Archive for novembro, 2007

Não me basta amar Deus se também o meu próximo não o ama

 

“A nossa vocação é a de ir incendiar o coração dos homens, fazer aquilo que fez o Filho de Deus, Ele que veio trazer o fogo ao mundo para o incendiar com o seu amor. Que outra coisa podemos desejar se não que arda e consuma tudo?

É portanto verdade que eu sou enviado não só para amar Deus mas para fazer com que o amem.

Não me basta amar Deus se também o meu próximo não o ama. Devo amar o meu próximo como imagem de Deus e objecto do seu amor, e fazer de tudo para que, por sua vez, os homens amem o seu Criador que os reconhece e considera como seus irmãos e que os salvou; e procurar que, com a caridade recíproca, se amem por amor a Deus, o qual tanto os amou, ao ponto de, por eles, abandonar o seu próprio Filho à morte. Portanto, este é o meu dever. 

Ora bem, se é verdade que somos chamados a levar, longe ou perto, o amor de Deus, se devemos incendiar as nações, se a nossa vocação é espalhar este fogo divino em todo o mundo, se assim é, e repito, se assim é, irmãos, quanto devo eu mesmo arder deste fogo divino! 

Como daremos aos outros a caridade se ela não existe entre nós? Observemos se existe, não em geral, mas em cada um, se existe no devido grau, porque se não está acesa em nós, se não nos amamos uns aos outros como Jesus Cristo nos amou e se não praticamos acções semelhantes às suas, como poderemos esperar de difundir um tal amor em toda a terra? Não é possivel dar aquilo que não se tem. 

O exato dever da caridade consiste em fazer a cada um aquilo que, com razão, queremos que nos seja feito a nós. Faço verdadeiramente ao meu próximo aquilo que desejo dele? 

Observemos o Filho de Deus. Não existe ninguém para além de nosso Senhor que tenha sido de tal modo raptado do amor pelas criaturas, ao ponto de deixar o trono de seu Pai, para vir assumir um corpo sujeito a enfermidades.

E porquê? Para estabelecer entre nós, mediante a sua palavra e o seu exemplo, a caridade do próximo. É este o amor que o crucificou e que cumpriu a admirável obra da nossa redenção. 

Se tivéssemos um pouco deste amor, permaneceríamos de braços cruzados? Oh! não, a caridade não pode permanecer ociosa, esta impele-nos a procurar a salvação e o alívio dos outros.

De “Conferenze ai Preti della Missione” de S. Vicente de Paulo  (Conferenza 207).

Oração

Oh Salvador, que nos destes a lei de amar o próximo como a nós mesmos, que tão perfeitamente a praticaste em favor dos homens, sejas tu mesmo, Senhor, o teu eterno agradecimento! 

Oh Salvador, que afortunado sou por me encontrar num estado de amor pelo próximo! Concede-me a graça de reconhecer a minha fortuna, de amar este estado bem-aventurado e de contribuir para que esta virtude se manifeste agora, amanhã e sempre.Amém (de S.Vicente de Paulo)

“A vida inteira é desejo santo”(Santo Agostinho)

 Num de seus sermões, S. Agostinho toca numa fibra muito delicada do coração humano: o desejo inato de algo muito maior e melhor do que os bens visíveis que cercam o homem, passageiros e fugazes como são. A criatura humana foi feita para o Infinito e traz em si o selo do Infinito. - Eis as palavras do Santo Doutor:

“O que nos foi prometido? Seremos semelhantes a Ele porque nós o veremos como é. A língua o disse e pôde. O coração imagine o restante. Já que não podeis ver agora, prenda-vos o desejo. A vida inteira do bom cristão é desejo santo. Aquilo que desejas, ainda não o vês. Mas, desejando, adquires a capacidade de ser saciado ao chegar a visão.

Se queres, por exemplo, encher um recipiente e sabes ser muito o que tens a derramar, alargas o bojo seja da bolsa, seja do odre, ou de uma coisa qualquer. Sabes a quantidade que ali porás e vês ser apertado o bojo. Se o alargares, ele ficará com maior capacidade. Deste mesmo modo Deus, com o adiar, amplia o desejo. Por desejar, alarga-se o espírito. Alargando-se, torna-se capaz.

Desejemos, pois, irmãos, pois seremos saciados.

É esta a nova vida: exercitamo-nos pelo desejo. O santo desejo nos exercita, na medida em que cortamos nosso desejo de amor do mundo. Já falamos algumas vezes do vazio que deve ser preenchido. Vais ficar repleto de bem, esvazia-te do mal.

Imagina que Deus te quer encher de mel. Se estás cheio de vinagre, onde pôr o mel? É preciso jogar fora o conteúdo do jarro e limpá-lo, ainda que com esforço, esfregando-o para servir a outro fim.

Digamos mel, digamos ouro, digamos vinho, digamos tudo quanto dissermos e quanto quisermos dizer, há uma realidade indivisível: chama-se Deus. Dizendo Deus, o que dissemos? Essa única sílaba é toda a nossa expectativa. Tudo o que conseguimos dizer, fica sempre aquém da realidade. Dilatemo-nos para Ele, e Ele, quando vier, encher-nos-á; seremos semelhantes a Ele, porque o veremos como é.” (Tratado sobre a 1Jo 4, 6)

Este texto se resume em três proposições:

1) Em todo ser humano existe um anseio ora mais, ora menos explícito de algo que responda às suas aspirações mais espontâneas. Tudo o que se vê é pouco demais para a capacidade do coração humano.

2) Quanto mais intenso for o desejo, tanto mais será saciado. Em linguagem popular dir-se-á: quem apresentar a capacidade de um dedal, tê-la-á preenchida, como preenchida será a capacidade de um corpo, a de um jarro, a de um balde, a de um tonel…

3) Para que tal anseio se dilate, o Senhor Deus nem sempre o atende na hora marcada pela criatura, mas protela a sua resposta ou adia a sua vida, a fim de encontrar a criatura ainda mais desejosa.

Ora, a quaresma é precisamente o tempo oportuno para que se dilate mais e mais o anseio do coração em demanda não de mel nem de ouro, mas de Deus, do Infinito e Absoluto…

“A vida inteira do bom cristão é santo desejo.”

 

Pe. Estêvão Bettencourt, OSB