Formação

A Misericórdia Humaniza

Misercórdia e humanização andam juntas. O papel da Misericórdia é humanizar a pessoa. Isto é, inserí-la novamente no convivio com as pessoas, cam a sociedade; devolver todos os direitos que lhe foram tirados; devolver o direito à liberdade que foi roubado; devolver a dignidade de filho (a) de Deus qur foi perdido. Levá-la a assumir seus direitos de cidadão e cristão, e assim, a cura da sua auto-imagem que foi estragada.

Se não há humanização, a misericórdia não aconteceu de fato na vida da pessoa. Misericórdia é esquecer o que o outro fez, é restaurar a convivência com a pessoa como antes. Quem age com misericórdia não fica vigiando para ver se a pessao vai cometer o mesmo pecado.

A misericórdia não pode ser usada com o pretxto para eliminar, excluir as pessoas.

Pe. Reinaldo

Canção Nova

Conversão de São Paulo II

Durante a viagem, quando já estava perto de Damasco, Saulo, de repente, viu-se cercado por uma luz que vinha do céu. Caindo por terra, ele ouviu uma voz que lhe dizia: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” Saulo perguntou: “Quem és tu, Senhor?” A voz respondeu: “Eu sou Jesus, a quem tu estás perseguindo. Agora, levanta-te, entra na cidade, e ali te será dito o que deves fazer”. Os homens que acompanhavam Saulo ficaram mudos de espanto, porque ouviam a voz, mas não viam ninguém. Saulo levantou-se do chão e abriu os olhos, mas não conseguia ver nada. Então pegaram nele pela mão e levaram-no para Damasco. Saulo ficou três dias sem poder ver. E não comeu nem bebeu (Atos 9, 3-9).

Um belo exemplo de experiência de Deus é a do Apóstolo Paulo. Toda experiência com Deus é iniciativa Dele mesmo, pois é uma grande prova de Amor. O Amor de Deus que nos escolhe e tem sua raiz em Deus.  O que lhe acontece no caminho de Damasco foi certamente uma experiência de ponta, marcante e indelével. Este foi um momento muito importante em sua vida. Mas Paulo esteve certamente também intensamente unido ao Cristo durante todos os anos seguintes de sua vida e não apenas neste momento particular. E este também não foi uma experiência isolada. Havia sido preparada por Outra e foi seguida de outra.
A narração deste fato é um maravilhoso encontro pessoal com Jesus Ressuscitado, um marco para historia cristão e da Igreja. Aqui tenta narrar algo do mistério do encontro com Deus, com poucos detalhes, algo do mistério insondável de Deus, do em si inarrável. Uma revelação pessoal de Jesus Ressuscitado fez-lhe entender que somente Nele há salvação.
“O plano divino da salvação, na verdade, não coloca a criatura humana num estado de mera passividade, o de  menoridade em relação ao Criador, porque a relação com Deus, que Jesus Cristo nos manifestou e no qual nos introduz gratuitamente por obra do Espírito Santo, é uma relação de filiação: a mesma que Jesus vive em relação ao Pai (cf. Jo 15-17; Gl 4, 6-7)” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja,p. 35)
O evento de Damasco é uma realidade que se  pode penetrar somente aquele que é capaz de contemplar o transcendente, o indizível, somente pela fé. Porém cabe a nós curvar-se diante do mistério, da força  deste grande testemunho. Paulo também testifica que viu o Senhor, que teve o encontro com Ele diante desta cidade (1 Cor 9,1; 15, 8). Este encontro nos remete para dois grandes fatos na Sagrada Escrituras, as aparições do Ressuscitado aos Apóstolos (1 Cor 15, 5 ss) e o encontro forte e marcante de Moisés na sarça ardente  (Ex 3, 2-4). O mesmo Deus que chamou Moisés, Moisés, foi o que chamou Saulo, Saulo.
Todos nós precisamos tomar o caminho para “Damasco” ou seja o caminho para o local que tivemos o encontro pessoal como o mesmo Deus que chamou Paulo. Lá onde Deus preparou um encontro com cada um de nós, pessoalmente e individualmente, pois nenhuma experiência é igual a de Paulo ou igual a sua, Deus não repete experiências, Ele prepara para cada uma a “experiência” que só eu serei capaz de viver e experimentar. Por isso, te convido a voltar no seu passado e atualizar, fazer memória do seu chamado para que a mesma graça daquele momento posso atualizar seu chamado, seu encontro e assim ter condições de responder o que Deus te pede hoje, sem medo, medidas ou reservas. Com isso tem condições de voltar ao primeiro amor.
Damasco esta a vista, sol forte, luz incandescente, uma nova sarça ardente, não aquela do Antigo Testamento, mas uma nova sarça o próprio Jesus Ressuscitado vai ao encontro de Paulo. Paulo é interpelado pelo Senhor, sua voz penetra no seu intimo, voz forte e envolvente.
O verdadeiro choque que o colocou abaixo foi à pergunta: “Por que ME persegues?” Um Deus que se identificava com os perseguidos: este foi o verdadeiro choque para o judeu Paulo de Tarso. Paulo se preocupara até aquele momento em manter uma separação entre judeus e pagãos. Quando despertou, ou quando Ananias lhe abriu os olhos, Paulo poderia fazer o que tanto convertidos quanto pseudo-convertidos fazem: poderia se colocar a destruir o que ele havia servido, mas com a mesma paixão, e se colocar a adorar o que ele havia destruído, mas com a mesma intolerância. Poderia então ter mudado um “eu” por um outro “eu”. A única alteração verdadeira foi a identidade daqueles que o perseguiam. Ao contrário, a despeito do fato de que os primeiros cristãos sofriam a forte tentação de reforçar sua identidade e de buscar sua coesão na luta agressiva contra os judeus, projetando sobre eles seu complexo de culpa e tornando-os responsáveis pela morte de Jesus, Paulo utilizou toda sua energia e uma grande parte de seus escritos para mostrar que os judeus são e permanecerão uma parte integral do plano de salvação.
Jesus é quem fala, palavras de imperscrutável profundidade. Palavras que marcará para sempre a vida deste homem, o apóstolo vai carregar esta marca em sua alma para todo o sempre. Mas Paulo em um ímpeto responde com outra pergunta “quem és tu, Senhor? Porém o Senhor confirma o seu encontro e se dá a conhecer mais ainda” Eu sou Jesus a quem tu persegues “, mas Paulo não só sentiu a sedução do Senhor, mas foi preciso ouvir da boca Dele, que Ele era o Senhor.
A experiência era para Paulo, unicamente para ele. Naquele momento Jesus queria Paulo, o Senhor se apossa da vida de Paulo, claro sem tirar sua liberdade, ele passa a pertencer unicamente a seu Senhor, para o qual foi convocado. Agora sua vida se resume na obediência ao seu Senhor.
Então , o zelo incondicional levou-o a uma vida de total abnegação de si mesmo para uma vida a serviço Daquele que antes queria destruir e que desde momento passar a ser arauto : “O Evangelho por mim anunciado não é segundo o homem, pois eu não o recebi nem aprendi de algum homem, mas por revelação de Jesus Cristo (Gl 1, 11-12)”. Paulo deu uma virada de 180 graus na sua existência, agora confia unicamente na força salvadora da cruz de Cristo e não mais em homens. Morreu para a Lei, foi crucificado para ela, e vive para o Cristo.
Confia unicamente na gratuidade do amor incondicional de Jesus. “De fato, pela lei morri para Lei, a fim de viver para Deus. Fui crucificado junto com Cristo. Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. Minha vida presente na carne vivo-a pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mi”(Gl 2,19-20).
“A salvação que, por iniciativa de Deus Pai, é oferecida em Jesus Cristo e é atualizada e difundida por obra do Espírito Santo, é salvação para todos os homens e do homem todo: é salvação universal e integral. Diz respeito à pessoa humana em todas as suas dimensões: pessoal, social, espiritual e corpórea, histórica e transcendente” (Compendio da Doutrina Social da Igreja,p.p 35).
Levado pela mão de seus companheiros, segue seu caminho, como prisioneiro de Cristo, obediente à ordem da voz “Levanta-te e entra na cidade. Ai te será dito o que deves fazer”.

Estar à mesa com o Senhor

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Hoje terça-feira santa, queremos continuar a caminhar com o Senhor para sua Glorificação através da Cruz e Ressurreição. Saímos de Betânia e nos coloquemos à mesa com o Senhor como diz o Evangelho de hoje (João 13,21-33.36-38).

Neste momento de ceia Jesus expõe a fragilidade humana que esta angustiada, de saber que vai ser traído e negado, de esta comovido e testemunhar a sua verdade. Estando à mesa, ela demonstra duas fragilidades do homem, na refeição nos expomos, não conseguimos omitir a verdade e desperta curiosidade.

Na mesa o ser humano é profundo e entra em intimidade com os outros como Jesus o fez. Apesar de ter consciência na sua morte e de ser entre por aquele que o amava, Jesus não deixou de amar Judas nem Pedro.

Outro detalhe do Evangelho é quando fala “ era noite”, noite do medo, noite da angustia, noite das trevas, noite da traição, noite da negação, noite da Ceia da Eucaristia, noite em que Satanás achou que venceu, noite do inicia da Redenção, noite de Salvação.

A diferença da traição de Judas e a negação de Pedro é o seguinte: Judas não se deixou se converter, mas Pedro se arrependeu, voltou e se converteu- “Jesus respondeu-lhe: “Para onde eu vou, tu não me podes seguir agora, mas seguirás mais tarde”.

Diante do Senhor qual é a sua posição de traidor ou o que negou?

Jesus quer visitar nossa Betânia

Estamos caminhando com Jesus para Jerusalém. Queremos nesta semana santa caminhar com Ele passo a passo. Vamos nos lugares por onde Ele passou para subirmos juntos para sua Páscoa, que é a nossa Páscoa. Ele quer nos tirar daquilo que é velho e nos fazer novos.

Vamos descer com Cristo até Betânia, o Senhor quer entrar em nossa Betânia hoje, que é a nossa casa, nossa vida. Deixar Ele participar da sua intimidade. Seja como Marta que prepara tudo para acolher o Senhor, seja como Lázaro que esta à mesa com o Senhor e principlamente como Maria que ungiu os pés do Senhor e enxugou com os cabelos. Vamos permanecer ao pés de Jesus. O Evangelho é bem Claro. “Ali ofereceram a Jesus um jantar; Marta servia e Lázaro era um dos que estavam à mesa com ele. Maria, tomando quase meio litro de perfume de nardo puro e muito caro, ungiu os pés de Jesus e enxugou-os com seus cabelos. A casa inteira ficou cheia do perfume do bálsamo”. ( Jo 12, 2-3).

Nesta segunda-feira santa, o Senhor quer descer até a sua Betãnia e te visitar.

Construir outros celeiros

“Insensato, nesta mesma noite pedir-te-ão contas da tua vida e o que acumulaste para quem será?” A conduta do rico do Evangelho é tanto mais patética quanto o castigo eterno é rigoroso. Com efeito, que projetos congemina em seu espírito este homem que vai ser arrebatado do mundo dentro de tão pouco tempo? “Vou demolir os meus celeiros e construirei uns maiores”. Quanto a mim, dir-lhe-ia de bom grado: Fazes bem porque eles merecem mesmo ser destruídos, os celeiros da tua injustiça. Com as tuas próprias mãos, destrói de uma ponta à outra tudo o que edificaste injustamente. Deixa que se desbaratem as tuas reservas de trigo que nunca saciaram ninguém. Faz desaparecer todo o edifício em que protegeste a tua avareza, tira-lhe o telhado, derruba as paredes, expõe ao sol o trigo que apodrece, tira da prisão as riquezas que aí estavam cativas… “Vou demolir os meus celeiros e construir uns maiores”. Quando acabares de encher esses, que decisão tomarás? Vais demoli-los para construir outros ainda maiores? Haverá maior loucura do que atormentar-se sem fim, construir com afinco e afincar-se em destruir? Se quiseres, terás por celeiro as moradas dos indigentes. “Acumula tesouros no céu”. O que aí for guardado “os vermes não o comem, a ferrugem não o estraga, os ladrões não o roubam” (Mt 6,20). ( São Basílio)

O Homem só é livre pela participação na liberdade de Deus

 A liberdade pode ser definida como a faculdade de tomar posição em face de uma exigência de Deus, mas somente pela participação da liberdade divina. Em si mesma a liberdade é somente a faculdade de fazer voluntáriamente o bem. A possibilidade de fazer o mal não pertence à sua essência. Só há liberdade onde há força de vencer o mal; onde a pessoa pode, no mais íntimo de si mesma, tomar posição em face de uma requisição do bem ou de uma solicitação do mal. O homem é livre à imagem de Deus.

O homem como ser criado e radicalmente livre foi criado em liberdade. Claro que a liberdade foi doada por Deus ao homem, é um dom. Mas a liberdade leva o homem a uma abertura para a realidade do plano salvífico de Deus.

Na realidade, no pecado, o mau uso da liberdade constitui o mais baixo grau de participação na liberdade de Deus, por isso, uma diminuição da própria liberdade humana. Ao contrário, a mais alta participação na liberdade divina, portanto, a mais nobre liberdade humana, consiste em agir totalmente sob a influência da graça.

Negar que o homem é capaz de escolher entre o bem e o mal, é supor que ele não é capaz de decidir e estar radicalmente sob a imposição de Deus. Uma vez que o homem faz mau uso de sua liberdade, há um enfraquecimento daquela liberdade original, conduzindo-o a uma rejeição do plano salvífico de Deus.

A grandeza da liberdade humana manifesta-se da maneira mais sublime quando ela se abandona totalmente à direção da graça e se torna forte para dizer a Deus, em Cristo o sim de um amor filialmente obediente.

A liberdade é um dom e um dever. No ato da nossa criação Deus nos fez livres. A liberdade pode crescer até ao grau em que o homem se deixa conduzir totalmente pelo Espirito de Deus: “ Ora, o Senhor é Espirito; e onde há o Espirito do Senhor aí há liberdade” ( 2 Cor 3, 17).

A liberdade humana está sujeita a muitas formas de restrições: o temperamento individual, ao ambiente e o meio social . “ Mas é só na liberdade que o homem se pode converter ao bem. Os homens de hoje apreciam grandemente e procuram com ardor esta liberdade; e com toda a razão. Muitas vezes, porém, fomentam-na dum modo condenável, como se ela consistisse na licença de fazer seja o que for, mesmo o mal, contanto que agrade. A liberdade verdadeira é um sinal privilegiado da imagem divina no homem. Pois Deus quis «deixar o homem entregue à sua própria decisão» , para que busque por si mesmo o seu Criador e livremente chegue à total e beatífica perfeição, aderindo a Ele. Exige, portanto, a dignidadedo homem que ele proceda segundo a própria consciência e por livre adesão, ou seja movido e induzido pessoalmente desde dentro e não levado por cegos impulsos interiores ou por mera coacção externa. Ohomem atinge esta dignidade quando, libertando-se da escravidão das paixões, tende para o fim pela livre escolha do bem e procura a sério e com diligente iniciativa os meios convenientes. A liberdade do homem, ferida pelo pecado, só com a ajuda da graça divina pode tornar plenamente efectiva esta orientação para Deus. E cada um deve dar conta da própria vida perante o tribunal de Deus, segundo o bem ou o mal que tiver praticado” ( Gaudium et Spes, 17).

O homem é diretamente responsável por todo o objeto de sua decisão livre referente a uma ação ou uma omissão.

O Sim da Conversão

A conversão de São Paulo - Caravaggio 1571-1610

 Converter-se é deixar de viver longe de Deus. Sair do estado de perdição, deixar o pecado. Não somente o ato mau em si, mas o estado que do mesmo resulta, o estado da perda da salvação e o sentimento de inimizade contra Deus. O passar a viver e estar longe de Deus. Conversão consiste voltar para o Senhor com todo coração, retomar o caminha das sua veredas.

A conversão é um conceito complexo, que significa uma profunda mudança de coração sob o influxo da Palavra de Deus. Essa transformação interior exprime-se nas obras e, por conseguinte, na vida inteira do cristão. A conversão significa a vitória sobre o velho homem que esta enraizado ( a existência carnal) e o começo de uma vida nova ( a vida no Espirito) criada e governada pelo Espirito de Deus. É um fato que na História da Salvação, após o pecado original, cada vez que Deus vai ao encontro do homem para com ele dialogar, fá-lo para provocar no mesmo ser humano a conversão do coração.

Não basta renunciar somente a um ato mau, nem a um hábito pecaminoso. Precisa-se ir no centro da existência, todo coração e todo o procedimento devem ser mudados. O afastamento de Deus somente termina quando o próprio Deus se achega pessoalmente do homem.

A conversão como saída do estado de pecado, de ausência de Deus e de perda da salvação está unida à aceitação incondicional da soberania divina. Reconhecer que praticou o mal, que tem necessidade de Redenção e de uma transformação completa.

Quem realmente se converte, submete-se de boa vontade à Lei divina. Renuncia à vida de ilegalidade.

Converter-se é deixar de viver na injustiça. Quem se converte reconhece o quanto deve a Deus e esforça-se por dar-Lhe a devida honra. Todo pecado cria um estado permanente de sonegação de justiça para com Deus. É uma inimizade habitual, uma injustiça. É uma recusa permanente de dar ao Senhor a glória que Lhe pertence e de prestar ao Pai a obediência e o amor filial. A conversão tira-nos deste mísero estado. Supõe uma renovação integral do coração.

Converter-se é deixar de viver na mentira. Quem se converte afasta-se da mentira. O pecado é mentira. Por isso, a conversão requer uma mudança total de mentalidade, um espirito novo, o Espirito da Verdade. A conversão é um sim a verdade.

Conversão é a volta à casa do Pai e a entrada no Reino. Passagem das trevas do pecado para a luz da Graça. O caminho que Deus aponta conduz a uma conversão séria e autentica do coração. Deus apela para a liberdade humana e que a íntima conversão desta liberdade é obra Sua.

A conversão se inicia no momento em que Deus se digna de derramar “ o espírito de graça e de preces” ( Zac 12, 10). Porém, nossa conversão não se realizará sem o sim de nossa liberdade.

A conversão culmina, é próprio da essência, em um novo nascimento, num renascimento do alto, de Deus. A volta à casa do Pai é a reintegração nos direitos de filho. Não é algo que se processa unicamente no exterior, mas é uma ação interior, uma modificação vital, um nascimento pelo Espírito. Para o homem, a conversão é pois, infinitamente mais que o simples fato negativo de livrar-se da escravidão do pecado, porque para Deus, converter é infinitamente mais que perdoar pecados, é fazer o dom de uma vida nova. O homem torna-se filho de Deus.

O único modo efetivo de descobrir sempre mais a própria identidade é o árduo, mas consolador, caminho da conversão sincera e pessoal, com um humilde reconhecimento das próprias imperfeições e pecados; e a confiança na força da ressurreição de Cristo. Essa transformação interior exprime-se nas obras e, por conseguinte, na vida inteira do cristão

 

Doença e cura: seu significado e valor na economia da salvação

«O homem é destinado à alegria, mas todos os dias experimenta variadíssimas formas de sofrimento e de dor». Por isso, o Senhor, nas suas promessas de redenção, anuncia a alegria do coração ligada à libertação dos sofrimentos (cfr. Is 30,29; 35,19; Bar 4,29). Ele é, de facto, «aquele que liberta de todos os males» (Sab 16,8). Entre os sofrimentos, os provocados pela doença são uma realidade constantemente presente na história humana, tornando-se, ao mesmo tempo, objecto do profundo desejo do homem de se libertar de todo o mal.
No Antigo Testamento, «Israel tem a experiência de que a doença está misteriosamente ligada ao pecado e ao mal». Entre os castigos com que Deus ameaça o povo pela sua infidelidade, as doenças ocupam espaço de relevo (cfr. Dt 28,21-22.27-29.35). O doente que pede a Deus a cura reconhece que é justamente castigado pelos seus pecados (cfr. Sal 37; 40; 106,17-21).
A doença porém atinge também os justos e o homem interroga- se sobre o porquê. No livro de Job, essa interrogação está presente em muitas das suas páginas. «Se é verdade que o sofrimento tem um sentido de castigo, quando ligado à culpa, já não é verdade que todo o sofrimento seja consequência da culpa e tenha um carácter de punição. A figura do justo Job é uma especial prova disso no Antigo Testamento. (…) Se o Senhor permite que Job seja provado com o sofrimento, fá-lo para demostrar a sua justiça. O sofrimento tem carácter de prova».
A doença, embora possa ter uma conotação positiva, como demonstração da fidelidade do justo e meio de reparar a justiça violada pelo pecado, e também como forma de levar o pecador a arrepender- se, enveredando pelo caminho da conversão, continua todavia a ser um mal. Por isso, o profeta anuncia os tempos futuros em que não haverá mais desgraças nem invalidez, e o decurso da vida nunca mais será interrompido com doenças mortais (cfr. Is 35,5-6; 65,19-20).
É todavia no Novo Testamento que encontra plena resposta a interrogação porque a doença atinge também os justos. Na atividade pública de Jesus, as suas relações com os doentes não são casuais, mas constantes. Cura a muitos deles de forma prodigiosa, tanto que essas curas milagrosas tornam-se uma característica da sua atividade: «Jesus percorria todas as cidades e aldeias, ensinando nas suas sinagogas, pregando o Evangelho do reino e curando todas as doenças e enfermidades» (Mt 9,35; cfr. 4,23). As curas são sinais da sua missão messiânica (cfr. Lc 7,20-23). Manifestam a vitória do reino de Deus sobre todas as espécies de mal e tornam-se símbolo do saneamento integral do homem, corpo e alma. Servem, de facto, para mostrar que Jesus tem o poder de perdoar os pecados (cfr. Mc 2,1- 12); são sinais dos bens salvíficos, como a cura do paralítico de Betsaida (cfr. Jo 5,2-9.19-21) e do cego de nascença (cfr. Jo 9).
Também a primeira evangelização, segundo as indicações do Novo Testamento, era acompanhada de numerosas curas prodigiosas que corroboravam o poder do anúncio evangélico. Aliás, tinha sido essa a promessa de Jesus ressuscitado, e as primeiras comunidades cristãs viam nelas que a promessa se cumpria entre eles: «Eis os milagres que acompanharão os que acreditarem: (…) quando impuserem as mãos sobre os doentes, ficarão curados» (Mc 16,17-18). A pregação de Filipe na Samaria foi acompanhada de curas milagrosas: «Filipe desceu a uma cidade da Samaria e começou a pregar o Messias àquela gente. As multidões aderiam unanimemente às palavras de Filipe, ao ouvi-las e ao ver os milagres que fazia. De muitos possessos saíam espíritos impuros, soltando enormes gritos, e numerosos paralíticos e coxos foram curados» (Actos 8,5-7). São Paulo apresenta o seu anúncio do Evangelho como sendo caracterizado por sinais e prodígios realizados com o poder do Espírito: «não ousaria falar senão do que Cristo realizou por meu intermédio, para levar os gentios à obediência da fé, pela palavra e pela acção, pelo poder dos sinais e prodígios, pelo poder do Espírito» (Rom 15,18-19; cfr. 1 Tes 1,5; 1 Cor 2,4-5). Não é por nada arbitrário supor que muitos desses sinais e prodígios, manifestação do poder divino que acompanhava a pregação, fossem curas prodigiosas. Eram prodígios que não estavam ligados exclusivamente à pessoa do Apóstolo, mas que se manifestavam também através dos fiéis: «Aquele que vos dá o Espírito e realiza milagres entre vós procede assim por cumprirdes as obras da Lei ou porque ouvistes a mensagem da fé?» (Gal 3,5).
A vitória messiânica sobre a doença, aliás como sobre outros sofrimentos humanos, não se realiza apenas eliminando-a com curas prodigiosas, mas também com o sofrimento voluntário e inocente de Cristo na sua paixão, e dando a cada homem a possibilidade de se associar à mesma. De facto, «o próprio Cristo, embora fosse sem pecado, sofreu na sua paixão penas e tormentos de toda a espécie e fez seus os sofrimentos de todos os homens: cumpria assim quanto d’Ele havia escrito o profeta Isaías (cfr. Is 53,4-5)». Mais, «Na cruz de Cristo não só se realizou a Redenção através do sofrimento, mas também o próprio sofrimento humano foi redimido. (…) Realizando a Redenção mediante o sofrimento, Cristo elevou ao mesmo tempo o sofrimento humano ao nível de Redenção. Por isso, todos os homens, com o seu sofrimento, se podem tornar também participantes do sofrimento redentor de Cristo».
A Igreja acolhe os doentes, não apenas como objecto da sua solicitude amorosa, mas também reconhecendo neles a chamada «a viver a sua vocação humana e cristã e a participar no crescimento do Reino de Deus com novas modalidades e mesmo mais preciosas. As palavras do apóstolo Paulo hão-de tornar-se programa e, ainda mais, a luz que faz brilhar aos seus olhos o significado de graça da sua própria situação: “Completo na minha carne o que falta à paixão de Cristo, em benefício do seu corpo que é a Igreja” (Col 1,24). Precisamente ao fazer tal descoberta, encontrou o apóstolo a alegria: “Por isso, alegro- me com os sofrimentos que suporto por vossa causa” (Col 1,24)». Trata-se da alegria pascal, que é fruto do Espírito Santo. Como São Paulo, também «muitos doentes podem tornar-se veículo da “alegria do Espírito Santo em muitas tribulações” (1 Tes 1,6) e ser testemunhas da ressurreição de Jesus».

SOBRE AS ORAÇÕES PARA ALCANÇAR DE DEUS A CURA

O anseio de felicidade, profundamente radicado no coração humano, esteve sempre associado ao desejo de se libertar da doença e de compreender o seu sentido, quando se a experimenta. Trata-se de um fenômeno humano que, interessando de uma maneira ou de outra todas as pessoas, encontra na Igreja particular ressonância. Esta, de facto, vê a doença como meio de união com Cristo e de purificação espiritual e, para os que lidam com a pessoa doente, como uma ocasião de praticar a caridade. Não é só isso porém; como os demais sofrimentos humanos, a doença constitui um momento privilegiado de oração, seja para pedir a graça de a receber com espírito de fé e de aceitação da vontade de Deus, seja também para implorar a cura.
A oração que implora o restabelecimento da saúde é, pois, uma experiência presente em todas as épocas da Igreja e naturalmente nos dias de hoje. Mas o que constitui um fenômeno sob certos aspectos novo é o multiplicar-se de reuniões de oração, por vezes associadas a celebrações litúrgicas, com o fim de alcançar de Deus a cura. Em certos casos, que não são poucos, apregoa-se a existência de curas alcançadas, criando assim a expectativa que o fenômeno se repita noutras reuniões do gênero. Em tal contexto, faz-se por vezes apelo a um suposto carisma de cura.
Essas reuniões de oração feitas para alcançar curas põem também o problema do seu justo discernimento sob o ponto de vista litúrgico, nomeadamente por parte da autoridade eclesiástica, a quem compete vigiar e dar as diretivas oportunas em ordem ao correto desenrolar das celebrações litúrgicas.
Achou-se, portanto, conveniente publicar uma Instrução, de acordo com o cân. 34 do Código de Direito Canônico, que servisse sobretudo de ajuda aos Ordinários do lugar para melhor poderem orientar os fiéis neste campo, favorecendo o que nele haja de bom e corrigindo o que deva ser evitado. Era porém necessário que as disposições disciplinares tivessem como ponto de referência um fundado enquadramento doutrinal que garantisse a sua justa aplicação e esclarecesse a razão normativa. A tal fim, fez-se preceder a parte disciplinar com uma parte doutrinal sobre as graças de cura e as orações para alcançá-las.

( Congregação da Doutrina da Fé)

Em Busca da Verdade

 O importante é entender –me a mim mesmo, é perceber o que Deus realmente quer que eu faça; o importante é achar uma verdade que é verdadeira para mim, achar a idéia em prol da qual posso viver e morrer” (SOREN AABYE KIERKEGAARD)

Segundo o dicionário de filosofia Nicola Abbagnano, verdade é a validade ou eficácia dos procedimentos cognoscitivos. Em geral, entende-se por verdade a qualidade em virtude da qual um procedimento cognoscitivo qualquer torna-se eficaz ou obtém êxito.

Podemos distinguir cinco conceitos fundamentais da verdade: A verdade como correspondência, revelação, conformidade ou regra, como coerência e como utilidade. Assim, temos a verdade definida por Platão: “Verdadeiro é o discurso que diz as coisas como são”. Já Aristóteles dizia: “Negar aquilo que é e afirmar aquilo que não é, é falso, enquanto afirmar o que é e negar o que não é, é verdadeiro”. Santo Agostinho define a verdade como “aquilo que é como aparece” e também considera verdadeiro aquilo que revela o que é, ou que se manifesta a si mesmo”. São Tomás define a verdade como “adequação entre o intelecto e a coisa”. Mas, ao mesmo tempo, mantém a tese aristotélica de que as coisas – e não o intelecto – são a medida da verdade. Inverte essa tese no que diz respeito a Deus: “O intelecto divino é mensurante, e não mensurado, mas o nosso intelecto é mensurado, e não mensurante, em relação as coisas naturais. Portanto, existe uma verdade das coisas, que é aquilo que as coisas se assemelham ao seu princípio, que é Deus; nesse sentido Deus é a primeira e suprema verdade. Kant, declarava pressupor simplesmente a “definição nominal da Verdade”, como “acordo do conhecimento com o objeto”. Para Descartes, as verdades eternas são garantidas e reveladas diretamente por Deus e por isso são eternas. Em Hegel, “a idéia é a verdade, porque a verdade é a correspondência entre a objetividade e o conceito.

“Na raiz destas afirmações encontram-se certos pressupostos, de natureza tanto filosófica como teológica, que dificultam a compreensão e a aceitação da verdade revelada. Podem indicar-se alguns: a convicção de não se poder alcançar nem exprimir a verdade divina, nem mesmo através da revelação cristã; uma atitude relativista perante a verdade, segundo a qual, o que é verdadeiro para alguns não o é para outros; a contraposição radical que se põe entre a mentalidade lógica ocidental e a mentalidade simbólica oriental; o subjectivismo de quem, considerando a razão como única fonte de conhecimento, se sente « incapaz de levantar o olhar para o alto e de ousar atingir a verdade do ser »; a dificuldade de ver e aceitar na história a presença de acontecimentos definitivos e escatológicos; o vazio metafísico do evento da encarnação histórica do Logos eterno, reduzido a um simples aparecer de Deus na história; o eclectismo de quem, na investigação teológica, toma ideias provenientes de diferentes contextos filosóficos e religiosos, sem se importar da sua coerência e conexão sistemática, nem da sua compatibilidade com a verdade cristã; a tendência, enfim, a ler e interpretar a Sagrada Escritura à margem da Tradição e do Magistério da Igreja”. ( Dominus Iesus)

A fé também tem suas definições sobre a verdade. Dentro do âmbito religioso (católico) existe os dogmas que são verdades de fé, e essas verdades de fé, estão ligadas a Verdade Única e Perfeita, que é Jesus: “Caminho, Verdade e Vida”. Fiel à palavra de Deus, o Concílio Vaticano II ensina: Averdade profunda, tanto a respeito de Deus como da salvação dos homens, manifesta-se-nos por esta revelação na pessoa de Cristo, que é simultaneamente o mediador e a plenitude de toda a revelação.

Logo no início de sua célebre carta encíclica Fides et Ratio, o saudoso Papa João Paulo II nos presenteia com uma frase que procura explicar a sede humana pela verdade: “Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade”. É próprio do homem deseja a verdade, é universal: ninguém gosta de estar errado, ou de ser enganado; todos procuram ter crenças corretas, conceitos que correspondam à verdade, ainda que nem sempre consigam.