Neste domingo, 28 de junho, tive a alegria de pregar na Jornada Espiritual do Apostolado da Oração da Forania de Brusque. Cerca de 500 pessoas estiveram presentes em um maravilhoso dia que começou com a missa na Matriz São Luís Gonzaga, junto com a comunidade e na companhia do Pe. Flávio Morelli, confrade de 86 anos e cheio de vida. O tema central foi os caminhos para formar uma Rede Mundial de Intercessão. Os modelos foram São Pedro e São Paulo, colunas da Igreja construída sobre a rocha que é Cristo. Tudo isso sob o olhar materno e intercessor da mãe Maria. Acho que esta foto exprime muito bem o que foi o encontro… ja sua sua conclusão na Adoração Eucarística.

 

Em 2013 comecei a postar no Twitter um breve sermão diário de 140 caracteres. Com o surgimento do WhatsApp estas mensagens começaram a se espalhar e passei a fazer o mesmo #minisermao em um minuto de áudio. Montei várias listas de transmissão e diariamente envio estas mensagens para cerca de 3.000 pessoas que por sua vez as retransmitem criando uma rede de evangelização pelo celular. É um novo método para uma nova evangelização. Posto também no Facebook e algumas páginas repercutem e preservam a coletânea. É o caso do site http://www.vozdivina.com.br/ e também do http://catholicus.org/?p=14924

Como é natural em toda iniciativa inovadora e de fronteira, também existem problemas. Um deles é que inexplicavelmente o WatsApp exclui algumas pessoas que, sem motivo aparente, passam a não receber a mensagem, apesar de continuarem nas listas de transmissão. Outro problema é que após enviar para algumas listas elas começam a travar. É preciso esperar 15 a 20 minutos para que o aplicativo aceite enviar para nova lista. Alguns recebem o texto e não recebem o áudio. Nos 15 minutos que o aplicativo fica travado as pessoas enviam mensagens perguntando se não terá áudio. Imagine você receber 200 mensagens em seu celular. São limites desta fronteira da evangelização. Mas isso nos permite refletir sobre possíveis soluções. Estou preparando duas. A primeira será o site www.minisermao.com.br onde você encontrará a coleção completa e atualizara além de outras informações sobre, por exemplo, como adquirir o livro do #minisermao, publicado pela Editora Canção Nova. A segunda solução que está sendo carinhosamente preparada será o aplicativo #minisermao. Deverá estar pronta para o segundo semestre. Instalando este aplicativo em seu celular você receberá a mensagem logo nas primeiras horas do dia. No momento estudo as funcionalidades de como, por exemplo, você pode encaminhar o #minisermao do aplicativo para suas redes sociais, inclusive para o WhatsApp. Peço suas orações. Hoje atingimos cerca de 200.000 pessoas. É um novo jeito de evangelizar.

Pe. João Carlos Almeida, scj

Teólogo e Comunicador

Com data de 24 de maio, Solenidade de Pentecostes, acaba de ser lançada mundialmente neste dia 18 de junho a nova Encíclica do Papa Francisco Laudato si’, sobre o cuidado de nossa casa comum. O título é uma referência ao poema “Cântico das criaturas”, atribuído a São Francisco (1224) e citado no antigo dialeto da Úmbria, região onde fica a cidade de Assis.

O próprio papa Francisco afirma que trata-se de um documento que integra a Doutrina Social da Igreja, iniciada em 1891 com a publicação da Rerum novarum pelo Para Leão XIII, preocupado com a precária situação dos operários na emergente industrialização. O mundo daquela época se polarizava entre o socialismo e o capitalismo. A Igreja procurava dizer uma palavra com relevância social. Quarenta anos, em 1931, depois o Papa Pio XI lançou a Quadragesimo anno, que dizia uma palavra sobre a economia a um mundo que se afundava em profunda crise financeira desde a queda da Bolsa de Nova Iorque, em 1929. A terceira Encíclica Social viria somente em 1961, com João XXIII: Mater et Magistra. Dois anos depois o mesmo papa lança a Pacem in Terris, diante da crise mundial provocada pela instalação de mísseis soviéticos em Cuba. O mundo vivia uma intensa guerra fria. Neste contexto inicia o Concílio Vaticano II que teve em seu repertório um documento social: Gaudium et Spes, publicado há 50 anos, em 1965. Em 1967 o Papa Paulo VI desdobra os ensinamentos sociais do concílio propondo um modelo “integral” de desenvolvimento, na Populorum Progressio. Em 1971 o mesmo papa celebra os oitenta anos da primeira encíclica social com a Octogesima Adveniens. Chegava o pontificado de João Paulo II que publicou três importantes encíclicas sociais: Laborem Exercens (1981), sobre a dignidade do trabalho; a Sollicitudo Rei Socialis (1987) que precedeu a queda do muro de Berlim, em 1989; e a Centesimus Annus (1991) que celebra o 100 anos de Doutrina Social da Igreja. A partir daí se fez um grande esforço para sistematizar esta doutrina em temas. O resultado foi a publicação, em 2004 do Compêndio da Doutrina Social da Igreja. Em 2009 o Papa Bento XVI publicou uma Magistral encíclica social: Caritas in Veritate. Agora recebemos com alegria o 12º documento social da Igreja Católica que trata do cuidado ecológico: Laudato si’. É a primeira que não tem o título em latim.

Com seis capítulos a Encíclica de Francisco é bastante simples, direta e didática. Logo no início o número 13 indica o apelo ecológico do papa: “O urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar.” Logo em seguida o número 16 resume de maneira lapidar as ideias centrais que atravessam todo o texto: “a relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta, a convicção de que tudo está estreitamente interligado no mundo, a crítica do novo paradigma e das formas de poder que derivam da tecnologia, o convite a procurar outras maneiras de entender a economia e o progresso, o valor próprio de cada criatura, o sentido humano da ecologia, a necessidade de debates sinceros e honestos, a grave responsabilidade da política internacional e local, a cultura do descarte e a proposta dum novo estilo de vida.”

O capítulo 1 faz um amplo diagnóstico da crise ambiental em que nosso planeta está afundado. Mas não se fala somente da preservação das matas, florestas e animais. Após fazer uma leitura ecológica da Palavra de Deus, no capítulo 2 e procurar a “raíz da crise ecológica”, no capítulo 3, fundamentado em bons autores, o papa propõe um modelo de ecologia ambiental, econômica e social que recupere os valores humanos necessários para criar um ambiente sustentável. A isso o para chama “ecologia integral”. Dedica a isso todo o capítulo 4. O capítulo 5 apresenta linhas concretas de ação internacional e local pautadas no diálogo. Mas a encíclica de Francisco não termina com este itinerário típico do método ver-julgar-agir. Há mais o que dizer. Para viabilizar o cuidado da casa comum é preciso uma “educação e espiritualidade ecológicas”. É sobre isso que trata o capítulo 6. Aqui o papa propõe a conversão para um novo estilo de vida, mais simples e sóbrio e a superação do modelo consumista e da cultura do descartável. Maria e José são apresentados como modelos deste estilo ecológico de vida. Maria, “Rainha da Criação” é apresentada como a porção já glorificada, junto com seu Filho, da nossa terra. José é visto como exemplo de equilíbrio entre a ternura e o vigor necessário para se praticar a cura e a defesa da vida.

A encíclica social de Francisco termina recordando que enquanto buscamos o céu, cuidamos da terra. Ele afirma nas últimas linhas: “Caminhemos cantando; que as nossas lutas e a nossa preocupação por este planeta não nos tirem a alegria da esperança”. Atrevidamente imaginei o que o papa recordou cantarolando, mas não escreveu: “Vem, vamos embora, que esperar não é saber; quem sabe faz a hora, não espera acontecer”!

 

As últimas palavras da Laudato si’ são uma prece. Oremos:

 

Oração pela nossa terra

Deus Onipotente,

que estais presente em todo o universo e na mais pequenina das vossas criaturas,

Vós que envolveis com a vossa ternura tudo o que existe,

derramai em nós a força do vosso amor

para cuidarmos da vida e da beleza.

Inundai-nos de paz, para que vivamos como irmãos e irmãs sem prejudicar ninguém.

Ó Deus dos pobres, ajudai-nos a resgatar

os abandonados e esquecidos desta terra que valem tanto aos vossos olhos.

Curai a nossa vida, para que protejamos o mundo e não o depredemos,

para que semeemos beleza e não poluição nem destruição.

Tocai os corações daqueles que buscam apenas benefícios à custa dos pobres e da terra.

Ensinai-nos a descobrir o valor de cada coisa,

a contemplar com encanto,

a reconhecer que estamos profundamente unidos com todas as criaturas

no nosso caminho para a vossa luz infinita.

Obrigado porque estais conosco todos os dias.

Sustentai-nos, por favor, na nossa luta pela justiça, o amor e a paz.

 

Oração cristã com a criação

Nós Vos louvamos, Pai,

com todas as vossas criaturas,

que saíram da vossa mão poderosa.

São vossas e estão repletas da vossa presença e da vossa ternura.

Louvado sejais!

Filho de Deus, Jesus,

por Vós foram criadas todas as coisas.

Fostes formado no seio materno de Maria,

fizestes-Vos parte desta terra, e contemplastes este mundo com olhos humanos.

Hoje estais vivo em cada criatura com a vossa glória de ressuscitado.

Louvado sejais!

Espírito Santo, que, com a vossa luz,

guiais este mundo para o amor do Pai

e acompanhais o gemido da criação,

Vós viveis também nos nossos corações

a fim de nos impelir para o bem.

Louvado sejais!

Senhor Deus, Uno e Trino, comunidade estupenda de amor infinito,

ensinai-nos a contemplar-Vos na beleza do universo,

onde tudo nos fala de Vós.

Despertai o nosso louvor e a nossa gratidão por cada ser que criastes.

Dai-nos a graça de nos sentirmos intimamente unidos a tudo o que existe.

Deus de amor, mostrai-nos o nosso lugar neste mundo

como instrumentos do vosso carinho por todos os seres desta terra,

porque nem um deles sequer é esquecido por Vós.

Iluminai os donos do poder e do dinheiro

para que não caiam no pecado da indiferença,

amem o bem comum, promovam os fracos, e cuidem deste mundo que habitamos.

Os pobres e a terra estão bradando:

Senhor, tomai-nos sob o vosso poder e a vossa luz,

para proteger cada vida, para preparar um futuro melhor,

para que venha o vosso Reino de justiça, paz, amor e beleza.

Louvado sejais! Amém.

 

 

 

dom-wilson-luis-angotti-filho-novo-bispo-taubate-660x330O dia 13 de junho foi histórico para a Diocese de Taubaté. Dom Wilson Luís Angotti Filho iniciou seu ministério pastoral como 7º bispo da Diocese de São Francisco das Chagas de Taubaté. Nascido em 1958 o novo bispo é paulista, natural da cidade de Taquaritinga. Foi ordenado sacerdote na Diocese de Jaboticabal, em 1982. Além de pároco foi formador e professor de teologia. Integrou a Comissão Episcopal Pastoral para a Doutrina da Fé da CNBB entre 2007 e 2011, quando foi escolhido para o episcopado. Atuou como bispo auxiliar de Belo Horizonte antes de ser nomeado para Taubaté.

A celebração de posse foi precedida pelo ritos formais e discursos que a ocasião exigia. Dezenas de padres e bispos estavam presentes em uma catedral atenta à presença do novo bispo que traz no seu brasão a expressão: “Cor unum”. A homilia de Dom Wilson foi ouvida com muita atenção por todos. Ele apresentou em vinte minutos as linhas gerais do seu governo. Iniciou recordando que foi ordenado em uma Solenidade do Sagrado Coração de Jesus e consagrou seu ministério ao amor misericordioso de Deus e ao Imaculado Coração de Maria. Tem como opção fundamental não buscar sua vontade mas a de Deus. Seu lema “cor unum”, exprime esta profunda unidade entre o Sagrado Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria.

Em seguida, como muita sinceridade e transparência, Dom Wilson disse que está consciente de que existem muitas expectativas a seu respeito. Deseja colaborar com a Igreja local com as qualidades e talentos que tem. Reconhece que é exigente, imediatista, prático e direto. Por isso vê como providencial ter sido preparado em Minas Gerais, onde se exercita com maestria a flexibilidade. Sabe que não é perfeito. Tem qualidades e limites, mas deseja estar a serviço de Deus e do seu povo. Pretende superar o legalismo e experimentar a misericórdia. Sente-se amado e disposto a amar. Não busca vantagens e privilégios. Deixa bem claro que não veio para agradar a todos mas para servir. Repete a disposição de Bento XVI no início de seu pontificado: “Sou um simples operário na vinha do Senhor”. Está disposto a abraçar a história da Diocese de Taubaté. É apenas um servidor a mais. Sabe que colhe o que não plantou. Agradece aos que o precederam, especialmente Dom Antônio e Dom Carmo. Pretende continuar este serviço no ministério da coordenação em diversos níveis. Afirma categoricamente que não governará por decreto. A adesão verdadeira brota do amor a Deus e de uma vida de fé e não de uma lei escrita. Afirma que o essencial é conduzir o povo para um encontro verdadeiro com Jesus Cristo e o seu Evangelho. É preciso evangelizar pelo anúncio do Kerigma. A Igreja servidora vai às periferias sociais e existenciais, como afirma o Papa Francisco. É preciso que sejamos missionário em busca daqueles que ainda não atingimos em nossa pastoral. O anúncio do kerigma se faz urgente na catequese de crianças e jovens para que cresçam firmes na fé e na vida. É preciso manifestar nossa solidariedade com os pobres e sofredores, doentes e excluídos. Dom Wilson disse com todas as letras que deseja uma liturgia bem preparada e acolhedora. A Igreja precisa estar sempre de portas abertas. Os padres devem estar disponíveis para atender o povo. As congregações religiosa precisam caminhar em sintonia com a Igreja local e enriquecendo-a com os seus carismas. Terminou renovando sua disposição de em tudo fazer a vontade de Deus. Terminou pedindo que todos rezem por ele para que possa bem realizar sua missão. Que o Imaculado Coração de Maria interceda junto ao Coração de seu filho pelo novo Bispo de Taubaté.

O dia 05 de junho, primeira sexta-feira do mês, foi completamente diferente na rotina do Capítulo Geral. Acordamos no horário de costume e celebramos juntos a Santa Missa. Após o café tivemos um tempo livre e em seguida nos reunimos para a foto oficial. Todos já estavam vestidos a rigor para um encontro mais que esperado. Seguimos com transporte público até o Vaticano que fica a certa de 2.500 metros da nossa Casa Geral.

Esperamos até sermos chamados para a audiência com o Papa Francisco. Mas para isso teríamos que subir sete lances de uma imensa escadaria. Depois foi necessário suportar longa espera num corredor fechado a um calor de mais de 30 graus. O sentimento de ansiedade feliz se misturava a um certo incômodo e cansaço. Chegar na Sala Clementina foi como chegar no céu, mesmo que tivéssemos ainda que esperar quase uma hora para que o papa terminasse a audiência com a presidenta do Chile. Nenhum problema. Todos estávamos visivelmente felizes por poder viver aquele momento de intimidade com o Santo Padre que, na sequência, teria mais duas audiências. O peso maior era dele. Teria pressa? Leria um discurso-padrão? Cumprimentaria o governo geral e faria com todos apenas a foto de costume? Quase pontualmente o papa entrou com uma serenidade firme que caracteriza sua personalidade. É um líder. Sem dizer uma palavra ele dá o tom para o ambiente.

O novo superior geral, Pe. Heinrich Wilmer (que costumamos chamar de Pe. Heiner), toma a palavra e lê um discurso cuidadosamente preparado pelos dois governos gerais. São palavras certeiras. Cada frase tem um endereço. Perguntei ao Pe. Heiner o que ele sentiu naquele momento e ele me revelou que estava muito nervoso. Quando começou a falar ficou mais ansioso ainda pois não sentiu nenhuma reação da parte do papa. Era como se ele não estivesse interessado. Até que ele disse que o tema do capítulo havia sido “Misericordiosos em comunidade com os pobres”. “Misericórdia” foi a palavra à qual o papa reagiu imediatamente e fixou seu olhar naquele que discursava. Pe. Heiner falou que a misericórdia nos motiva a ir a todas as periferias existenciais do mundo. Depois afirmou, com ternura e firmeza, que continuamos a rezar com esperança ativa pela beatificação de nosso fundador, Pe. Dehon. Lembrou o quanto ele nos exortou a sair das sacristias e ir ao povo para reparar todo tipo de ferida e instaurar o reino do Sagrado Coração de Jesus. Deu ao papa a certeza da nossa oração por sua difícil missão.

Chegou a vez de ouvir as palavras de Francisco. Um secretário lhe entregou o discurso que havia sido preparado, certamente com o auxílio de assessores. O silêncio era absoluto. Ele olhou para o papel e disse: “Ouvir discursos sempre é algo que nos dá um certo tédio. Tenho aqui um discurso preparado, mas vocês podem ler depois.” E entregou o discurso ao secretário que, por sua vez, o entregou ao secretário geral dos dehonianos. Depois ficou um pouco em silêncio. O clima era de expectativa. O que ele diria face a face sem papel? O que o papa iria tirar de dentro do seu coração? Percebi que o momento era único e coloquei o telefone celular para gravar. Transcrevo aqui as palavras que o papa nos disse naquele momento histórico e que – além de surpreender pela clareza, objetividade e coragem – nos fez sair daquela sala com a mesma sensação dos discípulos de Emaús: “Não estava nosso coração ardendo quando ele nos falou pelo caminho?”

Palavras do Papa Francisco em sete minutos:

“Lembro de um sacerdote dehoniano na Argentina, que não havia sido eleito como delegado para um Capítulo Geral. Na época eu era reitor da Universidade e éramos vizinhos e amigos. Ele me disse: ‘Prefiro que outros possam ir a Roma. Permaneço aqui escondido’.  Mas este amigo escondido recebeu um telefonema comunicando que havia sido eleito superior geral. E Virgínio, que não desejava, acabou ficando doze anos como Superior Geral. Depois voltou para trabalhar com os jovens e com os formandos. Um dia lhe disseram que o núncio o chamava. Ele respondeu: “Diga que não estou”. Ele se escondeu outra vez. Então o núncio me ligou para encontrá-lo. Ele disse: “Você sabe onde ele está?” E eu sabia. Mas respondi: Não sei, vou procurar. Liguei para ele e lhe disse: Virgínio, o Núncio está te procurando. Ele respondeu: “Mas eu não quero”. Acabou virando bispo e hoje é vice-presidente da Conferência dos Bispos da Argentina” e é muito capaz. Conheci tantos confessores, homens da misericórdia, dehonianos, por isso gosto muito deste lema: misericordiosos, em comunidade para ir ao mundo, ao povo e sair de si mesmos como fez, permitam-me dizer, o ‘quase-beato’ Dehon (palmas efusivas dos capitulares). Para mim aqui temos um problema de hermenêutica. Deve-se estudar uma situação com a hermenêutica daquele tempo e não do tempo de hoje. Minha convicção é a seguinte: ele havia pedido a Nosso Senhor a graça da humilhação e se vê que a recebeu até mesmo depois de sua morte. Mas ele é um grande intercessor. Uma coisa posso dizer de Pe. Léon Dehon que sempre me chamou muito a atenção. Trata-se daquela oração que ele recomendava a fazer diante do Santíssimo Sacramento todos os dias pela Igreja, pela unidade da Igreja. Sair, mas rezar… a intercessão! Esta oração eucarística. Não esqueçam isso, por favor. Alguns dizem: “Mas padre, temos tanto trabalho, seria um perda de tempo!” Percam tempo ali. É um bom modo de perder tempo. E a misericórdia? O mundo tem necessidade dos carinhos de Deus. O mundo está ferido por tantas coisas, pelo hedonismo, pelo ódio, por fome de poder. Está doente de tantas doenças. O Senhor pede a vós os carinhos da misericórdia. Também no confessionário. Sejam misericordiosos, por favor. Dizemos em uma das fórmulas do Ato Penitencial: ‘Senhor Jesus, que viestes para perdoar e não para condenar, tende piedade de nós.’ Esta oração recorda a misericórdia de Jesus que não se assustava com os pecadores mas sentava à mesa com eles. Misericórdia e não sacrifício. Gosto muito deste lema que vocês escolheram para a congregação. Rezemos ao Senhor para que os religiosos dêem testemunho da misericórdia. No final é isso que conta: encontrar Jesus e ser curado por Jesus e perdoado por Jesus. Talvez algum de vocês poderia pensar: ‘Ah se o papa soubesse que pecados grandes eu fiz’. Não tenha medo. Todos somos pecadores. Não tenham medo. Se alguém cometeu pecados grandes, a festa que o Senhor fará quando os encontrar também será muito maior… uma bela festa, a festa da misericórdia! Dizer isso gera a transmissão da misericórdia, dos carinhos de Deus. Rezem por mim, rezem por mim, na humildade e também na humilhação, como vosso fundador havia pedido. Também eu rezo por vocês e para que termine bem este processo de beatificação. Agora os convido a rezar à mãe da misericórdia, todos juntos, depois darei a bênção. Mas rezem por mim, por favor. Ave, Maria […] Ao final Papa Francisco deu a bênção e seguiu em sua missão após cumprimentar cordialmente cada um dos 120 dehonianos presentes na audiência.

Na volta todos os que estiveram presentes naquela sala seriam capazes de repetir as palavras do Santo Padre quase de cor. Ele encontrou abrigo em nossos corações. Como disse mais tarde o novo Superior Geral: “Ele falou como se fosse um de nós”. Agora entendemos melhor o que é a tal “cultura do encontro”.

Pe. João Carlos Almeida, scj

(Pe. Joãozinho, scj)

No dia 25 de maio de 2013 o Papa Francisco escreveu no Twitter:

Todos temos espaços de incredulidade no coração. Digamos ao Senhor: Eu creio. Ajuda a minha pouca fé!

Não é possível viver sem fé. Mesmo os ateus acreditam piamente que “Deus não existe”. Creem pelo avesso. Temos uma fé humana. Acreditamos no piloto do avião que nunca vimos e não veremos. Temos confiança no cozinheiro que preparou aquele prato no restaurante, mesmo sem o conhecer. Entramos no elevador e simplesmente não pensamos no técnico que fez a manutenção. Imagine alguém que não confiasse no piloto, motorista, cozinheiro ou nos técnicos. Não teria coragem de sair de casa. Viveria com medo e desconfiado de tudo e de todos. Precisamos também acreditar em nós mesmos. Caso contrário vivemos inseguros e tudo se torna difícil e aparentemente impossível. A fé é um dom maravilhoso. É conhecida a história daquela criança no quarto andar de um prédio em chamas que não duvida em lançar-se ao apelo dos bombeiros que montaram a rede de segurança e gritam: pula! Alguém lhe perguntou depois da salvação: “Você não teve medo de pular?” Ela respondeu serena: “Claro que não; aquele bombeiro era o meu pai”. Existem momentos em que a fé exige esta coragem de pular nos braços do Pai.

Por que será que confiamos no padeiro e nem sempre temos fé em Deus? O papa Francisco nos lembra que temos “espaços de incredulidade no coração”. São penumbras da alma. São lugares escondidos no porão de nossa consciência. É aquele quartinho da bagunça no qual teimamos em guardar coisas e sentimentos inúteis. Estes espaços estão tão abarrotados que não cabe mais nada. Não há espaço para a fé em Deus. O resultado é insegurança e desconforto. Já deve ter acontecido com você de estranhar o gosto daquela comida na primeira colherada. É melhor não continuar para não se arrepender na hora da indigestão. Se é desagradável não confiar no alimento que está no prato imagina perder a fé no Deus que nos criou.

Há quem pense que a fé se resume na adesão racional a algumas verdades ou dogmas religiosos. Isto é crença. A fé é antes a adesão à “Verdade” e somente depois acreditar em “verdades”. É primeiro fé em “quem” e somente depois “fé em que”. Discutir dogmas e verdades costuma ser motivo de guerras e conflitos. Crentes loucos matam em nome da fé. É crença em um princípio religioso relativo que leva a mutilar o valor absoluto da vida. Isso é tão contraditório como o pai que grita para o seu filho: “Não grite que é falta de educação; quantas vezes vou ter que repetir que aqui em casa não se grita?!” As palavras comovem, mas os exemplos arrastam.

Ninguém escapa de alguns espaços de incredulidade. É mais humilde reconhecer isso e pedir ao Senhor que aumente a nossa fé, afinal, a fé é uma resposta humana que resulta da graça de Deus. Para receber o dom da fé é preciso deixar uma fresta para que Deus entre e faça morada em nosso coração. Ninguém é forte na fé sem a força de Deus. Nossa fé começa pequenina como um grão de mostarda. Mas com a graça de Deus ela cresce e nos torna capazes de remover uma montanha de problemas e dificuldades. Tudo é possível para quem tem o dom da fé. Após o milagre o Senhor nos olha nos olhos e sempre repete: “Vai em paz, a tua fé te salvou!”

Pe. Joãozinho, scj

João Carlos Almeida – Teólogo e educador

 

O que o senhor pensa a respeito da Renovação Carismática?

É uma espiritualidade pentecostal que relembra a Igreja o tempo todo que não basta a firmeza institucional e segura da “pedra”; é preciso a leveza mística e atrevida do vento, do “carisma”.

O senhor considera que essa espiritualidade possa ser capaz de chamar mais jovens a vocação do sacerdócio?

Sem dúvida a liberdade o carisma vivido com liberdade atrai os jovens que sempre gostam de “coisas novas”. Porém, se isso ficar apenas na novidade, ou na moda, aos poucos os jovens se afastam. Nos últimos anos temos assistido um grande grupo de jovens entrem para a vida sacerdotal e consagrada atraídos por uma espiritualidade carismática. Muitos, diria mesmo que a maioria, depois descobrem o carisma de uma congregação ou nova forma de comunidade e acaba aprofundando sua experiência inicial. Mas depois deste aprofundamento existe sempre o apelo a “voltar ao primeiro amor”, que não significa voltar ao “movimento” da RCC mas à espiritualidade carismática como forma de viver um carisma, por exemplo, franciscano, jesuíta ou dominicano. Esta síntese acontece com o tempo da maturidade.

Quando o senhor começou a gravar CDs, sofreu algum tipo de preconceito dentro da Igreja? Em caso afirmativo, como o superou?

Na congregação da qual faço parte (Sagrado Coração de Jesus – Dehonianos) existem muitos poetas, cantores, escritores, artistas, filósofos, teólogos… Lembro apenas o Pe. Zezinho, scj que é uma figura referencial. Temos como mística viver em unidade mas valorizando os talentos pessoais. Então sempre recebi muito apoio para desenvolver meus talentos. Mas não fiquei sacerdote para cantar. Apenas revisto de poesia e música alguns de meus sermões. A música é mero adorno do meu ministério.

Vemos as figuras do Padre Fábio de Melo, o Padre Marcelo e mesmo o senhor, como grandes evangelizadores. O senhor acredita que a Igreja católica possa ganhar mais fiéis praticantes com a Renovação?

De fato alguns têm maior projeção e acabam tendo que levar a cruz da fama. Jesus também ficou famoso no início de sua missão quando multiplicou pães, palavras, milagres e prodígios. Mas depois muitos foram embora porque ele dizia as verdades doa a quem doer. Era profeta. Não podemos nos iludir com critérios de qualidade. Uma vez perguntaram ao saudoso bispo Dom Aloísio Lorscheider por que a Igreja Católica estava perdendo fiéis. Ele deu uma resposta curiosa: “Você se engana, os fiéis continuam conosco; estamos perdendo os ‘infiéis’”. É verdade. Mas não existe dúvida que em determinado momento dramático para a Igreja no Brasil, pessoal de uma simplicidade profética como Pe. Marcelo e de uma complexidade poética como Pe. Fábio de Melo, fizeram a diferença e deram mais um motivo para “ser feliz por ser católico”.

O senhor acredita que comunidades como a Canção Nova ou mesmo a Shalom podem crescer ao longo do tempo?

Aqui nos estamos diante de carismas que nasceram dentro do canteiro da RCC e que, aos poucos, desenvolveram sua própria identidade sem, porém, afastar-se de suas origens pentecostais. Existem muitas outras novas comunidades como Canção Nova e Shalom. Algumas são pequenas e atuam apenas em uma paróquia. Outras são um pouco maiores. Tenho conhecido muitas destas comunidades. A Igreja costuma demorar um pouco para dar a aprovação definitiva. Espera a “prova dos frutos”. Não existe pressa para dizer que uma comunidade tem a aprovação definitiva. Deus criou o tempo e o diabo a pressa. A Igreja Católica existe a 2.000 anos e sabe que algumas coisas precisam de tempo para serem avaliadas com ponderação.

Qual é o retorno que tem dos fiéis em relação ao seu trabalho de evangelização?

É muito gratificante chegar em uma cidade do interior do nordeste e perceber que minha canção chegou antes de mim. Muitas delas as pessoas cantam decor… e são três estrofes. Agradeço a Deus porque a inspiração que ele me concedeu superou a gravação em no pedaço de plástico de um CD e ficou gravada no coração do povo.

Hoje posto diariamente um #minisermao em minha conta certificada no Twitter (@padrejoaozinho). Dali vai para o Face e enviou com uma meditação de um minuto para mil pessoas pelo WhatsApp. Estima-se que esta mensagem diária chegue a mais de 300.000 pessoas. É a dinâmica da rede. Isto não lembra as redes do tempo de Jesus? Ele disse: eu vos farei pescadores de gente. Está acontecendo!