BARRIGA NÃO TEM RELIGIÃO!
Barriga não tem religião! Hoje esta frase me marcou o dia e a noite. Estava descendo as escadas da minha sala em minha Paróquia ( Paróquia de São Benedito - em São Bernardo do Campo/SP), quando um mulher loira, juntamente com uma menininha de uns dois anos estavam nas escadas da capelinha de Santo Antonio que há em frente à Paróquia, me gritou, sem mesmo saber quem eu era. Suas primeiras palavras foram: “Moço, posso falar com o senhor?”, eu estava esperando o caminhão que veio tirar os entulhos, pois, estamos em reforma da Paroquia, como estava sozinho, disse para ela me aguardar um pouco. Fui até o portão falar com ela e conversamos alguns minutos. Ela me dizia que seu marido estava desempregado, ele era caminhoneiro, vieram de São Paulo capital para São Bernardo, moravam no fundo do quintal da sogra em um barraquinho e ele tinha sido despedido do trabalho porque o patrão não quis pagar sua passagem até a capital para continuar trabalhando. Disse-me que estavam passando muitas necessidades de alimento, sem nada mesmo. Ainda estavam sofrendo morando nos fundos da sogra que os humilhava muito. Ela queria falar com a senhora que distribuia cestas básicas na Paróquia. Disse que esta mulher só estaria às dezoito horas na Igreja. Ela poderia vir falar com ela neste horário. É claro, iriam fazer uma triagem em sua casa para ver se passavam mesmo necessidades. Ela me disse que poderiam sim ir, mas quando seus sogros não estivessem porque eles não gostavam de que ela e o marido recebessem ninguém em sua casa. Continuando a conversa esta me dizia que não era católica. Perguntei qual sua religião, disse que não era nada, lia muito e não sentia de ser de nenhuma religião. Mas se eu dissesse para ela vir à Igreja para receber os alimentos, não precisava, pois, ela não iria frequentar. Quando estavam em São Paulo tinha pedido ajuda em uma Igreja e disseram que as cestas básicas eram somente para quem era católico. Se eu ou outra pessoa exigisse com que ela viesse para Igreja então não precisa doar a cesta para ela. Eu olhava para seus olhos verdes, eles me inspiravam ”verdade” e também eram olhos “cheios de fome”. Disse que voltasse às 3 horas (15:00) na Igreja que uma outra senhora que voltaria para arrumar a Igreja para o casamento que iria ter, iria ajudá-la, pois, eu iria dizer a ela. Dai esta me disse mais uma vez, se precisar ter que vir à Igreja então não precisa moço. Gostei da siceridade dela e disse então com todas as letras: BARRIGA NÃO TEM RELIGIÃO! Ela deu um sorriso amarelo, com cara de gente com fome e foi embora. Liguei para a senhora e disse que arrumasse uma cesta que não podemos chamar de básica, mas o necessário para ela se alimentar, poderia pegar na dispensa onde ficam armazenado os alimentos para as familias carentes que ja temos um grande numero mensalmente e depois eu falaria com a responsável pelas entregas. Qual foi minha surpresa depois do casamento enquanto conversa com esta senhora, perguntei se a mulher tinha voltado. Me disse que sim, foi muito educada e ela havia arrumado uma cesta bem grande para ela porque percebeu que realmente ela precisava. Disse que havia um bolo sobre a mesa da cozinha da Igreja e partiu um pedaço e deu à menininha filha da mulher que comeu com muito gosto e como se estivesse também com fome. Confesso, fiquei emocionado. Em casa meditava e resolvi escrever sobre isto em meu blog. Imagina se eu tivesse me levado pelas palavras da mulher quando me dizia que não tinha religião. Mas na minha frente, por mais que ela dizia não ter religião estava aí uma filha de Deus, um ser humano com fome. Jamais eu iria dizer que as cestas seriam somente para Católicos. Esta mulher talvez estivesse agora morrendo de fome em sua casa com sua filhinha de dois anos. Quando era criança também passei na minha familia muita necessidade de alimento e quantas vezes fomos ajudados pela Igreja. Lembro-me de um natal onde não tinhamos nem um pedaço de carne. Quando voltavamos eu e minha mãe da casa de minha avó, quando chegamos no portão de minha casa, a filha de uma senhora da Igreja esta no portão nos esperando com um frango na mão e um pacote de macarrão, foi nosso almoço de natal. E ela me dizia: Jurandir, minha mãe mandou para você. Hoje quando via aquela mulher com aquela criancinha, me lembrei da minha infância. Éramos católicos sim, não muito praticante, mas também estavamos passando necessidade de alimento.
Percebo, que não podemos olhar somente para aquilo que a pessoa é, temos que olhar o coração e o SER HUMANO. Não importa se ela é católica, espirita, evangelica, budista, muçulmana, o mais importante é a pessoa. Jesus olhava assim, olha a pessoa por inteiro, e via sua necessidade profunda. Precisamos olhar as pessoas como gente, como ser humano, principalmente diante da fome. Estamos vivendo tantas calamidades no nosso mundo atual, guerras, terremotos, fome, etc… e nos continuamos ainda presos a pequenas coisas, continuamos ambiciosos, mesquinhos, preconceituosos e hipócritas como os “Doutores da Lei”, da época de Jesus. Pagamos o dízimo até do “cravo e da canela” para dizer que pagamos, e esquecemos do essencial: O AMOR!
Amemos as pessoas como gente, como ser humano. A segunda leitura da liturgia deste domingo 31/01/2010, nos fala da Carta de São Paulo ao Coríntios: Não adinta ter tantos e todos os dons, se não tivermos a CARIDADE (AMOR). Até mesmo a Fé, sem o Amor de nada vale. Portanto, não podemos olhar somente para a religião quando alguém nos pede de comer, porque afinal: BARRIGA NÃO TEM RELIGIÃO.
Pe. Jurandir Ribeiro
Comunidade CN Aliança.



