A DINÂMICA DA REPARAÇÃO

Pe. Joãozinho, scj

            Lava, purifica,

e restaura-me de novo!!

 

“Reparação” é uma palavra que ouvimos principalmente no contexto da devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Ela faz parte de uma série de conceitos que tentam expressar de mil formas a salvação da humanidade: libertação, redenção, cura, remissão, renovação, restauração. Tradicionalmente a reparação foi entendida como “rezar pelos que não rezam, amar pelos que não amam, crer pelos que não creem”. Não podemos rapidamente descartar este sentido, pois ele tem como fundamento o fato de pertencermos todos ao mesmo corpo, o corpo místico de Cristo. Somos membros desta Igreja, da qual Cristo é a cabeça. Se um membro sofre, o corpo inteiro sofre. Se um corpo se alegra, todo o corpo vive desta alegria. Há entre nós um mistério de solidariedade espiritual que a doutrina da Igreja sempre professou com fé: “creio na comunhão dos santos”. Neste sentido eu posso rezar por você e você pode rezar por mim. Estamos espiritualmente tão próximos quando os dedos de minha mão. O apóstolo Paulo retratou esta verdade com uma frase que nem todos compreendem: “Suportai-vos uns aos outros em Cristo” (Colossenses 3,13). É como se todos estivéssemos carregando o andor do mesmo santoe eu preciso fazer mais força quando meu irmão ao lado fraquejar. Também terei meu momento de fraqueza e ele fará mais força por mim. Este mistério de solidariedade, de comunhão, é o primeiro sentido da reparação.

O Espírito é a seiva que nos vivifica o Corpo de Cristo que é a Igreja; é o sopro que nos anima. É ele que nos faz todos os dias mais parecidos com o nosso projeto original: A face de Cristo. Somos filhos no Filho. Por isso, podemos dizer “Pai nosso…”. O apóstolo Paulo disse isso de maneira muito bonita em sua carta aos Romanos:

“De fato, se viverdes segundo a carne, haveis de morrer; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras da carne, vivereis,  pois todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.  Porquanto não recebestes um espírito de escravidão para viverdes ainda no temor, mas recebestes o espírito de adoção pelo qual clamamos: Aba! Pai!  O Espírito mesmo dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus.  E, se filhos, também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, contanto que soframos com ele, para que também com ele sejamos glorificados.”  (Rm 8, 13-17)

Vivemos desde o dia de nosso batismo este mistério de filiação e fraternidade. É um processo dinâmico. Batismo, em grego, significa “mergulho”. No dia do batismo iniciamos esta história de santificação no Espírito. Ele vai nos envolvendo, como uma nuvem, na medida em que nos deixamos envolver. No Monte Tabor a nuvem envolveu Jesus e o transfigurou. Assim também o Espírito nos envolve e transfigura. Para realizar esta obra o Espírito precisa restaurar a beleza original de algumas dimensões de nosso ser. Recebemos como que por herança genética o mau humor da humanidade… nascemos no pecado original. Mas o Espírito nos “lava”, ou seja, repara. Este é o segundo sentido forte da reparação. É o batismo, o mergulho nas águas do Espírito, acontecendo todos os dias. A pentecostalidade cristã gosta até mesmo de falar de “batismo no Espírito”, que não nada mais do que o batismo sacramental estendido a cada minuto de nossa existência terrena. Somos chamados a viver em estado de mergulho, cada vez em águas mais profundas. É o convite de Jesus aos seus apóstolos: Duc in altum, ou seja, “vamos avançar mais para o fundo” (Lc 5,4). O papa João Paulo II escolheu esta frase como lema da Igreja Católica para o terceiro milênio da era cristã. A reparação é esta obra que acontece quando mergulhamos nas profundezas do Espírito.

Fomos criados à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,27). O pecado desfigurou a beleza original da relação com Deus, com o próximo, consigo mesmo e com a natureza. A partir daquele momento precisamos de reparação em cada uma destas dimensões. São quatro idolatrias que nos desfiguram. Deveríamos ser filhos de Deus, mas caímos na tentação de “ser iguais a Deus”. Ainda hoje muitas pessoas se colocam no lugar de Deus com uma espécie de complexo de onipotênica. O resultado é o stress e a frustração. A torre de Babel é um episódio que mostra bem esta ambição humana. O resultado é a confusão. Hje em dia uma ciência sem consciência costuma brincar de Deus. Muitas vezes acaba criando monstrinhos que nem ela mesma sabe como controlar. Precisamos reparar esta dimensão desfigurada reconhecendo Deus como nosso único senhor. Quando os religiosos fazem o voto de obediência é para denunciar a idolatria do poder e reconhecer que só Deus tudo pode. Nós também podemos tudo, mas Naquele que nos fortalece. O orgulho, portanto, é a raiz de todos os pecados. O antídoto é a humildade. Não pra menos que Jesus se revela como manso e “humilde” de coração (cf. Mt 11). Alem disso ele diz que somente neste coração humilde é que encontraremos repouso para as nossas almas.

A segunda dimensão desfigurada é a relação com o próximo, que acaba ficando distante. O primeiro livro da Bíblia mostra que depois do pecado de orgulho a confusão começou entre Adão e Eva por meio de mútuas acusações. No ápice dos conflitos a inveja de Caim o leva a matar seu irmão Abel. O mesmo Espírito que nos filia, também nos fraterniza. Esta é uma forma urgente de reparação que precisamos anunciar para o nosso mundo dividido em contínuas discórdias. O pecado pessoal vai tomando dimensões sociais até se tornar estrutural, ou seja, uma estrutura social de pecado que faz com que mais e mais pessoas entrem no círculo vicioso da vingança, do ódio, da guerra. Nossas cidades padecem diariamente deste pecado que mancha de sangue as manchetes de nossos jornais. O crime organizado na verdade é uma estrutura congelada de pecado que clama por reparação. Quando os religiosos fazem o voto de castidade não é para viver apenas a abstinência sexual. Na verdade este voto é a denúncia da idolatria do prazer e o anúncio de que possível fazer da nossa terra um reino de irmãos. Podemos antecipar este reino. Quando chamamos uma religiosa de “irmã”, estamos reconhecendo esta vocação sublime de algumas pesoas que se consagram a esta missao restauradora. Denunciar toda forma de injustiça social e opressão é promover a reparação. Os grandes apóstolos do Coração de Jesus sempre foram divulgadores da Doutrina Social da Igreja. Um deles, Léon Dehon, que fundou a Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus, foi uma dos maiores divulgadores da Rerum novarum, o primeiro documento da Doutrina Social da Igreja, publicado pelo Papa Leão XIII, em 1891.

A terceira dimensão que precisa ser restaurada no ser humano é a sua relação com a natureza. Hoje estamos cada vez mais sensíveis a esta dimensão ecológica, pois literalmente sentimos na pele os efeitos da destruição do mundo no qual Deus nos colocou como jardineiros. Reciclar, limpar, preservar, são atitudes de santidade. Um dos grandes exemplos que temos deste tipo de reparação é São Francisco de Assis. Não é preciso gastar muitas palavras para defender a urgência da consciência ecológica. Quando os religiosos fazem voto de pobreza, não é simplemente para economizar e enriquecer suas congregações, mesmo que seja para utilizar este patrimônio em favor dos pobres. Não se trata simplemente de um voto de modéstia ou de simplicidade. Este voto denuncia a idolatria da riqueza, do ter, e anuncia que é preciso partilhar.

Finalmente, a quarta dimensão da reparação é a relação consigo mesmo. Curioso que depois do pecado nossos primeiros pais ficaram com vergonha de andarem nús diante de Deus. No rico simbolismo bíblico isto significa que o pecado nos leva a perder a nosa identidade e até mesmo a auto-estima. Ou seja, o pecado no desfigura. Do lado aberto do Cristo desfigurado na Cruz, de onde brotou sangue e água, nasce esta fonte de restauração. Por onde passa este rio de graças, a vida é restaurada em sua beleza original. Este é o plano salvífico de Deus: em Cristo restaurar todas as criaturas. Esta teologia da reparação é praticamente explícita nos escritos do Apóstolo Paulo, principalmente a carta aos Colossenses: “Porque aprouve a Deus fazer habitar nele toda a plenitude e por seu intermédio reconciliar consigo todas as criaturas, por intermédio daquele que, ao preço do próprio sangue na cruz, restabeleceu a paz a tudo quanto existe na terra e nos céus.”  (Cl 1,19-20)

2 Responses to “9. A dinâmica da reparação”

  1. Maria Inês disse:

    Pe. Joãozinho,

    Assisti reprise do último programa Direção Espiritual – Pe. Fábio de Mello, que recebeu visita de um padre amigo e companheiro de convento. ( ). No final falou em leveza…ser leve ao irmão. Sempre olhamos o que o outro é para nós…mas nem sempre O que eu sou para o irmão…

    Deste capítulo este trecho:”O mesmo Espírito que nos filia, também nos fraterniza. Esta é uma forma urgente de reparação que precisamos anunciar para o nosso mundo dividido em contínuas discórdias.

    O pecado pessoal vai tomando dimensões sociais até se tornar estrutural, ou seja, uma estrutura social de pecado que faz com que mais e mais pessoas entrem no círculo vicioso da vingança, do ódio, da guerra.”

  2. oi penso-vos que orem a favor da minha relação,uma relação que nunca minha sogra aceitou,mas eu meu gatonos gostas mtas sempre que havia uma reaproximação entre agente parece as coisas ainda mas complicava-se ao nosso lado hoje vivemos uma paz,mas ele não consegue decider a nosso situação junta vivermos criamos lindas dadiva que deus colocou na nossa vda não sei que tipo de diabo exta na minha vda não vjou dia de entrar de braço dada dentro de uma igreja com que gosto mto

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