade refletiam, como num espelho, o Mistério das Três Pessoas divinas. O Espírito Santo, o Espírito de comunhão fará Dom da sua alegria na qual as Três Igrejas se comprazerão em conjunto e, de cada Igreja, o Espírito fará Dom às outras.
As Igrejas serão unidas não para se confundirem, mas para se conterem reciprocamente. Cada Igreja será uma maneira única de possuir a mesma essência teândrica, de recebê-la das outras, de dá-la às outras e assim elas se estabelecerão todas juntas na circum-incessão incessante do Amor divino.
O Espírito Santo e a evangelização
Logo depois de o Espírito Santo ter descido sobre os Apóstolos no dia do Pentecostes, eles “começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes dava o poder de se exprimirem” (cf. Act 2,4). Pode-se, portanto, dizer que a Igreja, no momento mesmo em que nasce, recebe como Dom do Espírito a capacidade de “anunciar as maravilhas de Deus” (Act 2,11): é o dom de evangelizar. Este fato implica e revela uma lei fundamental da história da salvação: não se pode em síntese falar do Senhor e em nome do Senhor, sem a graça e o poder do Espírito Santo. Ao servimo-nos de uma analogia biológica, poderíamos dizer assim como a palavra humana é veiculada pelo sopro humano, assim também a Palavra de Deus é transmitida pelo sopro de Deus, pelo seu ruah ou pneuma, que é o Espírito Santo.
Este ligame entre o Espírito de Deus e a palavra divina pode-se notar já na experiência dos antigos profetas. “A chamada de Ezequiel é descrita como a infusão de um “espírito” na pessoa: O Senhor disse-me:” Filho do homem, põe-te de pé; vou falar-te. “O espírito penetrou em mim, enquanto me falava, e mandou-me pôr de pé; e ouvi alguém que me chamava”. (Ez 2,1-2). No livro de Isaías lê-se que o futuro servo do Senhor proclamará o direito às nações, precisamente porque o Senhor pôs o Seu espírito sobre ele (cf. 42,1). Segundo o profeta Joel, os tempos messiânicos serão caracterizados por uma universal efusão do Espírito: “Depois disto, acontecerá que derramarei o Meu Espírito sobre toda a carne” (Jl 3,1); por efeito desta comunicação do Espírito, “os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão” (ibid).
Em Jesus, o ligame Espírito-Palavra atinge o vértice: de fato, Ele é a própria Palavra que Se fez carne “por obra do Espírito Santo”. Começa a pregar “com o poder do Espírito Santo” (cf. Lc 4,14 ss.). Em Nazaré, na Sua pregação inaugural aplica a Si a passagem de Isaías: “O Espírito do Senhor está sobre Mim (…) enviou-Me para anunciar a Boa Nova aos pobres” (Lc 4,18). Como ressalta o quarto Evangelho, a missão de Jesus, “Aquele que Deus enviou” e “profere as palavras de Deus”, é fruto do Dom do Espírito, que Ele recebeu e dá “sem medida” (cf. Jo 3,34). Ao aparecer aos Seus no cenáculo na tarde da Páscoa, Jesus faz o gesto muito expressivo de “soprar” sobre eles, dizendo: “Recebei o Espírito Santo” (cf. Jo 20, 21´22). Sobre aquele sopro se desenvolve a vida da Igreja. “O Espírito Santo é o protagonista de toda a missão eclesial” (Redempt. Miss., 21). A Igreja anuncia o Evangelho graças à Sua presença e à Sua força salvífica. Ao dirigir-se aos cristãos de Tessalônica, São Paulo afirma: “O nosso Evangelho não vos foi pregado somente com palavras, mas também com poder e com o Espírito Santo” (1 Ts 1,5). São Pedro define os apóstolos “aqueles que anunciaram o Evangelho no Espírito Santo” (1 Pd 1,12). Mas o que significa “evangelizar no Espírito Santo?” Sinteticamente, pode-se dizer: significa evangelizar na força, na novidade, na unidade do Espírito Santo.
Evangelizar na força do Espírito quer dizer ser investido daquele poder que se manifestou de modo supremo na atividade evangélica de Jesus. O Evangelho diz-nos que os ouvintes se maravilharam com Ele, porque “lhes ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas” (Mc 1,22). A palavra de Jesus “expulsa os demônios, aplaca as tempestades, cura dos doentes, perdoa os pecadores, ressuscita os mortos. A autoridade de Jesus é comunicada pelo Espírito, como Dom pascal, à Igreja. Vemos assim os apóstolos ricos de parusia, ou seja, daquela franqueza que os faz falar de Jesus sem medo. Os adversários ficam maravilhados com isto”, considerando que eram iletrados e plebeus “(Act 4,13). Também Paulo, graças ao Dom do Espírito da Nova Aliança, pode afirmar com toda a verdade:” Tendo, pois, esta esperança, agimos com plena segurança “(2 Cor 3,12). Esta força do Espírito é mais do que nunca necessária ao cristão do nosso tempo, ao qual é pedido que dê testemunho da sua fé num mundo com freqüência indiferente, se não hostil, fortemente marcado como está pelo relativismo e pelo hedonismo. E uma força de que têm necessidade sobretudo os pregadores, que devem re-propor o Evangelho sem ceder a compromissos e falas tergiversações, anunciando a verdade de Cristo “oportuna e inoportunamente” (2 Tm 4,2).
O Espírito Santo assegura ao anúncio também um caráter de atualidade sempre renovada, a fim de que a pregação não decaia em vazia repetição de fórmulas e em inexpressiva aplicação de métodos. Com efeito, os pregadores devem estar ao serviço da “Nova Aliança”, a qual não é “da letra”, que faz morrer, mas “do Espírito”, que faz viver (cf. 2 Cor 3,6). Não se trata de propagar o “regime antigo da letra”, mas o “regime novo do Espírito” (cf. Rm 7,6). É uma exigência hoje particularmente vital para a “nova evangelização”. Esta será deveras “nova” no fervor, nos métodos, nas expressões, se aquele que anuncia as maravilhas de Deus e fala em nome d’Ele, tiver antes escutado Deus tornando-se dócil ao Espírito Santo. Fundamental é, portanto, a contemplação feita de escuta e oração. “Se o anunciador não ora, acabará por pregar a si mesmo” (cf. 2 Cor 4,5) e as suas palavras reduzir-se-ão a “conversas vãs e profanas” (cf. 2 Tm 2,16).
O Espírito, por fim, acompanha e estimula a Igreja a evangelizar na unidade, construindo a unidade. O Pentecostes aconteceu quando os discípulos “se encontravam todos reunidos no mesmo lugar” (Act 2,1) e se entregavam “(todos)… assiduamente à oração” (ibid, 1,14). Depois de ter recebido o Espírito Santo, Pedro pronuncia o primeiro discurso à multidão, “de pé, com os Onze” (ibid, 2, 14): é o ícone dum anúncio coral, que assim deve permanecer também quando os anunciadores estiverem dispersos pelo mundo. Anunciar Cristo sob o impulso do único Espírito, no limiar do terceiro milênio, implica para todos os cristãos um esforço concreto e generoso em prol da plena comunhão. E o grande empreendimento do ecumenismo, a ser ajudado com sempre renovada esperança e eficaz empenho, embora os tempos e os êxitos estejam nas mãos do Pai, que nos pede humilde prontidão ao acolher os Seus desígnios e as inspirações interiores do Espírito.
O Espírito Santo principio de santificação
O gesto de Jesus, que na noite da Páscoa “soprou” sobre os Apóstolos comunicando-lhes o Espírito Santo (cf. Jo 20, 21´22), evoca a criação do homem, descrito pelo Gênesis como a comunicação de “um sopro de vida” (2,7). O Espírito Santo é como o “respiro” do Ressuscitado, que infunde a nova vida na Igreja representada pelos primeiros discípulos. O sinal mais evidente desta nova vida é o poder de perdoar os pecados. Efetivamente, Jesus diz: “Recebei o Espírito Santo. Os pecados daqueles que perdoardes, serão perdoados. Os pecados daqueles que não perdoardes, não serão perdoados”. (Jo 20, 22´23). Quando se efunde “o Espírito de Santificação” (Rm 1,4), destrói-se o que se opõe à santidade, ou seja, o pecado. Segundo a palavra de Cristo, o Espírito Santo é aquele que “convence o mundo do pecado” (Jo 16,8). Ele faz com que se tome consciência do pecado, mas ao mesmo tempo é Ele mesmo que perdoa os pecados. A este propósito, S. Tomás observa: “Dado que é o Espírito Santo que funda a nossa amizade com Deus, é normal que por meio d’Ele Deus perdoem os nossos pecados” (Contr. Gent. 4,21,11).
O Espírito do Senhor não só destrói o pecado, mas realiza também uma santificação e divinização do homem. Deus “escolheu-nos – diz São Paulo – desde o princípio, para a salvação pela ação santificadora do Espírito e pela fé que vem da verdade” (cf. 2 Ts 2,13). Vejamos mais de perto em que consiste esta “santificação-divinização”. O Espírito Santo é “Pessoa-Amor. É Pessoa-Dom” (Dominum et vivificantem, 10). Este amor concedido pelo Pai, recebido e retribuído pelo Filho, é comunicado ao homem remido, que assim se torna “homem novo” (Ef 4,24), “nova criação” (Gl 6,15). Nós, cristãos, somos não só purificados do pecado, mas também regenerados e santificados. Recebemos uma nova vida, porque nos tornamos “participantes da natureza divina” (2 Pd 1,4): somos “chamados filhos de Deus. E somo-lo de fato!” (1 Jo 3,1). É a vida da graça: o dom gratuito com que Deus nos faz partícipes da sua vida trinitária. As três Pessoas divinas, na sua relação com os batizados, não devem ser separadas – porque cada um age sempre em comunhão com as outras – nem confundidas, pois cada Pessoa se comunica enquanto Pessoa. Na reflexão sobre a graça, é importante evitar concebê-la como uma “coisa”. Ela é, “antes de tudo e principalmente o dom do Espírito que nos justifica e nos santifica” (Catecismo da Igreja Católica, nº. 2003). É a dádiva do Espírito Santo que nos assimila ao Filho e nos coloca em relação filial com o Pai: no único Espírito, através de Cristo, temos acesso ao Pai (cf. Ef. 2,18).
A presença do Espírito Santo realiza uma transformação que atinge o homem verdadeira e intimamente: é a graça santificadora ou deificadora que eleva o nosso ser e o nosso agir, tornando-nos capazes de viver em relação com a Santíssima Trindade. Isto acontece mediante as virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade, que “adaptam as faculdades do homem à participação da natureza divina” (Catecismo da Igreja Católica, 1812). Assim, mediante a fé o crente considera Deus, os irmãos e a história não simplesmente segundo a perspectiva da razão, mas sob o ponto de vista da revelação divina. Com a esperança, o homem olha para o futuro com certeza confiante e ativa, esperando contra toda a esperança (cf. Rm 4, 18), com o olhar fixo na meta da bem-aventurança eterna e da plena realização do Reino de Deus. Com a caridade, o discípulo compromete-se em amar a Deus com todo o coração e o próximo como o Senhor Jesus nos amou, ou seja, até ao Dom total de si mesmo.
A santificação de cada fiel verifica-se sempre através da incorporação na Igreja. “A vida de cada filho de Deus em Cristo e mediante Cristo está vinculada com laços maravilhosos à vida de todos os outros irmãos cristãos, na unidade sobrenatural do Corpo místico de Cristo, até quase a formar uma única pessoa mística” (Paulo VI, Const. Apost. Indulgentiarum doctrina, 5). Este é o mistério da comunhão dos Santos. Um vínculo perene de caridade une todos os “santos”, tanto àqueles que já alcançaram a pátria celeste ou que ainda se estão a purificar no Purgatório, como aqueles que ainda são peregrinos na terra. Entre estes, existe também abundante intercâmbio de bens, a tal ponto que a santidade de um beneficia todos. S. Tomás afirma: “quem vive na caridade, participa em todo o bem que se faz no mundo” (In Symb, Apost.), e ainda: “O ato de um realiza-se mediante a caridade do outro, daquela caridade por meio da qual todos nós somos um só em Cristo” (In IV Sent. d. 20, ª2; q. 3 ad 1).
O Concílio recordou que “todos os fiéis, seja qual for o seu estado ou classe, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade” (Lúmen gentium, 40). Concretamente, para cada fiel o caminho para se tornar santo é o da fidelidade à vontade de Deus, como no-lo exprimem a sua Palavra, os mandamentos e as inspirações do Espírito Santo. Assim como para Maria e para todos os santos, também para nós a perfeição da caridade consiste no abandono confiante nas mãos do Pai, segundo o exemplo de Jesus. Isto se torna mais uma vez possível graças ao Espírito Santo, que também nos momentos mais difíceis nos faz repetir com Jesus: “Eis-me aqui para fazer a tua vontade” (cf. Hb 10,7).
Esta santidade reflete-se de forma própria na vida religiosa, na qual a consagração batismal é vivida no compromisso de um seguimento radical do Senhor, através dos conselhos evangélicos de castidade, pobreza e obediência. “Assim como toda a existência cristã, também a vocação à vida consagrada está intimamente relacionada com a obra do Espírito Santo. É Ele que, pelos milênios fora, sempre induz novas pessoas a sentirem a atração por uma opção tão comprometedora (…). É o Espírito que suscita o desejo de uma resposta cabal; é Ele que guia o crescimento deste anseio, fazendo amadurecer a resposta positiva e sustentando depois a sua fiel realização; é Ele que forma e plasma o espírito dos que são chamados, configurando-os a Cristo casto, pobre e obediente, impelindo-os a assumirem a sua missão”. (Exortação Apostólica Vita Consecrata, 19). Uma eminente expressão de santidade, que se torna possível mediante a força do Espírito Santo, é o martírio, supremo testemunho do Senhor Jesus, dado com o sangue. Mas uma significativa e fecunda forma de testemunho é já o compromisso cristão, vivido nas várias condições de vida, dia a dia numa radical fidelidade ao mandamento do amor.
Algumas condições para recebermos e perseverarmos na vida carismática:
Os Carismas do Espírito, concedidos a todos por ocasião do Batismo e intensificados na crisma, também são “chamados”. O Espírito Santo nos capacita com estes dons para servirmos à Igreja de Cristo, através dos irmãos. Os carismas são, portanto dons de poder para o serviço da comunidade cristã.
Algumas condições para recebermos e perseverarmos na vida carismática:
- Simplicidade e pureza de coração
- Assiduidade da meditação da Palavra de Deus
- Vida de oração
- Desejo de servir aos irmãos como Jesus (Lc 22, 27)
- Perseverança à recepção dos dons espirituais (sempre abertos para sermos canais à ação e poder do Espírito em nós).
O Pentecostes e a Igreja
Na última ceia Jesus dissera aos Apóstolos: “Contudo, digo-vos a verdade: convém-vos que Eu vá; porque, se Eu não for enviar-vo-lo-ei” (Jo 16,7). Na tarde do dia da Páscoa Jesus mantém a promessa: aparece aos Onze reunidos no cenáculo, sopra sobre eles e diz: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22). Cinqüenta dias depois, no Pentecostes, tem-se “a definitiva manifestação daquilo que se realizara no mesmo cenáculo já no Domingo de Páscoa” (Dom. et. viv. 25). O livro dos Atos dos Apóstolos conservou-nos a descrição do evento (cf. 2,1-4). Ao refletirmos sobre este texto, podemos perceber algum traço da misteriosa identidade do Espírito Santo.
É importante, antes de tudo, captar o nexo entre a festa judaica do Pentecostes e o primeiro Pentecostes cristão. No início o Pentecostes era a festa das sete semanas (cf. Tb. 2,1), a festa da colheita (cf. Ex. 23,16), quando se oferecia a Deus as primícias do trigo (cf. Nm 28,26; Dt 16,9). Sucessivamente recebeu um novo significado: tornou-se a festa da aliança que Deus estabelecera com o Seu povo no Sinai, quando tinha dado a Israel a Sua lei. São Lucas narra o evento do Pentecostes como uma teomania, uma manifestação de Deus análoga à do monte Sinai (cf. Êx. 19,16-25): rumor fragoroso, vento forte, línguas de fogo. A mensagem é clara: o Pentecostes é o novo Sinai, e o Espírito Santo é a nova aliança, e o Dom da nova lei. De modo penetrante Santo Agostinho capta este ligame: “Há um grande e maravilhoso mistério, irmãos: se prestardes atenção, no dia de Pentecostes (os judeus) receberam a lei escrita com o dedo de Deus e no mesmo dia de Pentecostes vem o Espírito Santo” (Serv. Mai 158,4). E um Padre do Oriente, Severiano de Gábala, anota: “Era conveniente que no dia em que foi dada a lei antiga, naquele mesmo dia fosse dada a graça do Espírito Santo” (Cat. in Act. Apost. 2,1).
Cumpre-se assim a promessa feita aos antepassados. Lemos no profeta Jeremias: “Esta será a Aliança que farei com a casa de Israel – oráculo do Senhor: imprimirei a Minha Lei, gravá-la-ei no seu coração” (31,33). E no profeta Ezequiel: “Dar-vos-ei um coração novo e introduzirei em vós um espírito novo: arrancarei do vosso peito o coração de pedra e vos darei um coração de carne. Dentro de vós porei o Meu espírito, fazendo com que sigais as Minhas leis e obedeçais aos Meus preceitos” (36 26-27). De que modo o Espírito Santo constitui a nova e eterna aliança? Arrancando o pecado e derramando no coração do homem o amor de Deus: “A lei do Espírito de vida em Cristo Jesus libertou-me da lei do pecado e da morte” (Rm 8,2). A lei mosaica indicava obrigações, mas não podia mudar o coração do homem. Era necessário um coração novo, e é precisamente aquilo que Deus nos oferece em virtude da redenção operada por Jesus. O Pai arranca o nosso coração de pedra e dá-nos um coração de carne, como o de Jesus, animado pelo Espírito Santo que nos faz agir por amor (cf. Rm 5,5). Com base neste Dom se instaura a nova aliança entre Deus e a humanidade. S. Tomás afirma de modo incisivo que o próprio Espírito Santo é a Nova Aliança, operando em nós o amor, plenitude da lei (cf. Comem. in 2 Cor 3,6).
No Pentecostes desce o Espírito e nasce a Igreja. A Igreja é a comunidade daqueles que “renasceram do alto”, “da água e do Espírito”, como se lê no Evangelho de João (cf. 3,35). Antes de tudo a comunidade cristã não é o resultado da livre decisão dos crentes; na sua origem há primariamente a gratuita iniciativa do Amor de Deus, que oferece o Dom do Espírito Santo. O assentimento da fé a este Dom de amor é “resposta” à graça e, ele mesmo, é suscitado pela graça. Entre o Espírito Santo e a Igreja existe, portanto, um ligame profundo e indissolúvel. A respeito disso, diz Santo Irineu: “Onde está a Igreja, ali está também o Espírito de Deus; e onde está o Espírito do Senhor, ali está a Igreja e toda a graça”. (Adv. Haer. 3, 24.1). Compreende-se, então, a arrojada expressão de Santo Agostinho: Tem-se tanto Espírito Santo quanto se ama a Igreja “. (IN Io. 32,8). A narração do evento do Pentecostes ressalta que a Igreja nasce universal: é este o sentido do elenco dos povos – Partos, Medos, Elamitas… (cf. Act 2,9´11) – que escutam o primeiro anúncio feito por Pedro. O Espírito Santo é dado a todos os homens de qualquer raça e nação, e realiza neles a nova unidade do Corpo místico de Cristo. São João Crisóstomo põe em evidência a comunhão operada pelo Espírito Santo, com esta concreta observação:” Quem vive em Roma sabe que os habitantes das Índias são seus membros “(In Io. 65, 1; PG 59,361).
Do fato que o Espírito Santo é “a nova aliança”, deriva que a obra da terceira Pessoa da Santíssima Trindade consiste em tornar presente o Senhor Ressuscitado e, com Ele, Deus Pai. Com efeito, o Espírito exerce a sua ação salvífica tornando imediata a presença de Deus. Nisto consiste a nova e eterna aliança: Deus já Se tornou alcançável para cada um de nós. Cada um, “desde o menor até o maior” (cf. Jr 31, 34), está dotado, em certo sentido, do conhecimento direto do Senhor, como lemos na primeira carta de São João: “Quanto a vós, a unção que d’Ele recebestes permanece em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas, como a Sua unção vos ensina todas as coisas, e é verdadeira e não é mentirosa, permanece n’Ele como ela vos ensinou” (2,27). Cumpre-se assim a promessa feita por Jesus aos Seus discípulos durante a última ceia: “O Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em Meu nome, este ensinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito” (Jo 14,26). Graças ao Espírito Santo, o nosso encontro com o Senhor acontece no tecido ordinário da existência filial, no “face a face” da amizade, fazendo experiência de Deus como Pai, Irmão, Amigo e Esposo. Este é o Pentecostes. Esta é a Nova Aliança.