Os dias estão intensos no cenário político brasileiros. No umbigo do furacão está a gravação de um telefonema em que a Presidente Dilma deu ao presidente Lula às vésperas de sua posse. Veja o texto repetido à exaustão pelos meios de comunicação:

– Dilma: Alô
– Lula: Alô
– Dilma: Lula, deixa eu te falar uma coisa.
– Lula: Fala, querida. Ahn
– Dilma: Seguinte, eu tô mandando o ‘Bessias’ junto com o papel pra gente ter ele, e só usa em caso de necessidade, que é o termo de posse, tá?!
– Lula: Uhum. Tá bom, tá bom.
– Dilma: Só isso, você espera aí que ele tá indo aí.
– Lula: Tá bom, eu tô aqui, fico aguardando.
– Dilma: Tá?!
– Lula: Tá bom.
– Dilma: Tchau.
– Lula: Tchau, querida.

Segundo alguns juristas foi uma clara tentativa da presidente de obstruir uma eventual ação da justiça na pessoa do Juiz Sérgio Moro, no sentido de pedir a prisão preventiva do Lula.

No discurso de posse do ex-presidente Lula como Ministro da Casa Civil, Dilma falou com o papel na mão que a interpretação de nomear o Lula como ministro para garantir o foro privilegiado e fugir da jurisdição do Sérgio Moro, é sem fundamento pois ela guarda como “prova” a folha da nomeação assinada pelo Lula, porém sem a sua assinatura.

NÃO ENTENDI

Se era apenas para documentar a posse no caso de Lula não poder comparecer a Brasília por problemas familiares, por que ela disse ao Lula para ficar com o papel e só usar em caso de necessidade? Não seria o caso de colher a assinatura e levar para Brasília para que ela, assinando, caracterizasse a posse no momento adequado, mesmo na ausência do Lula?

Mas o que ela diz em alto e bom om no telefonema é: “só usa em caso de necessidade, que é o termo de posse, tá?!” A conversa teria sido editada de modo criminoso e perverso e depois divulgada? Somente a perícia criminal poderá afirmar isso.

Mas caso o objetivo tenha sido mesmo evitar a prisão preventiva do Lula, Dilma acabou produzindo uma prova contra si mesma que pode ser usada no caso de impeachment (alguém pode inventar uma palavra mais fácil para o afastamento da presidente?)

 

Acabo de responder à uma entrevista sobre o atual momento em que passamos no Brasil. Sairá no ZENIT. Socializo a íntegra aqui no BLOG:

1- Qual deveria ser, na sua opinião, a atitude dos sacerdotes do Brasil perante a conjuntura política atual do Brasil? Só um bispo se pronunciou ontem pelo facebook, Dom Henrique Soares. 
Em primeiro lugar é preciso estar atento aos fatos e procurando fontes seguras de informação. O perigo neste momento é deixar-se levar pela paixão. Mas objetivamente a situação é grave. A crise política criou o cenário ideal para o desenvolvimento da crise econômica que acabou se agravando em crise financeira. Mas no fundo de tudo está uma crise moral. O Brasil é forçado a olhar no espelho e ver a sua história de corrupção que toma nossas instituições de alto a baixo. Mas isso não resiste à aplicação formal da lei. Neste momento em que o Executivo e o Legislativo estão completamente perdidos e desmoralizados, o judiciário exerce seu papel gerando um pouco de esperança. Precisamos apoiar  decididamente o judiciário.
2- Como a Igreja Católica no Brasil pode ajudar nesse processo de conscientização política da população? 
 Uma manifestação clara da CNBB pode ajudar. Mas penso que a postura dos bispos e padres de modo capilarizado é mais eficaz. É missão do cristão atuar como luz do mundo e sal da terra. Hoje existe um vácuo de poder. Sabemos que o que está aí não nos agrada. Mas existe um projeto de país? Qual é? Que lideranças estamos preparando para assumir nossas prefeituras, câmaras… etc. É preciso promover a formação de lideres íntegros que possam assumir o país nos próximos anos. Quem vai à Igreja “só” para rezar não rezará. A mística sem a militância é estéril e cínica.
3- Um sacerdote, um clérigo, não é, sem dúvida um agente público de nenhum governo, mas, ainda assim, ele tem alguma função política em uma nação, ou só rezar? 
Tenho RG, CPF e Título de Eleitor. Pago Imposto de Renda. Sou um cidadão livre. Se eu falar demais pode deixar que meu superior religioso e meu bispo irá me advertir. É preciso deixar claro quando você fala em nome próprio e quando fala em nome da Igreja. Para exprimir posições políticas uso minha mídia própria: Twitter, Face, etc. Você não me ouvirá manifestar posições político partidárias em uma homilia ou em um canal de TV.
4- Como cidadãos, na sua opinião, os clérigos deveriam apoiar o povo nessa hora? Como? 
O padre é casado com o povo. Não pode deixar o povo só. Tem que ouvir e ajudar a discernir.
5- O que significa a paz? Só uma ausência de guerra? 
Paz é equilíbrio vital. É recuperar a graça original. O pecado corrompeu a humanidade. É preciso restaurar, reparar, recuperar a dignidade. A construção da paz passa pela não-violência ativa. Precisamos superar o “olho por olho” e promover a cultura do diálogo: do “olho no olho”!
6- Que mensagem você daria, como sacerdote, aos brasileiros, nesse momento político único e inédito que estamos vivendo?
Após as tragédias políticas de ontem só consigo pensar na regra de discernimento da primeira semana dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio: “O inimigo age como um sedutor, ao querer ficar oculto e não ser descoberto. pois o homem corrupto, quando solicita por palavras para um fim mau a filha de um pai honrado ou a mulher de um bom marido, quer que suas palavras e insinuações fiquem em segredo. Ao contrário muito se descontenta quando a filha revela ao pai ou a mulher ao marido suas palavras sedutoras e intenção depravada, pois facilmente conclui que não poderá levar a termo o empreendimento começado. Da mesma mesma forma, quando o inimigo da natureza humana apresenta suas astúcias e insinuações à alma justa, quer e deseja que sejam recebidas e guardadas em segredo. Mas quando a pessoa tentada as descobre a seu bom confessor ou a outra pessoa espiritual, que conheça seus enganos e malícias, isso lhe causa grande pesar, porque conclui que não poderá realizar o mal que começara, uma vez que foram descobertos seus enganos evidentes.” (Santo Inácio de Loyola 1491-1556)

“Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Amós 5,24). Eis o desejo de Deus, pela boca do Profeta Amós. E isso é possível? Sim, é possível! Deus nos criou, criou a Mãe Terra capaz de alimentar todos os seus filhos, e com saúde. Parece-me que nós, pessoas, estamos vivendo contra a lógica da vida: não cuidamos do mundo, nossa casa comum, não cultivamos o jardim de Deus.

Neste ano de 2016, celebramos uma Campanha da Fraternidade Ecumênica, com o tema “Casa Comum: nossa responsabilidade” e o lema “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca”. O objetivo geral desta Campanha da Fraternidade é “assegurar o direito ao saneamento básico para todas as pessoas e empenhar-nos, à luz da fé, por políticas e atitudes responsáveis que garantam a integridade e o futuro de nossa Casa Comum” (TB, 26).

O saneamento básico é um direito humano fundamental, e requer a união de esforços de todos; inclui os serviços públicos de abastecimento de água, o manejo adequado dos esgotos sanitários, das águas pluviais, dos resíduos sólidos, o controle de reservatórios e dos agentes transmissores de doença (TB, 32).

Alguns dados para você se sensibilizar, buscar mais informações e criar novos hábitos:

– O maior problema do saneamento básico, hoje, é a fome;

– Uma criança morre a cada 2,5 minutos por não ter acesso à água potável, por falta de redes de esgotos e por falta de higiene;

– 18% da população brasileira ainda não têm acesso à água tratada. Mais de 100 milhões de brasileiros não possuem coleta de esgotos;

– No mundo, um bilhão de pessoas fazem suas necessidades a céu aberto;

– Na América Latina, as pessoas têm mais acesso aos celulares do que aos banheiros.

O saneamento básico não é um detalhe na vida. É necessidade imperativa para que nós, filhos de Deus, possamos ter a vida saudável que Deus quer para todos. Por isso, nosso Papa Francisco insiste tanto no direito aos três “T”: terra, trabalho e teto.

A Campanha da Fraternidade 2016 propõe um olhar mais amoroso para o planeta e para a natureza, criando assim uma consciência fraterna e lembrando que nossos recursos são limitados e precisamos cuidar bem deles para que possamos viver bem. Cuidemos do ambiente e das pessoas!

 

Dom João Inácio Müller – Bispo da diocese de Lorena(SP) e articulista da Revista Canção Nova.

 

DE VOLTA AO PRIMEIRO AMOR

diego_fernandes_volte_ao_primeiro_amorDiego Fernandes sabe exatamente o que quer dizer ao cantar… e diz! Consegue a difícil química de unir o conteúdo denso com linhas melódicas não convencionais que grudam no ouvido e letras que ecoam nos lábios da juventude de maneira quase “viciante”. O resultado é a capacidade de um encantador da massa sem perder a capacidade de falar para cada um e provocar um avanço reflexivo para águas mais profundas. É dançante e reflexivo. É movimentado e extasiante. É metálico e romântico. É gritado e sussurrado. É uma pedra rolando em câmera lenta. É pesado e leve. É rock e toque. É sujo como ao vivo e sofisticado como de estúdio. É repleto de gírias e tem português bem corrigido na norma culta. É carismático e libertador. É pé-no-chão com o coração no céu. Convenhamos que esta alquimia não é fácil nem frequente. “Volta ao primeiro amor” não é um pouco mais do mesmo, apesar de Diego Fernandes se dar ao luxo de navegar no limite do senso comum. O que o salva de ter feito apenas mais um produto ao gosto do mercado é o carisma que o move unido ao estudo intenso que precede cada uma de suas composições. Por isso, apesar do som redondo e agradável, da mixagem esperada, nos instrumentos bem colocados e das vozes extremamente estudadas, o CD do Diego é, na verdade, um instrumento de catequese. Prova disso é que se distingue cada palavra. A voz do cantor em primeiro plano é para poucos. A ordem das músicas conduz da rua para a intimidade do coração; do encontro com os irmãos para o sacrário interior onde o “Deus é mais íntimo a nós que nós mesmos” (Santo Agostinho). Mas após este repouso musical Diego reaparece tirando todos da catarse e levando de volta para a luta, ou seja, para a missão. Porque se faltar o pão a fé me anima a lutar para que a salvação comece já na mesa dos famintos. Bem… nem tudo é perfeito. No próximo CD teremos um pouco mais de Doutrina Social da Igreja. Diego é um jovem inquieto e carismático e minha missão é também pro-vocar. #ProntoFalei.

Pe. Joãozinho, scj

Teólogo e comunicador

Dai-nos, Senhor, os dons do vosso Espírito
para aconselhar na hora da decisão,
educar com inteligência e exortar
com a mansidão de quem teme a Deus;
dai-nos a ciência da ternura para consolar os aflitos
e a sabedoria para perdoar quem nos ofendeu;
fortalecei-nos para suportar com paciência
as pessoas que nos são mais difíceis
e infundi em nós a piedade
para rezarmos por todos os nossos irmãos e irmãs,
que vivem nesta terra
e os que já estão na vida eterna. Amém!

(Prece composta por Pe. Joãozinho, scj e que une as obras de misericórdia espirituais com os sete dons do Espírito Santo)

Numa terra muito distante havia um rei que vivia feliz com seu povo. A terra era generosa em flores, frutos e animais de toda espécie. A água brotava generosamente de fontes que saciavam a todos. A paisagem era paradisíaca. As riquezas naturais eram tantas que eles nem se importavam com outras riquezas que dormiam embaixo de seus pés: ouro, prata e ferros e todo tipo de metais que não faziam a menor diferença para o povo do reino de Miraflores.

Mas um dia chegaram magos do oriente e pediram para falar com o rei. Vieram com o mapa da mina. Tinham uma conversa sedutora. Diziam que o país era pobre e precisava explorar os minérios para ficar entre as primeiras nações do planeta. Os milagres eram fantásticos. Chegaram a sugerir que se mudasse o nome do país para Miraferro. O rei ouviu atentamente e no final fez apenas uma pergunta: “Mas onde seriam colocados os rejeitos da mineração? Afinal, toda riqueza exagerada produz algum lixo! Onde este resíduo seria depositado para sempre?

Os magos trouxeram longos projetos que descreviam uma engenhoca feita de balões lixeiros. O rei ficou admirado. Não sabia se estava entendendo bem. O lixo seria guardado no céu? Em cestos de balões? Sim. Mas com absoluta segurança. E onde ficariam os balões? Os magos explicaram que ficariam sobre as cidades, florestas, rios e mares. O rei ficou desconfiado. Mas seria seguro? Não existe risco de um destes balões cair sobre a cidade ou mesmo sobre o Rio Maravilha que corta o reino? Os técnicos explicaram detalhadamente que o risco seria de apenas 1%. Desprezível. O rei consultou sua corte. Os nobres nem esperaram falar do risco. Todos estavam convencidos que o projeto era ótimo, pois na véspera haviam recebido dezenas de presentes dos Magos: roupa nova, carro novo, casa nova. Estavam literalmente a favor. O rei, então, autorizou o começo da mineração.

No começo tudo foi muito tranquilo. Um grande progresso chegou ao reino. Os exploradores eram discretos e os balões-lixo ficavam fora das vistas do povo. E, como sabemos, o coração não sente o que os olhos não veem. Mas os anos se passaram e o lixo foi aumentando. Aos poucos era possível ver os balões sobre a cidade e, principalmente, ao longo de todo o Rio Maravilha. Os técnicos diziam que, com isso, reduziriam os danos. O rei chegou a perguntar: “mas que dano?”. No caso de algum balão cair, explicaram. O rei disse assustado: “Mas existe risco?!” Eles responderam: “acalme-se… nada mais do que 5%”.

Um dia o povo começou a estranhar que o sol não nasceu. Todos saíram para a rua e viram que existia tamanha quantidade de balões que já não era possível ver o sol. Os Magos compraram mais casas para os nobres e construíram um palácio novo para o rei e até para os pretendentes de rei. Todos, então, ficaram calmos, sob a sombra da tragédia iminente, afinal, o risco não ultrapassava 10%.

Mas aconteceu o que ninguém esperava. Um dos balões caiu sobre o Rio Maravilha. Algumas pessoas foram atingidas pela chuva de lama tóxica. Logo os técnicos foram a rei explicar que o plano havia dado certo. A cidade nada sofrera. O balão tinha caído sobre o Rio. Logo a lama desapareceria e a vida voltaria ao normal. Passaram-se os dias e a lama continuou avançando. Matou os peixes e as esperanças dos pescadores. Os indígenas viram seu rio sagrado morrer. Cidades ficaram sem água e o comércio foi atingido. A vida no reino nunca mais foi a mesma. As flores pararam de sorrir. Tartarugas fugiram no momento da desova. Caranguejos foram assassinados no mangue. A flora que habitava feliz abaixo das águas do doce rio foi exterminada cruelmente. Os rejeitos chegaram ao mar e atingiram o mundo inteiro.

O rei ficou muito triste e decretou que, na verdade, se tratava de um lamentável desastre natural. A corte fez cara de poucos amigos, mas preferiu manter as casas e carros recebidos da mineradora. A cidade ficou confusa, pois estava totalmente dependente da mineradora. Os pássaros não tinham mais onde pousar. Alguém explicou na escola para as crianças que um dia Miraferro já havia sido Miraflores. Um menino qualquer perguntou: “E onde estão as flores, professora?”

Então o rei chamou os magos e perguntou: “O que faremos com os outros 700 balões que estão sobre nossas cabeças? Eles responderam: Não se preocupe majestade. O risco é de apenas 1%. E viveram infelizes para sempre no reino de Miralama.

 

Neste dia de Santa Cecília, padroeira dos músicos, gostaria de entrar no coração desta mártir dos primórdios do cristianismo (século II) e aprender com ela duas lições muito fortes na vida da primeira cantora do cristianismo: Maria. Duas mulheres e duas lições. São como as duas mãos de um instrumentista que precisam estar bem sincronizadas para executar seu instrumento. São como o dois lados do coração que precisam pulsar ao rítmo da sístole e da diástole para garantir a vida. São como a dinâmica dos passos que exige sempre que um pé esteja na terra e o outro não para que possamos caminhar. Estas duas lições essenciais para qualquer músico que busca a santidade são a “mística” e a “missão”.

A Mística

Naquele dia a jovem de Nazaré estava em silêncio e ouviu a voz do anjo Gabriel. Mais do que ausência de palavras, o silêncio fecundo que dá origem à música inspirada é feito de sintonia. Não basta calar. É preciso sintonizar. O silêncio é a matéria prima de toda canção. Como pode um pintor fazer sua pintura se não tiver onde colocar suas tintas e projetar a imagem que já existe em sua imaginação? O quadro branco onde o músico pinta suas notas e pausas é o silêncio da prece. Poderíamos chamar isso de “quietude”. É uma atitude orante e atenta aos céus que sempre se abrem para os místicos. Porém, a iniciativa da canção não é nossa. Maria escuta uma palavra que vem de Deus. Nela esta Palavra vai se encarnar. Precisamos passar por este momento receptivo de escuta para que sejamos, depois, um eco criativo do Criador. Não sou eu quem canto. É Deus quem canta em mim. Assim vai sendo tecida a música mística. Maria cala e escuta. Mas diante das palavras do anjo ela fica “maravilhada”. Este é um passo típico do músico ungido: a capacidade de se encantar, de ficar perplexo e até um pouco perturbado pelas palavras que ouve Deus falar em seu coração. Em seguida a inspirada Maria coloca-se a pensar no que significaria tudo isso. Não basta ficar em êxtase. É preciso estudar, refletir, ler, pensar no que significa esta inspiração que estou tendo agora. E, finalmente, Maria arrisca uma pergunta: “Como?” Aqui passamos da recepção passiva e chegamos na pró-atividade do processo criativo. Não somos simples intérpretes qualificados da voz de Deus. Ele nos quer como “parceiros” nesta composição. Maria escuta atentamente as explicações do arcanjo Gabriel. Existem músicos que vivem da ilusão de que uma canção vem como que num passe de mágica. Não. O talento é 10% inspiração e 90% transpiração. É a hora do exaustivo ensaio. Ensaiar sem ninguém vendo seu show de tentativas e erros é uma forma de viver a santidade musical. Após tudo isso vem a hora da resposta de Maria: “Eis-me aqui; faça-se em mim sua Palavra!” Volta a dimensão receptiva. Deixe Deus fazer a obra em você. Santa Cecília também viveu esta atenção ao anjo da Guarda que Deus colocou em sua vida para proteger seus valores. Ela viveu esta dinâmica da mística a exemplo de sua mestra e mãe, Maria.

A Missão

O “eis-me aqui” de Maria revelou que ela era “serva” do Senhor, ou seja, ministra da Palavra encarnada definitivamente em seu ventre no seu coração. Curiosamente ela não estaciona na mística. Aquela que é disponível aos céus, na figura de Gabriel, é solidária com a terra, na pessoa da prima Isabel. E ela sai às pressas para transformar a inspiração em serviço. Não bastou a mística para gerar sua canção. Era preciso passar pelo caminho do serviço solidário. Aqui acontece uma cena maravilhosa. Ao encontrar com Isabel a voz inspirada de Maria contagia Isabel que fica entusiasmada, ou seja, cheia de Deus. Este é um papel do músico cristão: entusiasmar a comunidade; animar os que estão no caminho, muitas vezes desanimados. Santa Cecília foi um exemplo de entusiasmo contagiante. Sabemos por alguns relatos o modo como ela contagiou seu noivo pagão, Valeriano, que acabou se tornando cristão fervoroso a ponto de converter seu irmão Tibúrcio. Os dois se mantiveram firmes na fé até o martírio. A música inspirada e solidária nos habilita para contagiar as pessoas.

A Canção

Após este itinerário de mística e missão lemos no capítulo 1 de Lucas que Maria e Isabel cantaram. Esta magnífica canção mistura estas duas lições – mística e missão – de modo primoroso. É uma canção que começa em chave pessoal – minha alma – e termina convocanto todo o povo para cantar, desde Abraão e toda a sua descendência para sempre. Não é cristã uma canção que fique somente no singular – eu e Deus. Maria nos ensina que a prece cristã reconhece que o Pai é “nosso” e o pão também é “nosso”. A segunda característica desta canção integral e integradora é que ela une louvor e clamor. Não tem medo de engrandecer o Senhor nem de pedir que os orgulhosos e prepotentes sejam derrubados de seu trono. Nossas liturgias não podem ser resumidas no louvor. Deus continua querendo ouvir o clamor do seu povo. Neste sentido é dramática a cena do martírio de Santa Cecília que impactou fortemente o imaginário cristão durante séculos: morreu cantando e exortando os irmãos. Séculos depois seu corpo foi encontrado incorrupto, íntegro. Isto nos ensina que a música precisa ser integral. Ela cria um ambiente salutar na comunidade. Vivemos em um mundo poluído por tantas canções que desintegram. Que a nossa canção seja como a magnífica prece de Maria e de Cecília: um testemunho de que a vida sempre tem a palavra final.

 

Pe. Joãozinho, scj (João Carlos Almeida).

Doutor em Teologia (PUC-SP), Educação (USP) e Espiritualidade (Gregoriana – ROMA).

Professor de Doutrina Social da Igreja e Espiritualidade na Faculdade Dehoniana, Taubaté-SP.

Autor com Pe. Zezinho, scj do livro “Chamados a cantar a fé” (Editora Santuário).

E-mail: padrejoaozinhoscj@gmail.com