ÁGUAS REPARADORAS

Pe. Joãozinho, scj

            Derrama sobre nós

a Água do Amor,

o Espírito de Deus, Nosso Senhor!

 

A água, na Bíblia, é um dos principais símbolos utilizados para exprimir a ação do Espírito Santo. Este simbolismo atravessa a Sagrada Escritura do primeiro ao último livro. Logo nos primeiros versículos se diz que tudo era um caos, uma “bagunça” e o Espírito pairava sobre as águas (Gn 1,2). É um Espírito organizador. O pecado volta a bagunçar as coisas e acontece o “dilúvio”. Noé e sua família são salvos das águas por meio da arca (Gn 6-8).

Não é difícil entender por que a água é um símbolo tão forte. O Planeta Terra poderia tranquilamente se chamar Planeta Água. Existem mais mares e oceanos do que continentes de terra firme. Costumamos dizer que somos feitos de terra. A própria Bíblia tem uma narrativa da criação em que Deus sopra sobre um boneco feito de barro para lhe dar a vida. Mas biologicamente falando, em nosso organismo existe mais água que outra matéria qualquer. Podemos ficar dezenas de dias sem comer algo sólido; mas experimente permanecer três dias sem tomar água. A desidratação logo colocará sua vida em risco.

Um exemplo disso aconteceu quando Moisés (nome que significa “salvo das águas”) levou o povo para o Deserto, em direção à Terra Prometida. Primeiro tiveram que atravessar as “águas” do Mar Vermelho (Ex 14). Páscoa significa passagem e aquela passagem libertadora pelas águas foi a primeira “páscoa” da história. Quando já estavam longe da opressão do Egito – passada a euforia – o povo começou a sentir o peso de algumas dificuldades típicas do deserto. Uma delas foi a falta de água. Moisés, seguindo a ordem de Deus, tocou com seu bastão na rocha e saiu água para saciar o povo (Ex 17).

O apóstolo João recordou deste fato quando estava diante da cruz. O episódio está registrado com destaque no capítulo 19 do seu Evangelho. Sem dúvida é o texto mais importante da Bíblia para a espiritualidade do Sagrado Coração de Jesus. Ele relata uma cena que para olhos puramente humanos poderia ser de horror; mas para o olhar de fé de João é o supremo gesto de amor de Jesus. O mestre já havia dado o último suspiro. O discípulo amado já havia recebido Maria por mãe. Certamente os dois estavam abraçados ao pé da cruz sem palavras e com um nó na garganta. Restara apenas a fé, a esperança e o amor! De repente um soldado se aproxima do calvário. Era o momento de retirar os corpos da cruz. Para garantir que os condenados estavam mortos, era costume quebrar as pernas antes de sepultar. Fizeram isso com os dois ladrões. Mas quando chegaram a Jesus verificaram que já estava morto, por isso não lhe quebraram as pernas, porém um soldado traspassou seu lado com uma lança. João observa com atenção e verifica que daquela ferida saiu sangue e água. Ele insiste na importância do fato. Não era um sangue qualquer. Não era uma água qualquer. Lembrava o gesto de Moisés de tocar com seu bastão na rocha para sair água. A teologia dos séculos que se seguiram iria decifrar cada vez mais o rico simbolismo deste episódio de amor. Na verdade aquele sangue era símbolo da Eucaristia e aquela água representava o nosso Batismo, ou seja, o Espírito Santo brotava simbolicamente daquela fonte, como Ezequiel profetizara que do lado direito do Templo nasceria uma fonte (Ez 47). Aonde aquelas águas chegassem a vida venceria todo tipo de morte. Como disse Santo Agostinho, a Igreja nasceu do lado aberto de Cristo “dormindo” na cruz, do mesmo modo que Eva nasceu do lado de Adão, “dormindo” no paraíso.

Estas metáforas, que somente um grande amor sabe inventar, não são pura poesia. Os Santos Padres desde o início do cristianismo souberam sentar no banco da escola do apóstolo João e entender a espiritualidade do Coração de Jesus. São lições de reparação que chegaram até nós. Acolhemos a Água do Espírito desde o dia de nosso batismo. Sem ela nossa alma fica desidratada. Definhamos e morremos. Precisamos do Espírito Santo da mesma forma que o nosso corpo precisa de um copo de água refrescante. Precisamos mais… temos necessidade de mergulhar nesta água; de tomar um verdadeiro banho de Espírito Santo. Após um dia intenso de trabalho é tão bom chegar em casa e tomar um banho. Parece que recobramos as forças. Mergulhando nas Águas do Espírito somos purificados, restaurados, saciados. Isto é reparação. O Espírito Santo é água restauradora. No batismo ele nos lavou do pecado original. Mas o batismo não é um fato pronto e acabado. Estamos em permanente estado de mergulho, ou seja, de batismo (já que a palavra batismo vem do grego e significa mergulho). O próprio Jesus inicia sua missão descendo às águas do Rio Jordão para ser batizado por João (Mt 3). Era apenas um batismo de purificação, conforme o costume da época, mas assinalou a tradição cristã, que faria deste mergulho sagrado o rito de iniciação de todos os discípulos de Jesus Cristo.

Se você reler agora o Evangelho de João, verá que é o Evangelho das águas. Já o primeiro milagre de Jesus é transformar água em vinho, em Caná (Jo 2). Em seguida, na catequese a Nicodemos ele diz: “Quem não nascer da água e do Espírito, não poderá entrar no Reino dos Céus! (Jo 3).  No capítulo 4 ele relata o encontro de Jesus com a Samaritana junto ao poço de Jacó. Toda a conversa começa quando o Mestre chega cansado, senta na beira do poço e pede àquela mulher um copo d’água. A conversa vai longe. Mas no final quem pede Água é a mulher, depois que Jesus lhe diz: – “Se soubesse quem está falando, você é que pediria e ele lhe daria uma Água Viva, e você não precisaria mais de outras águas” (Jo 4). Jesus estava falando do Espírito Santo. No capítulo 5 Jesus cura aquele homem que estava na beira de uma piscina esperando as águas se movimentarem para mergulhar e ser curado. No capítulo 6 ele atravessa as águas do Mar da Galiléia e multiplica pães. No mesmo capítulo ele anda sobre as águas. Chegamos ao capítulo 7. Jesus faz uma pregação solene em uma grande festa, no Templo de Jerusalém. No último dia da festa, o mais solene, ele diz: – “Quem tem sede, venha a mim e beba quem crê em mim; do seu interior jorrarão rios de água viva”. É a realização da profecia feita pela boca do profeta Isaías: “Com alegria tirareis água nas fontes da salvação” (Is 12,3). Esta Água Viva de Restauração é o Espírito Santo que Jesus oferece a todos os que se aproximam dele.

No Evangelho de Lucas há um texto muito interessante. Está no capítulo 5. Os apóstolos haviam pescado a noite toda sem sucesso. Já estavam desanimados. De repente aparece Jesus e diz para eles: – “Avancem para águas mais profundas”. Confesso que se eu fosse um pescador profissional, não daria muita atenção aos conselhos de um carpinteiro. O que ele entende de pescaria?! Pedro até reagiu: – “Olha, tentamos a noite inteira, mas hoje o mar não está pra peixe!” Mas o velho Pedro era mais sábio que teimoso. Completou sua frase: – “Mas por causa da tua palavra lançaremos as redes”. E a pesca foi milagrosa! O papa João Paulo II escolheu este conselho de Jesus como lema do terceiro milênio da Era Cristã: “Avancem para águas mais profundas”, em latim Duc in altum. Os jovens diriam hoje: “Vai fundo!” Viver o batismo, é mergulhar em águas profundas. Não podemos ficar na superficialidade da fé. Para que a pesca seja realmente milagrosa é necessário aprofundar as razões de nossa esperança.

Ser um discípulo-missionário de Jesus Cristo é viver esta dinâmica das Águas. É como se nossa vida fosse a turbina de uma grande hidrelétrica. Para gerar a energia é necessário que a água passe por dentro desta turbina, movimentando-a. Quando vivemos cheios do Espírito, cheios de graça, nossa vida gera a luz e a vida para quem está ao nosso redor. Se deixarmos a nossa espiritualidade secar; se não damos lugar para as Águas do Espírito; seremos uma hidrelétrica com grandes turbinas, mas sem luz! É neste momento que precisamos de reparação. Peçamos ao Senhor um novo derramamento do Espírito, um novo Pentecostes. Cristãos restaurados se tornam luz para suas famílias, escolas, empresas, comunidades. É muito bonito ver um católico que é movido pelas Águas do Espírito. Este não guardou a lembrancinha do batismo apenas como recordação. Ele vive este mergulho de salvação todos os dias de sua vida. Está em permanente estado de batismo. Mergulha sempre mais nas profundezas do Espírito de Deus. 

O verdadeiro batizado é uma pessoa restaurada, ou melhor, em permanente restauração. É alguém que se movimenta, como um rio. Lembre-se que o Mar da Galiléia era cheio de vida por causa de sua dinâmica de deixar as águas formarem o Rio Jordão. Mas o Mar Morto é morto, porque recebe estas águas, mas não as devolve a ninguém. É por essas e outras que a fé da Igreja nos ensina que o Espírito é Senhor e dá a vida! Quem vive esta dinâmica generosa das águas entenderá porque cantamos: Derrama sobre nós a Água do Amor!

2 Responses to “11. Águas reparadoras”

  1. PE.Joãozinho a paz de Jesus e o amor de Maria ao senhor. essas reflexão tão siginificativa que o senhor escreveu no seu blog quer nos falar que nos devemos buscar sempre desta água que é reparadora e devemos busca-la sempre. que Jesus e Maria te Proteja. Amém!!! Vanessa Freire da Silva Maringá Paraná.

  2. KARLA MARTINS disse:

    Por favor, preciso do e-mail do Padre Joaozinho ou de algum secretário.
    Preciso me comunicar com alguém que tenha a agenda do Padre.
    Aguardo,
    Karla Martins

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