
Preste atenção à cena. O consagrado pega o telefone e liga para uma determinada casa. Ali, daquela residência, para alegria da Comunidade Bethânia, mais um filho seria chamado para morar conosco e buscar com afinco a sua restauração. Esse é o nosso o evangélico exercício de defesa da vida em todos os seus matizes e em todos os seus momentos. Não há satisfação maior em Bethânia, pois significa o momento efetivo do acolhimento, essência de nosso carisma. Uma voz embargada do outro lado da linha sentencia: infelizmente esse que você procura não se encontra mais aqui. Morreu semana passada, assassinado por traficantes. Ele teve sua casa invadida e o corpo cravado de balas. Para nós em Bethânia, mais uma vez, o martelo foi batido e o veredicto protocolado para aqueles que não têm ninguém por eles. É assim que acontece todas as vezes que por algum motivo chegamos tarde.
O consagrado de coração apertado consola a voz do outro lado da linha. Reza com ela. Desliga. Respira fundo. Toma a agenda e vai para o próximo número. Liga. Dessa vez um homem de voz madura atende. O consagrado se identifica e pede por mais um filho. O homem que do outro lado agora se diz padrasto, fala sem titubear. Esse não está mais aqui. Foi morto pela policia durante a tentativa de um assalto. A busca a qualquer preço pela droga faz a próxima vítima. Na policia mais um a engrossar as estatísticas. Na família, dor e sentimento de fracasso. O consagrado mais uma vez consola, reza, convida para a missa.
Com uma grande pressão sobre o peito, segura a vontade de chorar ou quem sabe até de gritar. Respira e continua. O desejo e a missão de acolher são mais importantes. Deus tem pressa, e os filhos urgência! Toma o telefone e disca mais um número. Agora, quem atende é uma mãe. Quando escuta o nome do filho cai em profundo choro. Faz três dias que aquele que poderia ter sido nosso filho, não agüentando a pressão e nem a fissura da dependência , em depressão profunda, tirou a própria vida. Deixou uma carta dizendo que para ele não havia mais saída. Escreveu, segundo a mãe, essa frase: “quem sabe se eu tivesse ido para Bethânia, mas agora não dá mais”. A mãe contava e chorava. O consagrado ouvia e chorava. Antes de desligar prometeu ir visitá-la. O acolhimento exige.
O consagrado fechou a agenda para aquele dia. Subiu direto para o meu quarto e relatou com os olhos rasos d’água o ocorrido. Rezamos juntos. Contou-me que ele mesmo havia conversado com os jovens. Lembrava-se bem do primeiro. Rapaz bonito, falante e de vinte e poucos anos. Essa é a média de idade dessas vidas roubadas. Em nossos recantos, preferencialmente, a cada quinta-feira dezenas de filhos e filhas, assim chamamos o futuro acolhido, nos chegam para uma conversa fraterna e sincera, como também para a apresentação da comunidade. A esse procedimento nomeamos de pré-acolhimento. É necessário porque em Bethânia a grande matéria-prima do processo de restauração é a liberdade, o querer realmente deixar a vida marcada pelas drogas e embarcar num processo de desintoxicação física, psíquica e espiritual.
Conversamos bastante. Falamos do fenômeno das drogas, do narcotráfico, da conjuntura familiar, da situação da Comunidade sempre cheia e com filhos esperando uma chance. Falamos do coração de Deus, de seu amor pela humanidade, do valor da pessoa humana e principalmente de nossa missão. O dia vivido não nos desanima, pelo contrário nos impulsiona.
Ele deixou o meu quarto e eu pensei em você. Rezei por você. Desculpe. Mas, fiquei imaginando tudo o que você pode fazer. Senti vergonha do tempo que tantas vezes eu e você perdemos. Meu Deus, podemos fazer tanto.
Sempre penso em você, quando rezamos à Providência de Deus. Acredito piamente que quando nossas dispensas estão vazias é porque você não ouviu o chamado de Deus. Quando um filho precisa de médico é porque você médico não ouviu o chamado de Deus. Quando ele precisa de tratamento odontológico é porque você dentista não ouviu a Deus em seu coração. Repito: Deus tem pressa, e nossos filhos urgência!
Quem sabe se você se tomasse consciência de sua missão poderíamos acolher mais em Bethânia. Quem sabe, através da sua decisão pela vida, muitas filhas nossas deixariam de abortar. Quem sabe não precisaríamos levar tanto tempo para chamar um filho por falta de vagas. Fecho os olhos e vejo os muitos recantos que poderíamos abrir. Vejo você chamado por Deus e assumindo sua vocação em Bethânia querendo acolher e ser pai-mãe para tantos filhos e filhas. Sinto você, chorando comigo e com tantos consagrados todas as vezes que por algum motivo chegarmos tarde.
A Campanha da Fraternidade nos chama à defesa da vida. Eu e você precisamos fazer a nossa parte. A Igreja nos convoca colocando-nos diante da Palavra de Deus, “escolhe, pois a vida”(Dt 30,19). Em minhas orações contemplo, você e eu, juntos na luta pela vida.
Que o Coração de Jesus conceda a mim e a você o discernimento necessário. Rezo por você. Reze por mim.
Fique na paz de Deus!