DÉCIMA SEGUNDA PROMESSA – A GRANDE PROMESSA

 

“O amor todo-poderoso do meu coração concederá a graça da perseverança final a todos os que comungarem na 1ª Sexta-feira do mês, por nove meses seguidos.”

 

      Chegamos à ultima promessa desta coleção inspirada a Santa Margarida Maria. Certamente haveriam muitas outras promessas. Para descobrí-las bastaria folhear as páginas das Bíblia ou da História. Como não lembrar a promessa feita ao Profeta Ezequiel: “Eis que vos darei um novo coração”(        ). Ao longo do seu caminho Jesus prometeu vida em plenitude, o Pão que alimenta a alma, a Agua Viva, a cura do corpo e do coração, a justiça, a fraternidade, o perdão… daria assunto para mais alguns livros.

      A décima segunda promessa é também conhecida como “A Grande Promessa”. Muitos até ignoram as outras onze. Seria no mínimo imprudente falar desta promessa sem ter falado das outras. É mais ou menos como entrar no meio de uma conversa. Corremos o risco de entender tudo errado, ou de modo incompleto. Assim muitas pessoas ao tomarem conhecimento da “grande promessa” a entendem de modo mágico, mecânico e automático. Não é nada disso. Esta promessa é uma pedagogia de conversão. É uma escola de salvação. É um exercício eficaz de mudança radical de vida.

      Dito isso, então vejamos o texto completo da promessa inspirada à Santa Margarida Maria: “Eu te prometo, na excessiva misericórdia de meu Coração, que meu amor onipotente concederá a todos os que comungarem durante nove primeiras sextas-feiras do mês seguidas a graça da penitência final: não hão de morrer em minha desgraça, nem sem receber os sacramentos, servindo-lhes meu Coração de asilo seguro naquela última hora”. Esta promessa foi feita numa sexta-feira de maio de 1688 durante a comunhão, na missa. A graça prometida é a mesma que pedimos cada vez que rezamos a ave-maria: rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte. Sabemos que é uma graça muito grande receber o sacramento da unção dos enfermos nos momentos finais da vida. Tenho acompanhado algumas pessoas neste momento. Posso testemunhar que a certeza do céu transforma toda dor em alegria.

      Os devotos do Coração de Jesus têm esta garantia. Não morrerão sem o auxílio da misericórdia divina. Como será este auxílio não podemos prever. Deus tem seus caminhos. Ordinariamente deveria ser o sacramento da unção dos enfermos e talvez até de uma boa confissão. Mas e no caso de uma morte inesperada? E era um grande devoto do Coração de Jesus. Tinha feito as nove sextas-feiras. O Senhor saberá muito bem como cumprir sua promessa. É claro que este auxílio final não anula a nossa liberdade. Na hora H podemos dizer sim, ou não. A promessa não elimina o nosso livre arbítrio. Mas podemos ter a certeza de que haverá um olhar fixo em nossos olhos dizendo: deixa teus pecados e vem! Só teremos que dar este último passo. É claro que se não nos exercitamos neste caminho durante toda a vida, na hora final podem faltar forças. O atleta vitorioso se constrói no exercício cotidiano, escondido e perseverante.

      É neste sentido que as condições da grande promessa na verdade são um exercício de conversão. O devoto deverá comungar durante nove primeiras sextas-feiras seguidas. Se faltar uma deverá começar novamente. Não bastam oito nem precisam ser dez. A comunhão deve ser feita em estado de graça. Para isso será útil fazer uma boa confissão antes de comungar. Deveremos receber a Eucaristia com a intenção de cumprir a novena e de honrar o Sagrado Coração de Jesus. Uma última condição importante é o propósito de perseverar. Se alguém pensasse assim: – “Vou fazer as nove primeiras sextas-feiras, depois posso pecar a vontade”. Naturalmente esta novena seria inválida.

      Existem pessoas que se afastaram da Eucaristia. Vão de vez em quando a missa. Já não conseguem se sentir membros da comunidade. Talvez nem saibam nome do padre da paróquia. Olham ao seu redor na igreja e não reconhecem ninguém. São os tais “católicos não praticantes”. E como existem destes católicos por aí!!! É gente que só entra na igreja carregado: no dia do batismo, nos braços da madrinha ou da mãe; no dia do casamento, levada pelo pai; no dia da morte… carregado pelos amigos. Como mudar esta situação? Não basta ir de vez enquando na igreja. Não é suficiente rezar de joelhos ao pé da cama. Um livro não vai ser o bastante. É preciso um exercício constante. Por isso o Coração de Jesus nos pede nove meses de intensa vida eucarística. É justamente o tempo que leva para uma criança nascer. Será o tempo necessário para nascer em você um homem novo, uma mulher renovada. Somos todos atletas em preparação para a grande Olimpíada do Reino, onde a medalha de ouro é a salvação. Nove meses é o tempo mínimo de exercício para recuperar a forma.

      Sabe, estou lembrando agora do conselho de minha médica. Apareci por lá com o colesterol um pouco elevado. Ela me disse que preciso abandonar a vida sedentária e começar a fazer caminhadas diárias de pelo menos 40 minutos. Tentei argumentar dizendo que tinha um livro muito interessante para escrever, e caminhando poderia perder algum tempo. Ela me olhou profundamente e disse: – “Padre, quantos livros o senhor ainda pretende escrever em sua vida?” Respondi imediatamente: “Muitos, tenho muitas idéias”. Então ela encerrou a conversa: – “Então comece a caminhar…” Entendi a mensagem. Por isso quero fazer um trato com você que termina a leitura destas páginas. Nem vou escrever a conclusão. Vou caminhar. E você vai procurar um padre, fazer sua confissão e começar as nove sextas-feiras. Nos encontramos no céu!.

 

DÉCIMA PRIMEIRA PROMESSA

“As pessoas que propagarem esta devoção terão seus nomes escritos para sempre no meu coração e jamais será apagado.”

 

      O Coração de Jesus nos ama com afeto de esposo, com ternura de namorado. Na Bíblia Deus manifesta este carinho dizendo que o nosso nome está gravado na palma de sua mão (           ). É como fazem os jovens apaixonados. Escrevem o nome um do outro na palma da mão. Alguns, m ais irreverentes escrevem uma faixa e a colocam em um lugar próximo da casa de sua amada: “Roberta, eu te amo”. Mas vem a chuva, os vândalos da cidade, os fiscais da prefeitura e, mais dia menos dia, a faixa some dali. Os mais exagerados arriscam-se e pixam seu amor em algum muro da região. Nada disso é tão profundo do que dizer que o nome está gravado para sempre no seu coração.

      No casamento, marido e mulher passam a usar definitivamente uma aliança. Um está onde o outro estiver. Não caminharão mais sozinhos. Estarão em comunhão de amor até que a morte os separe. Pois bem. Nosso matrimônio com o Coração de Jesus ultrapassa até mesmo a morte. Somos esta esposa adornada para seu divino esposo. E sabemos que o nosso nome estás gravado em seu Coração. Este é o selo da nossa aliança. Será que o nome dele também permanece gravado em nossos corações?

      Fico impressionado (e um pouco assustado) com estas pessoas que mandam tatuar todo tipo de bichos horrendos nos braços. É uma marca idelével. Sabem que a tatuagem não sai mais. Nossa tatuagem é no coração. No batismo recebemos esta marca, este selo. Ele deveria ser visto em nossos olhos de gente apaixonada por Jesus, comprometida com seu Reino, participantes desta comunhão de amor. É muito bonito ver a multidão gritando: Ahhh… eu sou de Cristo!!! É a mais pura verdade. Somos dele. Estaremos para sempre tatuados em seu Coração.

      Tudo isso faz lembrar um outro trechinho da Bíblia: “Não apagarei o seu nome do Livro da Vida” (Ap 3,5). Isto é uma promessa de salvação. Os devotos do Coração de Jesus confiam nesta promessa. É claro que sempre temos a liberdade de apagar nosso nome deste livro por meio do pecado. Mas o Coração de Jesus, nosso eterno e terno esposo, lutará para nos manter. É neste sentido que a Bíblia fala que Deus tem ciúme de seu povo. Não é um ciúme de posse. É um sinal de pertença. Nos entregamos a Deus. Nos consagramos ao seu coração. Fizemos com ele uma aliança eterna de amor. Ele não abre mão da gente. Tem mil maneiras de nos recuperar. Não sei bem como falar disso. Mas é uma realidade que sinto e vivo intensamente. Como padre, entreguei meu coração inteiro a Deus para que ele me entregasse ao povo. Sinto o ciúme de Deus quando me afasto, quando quero buscar meus próprios interesses, quando… bem, Deus tem ciúme de mim. Basta. E eu me sinto muito amado por isso.

      Esta promessa tem uma condição: propagar a devoção ao Coração de Jesus. Estou fazendo a minha parte ao escrever este livro, ao cantar minhas canções, pregando, etc. Tenho inúmeros irmãos que fazem muitas coisas para que o Coração de Jesus seja mis conhecido e amado. Uma das mais belas é a adoração eucarística semanal. Muitas paróquias já instituiram um dia inteiro de adoração. Os frutos já estão aparecendo. E você? O que está fazendo para propagar esta devoção? Não basta vivê-la na intimidade e no silêncio. A Décima Primeira Promessa nos pede que façamos propaganda. Existem comerciais de tantas coisas, algumas até prejudiciais. Porque não podemos fazer comercial do amor de Deus no Coração de Jesus? Fica esta pergunta no ar…

 

DÉCIMA PROMESSA

 

 

“Darei aos sacerdotes o dom de tocar os corações mais endurecidos.”

 

      Antes de começar a escrever sobre esta promessa fiz uma revisão destes meus sete anos de sacerdócio na Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus. Na verdade eu nunca tinha prestado muita atenção nessa promessa. Mas ela se cumpriu em cada minuto do meu apostolado. Nestes anos todos fiz muitas canções. Mas nenhuma ficou tão marcada na alma do povo quanto aquela em que o Espírito Santo me inspirou a cantar  “Conheço um coração tão manso, humilde e sereno… Jesus manda teu Espírito, para transformar meu coração”. É impossível não ficar emocionado quando chego em um lugar onde nunca estive antes e vejo o povo cantando de cor (que significa “de coração) esta canção que um dia fez parte de meu diálogo solitário com o Coração de Jesus.

      Na verdade eu amo muito este Coração humano-divino. Não sei pregar durante cinco minutos sem falar da ternura de Deus que se faz visível, sensível, palpável no Coração de Jesus. Ele é a manifestação mais concreta do amor de Deus por nós. Os frutos são imediatos. A promessa se cumpre. Até os corações mais endurecidos são tocados.

      Entre as tarefas que Deus me confiou está a de ser professor de teologia. Posso lhe dizer que é uma tentação muito grande a gente querer entender Deus. Santo Agostinho bem que tentou. Santo Tomás perseguiu esta compreensão a vida toda. Mas o que fez destes homens grandes santos não foi sua preciosa inteligência, mas seu grande amor a Deus. De nada adiantariam teorias sobre Deus. Podem no máximo alimentar nossos debates de escola. Podem preencher nossas aulas. Mas não servem para saciar nossa fome de Deus. Já me aconteceu de preparar uma bela pregação e revestir-me de toda a eloqüência e sabedoria… e não aconteceu nada. No máximo as pessoas ficaram com seus ouvidos massageados por belas palavras ou bonitas canções. Quando me coloco nos braços do Bom Pastor, do Coração de Jesus, aí é diferente. A unção supera a inteligência. A eficácia supera a eficiência. O afeto de Deus presente em nossas palavras é imediatamente sentido pela alma do povo.

      Você pode estar pensando: – “felizes dos padres que têm nessa promessa uma garantia de eficácia para o seu apostolado. Quisera ter esta força pois já não sei o que faço para tocar o coração endurecido do meu filho, ou do meu marido…”. Escuto esta reclamação todas as semanas. Por isso devo lhe dizer que a Décima Promessa não é só para os padres. É para os sacerdotes. E você sabe que pelo batismo todos nós nos tornamos em Cristo um povo de “sacerdotes, profetas e rei-pastores. Isto daria pano prá manga se quiséssemos explicar tim-tim por tim-tim. Não faltará ocasião. Basta no momento dizer que Jesus é o único e eterno sacertote: aquele que nos conduz ao Pai. Todos nós somos sacerdotes nele. Acolhidos em seu Coração, aquecidos pelo fogo do Espírito, estamos em viagem de volta para a casa do Pai. Neste caminho cantamos, fazemos a festa da partilha e do perdão. Celebramos. Os padres são os ministros ordenados para manter este povo na unidade. Nossa missão é reger a orquestra. Mas cada um deve tocar seu instrumento.

      Portanto consagre as pessoas que você ama ao Sagrado Coração de Jesus. Lembre-se: ele lhe dará o dom de tocar até os corações mais endurecidos. Creia, ame e espere!

NONA PROMESSA

 

“Abençoarei as casa em que se achar  exposta e for venerada a imagem do meu Coração.”

 

 

No Brasil esta promessa é levada muito a sério. Tenho andando pelos quatro cantos desta nação. É impressionante perceber como a imagem do Sagrado Coração de Jesus está presente em todos os lugares. São igrejas dedicadas ao Coração de Jesus, pequeno santuários, colégios, oratórios, hospitais. Mas o que realmente chama a atenção é a presença da imagem do Sagrado Coração de Jesus em muitos lares e atté mesmo estabelecimentos comerciais. Muitos ainda lembram o dia em que aquela imagem foi abençoada e entronizada em seus lares.

Alguém poderia questionar. Mas a Bíblia não proíbe a fabricação de imagens? Não existe até mesmo um mandamento neste sentido? ………..

Este assunto já foi amplamente discutido. O que Deus realmente proíbe é a “idolatria”. É colocar uma coisa, valor, interesse ou pessoas no lugar de Deus. Não existe nenhum nome acima do nome de Jesus. Dele é o poder, a honra e a glória para sempre. Repetimos isso em toda missa. No entanto existe gente que coloca pessoas acima de Deus. O mandamento maior manda amar a Deus sobre todas as coisas. Outros colocam o dinheiro no lugar de Deus. Há os que idolatram o prestígio, a fama, o poder. Existem ainda aqueles que renegam a Deus em vista de algum prazer passageiro. Vamos ser muito concretos. A idolatria começa quando a gente diz que não tem tempo de ir à missa porque tem muito trabalho. Poderia fazer aqui uma lista ainda maior. O fato é que existem muitas maneiras de fabricar imagens e renegar Deus. É isso que a Bíblia condena, com toda a razão.

A gravura ou a escultura do Sagrado Coração de Jesus não é objeto de adoração. A Igreja Católica não cansa de repetir que os cristãos não adoram imagens. Se alguém o faz… deve ser advertido!

Então qual o sentido de a gente ter uma gravura do Sagrado Coração em nossos lares, comércios, igrejas  e praças? É uma lembrança. Mais ou menos como a foto de nossa mãe que carregamos com carinho na carteira. Certa ocasião um irmão de outra denominação me acusou de idólatra. Eu perguntei se ele tinha carteira de identidade. Rapidamente respondeu que sim. Então indaguei: se a Bíblia proíbe imagens, e você leva isso tão a sério, a ponto de me julgar, porque não mantêm a sua própria imagem no bolso? Ele ficou sem resposta. Alguns dias depois veio me procurar e disse: É que eu não adoro a foto que está em minha carteira de identidade. Aliás, em casa tenho vários álbuns de fotos que guardo com carinho. Minha Igreja tem um jornal onde são publicadas fotos. Não adoro nada disso. Então perguntei: e você está dizendo então que eu adoro as fotos que tenho em minha Igreja? O silêncio foi a resposta.

Se você ainda não tem a imagem do Coração de Jesus em sua casa, procure fazer a entronização. Não precisa complicar. O ideal seria que um padre fosse lá e aproveitasse para benzer sua casa. Mas sabemos o quanto os padres são ocupados. Reúna os familiares. Reze o Terço. Faça uma pequena leitura da Bíblia. Sugiro que seja lido o texto de Mateus 11, 25-30: Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração, e encontrareis o repouso para vossas almas.

OITAVA PROMESSA

 

 

 

“ As almas fervorosas elevar-se-ão rapidamente a uma grande perfeição.”

 

 

 

      A sétima promessa garantia aos tíbios o fervor. Agora o Coração de Jesus dá uma passo a mais prometendo aos fervorosos a perfeição. O que seria isso?  Os perfeitos seriam uma classe de cristãos que podem se orgulhar de ter todos os dons? Certamente que não. Esta falsa perfeição não seria mais do que o terrível pecado da “presunção”. É o caso daquela pessoa que diz até com certa ingenuidade: – Lutei muito para conseguir ter  todas as virtudes. Faltava somente a humildade. Agora que a conquistei estou feliz: alcancei a perfeição. Certo estava o apóstolo Paulo que dizia: a meta está sempre um pouco adiante. Quando pensamos chegar ainda temos um pouco para caminhar.

      Mas então o que seria esta perfeição? É necessário ler tres frases fundamentais da Bíblia: 1) Sede perfeitos como  vosso Pai é perfeito (           ). 2) Sede santos como vosso Deus é santo (           ). 3) Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso. Portanto a perfeição de Deus é a misericórdia e a santidade. Ser perfeito é ser santo e misericordioso. É cumprir em nós a “imagem e semelhança de Deus” segundo a qual fomos criados. O Coração de Jesus nos ajuda porque é o modelo pronto e acabado de de perfeição, santidade e misericórdia. É o modelo do amor!

                        No tempo dos primeiros cristãos existia uma canção que, pelo jeito, era muito cantada nas celebrações. O apóstolo Paulo recolheu esta poesia e a colocou em uma carta escrita aos irmãos Filipenses (cf. Fil 2,5-11). Antes, porém, faz esta preciosa observação: “Tenham os mesmos sentimentos em Cristo Jesus” (Fil 2,5). Mais ou menos a mesma coisa ele vai dizer aos Gálatas: “Já estou crucificado com  Cristo; e vivo, não mais eu mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do filho de Deus, o qual me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gal 2,20). Veja com que insistência o apóstolo dos gentios repete esta verdade aos Efésios: “Cristo habite ela fé nos vossos corações; a fim de que, estando arraigados e fundados no amor, para poderdes perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo que excede todo o entendimento, para que estejais cheios de toda a plenitude de Deus” (Ef 3,17-19). Folheando as cartas de Paulo você vai encontrar esta insistência em cada versículo: ser perfeito ou ser santo é tornar-se um “outro Cristo”. Ele vai insistir nisso de mil maneiras diferentes. Vais dizer que quem está em Cristo é uma “nova criatura” (cf. Ef 4, 22-24). Isto até lembra aquela profecia de Ezequiel de que receberíamos um novo coração. Ser perfeito é assumir em nossa história o rítmo do Coração de Deus. Paulo vai dizer ainda que somos todos membros de um mesmo corpo: o Corpo Místico de Cristo. Leia, por exemplo, o capítulo 12 da primeira carta escrita aos Coríntios. O batismo nos faz membros do corpo de Cristo. Somos cristãos. O Coração do mestre bate em nosso peito. Amamos deste amor. Sorrimos desta alegria. Falamos desta voz. Como será que Paulo descobriu isso? É que no caminho de Damasco, quando estava perseguindo os discípulos de Jesus, ouviu uma voz que disse: “Saulo, Saulo, por que me persegues? (          ) Ele, que era muito inteligente pensou com seus botões: – Mas eu estou perseguindo os discípulos e não o mestre. A partir daquele dia, Paulo compreendeu que o cristão é um outro cristo. Esta é a perfeição que o Coração de Jesus nos promete e garante.

SÉTIMA  PROMESSA

 

“As almas tíbias se tornarão fervorosas.”

 

      Tibieza… Esta palavra já caiu quase em desuso. Mas, infelizmente o que ela significa está muito presente no meio de nós. É uma frieza espiritual. Uma falta de motivações mais profundas. Um desinteresse pelas coisas do alto. Normalmente o “tíbio” é um cristão praticante. Vai à missa. Reza. Comunga. Mas não sente o sabor do Pão da Vida. Não sente o afeto de Deus. Está frio.

      Existem muitos motivos para se cair na tibieza. Um deles é viver constantemente na beira do abismo. Existem pessoas que fazem a seguinte pergunta: “até onde posso pecar levemente, sem o risco de ir para o inferno?” De pecadinho em pecadinho vamos cavando nossa própria sepultura. É claro que existem os pecados veniais e os pecados mortais. Os veniais seriam buracos em uma estrada que me leva para a cidade no alto da serra. Os mortais seriam a queda de uma barreira que impede totalmente a passagem. Mas se deixarmos a estrada sem reparos a chuva vai acabar aumentando o tamanho dos buracos e um dia acabamos sendo surpreendidos por aquela placa indesejada: trânsito impedido!!!

      O fervor espiritual é para quem exercita-se na graça de Deus. O Coração de Jesus é uma “fornalha ardente de caridade” e de misericórdia. Na confissão Deus repara nossos caminhos e nos faz andar com mais determinação, alegria e consolo. Não vamos esquecer que depois do perdão dado ao seu Filho Pródigo, o Pai não economizou na festa. E havia música e danças. O céu deve ser um lugar bastante animado. Por outro lado, o filho mais velho não quis entrar no baile. Ficou lá fora curtindo o seu mau humor e reclamando. Isto é tibieza. É ouvir as músicas de uma festa e não entrar. É saber que alguém está de aniversário e não dar um abraço. É economizar o sorriso, o cuidado, a gentileza. É cultivar o amargor e a indiferença.

      Mas a pior tibieza talvez nem seja a do pecador, mas a do indiferente. Existem pessoas que vivem tão próximas de Deus que já nem sentem mais sua presença. É o caso daquele ministro da Eucaristia (ou padre!) que perdeu o gosto pela Eucaristia. Tornou-se um funcionário do Sagrado. Já não consegue se maravilhar com a graça de Deus. Vive num inverno (ou seria inferno?). A tibieza é uma doença espiritual. O remédio é a espiritualidade e a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Olhando para a imagem que temos em nossas casas vejo aquele coração pegando fogo e me pergunto: meu coração está quente ou frio? E sinto que o senhor repete para mim a advertência feita na Bíblia: O morno Ele cospe de sua boca (Ap 3,15). O tíbio é alguém morno. Neste novo milênio precisamos de cristãos quentes. Gente com fogo no coração que tenha a coragem de anunciar e defender a Vida, com “renovado ardor missionário”. E não vamos esquecer que este fogo é o mesmo que acendeu os apóstolos no dia de Pentecostes: É o fogo do Espírito Santo. Com este dom do Coração de Jesus não há lugar para a tibieza.

SEXTA PROMESSA:

 

“Os pecadores acharão, em meu coração, a fonte e o oceano infinito de misericórdia.”

 

            Se você observar bem, cada uma das promessas do Coração de Jesus tem uma palavra-chave: graça, paz, consolo, refúgio, bênção… Nesta sexta promessa palavra é “misericórdia”! O Sagrado Coração de Jesus é uma fonte e um oceano de misericórdia. O que poderia significar isso? Vamos parar durante cinco minutos e beber desta fonte, mergulhar neste mar, receber a ternura deste Deus que é “rico em misericórdia” (Efésios 2,4). Vou lhe fazer um desafio: vamos mergulhar mesmo. Vamos ler o que está por detrás das palavras. Vamos remexer as dobras do manto da Sagrada Escritura para conhecer o significado escondido. Exige um certo esforço. Mas garanto que vale a pena.

O que seria então esta “riqueza de Deus” que a Bíblia chama de misericórdia? Esta palavra vem de outras duas palavras latinas: miser, que significa miséria; e cor (cordis), que significa coração. Neste caso misericórdia poderia ser a “compaixão suscitada pela miséria alheia” (Dicionário Aurélio). Mas poderia ser também um “coração de pobre”, conforme diz Jesus no seu sermão da montanha: “Felizes os pobres de coração: deles é o Reino dos céus” (Mt 5,3). E o discurso continua até dizer em alta voz: “Felizes os misericordiosos porque alcançarão misericórdia” (Mt 5,7). Parece até uma contradição: a riqueza de Deus é ter um coração pobre.

Se lembrarmos outras orientações do Mestre veremos que existe uma lição que precisa ficar gravada em cada um de nós e que às vezes passa despercebido. Jesus, quando envia seus apóstolos em missão diz para não levar muitas coisas. Só o essencial. Sabe por que? Malas pesadas tornam mais difícil o caminhar. O missionário precisa ser pobre, leve, livre, para poder caminhar melhor. Por outro lado o Senhor nos consola dizendo que os cansados sob o peso de seu fardo encontrarão repouso em seu coração manso e humilde, porque “seu fardo é leve”  (Mt 12,30). O Coração de Jesus é um lugar onde existe espaço para todos nós, ovelhas perdidas, que precisamos do seu colo seguro. Sua riqueza é Ter este coração grande, acolhedor, leve, pobre.

Tudo isso encontramos na palavra latina “misericórdia”. Acontece que a Bíblia não foi escrita em latim. Ao que tudo indica, Jesus nunca falou este idioma. Misericórdia é uma tradução do hebraico, língua em que foi escrita a maior parte do Antigo Testamento. O Novo Testamento, por sua vez foi escrito em grego, mas traduziu de modo inspirado os termos que estavam lá no velho testamento. Mas que palavras eram estas? Prepare-se para um mergulho mais profundo. Se estiver com sono é melhor parar a leitura por aqui e continuar amanhã. Quem tiver coragem me acompanhe.

Existem muitos termos em hebraico que procuram traduzir o significado da misericórdia. Vamos tomar apenas os dois mais importantes. O primeiro é hesed, que significa uma atitude de bondade e benevolência, misturada com uma fidelidade muito profunda a um compromisso, uma aliança. A hesed de Deus é mais forte que a infidelidade de seu povo, porque Deus permanece fiel a si próprio. O Pai do filho pródigo não renunciou à sua paternidade porque o filho pecou. Lembra? “Trata-me com um de teus empregados”. Nada disso. Deus é Pai. Por isso é misericordioso. O segundo vocábulo é rahamin, que significa entranhas, útero, amor de mãe. O rico-pobre coração de Deus é um útero onde somos sempre de novo gerados para a vida. Deus é mãe. Terminou o espaço do artigo. A misericórdia é muito mais do que consegui escrever. Quer uma sugestão? Aninhe-se no colo de Deus, tome sua Bíblia e leia Isaías 49,15. Ou então procure o documento “A Misericórdia Divina”, do Papa João Paulo II. Você ficará “apaixonado” pela misericórdia do Coração de Jesus.