SOMOS O POVO DE DEUS

Pe. Joãozinho, scj

            Serás o nosso Deus,

e nós seremos o teu povo!!

 

O fruto da reparação é nos fazer povo de Deus. Uma das grandes promessas do Antigo Testamento é que noso Deus não é um deus distante mas é um Deus Conosco. Quem ama se faz presente. Como Deus é amor, Ele é especialista na arte de nos presentear com sua graça.

No princípio Deus nos criou à sua imagem e semelhança. Deixou em cada um de nos um reflexo de sua identidade. Fomos criados à imagem do Amor Eterno. Somos uma obra de arte assinada pelo Supremo Artista. Quando alguém sorri, é possível perceber por trás desta alegria singela, o autor do sorriso, ou seja o sorriso do próprio Deus. Mas a presença de Deus se revela também na obra criada. Tudo o que existe de belo neste mundo são presentes do Pai Eterno. Infelizmente nosso pecado borrou esta obra de arte. Por isso, nosso mundo precisa de um paciente trabalho de restauração.

Certa vez entrei na Igreja de Jesus, em Roma, e presenciei o paciente trabalho de uma senhora que restaurava uma imagem do século 16. Estava bastante danificada. Alguns meses depois passei na mesma igreja e a mesma senhora continava no mesmo lugar, fazendo a mesma coisa. Quase não dava para perceber o progresso do seu trabalho. Era uma restauradora. Fiquei imaginando quanto trabalho não damos ao Espírito Santo que é o restaurador do Pai. Ele, desde o dia do nosso batismo permanece nos lavando, purificando, restaurando e nos fazendo parte deste povo santo e pecador.

Na mesma igreja havia um pequeno do tempo de Santo Inácio de Loyola (1491-1556) da Madonna della Strada. Ela é cultuada a centenas de anos como padroeira dos peregrinos, pois Santo Inácio a encontrou em uma pequena capelinha que lhe foi confiada pelo papa e onde acolhia os peregrinos que chegavam a Roma. Pois bem. Também me tornei devoto da Madonna della Strada e todos os dias antes das aulas passava no seu altar para fazer uma prece. Admirava-me ver o jeito de rainha, com a particularidade que tinha colar e brinco de pedras preciosas e tanto a mãe, quanto o menino Jesus portavam coroas de ouro colocadas sobre a pintura. Certo dia me deparei com o altar da Madonna completamente vazio. Fui ao sacristão e perguntei o que tinha acontecido, imaginando algum lamentável roubo de arte sacra. O sacristão me explicou que as restauradoras haviam levado o velho quadro para a restauração. Passou-se quase seis meses. Quando vi o quadro restaurado não acreditei. Era uma imgem bastante simples e rústica. Pensei que pudesse ter havido algum engano. Não havia mais coroas, nem colar, nem brincos. Voltei ao sacristão, que mais uma vez me tranquilizou. Ele disse que aquela Madona Rainha não existe mais. As restauradoras durante seu trabalho, perceberam que ao longo dos séculos as pessoas foram enfeitando o ícone original com diversas camadas de tinta e com os adornos preciosos. ssim transformaram a humilde serva em uma soberana rainha. Os jesuítas, que até hoje cuidam desta igreja, aprovaram a volta à pintura original.

Isto é reparação. É voltar à graça original, que é bem anterior ao pecado Original. Temos que tirar várias camadas de tinta que a vida vai colocando sobre nós. Não seria isso que Jesus queria nos revelar quando disse que temos que voltar a ser crianças para entrar no reino dos céus? Na medida em que vamos encontrando nossa santidade original vamos ficando mais simples, menos complicados, mais autênticos, mais sinceros. Os santos são estas pessoas que servem de modelo para todo o povo de Deus porque passaram por um belo trabalho de restauração e deixaram de lado as camadas de tinta superficiais e as pedras preciosas que tornam a vida mais pesada e triste.

A História da Salvação é marcada por esta presença de Deus-Amor que nos recorda a nossa identidade original: Somos povo de Deus! Quando Moisés perguntou no nome de Deus que se revelava na Sarça Ardente Ele respondeu que era: “Eu sou aquele que Estou”. De fato este Deus Solidariedade se mostra sempre presente. Quando o povo sente sede, faz sair água da rocha; quando sente fome, manda o maná do céu; quando perde o rumo, entrega as Táboas da Lei; sempre encontra maneiras singelas de mostras que está com seu povo. A coluna de nuvem luminosa apontava a presença de Javé que mostrava o caminho a seguir. Na tenda da reunião o brilho dos olhos de Deus contagiava Moisés. Quando ele saía da tenda o rosto dele brilhava.

O Deus do Povo mostrou sua presença na palavra dos profetas que anunciavam a boa notícia e denunciavam toda forma de injustiça. Do profeta Ezequiel retirei o versículo que meditamos aqui: “Habitareis a terra de que fiz presente a vossos pais; sereis meu povo, e serei vosso Deus” (Ez 36, 28). De fato este poderia ser escolhido com o refrão de toda a Sagrada Escritura: Deus sempre está com seu povo!

Deus estava presente nos cantores do povo que, inspirados, compunham belos salmos. O mais inspirado de todos certamente foi Davi… o mais pecador também. No final do Salmo 50 o poeta diz de modo definitivo: “Sacrifício agradável a Deus é o espírito arrependido:não desprezareis, Senhor, um espírito humilhado e contrito. Pela vossa bondade, tratai Sião com benevolência, reconstruí os muros de Jerusalém.” É claro que Davi não está falando dos muros de pedra. Ele está falando do coração de cada um de nós que precisa de reparação, reconstrução. Somos a casa de Deus, onde habita o Espírto. Somos o corpo de Cristo, um templo aonde habita Deus.

O povo reconhecia no Templo de Jerusalém um forte sinal da presença de Deus no meio do seu povo. Na sala mais íntima era guardada a Arca da Aliança com as Tábuas da Lei. É claro que ninguém pode prender Deus em uma edificação de pedra. O profeta Isaías, irônico, dirá que o tempo não é grande o bastante nem mesmo para conter as franjas do manto de Javé. Deus é maior que nossas instituições.

Na plenitude dos tempos o amor de Deus radicalizou a forma de sua presença por meio do nascimento de Jesus. No evangelho de Mateus, logo no início, Jesus é chamado de Emmanuel, ou seja, Deus conosco. Ao longo deste mesmo evangelho percebemos que Deus revela diversas formas de sua presença. Uma das mais belas é no capítulo 25, quando o Mestre descreve o juízo final e afirma que quem acolheu os pobres acolheu o próprio Filho de Deus. Muitos dirão naquele dia: “Eras tu, Senhor?!” Os pobres são sacramentos da presença de Deus. Eles precisam de reparação. Desta forma a evangélica opção preferencial pelos pobres é uma forma de reparação. A salvação aqui toma o nome de solidariedade. A reparação não é apenas espiritual. Ela atinge todas as dimensões do humano, inclusive a dimensão social. Lutar pela justiça social é uma forma de raticar a reparação.

O apóstolo Paulo entendeu todas estas mensagens do Amor Divino. No momento em que caiu no caminho de Damasco, ele teria escutado a voz de Jesus a lhe dizer: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” Certamente ele pensou no seu íntimo: – “Não estou perseguindo este profeta que os romanos já mataram na cruz… estou perseguindo seus seguidores”. Aos pouco ele foi entendendo que o cristão não é apenas um discípulo de Jesus. É um “outro cristo”, cristiformizado pela graça do batismo. Cada um de nós e a Igreja como um todo é Corpo de Cristo. Santo Agostinho diria isso de outra forma durante a distribuição da comunhão: “Cristão, receba aquilo que você é, o Corpo de Cristo”. Esta é a forma suprema da reparação: sermos transformados em hóstias vivas. Somos transfigurados. Vestimos a camisa do time de Jesus. Somos revestidos de Cristo. Parece que Paulo foi percebendo esta mesma realidade de mil formas diferentes. Se você ler com atenção suas cartas verá que no fundo é apenas isso. Ele chega a dizer de modo nu e cru: “Para mim, viver é Cristo”. Mas o texto que melhor expresa o ponto final de sua reflexão, certamente é o capítulo 2 da Carta as Gálatas.

Medite comigo:

“Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim. A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.”

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