Archive for outubro, 2008

Construir outros celeiros

“Insensato, nesta mesma noite pedir-te-ão contas da tua vida e o que acumulaste para quem será?” A conduta do rico do Evangelho é tanto mais patética quanto o castigo eterno é rigoroso. Com efeito, que projetos congemina em seu espírito este homem que vai ser arrebatado do mundo dentro de tão pouco tempo? “Vou demolir os meus celeiros e construirei uns maiores”. Quanto a mim, dir-lhe-ia de bom grado: Fazes bem porque eles merecem mesmo ser destruídos, os celeiros da tua injustiça. Com as tuas próprias mãos, destrói de uma ponta à outra tudo o que edificaste injustamente. Deixa que se desbaratem as tuas reservas de trigo que nunca saciaram ninguém. Faz desaparecer todo o edifício em que protegeste a tua avareza, tira-lhe o telhado, derruba as paredes, expõe ao sol o trigo que apodrece, tira da prisão as riquezas que aí estavam cativas… “Vou demolir os meus celeiros e construir uns maiores”. Quando acabares de encher esses, que decisão tomarás? Vais demoli-los para construir outros ainda maiores? Haverá maior loucura do que atormentar-se sem fim, construir com afinco e afincar-se em destruir? Se quiseres, terás por celeiro as moradas dos indigentes. “Acumula tesouros no céu”. O que aí for guardado “os vermes não o comem, a ferrugem não o estraga, os ladrões não o roubam” (Mt 6,20). ( São Basílio)

O Homem só é livre pela participação na liberdade de Deus

 A liberdade pode ser definida como a faculdade de tomar posição em face de uma exigência de Deus, mas somente pela participação da liberdade divina. Em si mesma a liberdade é somente a faculdade de fazer voluntáriamente o bem. A possibilidade de fazer o mal não pertence à sua essência. Só há liberdade onde há força de vencer o mal; onde a pessoa pode, no mais íntimo de si mesma, tomar posição em face de uma requisição do bem ou de uma solicitação do mal. O homem é livre à imagem de Deus.

O homem como ser criado e radicalmente livre foi criado em liberdade. Claro que a liberdade foi doada por Deus ao homem, é um dom. Mas a liberdade leva o homem a uma abertura para a realidade do plano salvífico de Deus.

Na realidade, no pecado, o mau uso da liberdade constitui o mais baixo grau de participação na liberdade de Deus, por isso, uma diminuição da própria liberdade humana. Ao contrário, a mais alta participação na liberdade divina, portanto, a mais nobre liberdade humana, consiste em agir totalmente sob a influência da graça.

Negar que o homem é capaz de escolher entre o bem e o mal, é supor que ele não é capaz de decidir e estar radicalmente sob a imposição de Deus. Uma vez que o homem faz mau uso de sua liberdade, há um enfraquecimento daquela liberdade original, conduzindo-o a uma rejeição do plano salvífico de Deus.

A grandeza da liberdade humana manifesta-se da maneira mais sublime quando ela se abandona totalmente à direção da graça e se torna forte para dizer a Deus, em Cristo o sim de um amor filialmente obediente.

A liberdade é um dom e um dever. No ato da nossa criação Deus nos fez livres. A liberdade pode crescer até ao grau em que o homem se deixa conduzir totalmente pelo Espirito de Deus: “ Ora, o Senhor é Espirito; e onde há o Espirito do Senhor aí há liberdade” ( 2 Cor 3, 17).

A liberdade humana está sujeita a muitas formas de restrições: o temperamento individual, ao ambiente e o meio social . “ Mas é só na liberdade que o homem se pode converter ao bem. Os homens de hoje apreciam grandemente e procuram com ardor esta liberdade; e com toda a razão. Muitas vezes, porém, fomentam-na dum modo condenável, como se ela consistisse na licença de fazer seja o que for, mesmo o mal, contanto que agrade. A liberdade verdadeira é um sinal privilegiado da imagem divina no homem. Pois Deus quis «deixar o homem entregue à sua própria decisão» , para que busque por si mesmo o seu Criador e livremente chegue à total e beatífica perfeição, aderindo a Ele. Exige, portanto, a dignidadedo homem que ele proceda segundo a própria consciência e por livre adesão, ou seja movido e induzido pessoalmente desde dentro e não levado por cegos impulsos interiores ou por mera coacção externa. Ohomem atinge esta dignidade quando, libertando-se da escravidão das paixões, tende para o fim pela livre escolha do bem e procura a sério e com diligente iniciativa os meios convenientes. A liberdade do homem, ferida pelo pecado, só com a ajuda da graça divina pode tornar plenamente efectiva esta orientação para Deus. E cada um deve dar conta da própria vida perante o tribunal de Deus, segundo o bem ou o mal que tiver praticado” ( Gaudium et Spes, 17).

O homem é diretamente responsável por todo o objeto de sua decisão livre referente a uma ação ou uma omissão.

O Sim da Conversão

A conversão de São Paulo - Caravaggio 1571-1610

 Converter-se é deixar de viver longe de Deus. Sair do estado de perdição, deixar o pecado. Não somente o ato mau em si, mas o estado que do mesmo resulta, o estado da perda da salvação e o sentimento de inimizade contra Deus. O passar a viver e estar longe de Deus. Conversão consiste voltar para o Senhor com todo coração, retomar o caminha das sua veredas.

A conversão é um conceito complexo, que significa uma profunda mudança de coração sob o influxo da Palavra de Deus. Essa transformação interior exprime-se nas obras e, por conseguinte, na vida inteira do cristão. A conversão significa a vitória sobre o velho homem que esta enraizado ( a existência carnal) e o começo de uma vida nova ( a vida no Espirito) criada e governada pelo Espirito de Deus. É um fato que na História da Salvação, após o pecado original, cada vez que Deus vai ao encontro do homem para com ele dialogar, fá-lo para provocar no mesmo ser humano a conversão do coração.

Não basta renunciar somente a um ato mau, nem a um hábito pecaminoso. Precisa-se ir no centro da existência, todo coração e todo o procedimento devem ser mudados. O afastamento de Deus somente termina quando o próprio Deus se achega pessoalmente do homem.

A conversão como saída do estado de pecado, de ausência de Deus e de perda da salvação está unida à aceitação incondicional da soberania divina. Reconhecer que praticou o mal, que tem necessidade de Redenção e de uma transformação completa.

Quem realmente se converte, submete-se de boa vontade à Lei divina. Renuncia à vida de ilegalidade.

Converter-se é deixar de viver na injustiça. Quem se converte reconhece o quanto deve a Deus e esforça-se por dar-Lhe a devida honra. Todo pecado cria um estado permanente de sonegação de justiça para com Deus. É uma inimizade habitual, uma injustiça. É uma recusa permanente de dar ao Senhor a glória que Lhe pertence e de prestar ao Pai a obediência e o amor filial. A conversão tira-nos deste mísero estado. Supõe uma renovação integral do coração.

Converter-se é deixar de viver na mentira. Quem se converte afasta-se da mentira. O pecado é mentira. Por isso, a conversão requer uma mudança total de mentalidade, um espirito novo, o Espirito da Verdade. A conversão é um sim a verdade.

Conversão é a volta à casa do Pai e a entrada no Reino. Passagem das trevas do pecado para a luz da Graça. O caminho que Deus aponta conduz a uma conversão séria e autentica do coração. Deus apela para a liberdade humana e que a íntima conversão desta liberdade é obra Sua.

A conversão se inicia no momento em que Deus se digna de derramar “ o espírito de graça e de preces” ( Zac 12, 10). Porém, nossa conversão não se realizará sem o sim de nossa liberdade.

A conversão culmina, é próprio da essência, em um novo nascimento, num renascimento do alto, de Deus. A volta à casa do Pai é a reintegração nos direitos de filho. Não é algo que se processa unicamente no exterior, mas é uma ação interior, uma modificação vital, um nascimento pelo Espírito. Para o homem, a conversão é pois, infinitamente mais que o simples fato negativo de livrar-se da escravidão do pecado, porque para Deus, converter é infinitamente mais que perdoar pecados, é fazer o dom de uma vida nova. O homem torna-se filho de Deus.

O único modo efetivo de descobrir sempre mais a própria identidade é o árduo, mas consolador, caminho da conversão sincera e pessoal, com um humilde reconhecimento das próprias imperfeições e pecados; e a confiança na força da ressurreição de Cristo. Essa transformação interior exprime-se nas obras e, por conseguinte, na vida inteira do cristão