Carta para os ministros de música

Filed under: Artigos — padrejoaozinho at 7:05 am on Saturday, October 11, 2008

Brasília-DF, 25 de setembro de 2008ML – C – Nº 0845/08 

 

Carta aos agentes de música litúrgica do Brasil 

 

A liturgia ocupa um lugar central em toda a ação evangelizadora da Igreja. Ela é o “cume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte de onde emana toda a sua força” (SC 10). Nela, o discípulo realiza o mais íntimo encontro com seu Senhor e dela recebe a motivação e a força máximas para a sua missão na Igreja e no mundo (cf. DGAE nº 67). Há uma relação muito profunda entre beleza e liturgia. Beleza não como  mero esteticismo, mas como modalidade pela qual a verdade do amor de Deus em Cristo nos alcança, fascina e arrebata, fazendo-nos sair de nós mesmos e atraindo-nos assim para a nossa verdadeira vocação: o amor (cf. SCa 35).  Unida ao espaço litúrgico, a música é genuína expressão de beleza, tem especial capacidade de atingir os corações e, na liturgia, grande eficácia pedagógica para levá-los a penetrar no mistério celebrado.          Acompanhamos, com entusiasmo e alegria, o florescer de grupos de canto e música litúrgica, grupos instrumentais e vocais, que exercem o importante ministério de zelar pela beleza e profundidade da liturgia através do canto e da música. Sua animação e criatividade encantam muitos daqueles que participam das celebrações litúrgicas em nossas comunidades. Ao soar dos primeiros acordes e ao canto da primeira nota, sentimos mais profundamente a presença de Deus.          Lembramos alguns aspectos importantes que contribuem para a grandeza do mistério celebrado.          1. A importância da letra na música litúrgica - a letra tem a primazia, a música está a seu serviço. A descoberta da beleza de um canto litúrgico passa necessariamente pela análise cuidadosa do conteúdo do texto e da poesia. A beleza estética não é o único critério. Muitas músicas cantadas em nossas liturgias estão distanciadas do contexto celebrativo. “Verdadeiramente, em liturgia, não podemos dizer que tanto vale um cântico como outro; é necessário evitar a improvisação genérica e o canto deve integrar-se na forma própria da celebração” (SCa 42). Não é possível cantar qualquer canto em qualquer momento ou em qualquer tempo. O canto “precisa estar intimamente vinculado ao rito, ou seja, ao momento celebrativo e ao tempo litúrgico” (DGAE 76). Antes de escolher um canto litúrgico é preciso aprofundar o sentido dos textos bíblicos, do tempo litúrgico, da festa celebrada e do momento ritual.           2. A participação da assembléia no canto -  o Concílio Vaticano II enfatiza a participação ativa, consciente, plena, frutuosa, externa e interna de todos os fiéis (cf. SC 14). O canto litúrgico não é propriedade particular de um cantor, animador, ou de um seleto grupo de cantores. A liturgia permite alguns momentos para solos (tanto vocais quanto instrumentais), porém a assembléia deve ter prioridade na execução dos cantos litúrgicos. O animador ou o cantor tem a importante missão, como elemento intrínseco ao serviço que presta à comunidade, de favorecer o canto da assembléia, ora sustentando, ora fazendo pequenos gestos de regência, contribuindo para a participação ativa de toda a comunidade celebrante.           3. Cuidado com o volume dos instrumentos e microfones - em muitas comunidades, o excessivo volume dos instrumentos, como também a grande quantidade de microfones para os cantores, às vezes, não contribuem para um mergulho no mistério celebrado, antes, provocam a agitação interior e a dispersão, além de inibir a participação da assembléia no canto. Pede-se cuidado com o volume do som, a fim de que as celebrações sejam mais orantes , pois tudo deve contribuir para a beleza do momento ritual. 4. Cultivar uma espiritualidade litúrgica - os cantores e instrumentistas exercem um verdadeiro ministério litúrgico (SC 29). A celebração não é um momento para fazer um show, para apresentação de qualidades e aptidões. Os cantores e instrumentistas devem, antes de tudo, mergulhar no mistério, ouvir e acolher com a devida atenção a Palavra de Deus e participar intensamente de todos os momentos da celebração. Música litúrgica e espiritualidade litúrgica devem andar juntas, são duas asas de um mesmo vôo, duas nascentes de uma mesma fonte.Invocamos as luzes do Espírito Santo sobre todos os agentes de música litúrgica de nosso país. Reconhecemos o valoro do ministério exercido a serviço de celebrações reveladoras da beleza suprema do Deus criador e da atualização do Mistério Pascal de Jesus Cristo. 

 

 

D. Joviano de Lima Júnior, SSSArcebispo de Ribeirão Preto ePresidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia 

 

           

Totalmente católicos

Filed under: Artigos — padrejoaozinho at 8:42 am on Wednesday, October 8, 2008

Desculpe o pleonasmo do título. A palavra “católico”, em sua origem grega, já significa “totalidade”. Cumprimos o mandato de Jesus Cristo antes de sua volta para a casa do Pai: “Anunciar o Cristo TODO para TODOS” (Mateus, 28). Mas resolvi insistir nesta verdade por dois motivos. Primeiro porque católicos “meia-boca” costumam viver a sua fé pela metade. No Brasil eles se reconhecem como “não-praticantes”. Estes costumam ser os alvos preferidos da pregação de algumas igrejas evangélicas que pretendem encher seus templos. Bem dizia o saudoso bispo de Aparecida, Dom Aloísio Lorscheider, perguntado em uma entrevista por que a Igreja Católica perde seus fiéis. Sabiamente ele respondeu: - “Engano seu. Os fiéis continuam conosco. Estamos perdendo os infiéis”.

Mas existe outro motivo para optar pelo título “totalmente católicos”. Percebo um movimento muito forte de recuperação da auto-estima dos católicos. É claro que existem os cínicos que torcerão o nariz ao ler o que estou escrevendo. Mas estes estão se tornando infiéis aos poucos e ainda por cima dizem que continuam os mesmos… a igreja é quem mudou. Balela. O Espírito está soprando em nossos irreverentes jovens. É claro que existe muita mensagem difícil de engolir nos novos sermões e canções. Há muito lugar comum e muito padre imitando pastor para recuperar migalhas do rebanho fujão. Não é disso que estou falando. O que percebo é que o Espírito Santo não parou de soprar na Igreja Católica. Ao contrário… há muita coisa bonita acontecendo escondida e infelizmente isso não é devidamente noticiado por nossas emissoras de TV que se dizem católicas.

Existem católicos sendo totalmente “evangélicos”… e um pouco mais. Somos do Evangelho. Não podemos dizer que não. Há um movimento bíblico acontecendo desde os antigos círculos bíblicos até as mais discretas comunidades eclesiais de base (CEB’s). Junto a isso existem católicos com suas Bíblias marcadas e surradas lendo e relendo… e mais que isso, estudando e vivendo a Palavra de Deus.

Tenho encontrado católicos totalmente “batistas”… e um pouco mais. Eles conseguem redimensionar a vivência do batismo recuperando o catecumenato sem criar um movimento fechado em si mesmo. Seu povo é fiel e estuda muito. Fazem muitos cursos sobre a doutrina cristã e tem seu Catecismo da Igreja Católica marcado e surrado. Sabem dar as razões da sua esperança.

Vejo por onde ando que existem católicos que se reconhecem como “assembléia de Deus”. Sabem que foram convidados, ou melhor, convocados para esta festa. Sabem que não são um povo qualquer. São povo de Deus. Formam comunidade. Conhecem bem seu pároco e o amam como pastor. É gente que participa de pastorais e vai à missa de domingo. Quando entram na igreja se sentem em casa… chamam quem está do lado de “irmão”.

Conheço muito bem os católicos “pentecostais”. Estão na Renovação Carismática e em muitos outros lugares. Muitos vivem esta espiritualidade intimamente. Rezam em línguas estranhas quando lhes falta a palavra conceitual. Não faz mal. Deus entende… e os bons teólogos (como Santo Agostinho) também! Vivem uma dinâmica carismática ao sabor do vento e tentam manter os pés no chão. Os que conseguem se tornam santos e acabam preferindo a oração de contemplação.

Já vi católicos “protestantes”. São profetas que anunciam a justiça social e denunciam toda forma de injustiça. Continuam lendo os livros da Teologia da Libertação, mas reescrevem esta carta em comunhão de Igreja, como convém aos que estão vivos e sabem se reinventar todos os dias. Muitos destes vivem a bela opção solidária e evangélica pelos pobres.

Finalmente existem os católicos da “congregação cristã”. Sou um deles. Congrego na Igreja Católica Apostólica Romana. Dentro dela faço parte de uma grande família: a Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus. Sou congregado sim. Mas existem também os congregados marianos e outros mais. Somos todos deste Sacramento Universal de Comunhão… que é a Igreja Católica… que, aliás, significa Universal! Somos evangélicos, batistas, assembléia de Deus, pentecostais, protestantes, congregação cristã e universal. Somos Católicos do Reino de Deus… e um pouco mais, afinal, temos o Cristo todo para anunciar a todos. Somos discípulos-missionários. Ser católico é ser quase tudo o que os outros cristão são… e um pouco mais!

Uso do termo “Javé” na liturgia

Filed under: Artigos, A - DIÁRIO — padrejoaozinho at 1:17 pm on Wednesday, September 24, 2008

CIDADE DO VATICANO - A Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos enviou uma carta às conferências episcopais do mundo sobre o nome de Deus, na qual pede que não se use o termo «Javé» nas liturgias, orações e cantos.

A carta se refere ao uso do nome «YHWH», que se refere a Deus no Antigo Testamento e que em português se lê «Javé». O texto explica que este termo deve ser traduzido de acordo ao equivalente hebraico «Adonai» ou do grego «Kyrios»; e põe como exemplos traduções aceitáveis em cinco idiomas:Lord (inglês), Signore (italiano), Seigneur (francês), Herr (alemão) e Señor em espanhol.

A carta está assinada pelo cardeal Francis Arinze e pelo arcebispo Albert Malcom Rajith, respectivamente prefeito e secretário da congregação vaticana, seguindo uma diretiva de Bento XVI.

Após comentar que o nome de Deus exige dos tradutores um grande respeito, o cardeal explica que a palavra «YHWH» é «uma expressão da infinita grandeza e majestade de Deus», que se manteve «impronunciável e por isso foi substituída na leitura das Sagradas Escrituras com o uso da palavra alternativa ‘Adonai’, que significa ‘Senhor’».

Esta tradição da tradução é importante para entender Cristo, assinala a carta vaticana, já que o título de «Senhor» torna-se «intercambiável entre o Deus de Israel e o Messias da fé cristã».

«As palavras das Escrituras contidas no Antigo e Novo Testamento expressam a verdade que transcende os limites do tempo e do espaço; são a palavra de Deus expressada em palavras humanas, e por meio destas palavras de vida, o Espírito Santo introduz os fiéis no conhecimento da verdade total. Por isso, a palavra de Cristo aparece diante dos fiéis em toda a sua riqueza», explica a indicação da Santa Sé.

Fonte: Agência Zenit e Vaticano.va
www.portalcatolico.org.br

Dia de aulas

Filed under: Artigos, A - DIÁRIO — padrejoaozinho at 8:50 am on Wednesday, September 24, 2008

Dentro da saudável rotina da semana, hoje é meu dia de dar aulas de teologia. No primeiro momento estudaremos as diversas “ondas carismáticas” do cristianismo. Na segunda aula iremos conhecer um pouco melhor a dinâmica da quaresma. Hoje posto uma destas aulas aqui para você também poder participar.

O TEMPO DA QUARESMA

M. AUGÉ. Liturgia. São Paulo: Ave-Maria, 1998, pp. 310-314. 

Nos primeiros séculos a celebração da Páscoa não tinha um período de preparação. Havia somente o jejum observado nos dois ou três dias precedentes. No Ociden­te temos os primeiros testemunhos diretos sobre a exis­tência da Quaresma no século IV; Egéria nos dá notícias de Jerusalém, e indiretamente da Espanha; S. Agostinho, da África; S. Ambrósio, de Milão. O historiador Sócrates (+ depois de 439), pela primeira vez nos dá testemunho, provavelmente por volta do século IV, de um tempo de preparação para a Páscoa, de duas ou três semanas de duração, exceto o sábado e o domingo. Trata-se, po­rém, de um estágio que podemos chamar de pré­-quaresmal. No fim do século IV temos testemunhos de uma preparação para a Páscoa de seis semanas. É a Qua­resma do tempo de S. Leão (+ 461). Para o desenvolvi­mento da Quaresma contribuíram a disciplina pela re­conciliação dos penitentes, que acontecia na manhã da quinta-feira santa, quarenta dias após o início da sua pre­paração, e a instituição do catecumenato, com a prepara­ção imediata dos “iluminandos” para o Batismo, cele­brado na vigília pascal. Progressivamente essas seis se­manas passaram por modificações. Em verdade, as pri­meiras fontes romanas revelam um estágio ainda mais recente da Quaresma, no qual o tempo de preparação começa na quarta-feira anterior ao primeiro domingo da Quaresma (a nossa “quarta-feira de cinzas”). Posterior­mente, foram acrescentados outros domingos de prepa­ração para a Quaresma: qüinquagésima, sexagésima, septuagésima.

 Após o Vaticano lI, a Quaresma foi reformada seguin­do os critérios da Sacrosanctum Concilium, que indicou cla­ramente seu sentido fundamental: “… [ a Quaresma] sobretudo através da lembrança ou da preparação para o Batismo e com a penitência prepara os fiéis para a celebração do mis­tério pascal, com a escuta mais freqüente da palavra de Deus e com a oração mais intensa” (nº 109).

A Quaresma atual vai da quarta-feira de cinzas até a missa da ceia do Senhor, esta excluída. Além da riqueza dos textos eucológicos, temos, nos formulários quaresmais, uma série abundante de textos bíblicos. A celebração litúrgica, também em relação ao desenvolvi­mento temático, coloca em destaque principal o domin­go. Nos cinco domingos que precedem o domingo de ra­mos, o lecionário dominical oferece a possibilidade de três itinerários diferentes, e ao mesmo tempo comple­mentares: um itinerário batismal (ciclo A); um itinerário cristocêntrico-pascal (ciclo B); um itinerário penitencial (ciclo C). Todos os domingos estão organizados tematicamente. A base é a leitura evangélica.

§       Itinerário batismal - Nos domingos do “ciclo A” somos convocados a redescobrir e reviver a realidade mistérica da nossa iniciação cristã. Os cinco domingos repropõem a temática que na tradição antiga constituía o quadro de refe­rência da última fase da caminhada catecumenal. Nos pri­meiros dois domingos temos as leituras evangélicas de Mateus, com os clássicos episódios das tentações de Jesus no deserto (Mt 4, 1-11) e da transfiguração na montanha (Mt 17, 1-9). Neste duplo episódio emblemático dos pri­meiros dois domingos da Quaresma, encontramos o duplo aspecto do mistério pascal, antecipado na vida de Jesus e portanto na celebração da Igreja. Nos três domingos seguin­tes foram escolhidos trechos de João, junto com os escrutí­nios e exorcismos batismais: a samaritana (Jo 4, 5-42); a cura do cego de nascimento (Jo 9, 1-41); a ressurreição de Lázaro (Jo 11, 1-45). Trata-se de três episódios nos quais brilha a revela­ção pessoal de Jesus (”água viva”, “luz do mundo”, “res­surreição e vida”) diante da condição do homem, prefi­gurando a realidade batismal. O ciclo A, de caráter batis­mal, pode ser seguido cada ano, conforme as exigências pastorais de cada comunidade. Os formulários da missa prevêem prefácios específicos que apresentam o tema da perícope evangélica.

§       Itinerário cristocêntrico-pascal - A temática do “ciclo B” chama a nossa atenção para a Páscoa de Cristo. As leituras evangélicas dos primeiros dois domingos repropõem as cor­respondentes temáticas do ciclo A, mas na redação de Mar­cos (1, 12-15; 9, 2-10). Nos outros três domingos retomam­- se episódios de João, que apresentam uma progressiva pro­clamação do mistério de Jesus que caminha em direção do cumprimento da sua hora: Jesus é o verdadeiro templo que será destruído - como acontecerá na sua morte - , ele o re­construirá na sua ressurreição (Jo 2, 13-25); Cristo na sua exaltação dolorosa e gloriosa é o cumprimento da tipologia da serpente erguida por Moisés no deserto (Jo 3, 14-21); Cristo é o grão de trigo que se parte na terra e dá a vida morrendo (Jo 12,20-33).

§       Itinerário penitencial - Os domingos do “ciclo C” constituem o paradigma de uma grande e profunda catequese,sobre a reconciliação. Também este tema en­contra o seu ponto mais alto na celebração da Páscoa, sinal supremo da nossa reconciliação com o Pai. Batis­mo e penitência constituem, desta forma, os dois pólos constantes sobre os quais está centrado todo o caminho quaresmal, em vista da plena reconciliação do homem com Deus. Os evangelhos dos dois primeiros domingos retomam a temática da tentação do deserto e da transfi­guração, com as características do evangelho de Lucas (4, 1-13; 9, 17-36). Para os três domingos seguintes, usam-­se trechos que dizem respeito à conversão: a parábola da figueira sem frutos (Lc 13, 1-9); a parábola do filho pró­digo(Lc 15, 1-3.11-32); a adúltera perdoada (Jo 8, 1-11).

          O significado e o conteúdo da Quaresma são expostos de forma sintética e precisa no primeiro prefácio da Quares­ma do Missale romanum: “Cada ano tu concedes aos teus fiéis preparar-se-para as festas pascais na alegria dos cora­ções purificados, para que, assíduos na oração e na caridade ativa, participem dos mistérios da própria regeneração e obtenham a graça de serem plenamente teus fIlhos”.  

   A coleta do primeiro domingo de Quaresma fala da celebração quaresmal como “do sinal sacramental da nossa conversão”. Se a Quaresma é um “Sacramento”, isto é, “um sinal sagrado”, quer dizer que tudo o que faz parte da instituição quaresmal - gestos e palavras - é uma realidade unitária e simbólica. A Quaresma, no seu conjunto de palavra que anuncia os acontecimentos da salvação, orações, ritos e práticas ascéticas, é um grande sinal sacramental, mediante o qual a Igreja participa do mistério de Cristo, que por nós passa pela experiência do deserto, sai vitorioso da tentação, escolhendo o caminho do messianismo do servo humilde e sofredor até a cruz.

QUESTÃO:Qual a antropologia quaresmal presente na práticas penitenciais da “oração, jejum e esmola”?

Carta de Dom Alberto Taveira sobre POLÍTICA

Filed under: Artigos, A - DIÁRIO — padrejoaozinho at 8:20 am on Saturday, September 20, 2008

Reproduzo aqui no BLOG a lúcida e completa carta de Dom Alberto Taveira sobre o atual momento político do BRASIL. Sugiro que você ajude a divulgar:

Palmas, 1º de setembro de 2008. 

A todos os fiéis da Igreja Católica, paz e bênção no Senhor! 

Caríssima irmã,Caríssimo irmão, 

A Arquidiocese de Palmas promoveu, nos dias 28 e 29 de agosto de 2008, o I Fórum sobre Fé e Política, com grande participação dos diversos setores da Igreja. Contamos também com a presença honrosa das pessoas que se candidatam à prefeitura de Palmas e candidatos à Câmara Municipal. Após o Fórum, haverá outras reuniões nas Paróquias e Regiões Episcopais, para que muitas pessoas participem das conversas e conheçam as orientações da Igreja. Hoje queremos conversar com o Povo de Deus sobre a Fé e a Política. 

O cristão e a PolíticaPor que o cristão se interessa pela política? Porque faz parte de nossa fé o amor ao próximo. Amar a Deus é a raiz da árvore de nossa vida. Os frutos se mostram no amor ao próximo. Todo interesse pelo bem dos outros pode ser expressão do amor ao próximo, inclusive na política, onde está em jogo o bem de todos, especialmente dos mais pobres e sofridos. O político cristão será aquela pessoa que toma iniciativa, que busca o serviço dos outros e não os próprios interesses.Que estilo de vida pode ajudar o cristão em sua atuação na política? Como fazer com que sejamos cristãos verdadeiros em todos os campos da sociedade? Buscamos juntos os caminhos para que o evangelho fermente a atividade política, com todas as suas dimensões, como o exercício do direito e do dever do voto, a militância partidária, a propaganda eleitoral, os programas de governo, os cargos políticos e a harmonia entre os poderes. A política é um maravilhoso instrumento de amor social e, ao mesmo tempo, o espaço das divisões, dos conflitos, das lutas, e das grandes tentações. Se muitas vezes os políticos são criticados, é porque tocam bem de perto no risco da corrupção. As críticas e o confronto de idéias podem ajudar a um exame de consciência, para purificar a prática política. Se todos precisam cultivar a santidade, os políticos precisam de dose dupla.Durante as campanhas eleitorais, vêm à tona as perguntas sobre o envolvimento da Igreja e dos cristãos. Não é raro esperar que a Igreja “tome partido”, escolhendo um dos lados envolvidos no processo político.  Assim, é bom que a Igreja ofereça suas orientações a respeito da participação política aos candidatos e candidatas católicos aos diversos cargos, assim como aos os eleitores. A Igreja, pela graça de Deus, é mestra em humanidade. 

Orientações pastorais para a Política A Igreja não quer impor aos católicos acordos políticos ou candidatos. Todos os católicos têm à disposição, para decidir bem, sua própria consciência. Não desejamos vantagens, fatias do poder ou cargos na administração. Queremos, sim, oferecer homens e mulheres que sejam fermento na massa, ao lado de tantas pessoas de boa vontade, prontos a participarem bem das atividades políticas. Pretendemos contribuir para que os valores do Evangelho iluminem o voto e a prática política dos eleitos para as Prefeituras e Câmaras Municipais de nossa Arquidiocese. Que candidatas e candidatos aos diversos cargos conheçam a posição cristalina da Igreja Católica que busca o aperfeiçoamento da prática política. Introduzir Deus na política não significa transformar o espaço político, chame-se ele campanha eleitoral, comício, câmara, parlamento, prefeitura ou militância partidária em local de pregação de uma Igreja ou outra. Não é este o lugar para isso, pois aí se encontra o legítimo espaço da diversidade. O que somos chamados a fazer é dar testemunho concreto e prático dos valores do evangelho. Todas as palavras e os posicionamentos a respeito da ecologia, habitação, estradas, viadutos, hospitais ou outros temas importantes terão como referências os valores da verdade, da liberdade, da justiça e do amor.  O que queremos? 

1.       Retidão pessoal e Vida CristãPara alcançar objetivos que, certamente muitos consideram exagerados, quem quer entender de política, como cristão, deverá alimentar a vida espiritual através da oração e contato com a Palavra de Deus. Depois de falar a Deus e sobre Deus, não é possível falar mal dos outros. Quem está em Deus muda o ambiente onde quer que chegue, passa também a ter coragem de testemunhar. Não dá para ir à Igreja na campanha e depois não ter mais tempo para freqüentá-la, assim como não dá para ser de vários grupos religiosos ao mesmo tempo. O respeito de que cada político é merecedor será conseqüência de sua coerência humana e religiosa. Saberemos também valorizar pessoas com convicções diferentes, mas fiéis à sua consciência e retas em seu modo de agir.2.       “Voto não tem preço, tem conseqüências”!Para votar bem, é importante prestar atenção às pessoas que se candidatam e os programas de governo que apresentam. Estaremos atentos para verificar a história dos candidatos e o que já fizeram. Depois, se nós queremos contribuir para uma mudança, não aceitaremos, em nenhuma hipótese, vender nosso voto.  

 

3.       Princípios da Doutrina Social da IgrejaA Igreja tem uma experiência maravilhosa em seu ensinamento social. Aqui se encontram seus princípios mais importantes, que servirão como critérios, para fazermos nossas escolhas:Em primeiro lugar, a dignidade da pessoa humana, criatura e imagem de Deus, em unidade de corpo e alma, cuja vida vem a ser respeitada desde a sua concepção até seu declínio natural. As pessoas que se apresentam como candidatas valorizam e defendem a vida? Qual é sua posição a respeito do aborto ou outras práticas que desvalorizam a vida? Esta é nossa primeira bandeira! O Ensinamento social da Igreja tem outro princípio, o do bem comum. As necessidades e o proveito do que vale para todos, especialmente dos mais pobres, vale mais do que os interesses dos partidos e mais do que projetos de enriquecimento pessoal. Verifiquemos se os candidatos manifestam disposições e condições para cuidarem do bem de todos. A subsidiariedade é outro princípio da doutrina social da Igreja. É impossível promover a dignidade da pessoa sem cuidar da família, dos grupos, das associações, as realidades territoriais locais, das diversas formas de organização da sociedade, inclusive religiosas. As pessoas que se candidatam oferecem programas que possibilitam a valorização dos grupos menores e se interessam por promover a liberdade de organização da sociedade?A Solidariedade, quarto princípio da doutrina social da Igreja, significa a sensibilidade para atender todas as situações mais difíceis existentes na sociedade. Solidariedade é não deixar passar perto da gente qualquer situação humana sem nossa resposta, mas fazendo sempre o bem que estiver ao nosso alcance. Seus candidatos têm esta sensibilidade? Votar e votar bem          Nosso apelo de Igreja é que todos participem bem do processo eleitoral. Todas as pessoas que se apresentam ao julgamento popular do voto saibam que contam com o respeito e o apreço da Igreja Católica. Contem com nossas orações, especialmente com o pedido ao Espírito Santo, para que os eleitores escolham bem quem poderá servir mais e servir melhor.          Pedimos aos cristãos católicos que acolham nosso convite a não se omitirem nas eleições que se aproximam. Votem com consciência! Preparem-se para votar bem, conhecendo os candidatos e suas propostas. Ajudem a fazer das próximas eleições uma festa de autêntica democracia. É mais um passo que damos para o aperfeiçoamento de nossa prática política. 

 

Palmas, 1º de setembro de 2008. 

Dom Alberto Taveira CorrêaArcebispo Metropolitano de Palmas 

 

Lições de Pequim

Filed under: Artigos — padrejoaozinho at 12:40 pm on Wednesday, September 3, 2008

Durante todo o mês de agosto o assunto no mundo foram as Olimpíadas de Pequim. A China conseguiu receber as visitas no jardim, sem deixar que ninguém entrasse na casa, muito menos visitasse a cozinha, ou o quartinho da bagunça. Passamos algumas semanas vendo o Ninho de Pássaro, sem imaginar a sorte dos bilhões de chineses que nos últimos anos deixaram o campo e se deslocaram para a cidade para trabalhar por centavos. Como explicar o baixo preço dos produtos que por aqui chegam? Impossível concorrer. Ninguém por aqui faria uma chave de fenda por menos de um real.

            O resultado do quadro de medalhas é usado políticamente. A China mostra orgulhosa para seus cidadãos que ela é a nova potência mundial. Obteve o maior número de medalhas de outro: 51. A Rússia, mesmo após do esquartejamento da União Soviética, ainda aparece em terceiro lugar, com 23 medalhas de ouro e 72 ao todo. Os Estados Unidos, tradicional potência do esporte, conseguiu 36 medalhas de ouro. Mas na soma total, ficou com 110 medalhas, contra 100 da China. Deste modo, s Estados Unidos preferem dizer que ainda estão na frente, pois conseguiram mais medalhas que a China. O Brasil ficou em 23º lugar, com três medalhas de ouro e 15 no total. A Argentina, por sua vez, ficou em 35º lugar, com duas medalhas de ouro e seis no total. Mas é claro que por lá é bem mais agradável recordar e publicar a vitória sobre o futebol masculino do Brasil, nas semifinais.

            Mas existem algumas lições de Pequim que não podem ser identificadas nos números ou no quadro de medalhas. Quem acompanhou a preparação, percebeu que antes mesmo de ir para a China, alguns atletas já se encontravam na lista de favoritos. Alguns deles nem imaginavam a possibilidade de voltar sem uma medalha. Mas com o decorrer dos jogos os ventos literalmente mudaram de direção. Para atletas disciplinados e humildes como  fenômeno das piscinas Michael Phelps. Nascido em 1985, este norte-americano já quebrou 30 recordes mundiais e conquistou o maior número de medalhas de ouro em uma só edição dos Jogos Olímpicos: 8. Ao todo participou de três olimpíadas, com um total de 17 medalhas, apenas atrás da ginasta soviética Larissa Latynina, que obteve dezoito. Quem acompanhou o estilo Phelps percebeu que ele tem uma impressionante capacidade física e um humor saudável. Mas não perde o foco um instante sequer. O negócio dele é nadar. A boa notícia brasileira das piscinas ficou por conta do menino César Cielo, que conquistou o ouro nos 50 metros e o bronze nos 100 metros. Na primeira modalidade ele ainda ficou com o record mundial. Para isso, o jovem deslocou-se para os Estados Unidos para treinar entre atletas de peso.

            Na outra ponta estão alguns atletas brasileiros que, apesar de sua qualidade física, perdiam o foco o tempo todo. A badalação da imprensa é apenas uma das distrações. Perdemos algumas medalhas certas por erros primários. Um deles dizia: fazem dois anos que não erro este exercício, por isso tenho certeza que não errarei. Errou feio. Jamais esquecerá o tombo. O Brasil caiu junto. A derrota do masculino no futebol nos envergonhou a todos. A falta de futebol só poderia ser piorada por aquele final de agressões. Mas a humildade das meninas do futebol compensou. Aquela prata teve gosto de ouro. Elas chorava a perda do ouro e o Brasil sorria pela vitória da dignidade e do bom esporte. Nossos meninos do vôlei foram um caso emblemático. Amarelaram no final. Parece que o estilo rancoroso do técnico desta vez não deu certo. Na outra ponta as meninas do vôlei fizeram bonito do começo ao fim. O técnico optou pelo estilo amoroso. Deu certo. Será inesquecível a cena do podium. O Hino Brasileiro… nossas atletas no centro, ladeadas por chinesas e americanas que ficaram com o bronze e a prata. É a cena antecipada do que o Brasil pode fazer se mantiver a humildade e a amorosidade. Podemos estar entre as maiores potências do mundo… e não apenas no esporte. Somos um celeiro em alimentos e petróleo. É hora de colocar a nação no divã de algum analista de plantão. Temos que acabar com o jeitinho brasileiro, mas sem perder a ginga; precisamos superar nosso histórico complexo de inferioridade, mas sem perder a humildade; precisamos nos consolidar como nação que mistura todas as raças do mundo, mas garantindo uma identidade nacional.

            Estas são algumas lições de Pequim. Terminemos com nossas atletas do vôlei: Obrigado, Senhor!

           

 

                                                        

 

Lei Seca

Filed under: Artigos — padrejoaozinho at 12:49 pm on Monday, September 1, 2008

Como especialista em educação, sei que a melhor pedagogia não é aquela que prega o binômio “vigiar e punir”. O medo e o mérito nunca foram asmelhores motivações. Aprendemos de fato e mudamos o nosso comportamento quando as lições fazem sentido em nossa vida. O exemplo clássico é o da geografia. Quem ainda se lembra daquele número de capitais que decorou na 5ª série? Mas jamais esquecerei que Helsinki é capital da Finlândia, pois tive que esperar solitário naquele pais minha conexão aérea para o Japão.

            Porém, nos que se refere à educação no trânsito estou repensando minhas convicções pedagógicas. Por mais que o poder público e as escolas insistam que beber e dirigir são duas coisas que não combinam, o fato é que as estatísticas apontam que grande parte dos acidentes de fim de semana são provocados pela mistura de álcool e volante.

            A lei seca brasileira coloca como limite tolerável 2 decigramas de álcool por litro de sangue, ou seja, um chope. Em uma lista de 82 países que adotam a mesma postura legal, a nova lei brasileira é mais rígida que a de 63 naçõese mais tolerante que 13, aonde a tolerância é realmente zero. Quem for pego e acusado pelo tal do “bafômetro”, deverá pagar multa de R$ 955,00, além de perder a carteira por um ano e ter seu veículo apreendido. Se forem encontradas mais que 6 decigramas de alcool (dois chopes), o motorista poderá ser preso. A prisão varia de seis meses a três anos, dependendo da gravidade.

            Para se ter uma idéia como a tolerância anda mesmo próxima de zero, na Califórnia, nos Estados Unidos, há uma lei que proíbe conduzir uma bicicleta se bebeu algum tipo de bebida alcoolica. Na Suiça se pensa em proibir o alcool não apenas para o motorista, mas para todos os passageiros, pois poderiam prejudicar o motorista. Estive recentemente na Espanha e acompanheipelo rádio o debate sobre a lei seca de lá. Eles também querem convencer os companheiros do motorista a o vigiarem para que não bebam. Ando por esse país afora e vejo que a lei, mais por medo que por convicção, está sendo respeitada. Em São Paulo criou-se até o “amigo da vez”. É aquele que na sexta-feira de happy hour não irá beber para poder dirigir. Outros donos de bares e restaurantes chegam a contratar motoristas para conduzir os carros dos clientes que “não resistiram à tentação”.

            Logo surgiram as vozes contrárias à intolerância da lei. Muitos acham um exagero. Consideram que não faria nenhum mal tomar um chope. Outros acham que seria normal tomas dois chopes. Outros ainda acham que é inofensivo tomar cinco chopes… Mas os números são os maiores defensores da novidade. As pesquisas dizem que no Brasil um terço dos motoristas bebem antes de dirigir. Isso é seis vezes mais do que a média mundial. Outro número impressionante é que o alcool é responsável por 60% dos acidentes e aparece em 70% dos casos com mortes violentas. O Instituto Médico Legal de São Paulo estimou que em 2005, 44% dos .3.042 mortos em acidentes tinham alcool no sangue. Ou seja, metade dos mortos beberam antes de dirigir. Mais números: 290.000 pessoas dirigem alcoolizadas por dia no Brasil. A maioria das vítimas são invariavelmente homens. Quer mais números? Alguém dirigindo a 60 Kilômetros por hora precisa de 0,5 segundo para reagir a uma situação de risco. Neste meio segundo o carro terá andado 8 metros. Mas se o motorista tiver bebido duas latas de cerveja, provavelmente o deslocamento será de 17 metros, o que pode significar a perda da sua vida em uma violenta colisão. Estes números naturalmente variam de homem para mulher e também dependendo do peso da pessoa, de sua tolerância ao alcool e das circunstâncias em que tiver bebido (antes ou após as refeições). Mas não vale a pena fazer o teste. Pode ser o último. Os números não mentem.

            Vamos terminar este artigo com incríveis números positivos. Menos de um mês depois de sancionada a lei seca os hospitais publicaram suas estatísticas. Do norte ao sul do país a queda nos atendimentos de acidentes graves foi mais que visível. Em Curitiba os atendimentos diminuiram em 30%. Em Sao Paulo o IML (Instituto Médico Legal) calculou em 57% a queda no número de mortes por acidentes de trânsito. O Rio de Janeiro calculou um queda semelhante a de São Paulo. Com isso, em menos de um mês os 30 hospitais públicos estaduais da região metropolitana de São Paulos economizaram cerca de R$ 4,5 milhões. Em um ano a economia será de R$ 54 milhões. Quem tiver ouvidos para ouvir ouça. Já temos a lei. Agora é preciso vigiar e punir!

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