Meus estudos em Roma
Algumas pessoas me perguntam o que mais estou estudando aqui em Roma. Nunca sabemos demais. Sempre é necessário mergulhar em águas mais profundas. Ao preparar uma série de três conferências para os confrades aqui do Colégio Internacional, descobri outras facetas da vida e da obra de Léon Dehon, nosso fundador. Hoje irei proferir a última palestra. O tema é um dos livros mais belos escritos por Dehon “Vida de amor por meio do Coração de Jesus”. Para partilhar um pouco com você estas maravilhas, posto abaixo um trecho da palestra.
O livro «
La Vie d’Amour»
São trinta e três meditações, sistematicamente organizadas, onde Dehon apresenta o Amor de Deus como caminho de crescimento espiritual. Sabemos através de seu Diário que, já em 1897, ele se dedicava a estas meditações. Porém, a maioria delas parecem ter sido escritas no inverno de 1901. Dehon tinha o hábito de escrever meditações em seu tempo livre. As meditações
La Vie d’Amour foram antes publicadas na revista Le Règne a partir de julho de 1897 até junho de 1901. A principal fonte desta obra é a Sagrada Escritura. Porém, percebe-se que Dehon inspirou onze meditações no livro de P. Jean-Nicolas Grou, Les Meditations en forme de retraite sur l’amour de Dieu. Além disso, utilizou um manuscrito intitulado La voie d’amour em pelo menos cinco de suas meditações. Portanto, não estamos diante de uma obra que prima pela originalidade literária nem era esse o objetivo de Dehon. É antes a melhor síntese daquilo que ele viveu como itinerário espiritual e propõe como caminho de discipulado. O Amor é apresentado como a pedagogia de Deus para nos fazer crescer na «vida interior». Todo o livro é construído como um diálogo entre o Mestre e o Discípulo. A leitura destas páginas revela que não existe apenas uma espiritualidade subjacente à proposta pedagógica de Dehon, mas também há uma pedagogia inerente à sua espiritualidade. La vie d’Amour é o livro onde estas duas dimensões estão mais próximas e implicadas, o que pode servir como chave de leitura para toda a sua obra, nos mais diversos campos. Estamos diante de uma síntese espiritual da maturidade, que será retomada em 1919, na quarta parte do primeiro volume do seu manual de teologia espiritual La vie intérieure. Ali Dehon apresenta alguns autores que estudou, seguidos de seis meditações sobre La vie d’Amour. Isto revela o núcleo da sua espiritualidade que, além de ser fruto de uma experiência de fé, foi objeto de estudo e reflexão. A «vida de amor», foi a maneira mais sintética com que Dehon conseguiu expressar sua experiência de encontro com Deus, no Coração de Jesus. La vie d’Amour pretende ser um auxílio para «conservar e multiplicar os frutos dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio», como prolongamento da contemplatio ad amorem. O livro é estruturado em duas meditações preliminares; sete sobre os motivos do amor, dos quais os principais são o desejo e a ordem divina, e os benefícios de Deus; seis meditações sobre diversas formas do amor: a gratidão, a benevolência, a compaixão, a união e o abandono; treze meditações sobre os meios para adquirir e desenvolver o fervor do amor; e cinco meditações sobre os efeitos do amor, que ajudam a reconhecer que se está no bom caminho. Cada meditação tem um tema específico e todas têm a mesma estrutura interna em três partes. A primeira é a Préparation pour la veille, onde Dehon apresenta um texto bíblico, em latim e em francês, e o sumário da reflexão. Deveria ser lido pelo exercitante no dia anterior. A segunda parte é a Méditation onde o tema é desenvolvido em uma linguagem de reflexão seguida de breves textos onde coloca estas lições na boca do próprio Salvador, que fala como um Mestre ao seu discípulo. Algumas vezes o próprio discípulo faz perguntas ao Mestre. A terceira parte são Affections et resolutions, onde o discípulo diz ao Mestre quais são seus propósitos a partir daquela meditação, que termina com um Bouquet spirituel, onde Dehon seleciona algumas breves frases bíblicas relacionadas com o tema meditado. Nas duas meditações preliminares, Dehon afirma que são três os caminhos que conduzem a Deus: «Há almas que Nosso Senhor conduz pelo temor, outras que atrai a si pela esperança, outras que prende a si pelo amor». Porém, a «via do amor» é a mais perfeita (cf. 1Cor 12,31), pois compreende, ultrapassa e purifica as outras duas; é a mais simples, pois conduz tudo a um motivo dominante; é a mais doce e fácil, pois «o coração é feito para amar».
As sete meditações sobre os «motivos do amor», começam afirmando que o «fogo que Jesus veio trazer à terra, é o amor divino. Veio viver e sofrer entre nós para que todos O amemos e para que amemos o seu Pai. É o objeto da sua missão» (cf. Lc 12,49; Lv 6). Mas «este fogo não se ateará, ou pelo menos não se manterá e não crescerá nos nossos corações, se não o alimentarmos, se não o aumentarmos com a nossa cooperação assídua». Este diálogo fecundo de salvação entre o Amor de Deus e participação humana é o pano de fundo de toda a reflexão de Dehon. Esta possibilidade de colaboração humana na salvação operada por Cristo é o fundamento teológico de sua oblação de amor, traduzida em termos de «reparação». Segundo Dehon, o «fogo do amor sobre a terra», além de ser um desejo de Nosso Senhor é um mandamento de Deus (cf. Mt 22,34-38), necessário porque o pecado desviou a natureza humana do caminho original. Porém, mais do que obedecer a um mandamento, a «vida de amor» consiste em viver os benefícios de Deus, que na sua Paternidade providente nos deu seu próprio Filho para nos dar a vida eterna, por meio da Igreja e dos seus sacramentos (cf. Jo 3,16-18).
Dehon destaca ainda como motivos «o amor que Nosso Senhor nos testemunha tornando-se nosso irmão» por meio da Encarnação do Verbo (cf. Jo 1,1-14). «O amor do seu Coração é ao mesmo tempo totalmente um amor divino e um amor humano. É o amor divino humanizado». Este mesmo amor é testemunhado na Redenção, simbolizado pela abertura do seu coração de Bom Pastor que na cruz, como vítima, dá a vida pelas suas ovelhas (cf. Is 55; Jo 10,11-15; 19; Rm 5). Este amor permanece vivo e atuante nos sacramentos, especialmente na Eucaristia (cf. Jo 6,48-52). «Ao permitir que o seu Coração fosse aberto e dele saíssem sangue e água, quis mostrar-nos que o seu coração é a fonte dos sacramentos simbolizados por este sangue e esta água».
Após apresentar estes «motivos», Dehon avança em sua reflexão, apresentando as várias «formas» do amor. Pode ser um amor de preferência, que ama a Deus com todo o coração, acima de toda criatura; amor de complacência, que ama a Deus com todo o espírito, contemplando suas perfeições infinitas; amor de benevolência, que ama com todas as forças, de modo efetivo e perseverante (cf. Mc 12,29-34; 1Jo 4; Hb 12); amor de confiança e de união, para que os pensamentos, os desejos e as ações estejam seguros na comunhão com Deus (cf. Jo 15,7-10; Rm 8,38); amor de compaixão, unido aos sofrimentos de Cristo (cf. Jo 19,13-18; Is 53); Zc 12); amor puro e desinteressado, que ama a Deus «por Ele mesmo e não por nós», como amigo, e não simplesmente como servo (cf. Jo 15,9-15; 1Cor 13; 2Cor 5,15); amor de afeição profunda, incessante e fervorosa, que enche o coração com o hábito de pensar
em Nosso Senhor e «transformar todas as ações em atos de caridade» (cf. Jo 17,20-26; 1Ts 5,17); amor de abandono que «coloca-se alegremente à disposição do amado. Entrega-se a ele em tudo e por tudo», como fez Jesus ao fazer em tudo a Vontade do Pai (cf. Jo 4,31-34)
Dehon apresenta os «meios» para adquirir e conservar o fervor no amor: primeiro a pureza de coração, ou seja, a conversão, pois o principal obstáculo à vida de amor é a vida de pecado (cf. Lc 15,11-18); o segundo meio é o recolhimento e a vida interior, acolhendo o «Espírito Santo que é o espírito de Verdade e de Amor» (cf. Jo 14,16-18), o terceiro meio é a oração, que é onde se alimenta e cultiva a vida de amor, com esforço e generosidade (cf. Mt 11,27-30); o quarto meio é a fé e a confiança, pois «a vida de amor é uma vida de fé naquele que nós amamos» (cf. Jo 8,25-29); o quinto meio é a direção espiritual, entregando-se inteiramente à «direção divina», com auxílio dos «ministros que Deus estabeleceu para a condução das almas» (cf. Mt 10,38-41); o sexto meio é o dom total de si mesmo a Nosso Senhor, pois Deus é a fonte do amor e crescemos no amor na medida em que nos entregamos a Deus (cf. Jo 15,5.8-11); o sétimo meio é a união à oblação de Jesus ao Pai, em espírito de imolação (cf. Jo 14,6-10); o oitavo meio são os atos de amor que mantém o «hábito do amor» recebido no batismo (cf. Jo 15,1-5); o nono meio são as práticas de amor na vida cotidiana (cf. Mc 7,32-35); o décimo meio é a fidelidade nas pequenas coisas (cf. Lc 19,12-17); e o último meio indicado por Dehon é a prática das virtudes de estado (cf. Jo 15,5-8).
Finalmente, Dehon conduz o exercitante a meditar sobre os efeitos do amor: a união habitual com Nosso Senhor (cf. Jo 14,18-23); a paz da alma, que é fruto da união com Deus (cf. Mt 11,25-30); o sacrifício por amor (cf. Lc 9,20-23); a força no amor, que existe nos amigos generosos e obedientes de Nosso Senhor, fortes na provação e fiéis no dia-a-dia (cf. Ct 8,6-7); a perseverança no amor , na certeza de que «nada nos separará do amor de Cristo» (cf. Rm 8,35-39). Esta experiência pessoal do amor de Deus, descrita pedagogicamente por Léon Dehon, reflete bem a mentalidade de sua época. Porém, não podemos deixar de notar a falta de uma maior ênfase à pessoa do Espírito Santo, já que ele é o próprio Amor de Deus derramado em nossos corações, é o próprio «fogo do amor de Deus» aceso sobre a terra. A segunda lacuna é a ausência do «amor aos irmãos», como caminho para amar a Deus. Isto é estranho se pensarmos no intenso apostolado social que sempre caracterizou a vida de Dehon. Além disso, este escrito é praticamente um comentário ao Evangelho de João, com algumas referências às suas cartas, onde o amor a Deus e aos irmãos aparecem sempre como inseparáveis. Ao citar o mandamento do amor da maneira como Jesus ensinou apresentado no Evangelho de Mateus, Dehon cita os versículos 34 a 38, do capítulo 22, onde os fariseus perguntam qual seria o maior mandamento da lei de Deus. O texto não cita os versículos 39 a 40: «E o segundo é semelhante ao primeiro: Amarás o próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas». No segundo volume de La vie intérieure, onde propõe alguns exercícios espirituais muito semelhantes à La vie d’Amour, Dehon termina com um resumo geral, revelando que a dinâmica da vida interior segue as etapas da purificação, iluminação e união. As três são obras para toda a vida. Ultrapassando o conhecimento sobre Deus, da via iluminativa, o discípulo «deve ser fiel e generoso para não se deixar cair e recair no afeto desordenado das criaturas. Ele deve ser fiel à união prática e ativa, a única que está ao seu alcance e permite a Nosso Senhor elevá-lo mais alto». Até mesmo o «Reino Social do Sagrado Coração», consistiria em promover esta dinâmica unitiva «nas almas e nas sociedades». Nas últimas páginas do seus Études sur le Sacré-Cœur, Dehon ensina que o Coração de Jesus reina nas almas por meio do amor que leva à uma amizade de confiança e abandono; que torna semelhante ao Amigo na sua ternura e caridade, em sua humildade e separação das criaturas, em sua pureza e extrema delicadeza, em sua vida interior e de oração, em seu zelo e espírito de reparação e sacrifício. O coração de Jesus deve reinar também na sociedade civil por meio dos santuários nacionais, poesia, legislação, apoio à Igreja, amor aos pequenos através de uma legislação social que favoreça os trabalhadores. O Coração de Jesus reina na Igreja com a construção de santuários, práticas de devoção, obras e congressos eucarísticos, amor aos pobres, amor à juventude, zelo pelas missões. É fácil perceber porque o amor aos irmãos está tão presente em sua prática, e tão pouco elaborado em seu discurso místico de
La Vie d’Amour. A vida de Dehon foi uma constante luta contra a dispersão provocada pelo ativismo. A última etapa de sua vida é uma caminho que valoriza o primado do Amor de Deus, do qual tudo o mais seria uma conseqüência natural. É o que ele chama de «puro amor» e que explicará melhor na síntese da «vida de amor por meio de Nosso Senhor», realizada em La vie intérieure, já quase no fim de sua existência: «Deus é caridade [charité], diz São João, e a fonte única de toda caridade. É ele que colocou em nossos corações pelo Espírito Santo, o amor eterno do Pai e do Filho». Dehon entende que a contemplação e a ação não se opõem, mas antes se completam. Porém, é «necessária a união com Nosso Senhor para realizar um frutuoso apostolado: ‘Sem mim nada podeis fazer’ (Jo 15)». Ele coloca a contemplação em primeiro lugar, na linha da relação de esponsalidade entre Jesus «e a alma», sua esposa. Subindo os degraus da contemplação, da quietude, passando pela união de amor e chegando à consumação esponsal, na linha de Santa Tereza d’Ávila e São João da Cruz. Dehon conclui seu estudo dizendo que não devemos procurar o extraordinário, que poderia levar à tentação do orgulho. É preciso, simplesmente, avançar na união com Deus, por meio da purificação, da meditação dos mistério da Vida de Cristo e da disposição em realizar em tudo a Vontade do Pai. Ele termina com um conselho: «Não nos esqueçamos jamais que a união não é outra coisa senão a perfeição das virtudes teologais da fé, da esperança e do amor».